terça-feira, outubro 29, 2013

Manhã de Sábado

Sábado de manhã,
sem sonhos de dias floridos,
fecharam-se as portas
atrás das costas.

Sábado de manhã
caíram as folhas secas
como se não quisesses
saber do fim do Outono.

No retrovisor as guitarras tocam
acordes toscos, tangidos
pelas palavras,
sem mãos.

Os olhos esbugalhados
e a pele rugosa, espessa,
desenha intersecções
de ruas e estradas
em Nova Iorque.

Maus fígados
e rock 'n' roll
estão-se a cagar,
além do pensamento
e da expressão.

Dança!

It was alright!

Esteta do Ré e do Sol,
que não sabes por onde vais,
tenta pelo Reino dos homens
chegar a filho de Jesus.

Tu que tomaste grandes decisões,
tenta notificar a vida
de que o sangue ainda corre
depois de reconheceres a morte.

Esteta do Sol e do Ré,
que não sabes por onde vais,
tenta pelo Reino dos céus
chegar a filho de Deus.

Se também nasceste há mil anos
e foste desta para outra terra
num navio grego,
supõe apenas,
mas supõe apenas,
como sempre fizeste,
que achas não saber
coisa nenhuma.

Nos idos de Maio,
em Berlim,
alguém também foi transplantado
e alguém entrou num café
onde se ouvia tocar piano.

Um acorde serve
para temperar o ruído
e resgatar a arte perdida
da conversação.

Arte pop, arte final,
sob o sol do meio-dia
ou a lua da meia-noite,
vem como um oceano
de veludo que acaricia.

À beira-mar, a olhar
o olho da terra que foi,
livre de maus pensamentos
e de egoísmos,
atrás de óculos escuros,
um grão de areia fina
com consciência
do Universo
e uma guitarra nas mãos.

Dedicado a Lou Reed
(2 de Março de 1942 - 27 de Outubro de 2013)
 
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