21 anos de Caderno de Corda
Etiquetas: Aniversário Cordiano, Da Blogosfera, Diário de Bordo, Fotos e Imagens Cordianas, Hipertexto Infuso, Hipertexto Vazante
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Vinte anos depois, a 24 de Maio
de 2025, voltámos à mesa.
O que começou em 2005 com a
fundação do Caderno de Corda e, depois, em 2006, com um gesto simples à mesa —
um jantar improvisado entre leitores e amigos —, tornou-se, com o passar do
tempo, numa espécie de eixo fixo no calendário da vida, uma convocatória
informal que dispensa convites e que, ainda assim, continua a reunir consorores
e confrades em torno da linguagem única da Verdade dos afectos.
Ao longo destas duas décadas
passaram por esta mesa mais de sete dezenas de corações — amigos de infância,
colegas de escola e trabalho, leitores, companheiros de estrada, famílias
que entretanto cresceram e novas gerações. Alguns vieram uma vez, outros
regressaram muitas vezes, outros, ainda, acabaram por se tornar parte
inseparável da liturgia cordiana. Mas todos fizeram, indelevelmente, a história
d’O Jantar.
Curiosamente, se, nos primeiros
anos, O Jantar parecia nascer do blogue, talvez possamos, de há algum tempo a
esta parte, dizer o contrário: foi o jantar que acabou por sustentar o blogue,
que hoje segue mais forte do que nunca em produção poética. Ainda assim, o
encontro anual tornou-se a sua respiração mais visível, a prova de que a
escrita encontrou corpo, mesa e rosto.
Em 2025 não foi diferente, mas
também não foi igual. Nunca é. Como tantas vezes acontece, O Jantar começou
antes de começar. Na antecâmara do encontro houve abraços demorados mas pressurosos,
visitas de passagem, presenças breves mas significativas — daqueles gestos que
confirmam, sem necessidade de explicação, o lugar que a oportunidade daquele
abraço ocupa na vida de quem por aqui passa.
Caso paradigmático, o do
Venerável Cavaleiro Prismático e Guardião do Tombo Cordiano, Ricardo Pinto. Vinha
em dia de concerto, com soundcheck
marcado e agenda apertada, mas apesar do bulício fez questão de passar. Veio
dar aquele abraço, marcar presença e seguir caminho inevitável, como quem
cumpre um pequeno ritual antes de partir para uma noite de rock ‘n’ roll. A ele voltaremos.
Também o estimado Irmão Joaquim
Barbosa, nosso querido Quim, passou pela antecâmara d’O Jantar, como, aliás,
tem feito nos últimos anos. Chegou cedo, cruzou-se com alguns dos primeiros
confrades, mas acabou por não apanhar o Irmão Frederico Costa, que chegaria já
mais tarde. Vieram ainda, pela primeira vez, as queridas Anabela (Belinha) e
Gabriela Semedo, apenas para um beijinho e abraço rápido antes de seguirem
caminho — um gesto simples, mas pleno de significado.
E, como reza a tradição, apareceu
o assíduo e muito prezado clã Franchi-Costa — Leonor, Matilde, Rita e Rui
Pedro. Nunca jantam, mas aparecem quase sempre no início ou no fim, como quem
passa para confirmar que O Jantar continua no lugar certo do mundo. No final,
fomos ainda brindados pela aparição do Grão-Mestre do Tabernáculo Rui Pina. Há
presenças que fazem parte indispensável mesmo quando não se sentam à mesa.
Mas houve também um pequeno
episódio que acabou por revelar, mais uma vez, a estranha geometria das
coincidências cordianas. O Grão-Mestre do Ofício Luminar Hugo Dantas estava
confirmado para O Jantar, mas, como tantas vezes acontece na azáfama da vida,
esqueceu-se. Foi a sua querida progenitora, Ludovina Dantas, quem lhe telefonou
quase à hora marcada para perguntar, com a naturalidade de quem sabe mais do
que parece saber:
— Então, não vais ao jantar?
E foi nesse instante que o Dantas
se lembrou. A coincidência revelou-se providencial. Já perto da hora do
encontro percebi que não tinha comigo equipamento adequado para transmitir os
vídeos que planeava mostrar na televisão da sala. Foi então que ele,
tempestivo, me ligou para dizer estar a caminho e aproveitei para perguntar
se, já que ainda estava em casa, poderia trazer um computador e um cabo HDMI
compatível. E assim foi. Graças a esse pequeno atraso, e ao telefonema de
coração materno que em boa hora alinhou astros, o plano previsto acabou por
cumprir-se. Mais uma dessas pequenas conspirações benignas que parecem
acompanhar O Jantar desde o início.
Mas houve também duas primeiras
vezes, extraordinariamente especiais, aliás. A Fabrícia, minha companheira,
esteve presente e, também pela primeira vez, celebrei n’O Jantar com a minha Vida
– leia-se “celebrei com a minha filha”, aka
Rosarinho. Duas presenças que dispensam qualificativos numa mesa que já
atravessou duas décadas de vida — sinal claro de que aquilo que começou como
encontro entre amigos encontrou, entretanto, formas cósmicas de continuação
terrena.
Também pela primeira vez não
houve fotografia de grupo. Não por decisão, esquecimento ou opção consciente,
mas por ausência, pelo silêncio instalado quando falta quem sempre assume as
despesas do registo fotográfico: o já mencionado Grão-Mestre, Venerável
Cavaleiro Prismático e Guardião do Tombo Cordiano, Ricardo Pinto. A função é
tão escrupulosamente cumprida ano após ano que, desta vez, ninguém sequer se
lembrou da foto. E talvez, aos 20 anos, o facto seja mais gráfico do que
qualquer imagem poderia mostrar.
Quando finalmente nos sentámos,
demos por nós a contar: éramos vinte à mesa. Vinte anos de jantar. Vinte
pessoas sentadas. Não foi planeado, mas pareceu certo. De novo, há
coincidências que talvez não o sejam. Ao longo destas duas décadas celebrámos O
Jantar de muitas formas: com dérbis acalorados, conversas intermináveis,
leituras improvisadas, poemas sorteados à mesa, vídeos caseiros, pequenas
experiências criativas que iam surgindo ao sabor do espírito da noite, mas nunca houvera
discurso.
