Dentro do morteiro,
por dentro do obus,
um papel por pólvora,
e a mãe deu à luz.
Jueju lusitano menor (adaptação portuguesa, em redondilha menor, do jueju tradicional chinês)
por Jeremias Cabrita da Silva in "Teoria Geral da Queda"
(Edições Gravidade, 2028)
José Saramago guardou a história de um obus que, durante a Guerra Civil de Espanha, não rebentou. Dentro, em vez de carga explosiva, havia um papel escrito em português: «Esta bomba não rebentará.» Supôs que talvez tivesse sido preparado por um operário da Fábrica de Braço de Prata, em Lisboa, que fornecia armamento ao exército de Franco. Saramago viria depois a perguntar por que razão nunca houve uma greve numa fábrica de armas. Antes da greve imaginada, teria já existido este valoroso acto anónimo de sabotagem. A história e a pergunta acabariam por desembocar em “Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas”, último romance de José Saramago, deixado inacabado e publicado postumamente em 2014.
Achados e Perdidos da República. Imagem gerada por inteligência artificial (DALL-E) a partir do poema-inventário homónimo de Jeremias Cabrita da Silva.
I — Bens móveis encontrados em via pública Natureza dos bens: móveis, achados na via pública. Reclamante: não identificado. Estado: sinais de uso e abandono.
Consta uma chave sem imóvel conhecido, achada entre tendas e recibos de renda, com raiva e ferrugem nos dentes.
Regista-se uma senha de atendimento, encontrada em manhã fria, no bolso de um utente, com chamada posterior ao falecimento.
Guarda-se uma ficha de escolha múltipla, recolhida no recreio do colégio, preenchida a quadrícula da cruz que nos cabe por resposta certa.
Recolhe-se uma luva de trabalho, vinda de parte incerta, dedos curvados, sem mão que a feche em punho cerrado.
Assinala-se um cartaz dobrado, com palavras de ordem vincadas ao meio, sem braços que o ergam do passeio.
Dá entrada um cravo sem lapela, flor-rastilho de caule fino, sem peito que o devolva ao perigo.
Averba-se um mapa rasgado, com o Norte puído no vinco da dobra e a estrada cortada na planta da obra.
No termo da relação, uma enxada de ferro gasto, com o selo da cooperativa no cabo, em relevo, à ordem de quem lavre sem pedir licença.
II — Bens comuns sem titular identificado Natureza dos bens: de uso comum. Reclamante: por constituir. Estado: acesso condicionado.
Arrola-se uma parcela de chão fértil, vedada à gente por monopólio ou abandono, com a lavra cativa por excesso de dono.
Liquida-se um litro de água potável pelo direito de não ter sede, fiada como garantia de cobrança.
Reserva-se a sombra de um banco de praça, sob licença comercial de esplanada, com permanência sujeita a consumo mínimo.
Figura uma cela própria permanente, contraída para fugir ao relento, com a vida indexada a trinta anos.
Comparece outro número de utente para triagem de corpo presente, ainda vivo demais para ter vaga.
Indexa-se uma Alexandria sem cinzas, a crédito, por tokens e assinatura — pilhagem registada em factura.
Debita-se uma noite de sono ao banco de horas em escala, de prevenção, ao toque do dono.
Simula-se um filho por haver, com um nome sem berço, sem quarto onde caber.
III — Bens imateriais por reclamar Natureza dos bens: imateriais, sem valor declarado. Reclamante: desmobilizado. Estado: inflamável.
Fica em acta a verdade sem consequência, com prova bastante, nenhuma sentença, até que a memória arda em audiência.
Afere-se o limiar do intolerável, que da ruína comum faz coisa privada, rasgando de indignação a vergonha.
É devolvida ao mandante a infâmia de fabricar escassez e cobrar a culpa a quem amassa o pão que lhe falta.
Dá-se por achada uma reclamação sem balcão, não pela avaria, mas pela máquina inteira, assinada por um povo sem nação.
Consigna-se o não em legítima defesa ante a continência da lei à casta do saque; ante a obediência, farda civil da rapina.
Apura-se um degrau ao fundo da queda, o explorado a ensaiar-se capataz da ruína, o magricela a empurrar o escanzelado.
Lavre-se termo de levantamento, compareça por reclamante a rua arrancada a ferros em riste e pedras da calçada.
Termo de guarda provisória
Aos bens constantes da relação não se lhes dará abate ou alienação; permanecem em guarda provisória, à ordem de pessoa colectiva sem firma, selo, capital, moratória.
Não prescreve a parte cativa. Nada mais havendo a declarar, resta tudo por levantar.
Lê-se da esquerda para a direita
e do avesso, da direita para a esquerda.
Lê-se de cima para baixo
e em retorno, de baixo para cima.
Lê-se em queda.
Vira-se do avesso.
Relê-se em retorno.
Livre do poder vil.
Aura, rutura, rua.
Livres, a rua somos. Sós, somos aura servil.
Somos sós. Somos…
– o breve verbo:
Somos.
Paz: zap!
Livre, servil…
servil é livres;
livres é servil:
servi livres.
Até o poeta
a rima mira
e até o Papa poeta é.
Rir, o breve verbo rir.
Até o poder do povo é ovo podre do poeta.
Paz: zap!
O muro é o rumo,
o teu gueto,
o nó do dono,
o copo no poço.
O muro… rever o rumo.
Adias a saída:
remeter é temer
o ano do não.
Adias a data da saída.
Livres. O muro. Remeter é temer o rumo servil.
Paz: zap!
Lei fiel.
Erro comum ocorre.
A lei… fiel a?
Ó povo, pó!
Livre temer; remeter vil.
Livres? A corte. O corte é troco, é troca servil.
Paz: zap!
O lodo do dolo
a casa saca.
O nada dá dano;
a base do teto desaba.
A tropa à porta,
o medo do demo,
o rito: tiro
à sacada da casa.
Paz: zap!
A torre da derrota,
o rumo do muro,
o rude e duro
ódio do doido.
Ato idiota.
O lobo ama o bolo.
Aí rufa a fúria.
O trote torto,
o treco certo.
O terrível é ele vir reto.
Livres. O muro. A greve verga o rumo servil.
Paz: zap!
Reviver, reler, reviver;
rever para prever
o muro, reviver o rumo,
a rua, aura,
a meta, tema,
luz azul.
