A Torre Eiffel vista por baixo, à noite (a foto é de telemóvel, como, aliás, as duas seguintes) “Somos sempre levados para o caminho que desejamos percorrer” - já se escrevia pelos doutores hebreus debaixo das barbas hirsutas, cerdosas, eriçadas, nas sombras assombrosas da luz trémula do círio, fora pela noite ululante, escura e seca. Mas jamais qualquer Talmude imaginável da doutrina e dos costumes, ilegível sob a poeira babilónica, me confessaria outrora sussurrado (timidamente escrito) o mais longínquo extremo do destino. Daí também o percurso, o conhecimento, a liberdade. “Percorrer o Caminho” - eis a dimensão verbal expressiva simples que, no meu dicionário, melhor se adequa à experiência da viagem de longa distância por via terrestre, em oposição à viagem de avião, pela qual nos sentimos como que imediatamente “teleportados” de um local para o outro, para qualquer parte do planeta a quase qualquer hora, e sem experiência cognitiva e sensível de permeio. Fui de carro, sim, como aliás já havia escrito. O destino final e mais longínquo do ponto de partida (Lisboa) acabou por ser, impromptu, Paris.
Manejando habilmente as alavancas dos mecanismos do improviso, como é apanágio da boa gente lusitana, traçando a rota do dia seguinte em função do Caminho percorrido, concluímos, a meio da primeira semana, algures em Bilbao (já depois de visitar o Guggenheim), que poderíamos estar em Paris na sexta-feira, sem grande esforço. O risco fascinante embebido em emoção gerava um qualquer engrandecimento de espírito que acabaria a sofrer suavemente por antecipação, mas muito pior seria a indelével culpa pela oportunidade perdida, pejada de cobarde passividade existencial... Talvez o que senti fosse meramente adrenalina.
Escreverei então, para que fique registado, o itinerário da viagem, que realmente se iniciou quando a dois (com partida de Santarém para Vila Nova de Cerveira), no dia 21 de Julho de 2006, e não no dia 20, desde Lisboa, donde parti sozinho:
Ida
Lisboa; Santarém; Vila Nova de Cerveira; A Coruña; Gijón; Picos da Europa (Covadonga, Arenas de Cabrales, Naranjo de Bulnes); Bilbao; Bordeaux; Poitiers; Chartres; Versailles; Paris.
Regresso
Paris; San Sebastián; Vitoria – Gasteiz; Miranda de Ebro (xiiiii); Valladolid; Tordesilhas – o almoço na Plaza Mayor (ou Pequeña?) foi agradável, mas a casa-museu onde se assinou o Tratado estava fechada, sem quaisquer indicações, lamentavelmente, talvez devido à siesta; Salamanca e, finalmente, Portugal, Lisboa, um céu azul divinal e límpido, e um calor dos demónios.

“Os homens tropeçam por vezes na Verdade, mas a maior parte torna a levantar-se e continua depressa o seu caminho, como se nada tivesse acontecido.” Churchill terá dito também que “o orgulhoso prefere perder-se a perguntar qual é o seu caminho” – e, irra!, como eu conheço gente assim!
Se é verdade que o homem não precisa de viajar para engrandecer, pois traz em si o infinito, recordo as palavras de Victor Hugo, jacente no Panteão de Paris, que visitei, em pleno Quartier Latin:
“Viajar é nascer e morrer a todo o instante.”