Em vinte anos de jantares
cordianos passaram por esta mesa mais de setenta pessoas, oriundas de vários
círculos de amizade — da Loja Salesiana à Loja Cruz Quebrada, das Doroteias à
vida profissional, da blogosfera à família. Alguns vieram uma vez. Outros
vieram muitas. Mas todos fazem parte desta história. Talvez o silêncio tenha
gritado o que O Jantar sempre foi sem que alguma vez fosse necessário explicar
o que aqui se passa.
Portanto, este ano houve discurso.
Não como acto solene ou cerimonial, mas como ensaio retrospectivo necessário
para perceber o que realmente aqui aconteceu por duas longas décadas que talvez
merecessem, finalmente, uma tentativa de palavra viva dirigida a quem as fez e
partilhou. E foi assim que, já todos jantados, tomei a palavra para ler o texto
que se segue: um ensaio em voz alta daquilo que neste tempo fomos
vivendo quase sempre sem explicação ou disso tentativa.
DISCURSO DOS 20 ANOS D'O
JANTAR
(TRANSCRIÇÃO)
Vinte anos.
Talvez não tenha havido grandes
promessas no início, nem planos de longo curso, nem anúncios. Mas houve gente,
houve mesa, houve tempo marcado com presença, e isso bastou. Hoje, o que
impressiona não é tanto termos começado — é termos continuado. Impressiona que,
mesmo sem cartaz, sem programa, sem obrigação, tenhamos mantido isto aceso. Não
porque era preciso, mas porque fazia sentido. Um jantar por ano. Um ponto fixo
no calendário. Quando tudo o resto mudava — casas, trabalhos, cidades, rotinas,
digníssimos esposos e esposas, e até mudanças de sexo, como no caso do João
Trigo — este jantar mantinha-se. Como quem diz: há lugares onde o tempo não se
dilui ou… há um tempo para nos fazermos lugar.
Vinte anos depois, o que se
celebra já não é um blogue e nunca foi um autor, muito menos o gesto de
convidar. É o gesto de saírem de casa, preterirem outras avarias e virem. Há anos
em que a vida se estica, atrasa, atropela. Mas depois há este dia. E vocês
chegam. Cada um com a sua vida inteira às costas. Com filhos, com ausências,
com cansaços, com histórias que ficaram por contar. E, ainda assim, vêm.
Sentam-se. Sorriem. Repetem abraços, nutrem memórias, cruzam ideias.
Reencontram-se no outro, recordam-se verdadeiros num olhar puro de criança que
ainda lá está espelhado, desde a infância nas Doroteias, nos Salesianos, no
Agrupamento 77… Reconhecem-se provavelmente a vós próprios nessa essência
verdadeira, saudosa e imutável que a adultez frequentemente se encarrega de
poluir, pondo-nos a duvidar de nós próprios.
Isso — isso sim — é o milagre
silencioso desta noite. E é por isso que não começo por mim. Começo por vocês. Obrigado
por virem. Obrigado por fazerem isto continuar.
[COMO NASCEU O BLOGUE]
O Caderno de Corda nasceu para
que eu tivesse onde deitar a palavra. Não nasceu por acaso — nasceu por
necessidade. Era o lugar onde vertia o estro: a poesia, a música, os textos, os
delírios, os silêncios. Onde me ouvia em público, onde escrevia em voz alta. Era
um gesto de exposição, sim, mas sobretudo de continuidade, memória, encontro.
Uma forma de não perder a mão, de experimentar, de dar destino à escrita que
precisava de sair. E era também, nesse tempo, um gesto com resposta.
Antes das redes sociais — antes
dos algoritmos, dos feeds, dos likes apressados — nós líamo-nos.
Procurávamo-nos nos blogues. Visitávamo-nos. Os comentários eram extensões dos
textos. As caixas de comentários eram tertúlias. As leituras eram atentas,
demoradas, pessoais. Muitos de nós tinham blogues. O Gustavo tinha o
Blogueaberto, o César tinha o E Então?, o Pimenta o Boina Frígia, o Bruno Tomás
o Página 23, o Rui Almeida ainda mantém o Poesia Distribuída na Rua, o João
Trigo escrevia no Rato do Deserto… E todos nos líamos. Havia um sentido de
comunidade, mas sem rede. Uma corrente sem algoritmo.
Não se clicava simplisticamente
num thumbs up ou num coração.
Comentava-se com neurónios e alma. E foi numa dessas caixas de comentários, em
Março de 2006, num post chamado “Exortação aos estimados leitores”, que surgiu
a ideia. O Gustavo — patrono do jantar, por direito e por provocação —
escreveu: “Eu sugiro tudo o atrás sugerido... feito à mesa! Faz um jantar, abre
as portas à mesa! Aquele Abraço.” E era o que bastava. Uma frase com vontade e
intenção, lançada no sítio certo. E de repente o blogue ganhava corpo. Saía do
ecrã. Fazia-se gesto. Fazia-se mesa. A escrita puxou-nos efetivamente e pôs-nos
frente a frente.
[COMO NASCEU O JANTAR]
E assim nasceu o jantar, numa
caixa de comentários. Uma provocação do Gustavo, no meio de outras sugestões e
apartes, e ficou dito: “Faz um jantar. Abre as portas à mesa.” E eu pensei:
“Agora é que me entalaste.” Não se mandaram convites impressos. Não se alugou
sala. Não se ponderaram menus. Disse-se apenas, com uma ponta de libertinagem:
é na Valenciana, aparece quem quiser. E o mais extraordinário é que... apareceu
gente. Alguns que liam o blogue, outros porque eram amigos. Alguns sabiam à
partida que valia a pena.
E foi-se criando ali qualquer
coisa que não tinha substantivação, mas que se sentia. Um gesto simples, ainda
sem flor, mas com raiz. E lembro-me da surpresa de perceber que aquele jantar,
nascido de um gesto tão leve, podia ser alguma coisa. Que havia ali margem para
mais do que uma noite. Não era uma ideia genial. Não era sequer uma ideia. Era
só uma mesa com gente e foi isso que a tornou capaz de se repetir.