O mito é ótimo.
Servil, o muro. A greve verga. O rumo: livres.
Paz: zap!
Servil, a rua. Somos sós, somos aura, livres.
Salta esse atlas.
Reter e rever para prever e reter.
Ó, e reter o mar é ter amor etéreo.
Roma me tem amor,
amada dama.
O dia caído…
A base desaba
o voo do ovo.
A dama cai acamada.
Ame o poema.
Livre-se, servil!
Reviver!
↔ ↓↑
II ServilivreS II
palíndromo reversível de queda e retorno ↔ ↓↑
Reviver!
Livre-se, servil!
Ame o poema.
A dama cai acamada.
O voo do ovo.
A base desaba.
O dia caído,
amada dama.
Roma me tem amor.
Ó, e reter o mar é ter amor etéreo.
Reter e rever para prever e reter.
Salta esse atlas.
Servil, a rua. Somos sós, somos aura, livres.
Paz: zap!
Servil, o muro. A greve verga. O rumo: livres.
O mito é ótimo.
Luz azul.
A meta: tema;
a rua: aura.
O muro… reviver o rumo,
rever para prever.
Reviver, reler, reviver.
Paz: zap!
Livres. O muro. A greve verga o rumo servil.
O terrível é ele vir reto.
O treco certo,
o trote torto,
aí rufa a fúria:
o lobo ama o bolo.
Ato idiota,
ódio do doido,
o rude e duro,
o rumo do muro,
a torre da derrota.
Paz: zap!
À sacada da casa,
o rito: tiro.
O medo do demo,
a tropa à porta.
A base do teto desaba.
O nada dá dano;
a casa saca
o lodo do dolo.
Paz: zap!
Livres? A corte. O corte é troco, é troca servil.
Livre temer; remeter vil.
Ó povo, pó!
A lei… fiel a?
Erro comum ocorre:
Lei fiel.
Paz: zap!
Livres. O muro. Remeter é temer o rumo servil.
Adias a data da saída,
o ano do não.
Remeter é temer.
Adias a saída.
O muro… rever o rumo,
o copo no poço,
o nó do dono,
o teu gueto:
o muro é o rumo.
Paz: zap!
Até o poder do povo é ovo podre do poeta.
Rir, o breve verbo rir,
e até o Papa poeta é.
A rima mira
até o poeta.
Servi livres.
Livres é servil,
servil é livres…
Livre, servil…
Paz: zap!
Somos:
o breve verbo.
Somos sós. Somos
livres, a rua somos. Sós, somos aura servil.
Aura, rutura, rua
livre do poder vil.
Ao 21.º ano, eis a convocatória para O Jantar, que, após deliberação em Capítulo do Estado-Maior Cordiano, se realiza este ano a 30 de Maio de 2026, no sítio do costume. Como é sabido, o aniversário comemora-se de 26 para 27 de Março (data do aniversário do blogue), mas vem sendo já hábito concretizá-lo em data posterior, de modo a favorecer a comparência do maior número de consorores e confrades cordian@s. Tragam um Amigo também.
Confirmação requerida na página do evento no Facebook:
Celebramos hoje os 21 anos de existência do Caderno de Corda com a divulgação do link para as fotos d'O Jantar do ano transacto (AQUI), que se realizou a 24 de Maio de 2025, no sítio do costume. Como é sabido, o aniversário comemora-se hoje (27 de Março), mas vem sendo já hábito concretizá-lo em data posterior, de modo a favorecer a comparência do maior número de confrades cordianos. A data do próximo encontro será em breve deliberada em Capítulo do Estado-Maior Cordiano e posteriormente aqui publicada. Tragam um Amigo também.
Vinte anos depois, a 24 de Maio
de 2025, voltámos à mesa.
O que começou em 2005 com a
fundação do Caderno de Corda e, depois, em 2006, com um gesto simples à mesa —
um jantar improvisado entre leitores e amigos —, tornou-se, com o passar do
tempo, numa espécie de eixo fixo no calendário da vida, uma convocatória
informal que dispensa convites e que, ainda assim, continua a reunir consorores
e confrades em torno da linguagem única da Verdade dos afectos.
Ao longo destas duas décadas
passaram por esta mesa mais de sete dezenas de corações — amigos de infância,
colegas de escola e trabalho, leitores, companheiros de estrada, famílias
que entretanto cresceram e novas gerações. Alguns vieram uma vez, outros
regressaram muitas vezes, outros, ainda, acabaram por se tornar parte
inseparável da liturgia cordiana. Mas todos fizeram, indelevelmente, a história
d’O Jantar.
Curiosamente, se, nos primeiros
anos, O Jantar parecia nascer do blogue, talvez possamos, de há algum tempo a
esta parte, dizer o contrário: foi o jantar que acabou por sustentar o blogue,
que hoje segue mais forte do que nunca em produção poética. Ainda assim, o
encontro anual tornou-se a sua respiração mais visível, a prova de que a
escrita encontrou corpo, mesa e rosto.
Em 2025 não foi diferente, mas
também não foi igual. Nunca é. Como tantas vezes acontece, O Jantar começou
antes de começar. Na antecâmara do encontro houve abraços demorados mas pressurosos,
visitas de passagem, presenças breves mas significativas — daqueles gestos que
confirmam, sem necessidade de explicação, o lugar que a oportunidade daquele
abraço ocupa na vida de quem por aqui passa.
Caso paradigmático, o do
Venerável Cavaleiro Prismático e Guardião do Tombo Cordiano, Ricardo Pinto. Vinha
em dia de concerto, com soundcheck
marcado e agenda apertada, mas apesar do bulício fez questão de passar. Veio
dar aquele abraço, marcar presença e seguir caminho inevitável, como quem
cumpre um pequeno ritual antes de partir para uma noite de rock ‘n’ roll. A ele voltaremos.
Também o estimado Irmão Joaquim
Barbosa, nosso querido Quim, passou pela antecâmara d’O Jantar, como, aliás,
tem feito nos últimos anos. Chegou cedo, cruzou-se com alguns dos primeiros
confrades, mas acabou por não apanhar o Irmão Frederico Costa, que chegaria já
mais tarde. Vieram ainda, pela primeira vez, as queridas Anabela (Belinha) e
Gabriela Semedo, apenas para um beijinho e abraço rápido antes de seguirem
caminho — um gesto simples, mas pleno de significado.
E, como reza a tradição, apareceu
o assíduo e muito prezado clã Franchi-Costa — Leonor, Matilde, Rita e Rui
Pedro. Nunca jantam, mas aparecem quase sempre no início ou no fim, como quem
passa para confirmar que O Jantar continua no lugar certo do mundo. No final,
fomos ainda brindados pela aparição do Grão-Mestre do Tabernáculo Rui Pina. Há
presenças que fazem parte indispensável mesmo quando não se sentam à mesa.
Mas houve também um pequeno
episódio que acabou por revelar, mais uma vez, a estranha geometria das
coincidências cordianas. O Grão-Mestre do Ofício Luminar Hugo Dantas estava
confirmado para O Jantar, mas, como tantas vezes acontece na azáfama da vida,
esqueceu-se. Foi a sua querida progenitora, Ludovina Dantas, quem lhe telefonou
quase à hora marcada para perguntar, com a naturalidade de quem sabe mais do
que parece saber:
— Então, não vais ao jantar?
E foi nesse instante que o Dantas
se lembrou. A coincidência revelou-se providencial. Já perto da hora do
encontro percebi que não tinha comigo equipamento adequado para transmitir os
vídeos que planeava mostrar na televisão da sala. Foi então que ele,
tempestivo, me ligou para dizer estar a caminho e aproveitei para perguntar
se, já que ainda estava em casa, poderia trazer um computador e um cabo HDMI
compatível. E assim foi. Graças a esse pequeno atraso, e ao telefonema de
coração materno que em boa hora alinhou astros, o plano previsto acabou por
cumprir-se. Mais uma dessas pequenas conspirações benignas que parecem
acompanhar O Jantar desde o início.
Mas houve também duas primeiras
vezes, extraordinariamente especiais, aliás. A Fabrícia, minha companheira,
esteve presente e, também pela primeira vez, celebrei n’O Jantar com a minha Vida
– leia-se “celebrei com a minha filha”, aka
Rosarinho. Duas presenças que dispensam qualificativos numa mesa que já
atravessou duas décadas de vida — sinal claro de que aquilo que começou como
encontro entre amigos encontrou, entretanto, formas cósmicas de continuação
terrena.
Também pela primeira vez não
houve fotografia de grupo. Não por decisão, esquecimento ou opção consciente,
mas por ausência, pelo silêncio instalado quando falta quem sempre assume as
despesas do registo fotográfico: o já mencionado Grão-Mestre, Venerável
Cavaleiro Prismático e Guardião do Tombo Cordiano, Ricardo Pinto. A função é
tão escrupulosamente cumprida ano após ano que, desta vez, ninguém sequer se
lembrou da foto. E talvez, aos 20 anos, o facto seja mais gráfico do que
qualquer imagem poderia mostrar.
Quando finalmente nos sentámos,
demos por nós a contar: éramos vinte à mesa. Vinte anos de jantar. Vinte
pessoas sentadas. Não foi planeado, mas pareceu certo. De novo, há
coincidências que talvez não o sejam. Ao longo destas duas décadas celebrámos O
Jantar de muitas formas: com dérbis acalorados, conversas intermináveis,
leituras improvisadas, poemas sorteados à mesa, vídeos caseiros, pequenas
experiências criativas que iam surgindo ao sabor do espírito da noite, mas nunca houvera
discurso.
Em vinte anos de jantares
cordianos passaram por esta mesa mais de setenta pessoas, oriundas de vários
círculos de amizade — da Loja Salesiana à Loja Cruz Quebrada, das Doroteias à
vida profissional, da blogosfera à família. Alguns vieram uma vez. Outros
vieram muitas. Mas todos fazem parte desta história. Talvez o silêncio tenha
gritado o que O Jantar sempre foi sem que alguma vez fosse necessário explicar
o que aqui se passa.
Portanto, este ano houve discurso.
Não como acto solene ou cerimonial, mas como ensaio retrospectivo necessário
para perceber o que realmente aqui aconteceu por duas longas décadas que talvez
merecessem, finalmente, uma tentativa de palavra viva dirigida a quem as fez e
partilhou. E foi assim que, já todos jantados, tomei a palavra para ler o texto
que se segue: um ensaio em voz alta daquilo que neste tempo fomos
vivendo quase sempre sem explicação ou disso tentativa.
DISCURSO DOS 20 ANOS D'O
JANTAR
(TRANSCRIÇÃO)
Vinte anos.
Talvez não tenha havido grandes
promessas no início, nem planos de longo curso, nem anúncios. Mas houve gente,
houve mesa, houve tempo marcado com presença, e isso bastou. Hoje, o que
impressiona não é tanto termos começado — é termos continuado. Impressiona que,
mesmo sem cartaz, sem programa, sem obrigação, tenhamos mantido isto aceso. Não
porque era preciso, mas porque fazia sentido. Um jantar por ano. Um ponto fixo
no calendário. Quando tudo o resto mudava — casas, trabalhos, cidades, rotinas,
digníssimos esposos e esposas, e até mudanças de sexo, como no caso do João
Trigo — este jantar mantinha-se. Como quem diz: há lugares onde o tempo não se
dilui ou… há um tempo para nos fazermos lugar.
Vinte anos depois, o que se
celebra já não é um blogue e nunca foi um autor, muito menos o gesto de
convidar. É o gesto de saírem de casa, preterirem outras avarias e virem. Há anos
em que a vida se estica, atrasa, atropela. Mas depois há este dia. E vocês
chegam. Cada um com a sua vida inteira às costas. Com filhos, com ausências,
com cansaços, com histórias que ficaram por contar. E, ainda assim, vêm.
Sentam-se. Sorriem. Repetem abraços, nutrem memórias, cruzam ideias.
Reencontram-se no outro, recordam-se verdadeiros num olhar puro de criança que
ainda lá está espelhado, desde a infância nas Doroteias, nos Salesianos, no
Agrupamento 77… Reconhecem-se provavelmente a vós próprios nessa essência
verdadeira, saudosa e imutável que a adultez frequentemente se encarrega de
poluir, pondo-nos a duvidar de nós próprios.
Isso — isso sim — é o milagre
silencioso desta noite. E é por isso que não começo por mim. Começo por vocês. Obrigado
por virem. Obrigado por fazerem isto continuar.