[COMO O JANTAR EVOLUIU
Com o passar dos anos, O Jantar
foi deixando de ser dos leitores do blogue e passou a ser, simplesmente, de
quem vinha. Vieram amigos de infância, de escola primária, secundária, de
banda, de trabalho, da faculdade… enfim, vieram os de sempre, mas também os de
longe. Veio o Corado, figura mítica de Armação de Pêra, reencontrado quase duas
décadas depois por ser Irmão próximo do Jacinto. E ficaram. Mais do que
ficaram: o Corado é hoje um Irmão de empreitadas criativas importantes, como
verão adiante. Impossível desfiar as circunstâncias e as coincidências que
indicam muito mais do que por si só já sugerem.
Há um ano juntou-se, pela
primeira vez em bloco, a geração Y da Loja Cruz Quebrada — João Carlos, André
Paiva, Bruno Tomás, Bruno Sardo, Ken e Miko —, faltando apenas o André Nobre
para completar a irmandade (ou “a máfia”). O feito foi notado, celebrado e,
como tudo o que é raro e verdadeiro, tornou-se memória viva do que aqui se
constrói. Não se tratou apenas de um reencontro, mas de um realinhamento
cósmico. Uma entrada suave e exacta na órbita da Confraria Cordiana. Vieram até
os que nem sabiam bem o que se celebrava, e ficaram também. Começou a criar-se
espontaneamente uma espécie de ritual – um ritual do bem, uma conspiração que
nunca precisa de ser dita, debatida, politizada.
Este ano, o Ricardo Pinto anulou um
concerto só para poder vir e acabou por não conseguir jantar porque A
Valenciana estava, afinal, fechada a 25 de Abril [N. do R.: data inicialmente
prevista]. A agenda estava já preenchida e hoje tem concerto marcado, razão
pela qual não se encontra presente – nem a Sofia, a Carolina e a Beatriz. Houve
o Piri, que veio do Canadá de véspera e do Porto no próprio dia, e que hoje
tornou a fazer centenas de quilómetros, se bem sei. Houve o Quim, que certa vez
chegou directamente de uma regata no Tejo e, noutra, regressou da Polónia,
creio que de véspera também. Houve o Zé Moreno, cuja presença fez parecer que
as décadas se tinham dobrado ou colapsado sobre si mesmas.
Houve o Rui Martins, também
conhecido como Fininho, que apareceu uma única vez, deixou um presente — um
disco dos Pearl Jam guardado desde 2020 — e seguiu para um concerto. Houve o
Ken, que se estreou com uma garrafa de vinho como oferenda. A querida Rute, que
pintou e me ofereceu duas telas lindíssimas, em tons que sabia favorecerem a
decoração da minha casa, e que levei para Almeirim após um jantar — telas que
hoje vivem na sala e no quarto.
Houve também o Moisés, que dormiu
então na minha casa de Lisboa e ficou até à tarde do dia seguinte, com os dedos
em sangue das cordas da guitarra e um bilhete deixado no frigorífico, escrito
com o mesmo sangue que deixara nas cordas...
E há sempre os que voltam, apesar
dos interregnos, e os que hão-de voltar, estou certo. Como o João Trigo, que já
me esperou à porta, pontual, e assegurou a receção dos primeiros confrades.
Como o João Carlos, que ora me enche os bolsos com patés, garfos e a zombaria
ritual do couvert, ora substitui o grande Kaiser nas tarefas contabilísticas —
com rigor e seriedade contrastantes. Como o Pimenta, que era para vir hoje de
Sines. Como o César da Silveira, Visconde do Reino de Maconge, que quase nunca
falta. Foi ele, aliás, quem sugeriu que o jantar começasse mais cedo, e assim
fizemos. Foi também ele que aventou a possibilidade de o jantar se realizar ao
almoço e se estender pela noite dentro. E, também, um dia assim faremos.
Mais do que isso: o César é quem,
há mais de uma década, assume o mapa e o compasso da logística — confirma
nomes, revê faturas, equilibra contas, faz os acertos, já pagou de avanço,
garante que ninguém fica em falta e que tudo bate certo no final. Se há quem
transforme o gesto em cuidado e o cuidado em permanência, é ele também.
E há os que não vieram, mas
ligaram. Os que ligam antecipadamente a perguntar: “Quando é que é o jantar?”,
ainda a data não está definida. Ou “É no sábado, não é?”. Ou os que chegam
indefetivelmente só para o abraço — como o estimado clã Franchi-Costa.
Há ainda, caso único, o José
Couto — que veio às cegas porque descobriu o blogue, o jantar, e quis juntar-se
a nós por conta própria. Sozinho, decidido, juntou-se à celebração sem convite
prévio. E connosco ficou, como se sempre aqui tivesse pertencido.
E há, sobretudo, esta coisa rara:
gente de mundos diferentes que se senta à mesma mesa e descobre afinidades que
não são óbvias, mas que são verdadeiras. Como a Ana Rangel — presença luminosa
e sincera —, que, num dos jantares, se comoveu com a alegria, emocionou-se com
a ternura dos gestos simples, com a persistência e a resistência dos
reencontros, com a amizade que ali pulsava sem artifício. Com a sensibilidade
dos raros, a Ana tornou-se também ela presença, parte integrante e testemunho.
Há afetos que tocam à flor da pele e, mais uma vez, ficam. A Ana que, pouco
depois, me convidou, como ao Trigo, à Fabi, à Patrícia e ao Rui Lisboa, que
nunca chegou a vir ao jantar, para assistirmos a uma das suas peças no Casino
de Lisboa…
O Fred, o Quim e o Sérgio Miguel,
amigos desde os três anos, podem um dia reencontrar-se aqui. O Girão e o
Corado, que nunca se haviam visto, trocavam olhares cúmplices numa madrugada já
alta. O Ricardo Pinto, o Ricardo Tomás, o Rui Pina orquestram uma sinfonia pelo
simples facto de se sentarem juntos. O Dino, o Trigo, o César e o patrono
Gustavo confirmam que o alinhamento de astros não é ocasional. Não são
coincidências.
Houve mesas onde cabia a infância
e o agora, sentados lado a lado como se nunca tivessem deixado de se ver. E
talvez não tivessem mesmo. À mesa, na Valenciana, sabemos que há futuro,
especialmente quando assistimos à formulação de novas amizades, também aqui
consolidadas, entre as novas gerações. Os filhos fazem-se amigos e honram a
amizade, o respeito e a admiração que em nós testemunham.
Com o tempo, a tradição deixou de
ser uma coisa que se fazia; passou a ser uma coisa que se esperava, e isso,
para mim, é um privilégio: ver-vos juntos. Ver-vos naturalmente misturados, sem
máscaras sufocantes. Ver-vos em casa, uns com os outros, e perceber que este
jantar, que começou como um gesto, é agora um lugar onde regressamos e onde sou
feliz. Um lugar que me dá sentido e propósito…
[O FUTURO]
Vinte anos é muito tempo.
Atravessámos pandemias, ausências, mudanças de cidade, de país, de pele. Anos
difíceis, perdas, lutos, nascimentos, cansaços. E continuamos.
Hoje, O Jantar já não é um
evento. Arrisco mesmo dizer que é mais do que o tal pretexto de que escrevo e
falo há mais de 20 anos. É um lugar. Uma casa. Uma bola Nívea. Um tempo
preservado fora do tempo, fidelidade sem contrato, sem contrapartidas. Uma forma
de permanecer inteiro diante da dispersão. Um ponto de ancoragem no calendário
mas também na memória do coração. E é por isso que, se me perguntarem o que
celebramos, a resposta não é um número, nem um blogue. É isto: este preciso
instante.
Não sei o que será o futuro d’O Jantar
ou do Caderno de Corda, que aliás se encontra censurado pelos motores de busca
– uma luta de Davi contra Golias que me encontro a travar em silêncio –, mas
sei que há um gesto, uma pulsação, uma vontade que permanece, e isso basta.
Se daqui a vinte anos ainda nos
sentarmos à mesa, talvez nem nos lembremos do que aqui foi dito, mas havemos de
reconhecer, no fundo dos nossos olhos, essa coisa antiga, íntima e fiel que não
se apaga com o tempo. Havemos de lembrar que é possível cumprir mais do que
prazos, metas e notificações ao abrigo de algoritmos e agendas que se nos
impõem, que nos cerceiam a liberdade. Havemos de lembrar que é possível viver
com encontros marcados pela memória, pelo afeto, pela absurdidade belíssima de
estarmos juntos assim — só porque sim. E sabermos – sabermos! – que a liberdade
é uma maluca que sabe o quanto vale um beijo e um abraço tão grato quanto
generoso.
Não sei o que virá, mas sei que
vem gente boa. Gente que ainda é criança e percebe que aqui há verdade. Gente
que hoje vem pela primeira vez e já pertence; gente que ainda nem sabe que virá,
mas que, quando vier, saberá que está em casa. Talvez o futuro não precise de
ser inventado. Precisa apenas de ser cuidado como uma planta que se rega, um
lugar onde se volta.
[UMA CELEBRAÇÃO QUE É DE TODOS]
E talvez seja importante dizê-lo
agora com toda a clareza: isto nunca foi sobre mim. O Caderno de Corda pode ter
começado comigo, sim, mas este jantar é de todos. Não é uma homenagem, não é um
palco, já nem é um pretexto. É pertença.
Sempre hesitei em impor ou trazer
para aqui criações que se sobrepusessem ao nosso encontro com receio de que se
confundissem com alguma forma de promoção pessoal ou artística, ainda que em
tal não veja necessariamente um problema. Hoje reconheço o que sempre foi
evidente: o jantar nunca foi vitrina, foi sempre oficina.
Por vezes testei aqui ideias, pus
versos à prova, experimentei leituras, criei vídeos caseiros com música
original, convidei-vos a escolherem versos ao acaso para formar poemas novos
comemorativos. Foi aqui que alguns de vocês deram voz a palavras e versos
sorteados que eu nunca disse, e o destino encarregou-se de que tudo fizesse,
ainda assim, sentido.
O jantar não foi, na verdade,
apenas lugar de encontro: foi um modo quase secreto e íntimo de manter viva a
obra. É por isso que vos mostro hoje o que aí vem, mas não como apresentação. O
que se segue é um gesto de devolução. É o que realmente posso e sei dar em
troca do que me têm dado.
Tudo o que vos trago esta noite —
os vídeos, o vislumbre de um disco-livro que também nos retrata, as palavras
que ainda estão por vir — não são para vos convencer de nada: são para vos
agradecer tudo. Vocês são o primeiro público. O cúmplice. O mais atento. O mais
fiel, mas, sobretudo, os destinatários em quem penso quando crio. São o público
que sente, que sabe, que esteve — desde sempre, e antes até. Partilhar aqui,
primeiro aqui, é uma forma de continuar a viagem convosco. Não sozinho. Nunca
seria capaz sozinho.
Porque se há ainda estrada para
andar, e se há voz e ideias para cantar, compor ou escrever, começam hoje, aqui.
Agora, com vossa licença — e com a alegria genuína de quem vos considera casa —,
convido-vos a assistir ao que preparei com cuidado, entrega e, tanto quanto me
foi possível, amor… e uma pitada de humor.
- * -
Depois do discurso, a noite
prolongou-se em imagens. Revisitámos, em sucessão, os vídeos comemorativos dos
jantares dos últimos anos — fragmentos de memória que, justapostos, nos fizeram
mais uma vez sentir estarmos no sítio certo à hora certa e, nesse mesmo fio de
continuidade, sedimentaram outros sinais…
Registos ainda não partilhados,
mostrados pela primeira vez em círculo fechado, deixaram entrever uma obra em
curso, uma travessia longa, feita de palavra, música e memória, que fecha também
um ciclo de duas décadas e se projecta no futuro. Não se disse tudo, não era
esse o propósito, mas ficou no ar a evidência de que a obra do devir ainda é
nossa.
À data de publicação deste texto,
e já na proximidade de um novo aniversário do Caderno de Corda, encontra-se
ainda por definir a data de realização do próximo Jantar, que assinalará os 21
anos. A decisão será tomada em breve, em concertação entre o Estado-Maior
Cordiano, procurando a data mais consensual — previsivelmente em Abril ou até
Maio. Seguir-se-á, como é tradição, a respectiva convocatória.