[COMO NASCEU O BLOGUE]
O Caderno de Corda nasceu para
que eu tivesse onde deitar a palavra. Não nasceu por acaso — nasceu por
necessidade. Era o lugar onde vertia o estro: a poesia, a música, os textos, os
delírios, os silêncios. Onde me ouvia em público, onde escrevia em voz alta. Era
um gesto de exposição, sim, mas sobretudo de continuidade, memória, encontro.
Uma forma de não perder a mão, de experimentar, de dar destino à escrita que
precisava de sair. E era também, nesse tempo, um gesto com resposta.
Antes das redes sociais — antes
dos algoritmos, dos feeds, dos likes apressados — nós líamo-nos.
Procurávamo-nos nos blogues. Visitávamo-nos. Os comentários eram extensões dos
textos. As caixas de comentários eram tertúlias. As leituras eram atentas,
demoradas, pessoais. Muitos de nós tinham blogues. O Gustavo tinha o
Blogueaberto, o César tinha o E Então?, o Pimenta o Boina Frígia, o Bruno Tomás
o Página 23, o Rui Almeida ainda mantém o Poesia Distribuída na Rua, o João
Trigo escrevia no Rato do Deserto… E todos nos líamos. Havia um sentido de
comunidade, mas sem rede. Uma corrente sem algoritmo.
Não se clicava simplisticamente
num thumbs up ou num coração.
Comentava-se com neurónios e alma. E foi numa dessas caixas de comentários, em
Março de 2006, num post chamado “Exortação aos estimados leitores”, que surgiu
a ideia. O Gustavo — patrono do jantar, por direito e por provocação —
escreveu: “Eu sugiro tudo o atrás sugerido... feito à mesa! Faz um jantar, abre
as portas à mesa! Aquele Abraço.” E era o que bastava. Uma frase com vontade e
intenção, lançada no sítio certo. E de repente o blogue ganhava corpo. Saía do
ecrã. Fazia-se gesto. Fazia-se mesa. A escrita puxou-nos efetivamente e pôs-nos
frente a frente.
[COMO NASCEU O JANTAR]
E assim nasceu o jantar, numa
caixa de comentários. Uma provocação do Gustavo, no meio de outras sugestões e
apartes, e ficou dito: “Faz um jantar. Abre as portas à mesa.” E eu pensei:
“Agora é que me entalaste.” Não se mandaram convites impressos. Não se alugou
sala. Não se ponderaram menus. Disse-se apenas, com uma ponta de libertinagem:
é na Valenciana, aparece quem quiser. E o mais extraordinário é que... apareceu
gente. Alguns que liam o blogue, outros porque eram amigos. Alguns sabiam à
partida que valia a pena.
E foi-se criando ali qualquer
coisa que não tinha substantivação, mas que se sentia. Um gesto simples, ainda
sem flor, mas com raiz. E lembro-me da surpresa de perceber que aquele jantar,
nascido de um gesto tão leve, podia ser alguma coisa. Que havia ali margem para
mais do que uma noite. Não era uma ideia genial. Não era sequer uma ideia. Era
só uma mesa com gente e foi isso que a tornou capaz de se repetir.
[COMO O JANTAR EVOLUIU]
Com o passar dos anos, O Jantar
foi deixando de ser dos leitores do blogue e passou a ser, simplesmente, de
quem vinha. Vieram amigos de infância, de escola primária, secundária, de
banda, de trabalho, da faculdade… enfim, vieram os de sempre, mas também os de
longe. Veio o Corado, figura mítica de Armação de Pêra, reencontrado quase duas
décadas depois por ser Irmão próximo do Jacinto. E ficaram. Mais do que
ficaram: o Corado é hoje um Irmão de empreitadas criativas importantes, como
verão adiante. Impossível desfiar as circunstâncias e as coincidências que
indicam muito mais do que por si só já sugerem.
Há um ano juntou-se, pela
primeira vez em bloco, a geração Y da Loja Cruz Quebrada — João Carlos, André
Paiva, Bruno Tomás, Bruno Sardo, Ken e Miko —, faltando apenas o André Nobre
para completar a irmandade (ou “a máfia”). O feito foi notado, celebrado e,
como tudo o que é raro e verdadeiro, tornou-se memória viva do que aqui se
constrói. Não se tratou apenas de um reencontro, mas de um realinhamento
cósmico. Uma entrada suave e exacta na órbita da Confraria Cordiana. Vieram até
os que nem sabiam bem o que se celebrava, e ficaram também. Começou a criar-se
espontaneamente uma espécie de ritual – um ritual do bem, uma conspiração que
nunca precisa de ser dita, debatida, politizada.
Este ano, o Ricardo Pinto anulou um
concerto só para poder vir e acabou por não conseguir jantar porque A
Valenciana estava, afinal, fechada a 25 de Abril [N. do R.: data inicialmente
prevista]. A agenda estava já preenchida e hoje tem concerto marcado, razão
pela qual não se encontra presente – nem a Sofia, a Carolina e a Beatriz. Houve
o Piri, que veio do Canadá de véspera e do Porto no próprio dia, e que hoje
tornou a fazer centenas de quilómetros, se bem sei. Houve o Quim, que certa vez
chegou directamente de uma regata no Tejo e, noutra, regressou da Polónia,
creio que de véspera também. Houve o Zé Moreno, cuja presença fez parecer que
as décadas se tinham dobrado ou colapsado sobre si mesmas.
Houve o Rui Martins, também
conhecido como Fininho, que apareceu uma única vez, deixou um presente — um
disco dos Pearl Jam guardado desde 2020 — e seguiu para um concerto. Houve o
Ken, que se estreou com uma garrafa de vinho como oferenda. A querida Rute, que
pintou e me ofereceu duas telas lindíssimas, em tons que sabia favorecerem a
decoração da minha casa, e que levei para Almeirim após um jantar — telas que
hoje vivem na sala e no quarto.
Houve também o Moisés, que dormiu
então na minha casa de Lisboa e ficou até à tarde do dia seguinte, com os dedos
em sangue das cordas da guitarra e um bilhete deixado no frigorífico, escrito
com o mesmo sangue que deixara nas cordas...
E há sempre os que voltam, apesar
dos interregnos, e os que hão-de voltar, estou certo. Como o João Trigo, que já
me esperou à porta, pontual, e assegurou a receção dos primeiros confrades.
Como o João Carlos, que ora me enche os bolsos com patés, garfos e a zombaria
ritual do couvert, ora substitui o grande Kaiser nas tarefas contabilísticas —
com rigor e seriedade contrastantes. Como o Pimenta, que era para vir hoje de
Sines. Como o César da Silveira, Visconde do Reino de Maconge, que quase nunca
falta. Foi ele, aliás, quem sugeriu que o jantar começasse mais cedo, e assim
fizemos. Foi também ele que aventou a possibilidade de o jantar se realizar ao
almoço e se estender pela noite dentro. E, também, um dia assim faremos.
Mais do que isso: o César é quem,
há mais de uma década, assume o mapa e o compasso da logística — confirma
nomes, revê faturas, equilibra contas, faz os acertos, já pagou de avanço,
garante que ninguém fica em falta e que tudo bate certo no final. Se há quem
transforme o gesto em cuidado e o cuidado em permanência, é ele também.
E há os que não vieram, mas
ligaram. Os que ligam antecipadamente a perguntar: “Quando é que é o jantar?”,
ainda a data não está definida. Ou “É no sábado, não é?”. Ou os que chegam
indefetivelmente só para o abraço — como o estimado clã Franchi-Costa.
Há ainda, caso único, o José
Couto — que veio às cegas porque descobriu o blogue, o jantar, e quis juntar-se
a nós por conta própria. Sozinho, decidido, juntou-se à celebração sem convite
prévio. E connosco ficou, como se sempre aqui tivesse pertencido.
E há, sobretudo, esta coisa rara:
gente de mundos diferentes que se senta à mesma mesa e descobre afinidades que
não são óbvias, mas que são verdadeiras. Como a Ana Rangel — presença luminosa
e sincera —, que, num dos jantares, se comoveu com a alegria, emocionou-se com
a ternura dos gestos simples, com a persistência e a resistência dos
reencontros, com a amizade que ali pulsava sem artifício. Com a sensibilidade
dos raros, a Ana tornou-se também ela presença, parte integrante e testemunho.
Há afetos que tocam à flor da pele e, mais uma vez, ficam. A Ana que, pouco
depois, me convidou, como ao Trigo, à Fabi, à Patrícia e ao Rui Lisboa, que
nunca chegou a vir ao jantar, para assistirmos a uma das suas peças no Casino
de Lisboa…
O Fred, o Quim e o Sérgio Miguel,
amigos desde os três anos, podem um dia reencontrar-se aqui. O Girão e o
Corado, que nunca se haviam visto, trocavam olhares cúmplices numa madrugada já
alta. O Ricardo Pinto, o Ricardo Tomás, o Rui Pina orquestram uma sinfonia pelo
simples facto de se sentarem juntos. O Dino, o Trigo, o César e o patrono
Gustavo confirmam que o alinhamento de astros não é ocasional. Não são
coincidências.
Houve mesas onde cabia a infância
e o agora, sentados lado a lado como se nunca tivessem deixado de se ver. E
talvez não tivessem mesmo. À mesa, na Valenciana, sabemos que há futuro,
especialmente quando assistimos à formulação de novas amizades, também aqui
consolidadas, entre as novas gerações. Os filhos fazem-se amigos e honram a
amizade, o respeito e a admiração que em nós testemunham.
Com o tempo, a tradição deixou de
ser uma coisa que se fazia; passou a ser uma coisa que se esperava, e isso,
para mim, é um privilégio: ver-vos juntos. Ver-vos naturalmente misturados, sem
máscaras sufocantes. Ver-vos em casa, uns com os outros, e perceber que este
jantar, que começou como um gesto, é agora um lugar onde regressamos e onde sou
feliz. Um lugar que me dá sentido e propósito…
[O FUTURO]
Vinte anos é muito tempo.
Atravessámos pandemias, ausências, mudanças de cidade, de país, de pele. Anos
difíceis, perdas, lutos, nascimentos, cansaços. E continuamos.
Hoje, O Jantar já não é um
evento. Arrisco mesmo dizer que é mais do que o tal pretexto de que escrevo e
falo há mais de 20 anos. É um lugar. Uma casa. Uma bola Nívea. Um tempo
preservado fora do tempo, fidelidade sem contrato, sem contrapartidas. Uma forma
de permanecer inteiro diante da dispersão. Um ponto de ancoragem no calendário
mas também na memória do coração. E é por isso que, se me perguntarem o que
celebramos, a resposta não é um número, nem um blogue. É isto: este preciso
instante.
Não sei o que será o futuro d’O Jantar
ou do Caderno de Corda, que aliás se encontra censurado pelos motores de busca
– uma luta de Davi contra Golias que me encontro a travar em silêncio –, mas
sei que há um gesto, uma pulsação, uma vontade que permanece, e isso basta.
Se daqui a vinte anos ainda nos
sentarmos à mesa, talvez nem nos lembremos do que aqui foi dito, mas havemos de
reconhecer, no fundo dos nossos olhos, essa coisa antiga, íntima e fiel que não
se apaga com o tempo. Havemos de lembrar que é possível cumprir mais do que
prazos, metas e notificações ao abrigo de algoritmos e agendas que se nos
impõem, que nos cerceiam a liberdade. Havemos de lembrar que é possível viver
com encontros marcados pela memória, pelo afeto, pela absurdidade belíssima de
estarmos juntos assim — só porque sim. E sabermos – sabermos! – que a liberdade
é uma maluca que sabe o quanto vale um beijo e um abraço tão grato quanto
generoso.
Não sei o que virá, mas sei que
vem gente boa. Gente que ainda é criança e percebe que aqui há verdade. Gente
que hoje vem pela primeira vez e já pertence; gente que ainda nem sabe que virá,
mas que, quando vier, saberá que está em casa. Talvez o futuro não precise de
ser inventado. Precisa apenas de ser cuidado como uma planta que se rega, um
lugar onde se volta.
[UMA CELEBRAÇÃO QUE É DE TODOS]
E talvez seja importante dizê-lo
agora com toda a clareza: isto nunca foi sobre mim. O Caderno de Corda pode ter
começado comigo, sim, mas este jantar é de todos. Não é uma homenagem, não é um
palco, já nem é um pretexto. É pertença.