ASSIM foi. Assim seja.
Links para posts análogos dos aniversários anteriores:
Registo de presenças na excepcional ausência de foto de grupo
Como já referido, não havendo
registo fotográfico de grupo nesta edição — facto inédito em duas décadas de
Jantares Cordianos —, fica consignada para memória futura a lista de estimadas consorores
e prezados confrades presentes à mesa:
Hugo Passos (Ken), Hugo Dantas,
Rui Almeida, Miguel Barreiros Lopes (Miko), João Carlos Graça, André Nobre,
André Paiva, Ricardo Tomás, Frederico Cruzeiro Costa, Miguel Pereira, Pedro
Farinha (Piri), João Trigo, Nuno “Corado” Quaresma, Rui Jacinto (Jason), César
da Silveira, Sara Matos, Carlota Amaral, Fabrícia Pereira, Hugo Simões e Rosarinho.
Na antecâmara d’O Jantar, o Clã Franchi-Costa (Rita Franchi, Rui Pedro Costa, Leonor Costa e Matilde Costa) veio, como é há muito tradição, para nos dar o prazer da sua companhia, assim como os Irmãos Joaquim Barbosa e Ricardo Pinto, e as há muito desejadas consorores Anabela Semedo (Belinha) e Gabriela Semedo. O Rui Pina surgiu no final, após o repasto, mas a tempo do convívio.
Um especial Abraço a todas e todos os que
não puderam marcar presença, mas que estiveram no nosso pensamento. De bónus, a imagem de thumbnail criada para o vídeo comemorativo dos vinte anos do Caderno de Corda:
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I
O mal sentou-se connosco à mesa
e a mesa não rangeu com o peso.
Coube inteiro no espaço da casa
e perdeu o nervo próprio do espanto.
“Normal” deu-se por lei ao que era dano,
luva de algodão que esbofeteia,
verniz na tábua podre a fazer sala,
até que o horror se torne mobília.
II
Olhos abertos, cobertos de moscas;
a pupila, um poço a afogar a luz;
o ventre inflado e osso à flor da pele.
Por trás da fome, o abutre espera.
Comíamos com moscas no ecrã.
O puto mexia a comida fria.
– Come tudo, há quem morra de fome.
(Anos oitenta. Comemos. Calámos.)
III
As torres ruíram sob gravidade
implodida, precisa e controlada.
Derreteu o aço; ficou a versão.
A queda fundou a narrativa.
Um rumor ateou fogo ao deserto.
A prova: um despacho de gravata,
assinado sobre areia fina
nas engrenagens vãs do latrocínio.
IV
O medo fez-se lei sem testemunha;
a presunção morreu sem julgamento;
a triagem separou corpo e nome
e a suspeita vestiu o protocolo.
A guerra voltou-se para dentro,
até duvidarmos de nós mesmos,
até que o espelho nos acuse
e agradeçamos a vigilância.
V
A emergência, paisagem do serão,
luz azul deixada acesa na sala,
administrada em doses moderadas.
O saque tornou-se procedimento.
A estatística calculou-nos mortos:
os números sem nome como nunca,
a pedagogia do isolamento,
o tão grave delito de um abraço.
VI
Páginas rasuradas – sepulturas,
nomes enterrados em tinta negra.
Verdade exposta; entronizado crime.
Veredicto: total impunidade.
Menu infantil à mesa de abutres
– pizzas, cachorros e pactos de sangue;
máscaras frias de olhos bem abertos
para a ignomínia, salvo-conduto.
Sabíamos os nomes e jantámos.
A verdade exposta não nos bastou.
Quem irá policiar o polícia?
Levantámos; não virámos a mesa.
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Boa noite, estas são as notícias que marcam a actualidade.
[SINAL HORÁRIO]
[VINHETA DE ABERTURA]
Abrimos com acontecimentos de gravidade variável,
normalizados segundo critérios editoriais prioritários.
No Paquistão, um descarrilamento fez mais de cem mortos.
Sem imagens disponíveis, a emissão segue
para Trás-os-Montes, no Norte do País,
onde uma família de três foi encontrada morta.
A causa: asfixia por monóxido de carbono,
após aquecimento do quarto com um fogareiro.
O episódio ocorreu durante o sono, em vésperas de Natal.
Trinta e três, vinte e nove e quatro anos.
Ambos os progenitores tinham emprego.
Em clima de festa, multiplicam-se os preparativos da época.
Começam a chegar às mesas os sabores tradicionais
e as campanhas de Natal arrancam com previsões optimistas,
apesar da acentuada subida de preços.
O recurso ao crédito continua a aumentar entre os
portugueses.
O endividamento das famílias atingiu níveis recorde.
[EXCERTO – ESPECIALISTA EM FINANÇAS PESSOAIS]
«É importante que se façam escolhas responsáveis.
O crédito deve ser usado apenas em situações de absoluta
necessidade,
sob pena de comprometer o equilíbrio financeiro dos
agregados.»
[EXCERTO – CONSULTOR FINANCEIRO]
«Cada pessoa deve conhecer os seus limites.
Muitas situações de endividamento resultam de impulsos e decisões
mal planeadas.»
No Médio Oriente prosseguem os confrontos.
Durante a madrugada registaram-se novos bombardeamentos.
Não há, para já, confirmação do número de vítimas.
A situação mantém-se em desenvolvimento.
[ZAPPING]
A situação em desenvolvimento…
zap
… acompanhamento dos acontecimentos.
zap
… do desenvolvimento dos acontecimentos…
zap
Acontecimentos em acompanhamento.
zap
O desenvolvimento da situação…
zap
… situação.
zap
Acontecimentos.
zap
… em desenvolvimento.
zap
… anhamento dos acontecimentos.
[INTERVALO]
Este é o momento de fazer escolhas certas.
Escolher bem faz a diferença.
Planeie. Priorize. Controle.
Soluções simples para o seu dia a dia.
Opções pensadas para famílias responsáveis.
Pagamentos ajustados à sua realidade.