Sempre hesitei em impor ou trazer
para aqui criações que se sobrepusessem ao nosso encontro com receio de que se
confundissem com alguma forma de promoção pessoal ou artística, ainda que em
tal não veja necessariamente um problema. Hoje reconheço o que sempre foi
evidente: o jantar nunca foi vitrina, foi sempre oficina.
Por vezes testei aqui ideias, pus
versos à prova, experimentei leituras, criei vídeos caseiros com música
original, convidei-vos a escolherem versos ao acaso para formar poemas novos
comemorativos. Foi aqui que alguns de vocês deram voz a palavras e versos
sorteados que eu nunca disse, e o destino encarregou-se de que tudo fizesse,
ainda assim, sentido.
O jantar não foi, na verdade,
apenas lugar de encontro: foi um modo quase secreto e íntimo de manter viva a
obra. É por isso que vos mostro hoje o que aí vem, mas não como apresentação. O
que se segue é um gesto de devolução. É o que realmente posso e sei dar em
troca do que me têm dado.
Tudo o que vos trago esta noite —
os vídeos, o vislumbre de um disco-livro que também nos retrata, as palavras
que ainda estão por vir — não são para vos convencer de nada: são para vos
agradecer tudo. Vocês são o primeiro público. O cúmplice. O mais atento. O mais
fiel, mas, sobretudo, os destinatários em quem penso quando crio. São o público
que sente, que sabe, que esteve — desde sempre, e antes até. Partilhar aqui,
primeiro aqui, é uma forma de continuar a viagem convosco. Não sozinho. Nunca
seria capaz sozinho.
Porque se há ainda estrada para
andar, e se há voz e ideias para cantar, compor ou escrever, começam hoje, aqui.
Agora, com vossa licença — e com a alegria genuína de quem vos considera casa —,
convido-vos a assistir ao que preparei com cuidado, entrega e, tanto quanto me
foi possível, amor… e uma pitada de humor.
- * -
Depois do discurso, a noite
prolongou-se em imagens. Revisitámos, em sucessão, os vídeos comemorativos dos
jantares dos últimos anos — fragmentos de memória que, justapostos, nos fizeram
mais uma vez sentir estarmos no sítio certo à hora certa e, nesse mesmo fio de
continuidade, sedimentaram outros sinais…
Registos ainda não partilhados,
mostrados pela primeira vez em círculo fechado, deixaram entrever uma obra em
curso, uma travessia longa, feita de palavra, música e memória, que fecha também
um ciclo de duas décadas e se projecta no futuro. Não se disse tudo, não era
esse o propósito, mas ficou no ar a evidência de que a obra do devir ainda é
nossa.
À data de publicação deste texto,
e já na proximidade de um novo aniversário do Caderno de Corda, encontra-se
ainda por definir a data de realização do próximo Jantar, que assinalará os 21
anos. A decisão será tomada em breve, em concertação entre o Estado-Maior
Cordiano, procurando a data mais consensual — previsivelmente em Abril ou até
Maio. Seguir-se-á, como é tradição, a respectiva convocatória.
Registo de presenças na excepcional ausência de foto de grupo
Como já referido, não havendo
registo fotográfico de grupo nesta edição — facto inédito em duas décadas de
Jantares Cordianos —, fica consignada para memória futura a lista de estimadas consorores
e prezados confrades presentes à mesa:
Hugo Passos (Ken), Hugo Dantas,
Rui Almeida, Miguel Barreiros Lopes (Miko), João Carlos Graça, André Nobre,
André Paiva, Ricardo Tomás, Frederico Cruzeiro Costa, Miguel Pereira, Pedro
Farinha (Piri), João Trigo, Nuno “Corado” Quaresma, Rui Jacinto (Jason), César
da Silveira, Sara Matos, Carlota Amaral, Fabrícia Pereira, Hugo Simões e Rosarinho.
Na antecâmara d’O Jantar, o Clã
Franchi-Costa (Rita Franchi, Rui Pedro Costa, Leonor Costa e Matilde Costa) veio,
como é há muito tradição, para nos dar o prazer da sua companhia, assim como os
Irmãos Joaquim Barbosa e Ricardo Pinto, e as há muito desejadas consorores Anabela
Semedo (Belinha) e Gabriela Semedo. O Rui Pina surgiu no final, após o repasto, mas a tempo do convívio.
🚫 CENSURA DIGITAL — ARQUIVO DO BLOGUE CADERNO DE CORDA
Desde 2005, o Caderno de Corda publicou mais de 1500 textos - alguns literários e ensaísticos, canções, deambulações mais ou menos imberbes, textos jornalísticos, baboseiras atrevidas, memórias... Durante largos anos, esta casa foi regularmente indexada nos motores de busca, citada por sites e blogues, partilhada, lida, referenciada. Era visível. Existia. As suas palavras existiam.
Paulatinamente, e em especial ao longo da última década, algo mudou drasticamente. A presença do blogue desapareceu dos resultados do Google. Foi desindexado. Silenciado. Tornado invisível.
As ferramentas do próprio Google deixaram de reconhecer o conteúdo. Os sitemaps deixaram de ser lidos. Os backlinks desapareceram. As tentativas menos avisadas de reintegração têm sido bloqueadas. As pesquisas mostram resultados residuais e inócuos — como se o blogue nunca tivesse existido. Após levantamento crítico e técnico minucioso, acreditamos estar perante um caso de apagamento sistemático e intencional.
Este post é um gesto técnico, mas também político. É um manifesto profundamente indignado, ainda que sintético. Uma recusa em aceitar que duas décadas de escrita e pensamento possam ser varridas do espaço público digital. Mesmo que apenas por desactualização tecnológica do template, por ausência de meta-informação moderna, por inatividade percebida, por falta de HTTPS ou “sinais errados” transmitidos ao algoritmo.
📌 O QUE ESTÁ A VER AQUI?
Para tentar forçar a reindexação, reunimos abaixo todos os arquivos mensais do blogue, de março de 2005 a abril de 2025 — um a um, mês a mês. São, à data de publicação, 153 meses publicados, listados com os seus links directos. A cada um será solicitado manualmente o pedido de indexação. Mas o esforço não é apenas técnico. É simbólico. É resistência.
📣 PORQUE ESTE POST É UM ACTO PÚBLICO NECESSÁRIO
É temporário, técnico, mas é também um acto de resistência e memória. Cada clique nestes arquivos é uma recusa ao esquecimento e à tirania dos tempos modernos. Uma forma de contrariar a censura invisível que apaga conteúdo legítimo, jornalístico, literário, pacífico, crítico.
Não somos de certezas absolutas, mas os indícios acumulados apontam para um apagamento digital sistemático e politicamente orientado. O blogue Caderno de Corda abordou em tempos muitos temas sensíveis. Tocou onde não devia tocar. Fez perguntas incómodas. Mencionou nomes. Reivindicou memória. Foi sendo silenciado.
Não é um pedido. É uma ação consciente. Este post foi criado para contrariar o apagamento de quase duas décadas de escrita — especialmente de textos poéticos, literários, jornalísticos, ensaísticos, críticos, de memória e intervenção.
Abaixo encontram-se os links diretos para os 153 arquivos mensais do blogue, de Março de 2005 a Abril de 2025. O que se pode fazer com eles?
👉 Aceder;
👉 Explorar;
👉 Clicar aqui e ali;
👉 Reenviar ou partilhar um post especial, uma memória, um poema, uma canção... (os posts publicados no Caderno de Corda são os textos originais, publicados na hora, sem a devida edição e reescrição dos poemas publicados em livro);
👉 Forçar o Google a admitir que o Caderno de Corda existe, que está vivo, que merece ser visível.
Cada clique sinaliza que o conteúdo é procurado, lido, legítimo. Este é um modo simples de contrariar o apagamento digital — forma de censura implacável e sofisticada como nunca. As estimadas leitoras e os estimados leitores não têm de fazer nada. Mas podem escolher resistir connosco.
AVISO: Data d'O Jantar (Anno XX) remarcada para 24 de Maio de 2025
AVISO: A data originalmente prevista (25 de Abril) foi remarcada para 24 de Maio por motivo de encerramento do restaurante no Dia da Liberdade.
O Jantar realizar-se-á no sítio do costume. Haverá muitas surpresas e novidades, neste que se espera ser o mais retumbante repasto até à data. Como é sabido, o aniversário comemora-se de 26 para 27 de Março (data do aniversário do blogue), mas vem sendo já hábito concretizá-lo em data posterior, de modo a favorecer a comparência do maior número de confrades cordianos. A participação é livre e especialmente dedicada aos indefectíveis Irmãos cordianos e estimados leitores. Como nos últimos três anos, O Jantar será novamente iniciado mais cedo do que é costume, por volta das 18h30 horas. Tragam um Amigo também.
20 anos de Caderno de Corda e a convocatória d'O Jantar!
Celebramos hoje os 20 anos de existência do Caderno de Corda com a divulgação do link para as fotos d'O Jantar do ano transacto (AQUI) e a convocatória para o repasto deste ano, que se realiza a 25 de Abril de 2025, no sítio do costume, em dia absoluto de festa. O rendez-vous está previsto acontecer no alto do Parque Eduardo VII, entre as imponentes colunas imperiais dos anos 50, da autoria de Keil do Amaral, junto à afamada obra do escultor João Cutileiro. Como é sabido, o aniversário comemora-se hoje (27 de Março), mas vem sendo já hábito concretizá-lo em data posterior, de modo a favorecer a comparência do maior número de confrades cordianos. Tragam um Amigo também.
N.B. - A data originalmente prevista (25 de Abril) foi posteriormente remarcada para 24 de Maio por motivo de encerramento do restaurante no Dia da Liberdade.
O Caderno de Corda cumpriu 19 anos em 2024 e cumprimo-los também nós, uma vez mais, à mesa, num ritual de fraternidade e memória. O Jantar aconteceu a 12 de Abril de 2024, como sempre no restaurante A Valenciana, pela quarta vez em data posterior à data tradicional (de 26 para 27 de Março), evitando o período de férias da Páscoa e garantindo a adesão do maior número de Confrades Cordianos. A escolha revelou-se acertada, como verificado pelo número recorde de presenças: 33 no total — 32 à mesa e um visitante preambular, Rui Martins (Fininho), que apareceu no rendez-vous e seguiu caminho para assistir a um concerto, mas não sem antes deixar comigo um presente de inestimável simbolismo: o disco “Gigaton”, dos Pearl Jam, lançado precisamente a 27 de março de 2020, data do aniversário do Caderno de Corda – disco que o Rui guardara na data de lançamento para, com efeitos pandémicos pelo meio, me dar antes tarde que nunca. Regista-se a importante oferta e o quase baptismo do Rui na liturgia cordiana. Mas as oferendas ao Vosso fiel escriba não se quedaram por aqui. O debutante Hugo Passos (Ken) marcou também a sua estreia com o mimo de uma garrafa de vinho tinto à chegada - lembrança significativa que merece uma nota de especial e sentido agradecimento.
Este ano há subtextos por (quase) desvelar. No passado recente, justificou-se o abrandamento das publicações no blogue com a empreitada de um romance distópico, um projeto de grande fôlego e escala que monopolizou milhares de horas livres. Mas, como os tempos, os ventos mudam e, como as palavras, adquirem novos significados, seguem novos fluxos e novos trilhos semióticos. O romance repousa com terra à vista e a atenção volta-se para a consubstanciação de um foco renovado que em 2025 se revelará. O Caderno de Corda está em marcha e o que aí vem não se cinge à celebração de um número redondo. Há algo mais. Algo que cresce e transborda…
Como sabemos e vimos sempre aprendendo, também a Amizade é transbordante, exponencial e contagiosa — prova disso são @s sublimes estreantes definitivamente incorporad@s na Confraria Cordiana. Nove debutantes tiveram assento à mesa em 2024 e, como é nosso apanágio, uma vez da Confraria, sempre da Confraria. Entre @s recém-chegad@s, destacam-se quatro infantas e infantes cordian@s, responsáveis pelo significativo e desejável decréscimo da média etária do grupo, garantindo que o futuro da Confraria se inscreve na nova geração: Isaac Graça, Beatriz Paiva, David Pina e Rafael Nunes, dignos titulares das insígnias de Infantes da Cordialidade.