Sem excessos. Sem surpresas.
[EMISSÃO EM ESTÚDIO]
Retomamos a emissão.
Registou-se hoje a morte de uma criança
na sequência de um acidente doméstico.
As autoridades falam em «fatalidade».
Uma “fatalidade” evitável…
Os indicadores económicos revelam sinais de crescimento moderado,
num contexto ainda marcado pela incerteza dos mercados.
Verifica-se a recuperação gradual de alguns sectores produtivos,
apesar das pressões externas e do aumento dos custos.
O mercado de trabalho mantém-se em evolução positiva,
com níveis elevados de emprego e aumento da população ativa.
Persistem, no entanto, constrangimentos no rendimento
disponível.
Os salários continuam a não acompanhar o aumento do custo de
vida.
No plano político, o Governo reafirma compromissos
com a estabilidade e com o cumprimento de metas.
As autoridades sublinham que o atual contexto exige realismo
e decisões responsáveis pela continuidade das políticas
adoptadas.
O Governo admite dificuldades causadas pelo cenário
internacional,
mas garante que os sacrifícios são necessários
para assegurar a confiança externa
e a sustentabilidade do País a médio prazo.
No plano internacional, a instabilidade mantém-se
com o agravamento de conflitos em várias regiões.
As autoridades alertam para um contexto geopolítico
imprevisível,
marcado por tensões persistentes e riscos acrescidos para a
segurança.
Perante a escalada de tensões, é considerada inevitável
a necessidade de reforço dos meios de defesa
e do investimento em dispositivos de segurança e áreas estratégicas.
Os mercados mantiveram uma trajetória positiva,
com valorização generalizada dos principais índices.
O desempenho reflete a confiança na solidez do sistema
e na sua continuidade operacional.
Os analistas sublinham a normalização de um panorama exigente
e a absorção das tensões em curso,
afastando receios imediatos quanto à estabilidade
dos ganhos das principais praças e dos investidores.
Para já, não são identificados riscos relevantes
para o funcionamento do sistema monetário.
Um novo indicador pretende medir, num só número, o estado
geral do mundo,
cruzando dimensões económicas, sociais e geopolíticas.
Crescimento económico, rendimento disponível,
níveis de emprego, acesso à habitação, estabilidade
política,
conflitos armados, investimento em defesa,
confiança dos mercados e perceção de risco social,
bem como a evolução dos grandes fluxos financeiros
e do património concentrado nos principais centros de
decisão.
Tudo reduzido a um único índice.
De acordo com os chamados “arquitectos” da tecnologia,
a criação de um indicador único permite organizar a leitura
de um cenário marcado por múltiplas variáveis simultâneas,
convertendo complexidade em síntese,
apesar da deterioração das condições de vida
em amplos segmentos da população mundial.
A simplificação é apresentada como condição necessária
para apoiar decisões, definir prioridades
e manter a coerência do sistema,
em contextos de elevada complexidade.
Os dados apurados situam-se, assim,
dentro de parâmetros considerados aceitáveis.
Não são identificados riscos sistémicos imediatos
para o funcionamento global do sistema
nem sinais de rutura estrutural,
e o resultado reflete ganhos consistentes nos principais
mercados,
níveis elevados de rentabilidade no topo da cadeia
económica,
forte valorização dos grandes patrimónios,
fluxos financeiros estáveis,
capacidade de absorção de choques
e margens de ajustamento ainda disponíveis.
Apesar da redução do poder de compra,
da compressão salarial,
do agravamento do custo da habitação,
da generalização da precariedade,
do aumento do número de trabalhadores pobres,
da intensificação dos conflitos armados,
do alargamento das zonas de exclusão,
da normalização da desigualdade como condição de
funcionamento.
No conjunto, o indicador aponta para um cenário global funcional.
O rating
“suficiente” valida a continuidade do modelo vigente.
[PAUSA PROLONGADA]
Os dados foram hoje apresentados
num relatório conjunto das entidades competentes,
que sublinham a robustez dos mecanismos de monitorização
e a capacidade de resposta do sistema
a cenários adversos de elevada pressão.
[SUOR VISÍVEL]
O documento destaca ainda a importância de mentir
— de manter, aliás —
uma leitura integrada dos fenómenos em curso,
evitando alarmismos
e interpretações precipitadas.
[AJUSTA A GRAVATA]
As conclusões apontam para a necessidade de continuar
a acompanhar a evolução da situação,
com especial atenção aos indicadores-chave
definidos pelas instâncias de regulação.
O relatório refere que a estabilidade observada
assenta num conjunto articulado de mecanismos técnicos,
processos de correção contínua
e medidas de contenção sucessivas,
aplicadas em diferentes planos de atuação.
A análise integrada dos dados
aponta para a necessidade de prudência,
de continuidade estratégica
e de confiança nos instrumentos existentes,
considerados adequados
para responder a flutuações prolongadas
em contextos de elevada pressão.
[OLHA PARA BAIXO]
No plano nacional, gerou polémica uma intervenção do
Ministro da Educação,
ao afirmar que residências universitárias ocupadas
maioritariamente
por alunos de rendimentos mais baixos
tendem a degradar-se mais rapidamente,
por falta de conservação adequada.
Segundo o governante,
«quando os serviços públicos são utilizados apenas pelos
mais pobres,
acabam por se degradar».
[PAUSA BREVE]
Organizações de estudantes e sindicatos reagiram às
declarações,
classificando-as como estigmatizantes
e acusando o Governo de associar pobreza
à degradação dos serviços públicos.
Dados hoje divulgados indicam que uma parte significativa
dos trabalhadores em Portugal permanece em risco de pobreza,
apesar de exercer atividade profissional.
Os números confirmam que o emprego, por si só,
já não assegura condições mínimas de vida digna.
O rendimento do trabalho revela-se insuficiente
para responder ao aumento dos custos essenciais,
com destaque para a habitação, a alimentação e a energia.
A estatística aponta para um crescimento sustentado
do número de trabalhadores pobres,
num contexto de emprego elevado
e atividade económica regular.
[PAUSA PROLONGADA]
Dados divulgados esta semana indicam um crescimento
expressivo
do património dos grandes grupos económicos
e das grandes fortunas.
[AJUSTA A GRAVATA — NÃO CONSEGUE]
Os números apontam para ganhos acumulados
na ordem de dezenas de milhares de milhões,
concentrados num número cada vez mais reduzido de titulares,
num contexto de valorização acelerada de ativos financeiros
e reforço da rentabilidade do capital.
[RESPIRA FUNDO]
O relatório refere que a criação de riqueza
se mantém robusta nos estratos superiores,
com aumento significativo dos dividendos,
da capitalização bolsista
e da valorização dos grandes patrimónios.
[AJUSTA A GRAVATA — MAIS RÁPIDO]
A análise sublinha que a evolução
não constitui um desvio,
mas uma consequência direta
do normal funcionamento do modelo económico,
considerado eficiente na geração de valor
e na maximização de retornos.
No desporto, o Benfica venceu esta noite por três bolas a
zero
em jogo a contar para a Liga dos Campeões.
A equipa apresentou-se segura,
com domínio claro ao longo dos noventa minutos
e eficácia no momento decisivo.
Com estes três pontos, as águias mantêm-se
na luta pelo apuramento directo,
alimentando as expectativas dos adeptos
de um grande Benfica europeu.
Milhares celebraram a vitória
em vários pontos do País.
Para amanhã, o Instituto Português do Mar e da Atmosfera
prevê
céu geralmente nublado,
com períodos de chuva fraca no litoral norte e centro.
A temperatura mínima deverá descer ligeiramente,
com formação de geada em algumas regiões do interior.
[BREVE PAUSA]
As temperaturas…
as temperaturas máximas…
[CORRIGE]
As temperaturas mínimas deverão registar
uma ligeira descida.
[RESPIRA FUNDO]
O frio intensifica-se sobretudo durante a noite,
com especial impacto nas zonas mais vulneráveis.
[REAJUSTA A GRAVATA]
No interior,
as mínimas poderão atingir valores próximos de zero.
[SILÊNCIO CURTO]
No litoral, o vento soprará fraco a moderado,
rodando para norte ao longo do dia.
No interior, o frio será mais intenso durante a madrugada,
com descida acentuada das temperaturas mínimas.
[PAUSA BREVE]
As autoridades recomendam
especial atenção aos grupos mais sensíveis,
nomeadamente crianças, idosos
e pessoas em situação de vulnerabilidade.
[ALARGA O NÓ DA GRAVATA]
Aconselha-se o reforço do aquecimento
e a adoção de comportamentos preventivos,
de forma a evitar riscos desnecessários.
[OLHA PARA O TELEPONTO]
O frio vai provocar
— poderá provocar —
[PIGARREIA]
constrangimentos
a populações mais expostas.
[INSPIRA, FECHA OS OLHOS]
Populações mais expostas
a habitações mal isoladas,
a soluções de aquecimento improvisadas,
a rendimentos insuficientes.
Demasiado expostas
para responder
às condições climatéricas adversas.
[OLHA PARA O TELEPONTO]
As autoridades recomendam
a adoção de medidas preventivas
em períodos de frio intenso.
[PAUSA]
Medidas preventivas.
[CORRIGE]
Medidas adequadas
para evitar riscos evitáveis.
[SILÊNCIO CURTO]
Riscos evitáveis.
[REAJUSTA A GRAVATA]
Sempre que possível.
[VOZ NA ESCUTA]
— mantém-te no texto! —
[PAUSA. INDICAÇÃO DA RÉGIE]
— Prosseguimos.
[OLHA PARA O TELEPONTO]
Prosseguimos com dados
e mortes. Números. Mercados.
Com frio. Com trabalho.
Com índices que sobem
e corpos que adormecem a morte.
Com crescimento moderado,
risco controlado e pobreza funcional.
Pobreza emocional.
Com emprego elevado
e vidas curtas.
Com previsões otimistas e noites geladas.
Com confiança dos mercados e fogareiros acesos.
Com estabilidade. Com esforço necessário.
Com gráficos verdes e quartos viciados.
Com rentabilidade robusta e respirações contadas.
Com rating suficiente.
Suficiente.
[PAUSA]
O fogareiro custava menos
do que um bilhete para o jogo.
No estádio há aquecimento.
No salário, contenção.
Mais golo, menos golo,
expropriam-se milionários;
redistribuem-se os salários.
Respira-se no quarto.
[VOZ NA ESCUTA]
— fecha com o Natal! —
[ENTREDENTES]
Ignorance is bliss…
[OLHA PARA O TELEPONTO]
Aproveitamos para desejar
a todos os telespectadores
um Natal…
[PAUSA]
feliz,
[RESPIRA FUNDO]
com saúde.
[VOZ NA ESCUTA]
— segue, segue —
[ATRASO DE SOM]
A emissão…
[GLITCH]
prossegue.
[OLHA PARA A CÂMARA]
Não mostramos tudo.
[PAUSA CURTA]
Não é por falta de imagens.
[SILÊNCIO]
Há imagens.
Há sempre imagens.
[CLOSE UP LIGEIRO]
Não passam porque não passam no crivo.
Não passam no alinhamento.
Não passam porque não cabem no tempo.
Não passam porque não fazem raccord;
não servem o enquadramento.
[PIGARREIA]
Não passam porque perturbam.
[VOZ MAIS BAIXA]
Porque fazem perguntas erradas.
Porque apontam para cima.
Porque não terminam onde devem.
[VOZ NA ESCUTA]
— mantém-te no texto —
— não é por aí —
— fecha —
— estamos no ar —
[SILÊNCIO MAIS LONGO]
O critério chama-se interesse.
Interesse editorial.
Interesse estratégico.
Interesse comercial.
Assim:
o que mantém a confiança, fica;
o que ameaça a confiança, sai.
Confiança de quem paga.
De quem investe.
De quem decide.
[OLHA PARA BAIXO]
Confiança dos mercados.
Confiança dos anunciantes.
Confiança do sistema.
[PAUSA]
Não é censura.
É curadoria.
[PEQUENO RISO SECO — SEM HUMOR]
Escolhemos o sofrimento legível.
O sofrimento distante.
O sofrimento sem nome.
Cortamos o resto.