Aos restantes (e insignes) estreantes — Sandra Rodríguez, Pedro Sequeira, José Manuel Couto, Hugo Passos e Miguel Barreiros Lopes (Miko) —, a certeza de que os regressos são esperados e os encontros são perenes, prolongando-se noutras mesas e noutras horas, mas sobretudo na memória do coração. Uma nota para a participação espontânea de José Manuel Couto, que, tendo ligações à Cruz Quebrada, tomou conhecimento do Caderno de Corda e d’O Jantar no ciberespaço e quis, de livre e independente vontade, partilhar connosco a companhia, histórias e a mesa. Mais uma honraria para o Caderno de Corda, que assim cumpre um dos seus primordiais desígnios: estabelecer pontes tangíveis para lá do algoritmo e do éter.
O peso da Loja Cruz Quebrada fez-se sentir sobremaneira, destacando-se a presença fortíssima da geração Y, com João Carlos, André Paiva, Bruno Tomás, Bruno Sardo e os recém-chegados Ken e Miko, faltando apenas o André Nobre para, pela primeira vez, reunir em bloco a Fraternitas CQY. Apesar da menor afluência da Loja Salesiana nesta edição d’O Jantar, a força dos cruz-quebradenses compensou e excedeu expectativas. Muitos dos salesianos, como globetrotters que são, espalharam-se pelo País e pelo mundo nesta data — ausências que foram notadas e sentidas.
Este foi também um Jantar marcado pela extraordinária ausência do Grão-Mestre Cordiano, Visconde do Reino de Maconge, Magnífico Provedor do Tesouro e Supremo Jurisconsulto César da Silveira, que tradicionalmente assume o exercício da verificação, consolidação e regularização das obrigações pecuniárias inerentes ao encerramento financeiro d’O Jantar, compreendendo o minucioso apuramento das despesas globais, a equitativa distribuição das responsabilidades contributivas dos convivas, a subsequente arrecadação dos montantes devidos e a aferição final da conformidade do saldo de contas, garantindo a plena solvência e a exatidão dos lançamentos, preservando ainda a dignidade e a integridade fiscal do conclave. Mesmo não estando, o Kaiser, habitual titular absoluto, merecia este parágrafo…
Mas a Confraria é caudalosa como o Tejo e, à bolina, o Grão-Mestre e Grande Inspector Cuteleiro João Carlos Graça tomou o leme de roda da tesouraria com inexcedível eficiência e visão organizativa, destacando ao serviço os Infantes na recolha de nomes para conferência da fatura final. A turma dos digestivos, como de costume, chegou-se à frente para os ajustes necessários e ficaram mais uma vez confirmadas as vantagens do banquete face ao consumo à carta – o banquete é mais farto, mais simples, mais certo e acaba mesmo por ficar mais em conta. Tudo correu bem assim.
Quanto a esta crónica, escrita e publicada tardiamente, deixada a marinar ao limite do aceitável, peca pela delonga mas também pela inevitável fragmentação da memória, no entanto preservada pelo registo fotográfico. Foi, aliás, devido ao grande investimento de tempo no trabalho e nos projectos em curso, e porque, fazendo jus aos anos recentes, a crónica d’O Jantar vem sendo acompanhada de um vídeo comemorativo, que a publicação se atrasou tanto. Na iminência do vigésimo aniversário do blogue, urgia publicar, quanto mais não fosse a crónica e as fotos, mas o advento das ferramentas de modelação de imagens com base em inteligência artificial espicaçou novas ideias.
Assim se produziu, ao som de “Silêncio (Estamos no Ar)”, o vídeo d'O Jantar comemorativo do 19.º aniversário do Caderno de Corda, que deve a sua existência, em grande medida, à presença devotada do Grão-Mestre, Guardião do Tombo e Venerável Cavaleiro Prismático Ricardo Pinto, cuja objectiva regista proverbialmente o evento. Todas as imagens resultam de fotos não editadas, algumas das quais foram posteriormente trabalhadas na plataforma Runway ML, aplicada à criação de vídeos com ferramentas baseadas em IA generativa. A edição foi realizada e concluída no software Movie Studio 15. De referir que as fotos serão publicadas brevemente nas páginas Facebook de Davi Reis (poesia e música) e do Caderno de Corda.
Ao décimo nono ano, lançando-se sobre fundações sólidas na antecâmara dos vinte anos, O Jantar reafirma-se como eixo de alinhamento que assegura um lugar e um tempo próprios, sempre inclusivos e exclusivos, abertos e livres para ser, estar, partilhar, comungar, recordar e reinventar. A cada ano a mesa cresce e a amizade expande-se por gerações numa espiral de continuidade. E porque a Amizade não desiste, o Caderno de Corda não verga e há muita estrada para andar, ficam suspensas no fino ar novidades para 2025, ano em que o Caderno de Corda celebra duas décadas de existência e pretende festejar como nunca. E há mais, algo que cresce no horizonte e se insinua nas entrelinhas. Algo que em breve terá nome, som, visão, alma e forma. O que será, a seu tempo.
Até lá, sigamos caminho.
No mesmo sítio, à mesma hora, previsivelmente em Abril.
Legenda aleatória: Hugo Dantas, Bruno Sardo, Hugo Simões, Pedro Sequeira, Bruno Tomás, João Trigo, Sara Matos, Carlota Amaral, João Graça, Isaac Graça, André Paiva, Beatriz Paiva, José Moreno, Ricardo Pinto, Sofia Damião, Beatriz Damião Pinto, Carolina Pinto, Rita Franchi, Rui Pedro Costa, Leonor Costa, Matilde Costa, Carlos Nunes, Rafael Nunes, José Manuel Couto, Hugo Passos (Ken), Miguel Barreiros Lopes (Miko) e Rui Jacinto. Os comensais Rui Pina, Sandra Rodríguez, David Pina, Ricardo Tomás e Rute Ferreira já se haviam ausentado à hora da foto de grupo. O Clã Franchi-Costa veio, como é já tradição, para nos dar o prazer da sua companhia. Um especial Abraço às Consorores e aos Confrades que não puderam marcar presença, mas que estiveram no nosso pensamento. E a foto emoldurada, de bónus:
Davi Reis é o pseudónimo artístico de Hugo Simões (n. 1978), criador multifacetado que desbrava os horizontes da música e da palavra. Guitarrista da extinta banda lisboeta Baby Jane e autor de dois livros de poesia e do muito aguardado disco-livro "Avançado Estado de Composição", faz da criação espelho da vida – e da vida acto de criação.