[VOZ TRÉMULA]
Cortamos quando o corpo é demasiado próximo.
Quando a criança tem o rosto de um anjo.
Quando o sangue se confunde com o grafismo.
[PAUSA]
Eu li os cortes.
Respeitei os tempos.
Obedeci aos sinais no ouvido.
[VOZ NA ESCUTA — DISTANTE]
— volta ao texto! —
[IGNORA]
Durante anos. Décadas.
[SILÊNCIO]
Eu disse:
«Não há confirmação independente.»
«As imagens são fortes.»
«Não podemos mostrar.»
[ENGOLE EM SECO]
Disse eu.
[PAUSA PROLONGADA]
Perdão.
Não por errar.
Por saber.
[SILÊNCIO ABSOLUTO NO ESTÚDIO E NA RÉGIE]
Eu também calo e como.
[OLHA FIXAMENTE PARA UM MONITOR FORA DE CÂMARA]
Mas eu vejo.
Vejo a criança com as unhas sujas de fezes.
Vejo o quarto enegrecido do fogo.
Vejo o fogareiro: três brasas pequenas, culpa inteira;
mãos cheias de nada ao passar dos meses;
a mágoa de um pai que o foi até à madrugada.
Vejo o papel de parede a descascar.
Um mapa gasto de Trás-os-Montes,
dobrado pela humidade e pelo frio.
Por baixo, um calendário antigo:
Dezembro.
Natal circulado a lápis de cera.
[SILÊNCIO PROLONGADO]
[RESPIRA FUNDO. A CÂMARA PERMANECE FIXA]
Vejo o índice subir em flecha
cravada no peito do pai.
Ficou no chão, embalado
numa siesta de
ratings,
colado à fuligem da cozinha,
entre um suspiro e um ai
de morte suficiente.
Vejo o mofo escalar o papel de parede,
um mapa fumado,
um enchido transmontano,
um gráfico, uma malha, uma rede
na garganta do filho.
O mesmo molde, o mesmo fungo,
o mesmo bafio sombreado a verde
nas estatísticas do frio.
[PAUSA. BIP DESFASADO]
Vejo o cão à porta.
Uma, duas, três almas
irrompem pelas fissuras do telhado
como nuvens de vapor;
curvas verdes no ecrã,
de subtil gás a entrar; ar a sair
no noticiário das oito.
Sobe o lucro. Desce o oxigénio.
[BIP IRREGULAR. ESTÁTICA. RUÍDO ELETROACÚSTICO. VOZ NA
ESCUTA]
— … estamos no ar, porra!… –
[SEGURA UMA CANETA COMO UM OSSO CONTUNDENTE. A CÂMARA TREME]
O ar do estúdio, climatizado,
cheira a contrato a prazo,
monóxido de carbono,
Inverno isolado a fita,
números, poeira, chumbo,
silêncio e asfixia.
O ar não é neutro.
Cheira a Trás-os-Montes
e soa à mesma sentença,
ao mesmo relatório.
Vejo o frio a entrar
pelo fio das janelas
e o ecrã a sorrir com os meus olhos
no quarto onde morriam crianças.
Eu a transitar de notícia em notícia
para a vitória do Benfica.
Eu sorria.
S
o
r
r
i
a
[RESPIRAÇÃO. O SOM DO PRÓPRIO PEITO]
Estamos todos no mesmo quarto.
Uns à janela. Outros à porta.
Sentimos o frio algorítmico
das coisas certas como o destino
– as conta de gás, água e luz
num prosema sísmico, assassino,
escrito sob um vão de porta
(de preferência em parede mestra).
Vejo o frio a violar o fio das janelas.
É o suficiente. Su-fi-ci-en-te.
A morte é certa.
[INTERFERÊNCIA. ZOOMS INDECISOS. VOZ NA ESCUTA]
— … chega!
[SILÊNCIO TOTAL]
[PIXELIZAÇÃO. ECRÃ PRETO. 16 LONGOS SEGUNDOS]
[GLITCH TÉCNICO. IMAGEM RECOMPÕE-SE. O MESMO CENÁRIO. A
MESMA MESA.
UM LOCUTOR ESTREANTE LÊ EM TOM PROFISSIONAL]
Atenção às populações mais vulneráveis:
idosos, crianças,
trabalhadores em situação precária.
Recomenda-se
que mantenham a casa aquecida,
sempre que possível.
Deve evitar-se a utilização de fogareiros,
braseiras ou quaisquer equipamentos
de combustão desprotegida
em espaços mal ventilados,
de modo a prevenir a acumulação
de monóxido de carbono.
Sempre que possível.
[PAUSA CLÍNICA DE DOIS SEGUNDOS. OLHA DIRECTAMENTE PARA A CÂMARA]
[A IMAGEM DO ECRÃ DE FUNDO DO ESTÚDIO MUDA SUBITAMENTE PARA
O FOTOGRAMA DE UM CALENDÁRIO COM O NATAL RISCADO A LÁPIS DE CERA]
Boa noite. Feliz Natal.
[VINHETA DE ENCERRAMENTO]
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Epigramas da Ordem. Imagem gerada por inteligência artificial (Sora) a partir do tríptico homónimo de Jeremias Cabrita da Silva.
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Epigrama da Lei Universal
A lei interior precede o mundo.
Do silêncio fala o gesto claro.
Quem escuta vê o desamparo.
Quem vê ampara o moribundo.
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Epigrama da Lei Iníqua
Na mão do opulento a lei repousa,
servindo o grande, calando o fraco,
em clausulado arcano, opaco.
A injusta farsa em trono impune pousa.
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Epigrama da Desobediência Legítima
Quando a lei dita o que a justiça acusa,
cessa a virtude em quem se entrega.
Firme, à lei iníqua, a razão recusa:
Só é justo quem à injusta lei se nega.
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Epigrama da Palavra Original
O golpe do cinzel talha o verbo inteiro
e o nome na pedra pare o ser primeiro
✧
Epigrama da Verdade Essencial
A verdade que acende o justo fala
quando em redor o mundo, inerme, cala
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Epigrama do Veio Primordial
O primeiro passo abre o veio primordial;
a pedra inaugural guarda inteira a catedral
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