Emissão. Imagem gerada por inteligência artificial (Sora) a partir do poema beat homónimo de Jeremias Cabrita da Silva.terça-feira, janeiro 27, 2026
Emissão. Imagem gerada por inteligência artificial (Sora) a partir do poema beat homónimo de Jeremias Cabrita da Silva.Emissão
Boa noite, estas são as notícias que marcam a actualidade.
[SINAL HORÁRIO]
[VINHETA DE ABERTURA]
Abrimos com acontecimentos de gravidade variável,
normalizados segundo critérios editoriais prioritários.
No Paquistão, um descarrilamento fez mais de cem mortos.
Sem imagens disponíveis, a emissão segue
para Trás-os-Montes, no Norte do País,
onde uma família de três foi encontrada morta.
A causa: asfixia por monóxido de carbono,
após aquecimento do quarto com um fogareiro.
O episódio ocorreu durante o sono, em vésperas de Natal.
Trinta e três, vinte e nove e quatro anos.
Ambos os progenitores tinham emprego.
Em clima de festa, multiplicam-se os preparativos da época.
Começam a chegar às mesas os sabores tradicionais
e as campanhas de Natal arrancam com previsões otimistas,
apesar da acentuada subida de preços.
O recurso ao crédito continua a aumentar entre os
portugueses.
O endividamento das famílias atingiu níveis recorde.
[EXCERTO – ESPECIALISTA EM FINANÇAS PESSOAIS]
«É importante que se façam escolhas responsáveis.
O crédito deve ser usado apenas em situações de absoluta
necessidade,
sob pena de comprometer o equilíbrio financeiro dos
agregados.»
[EXCERTO – CONSULTOR FINANCEIRO]
«Cada pessoa deve conhecer os seus limites.
Muitas situações de endividamento resultam de impulsos e decisões
mal planeadas.»
No Médio Oriente prosseguem os confrontos.
Durante a madrugada registaram-se novos bombardeamentos.
Não há, para já, confirmação do número de vítimas.
A situação mantém-se em desenvolvimento.
[ZAPPING]
A situação em desenvolvimento…
zap
… acompanhamento dos acontecimentos.
zap
… do desenvolvimento dos acontecimentos…
zap
Acontecimentos em acompanhamento.
zap
O desenvolvimento da situação…
zap
… situação.
zap
Acontecimentos.
zap
… em desenvolvimento.
zap
… anhamento dos acontecimentos.
[INTERVALO]
Este é o momento de fazer escolhas certas.
Escolher bem faz a diferença.
Planeie. Priorize. Controle.
Soluções simples para o seu dia a dia.
Opções pensadas para famílias responsáveis.
Pagamentos ajustados à sua realidade.
Sem excessos. Sem surpresas.
[EMISSÃO EM ESTÚDIO]
Retomamos a emissão.
Registou-se hoje a morte de uma criança
na sequência de um acidente doméstico.
As autoridades falam em «fatalidade».
Uma “fatalidade” evitável…
Os indicadores económicos revelam sinais de crescimento moderado,
num contexto ainda marcado pela incerteza dos mercados.
Verifica-se a recuperação gradual de alguns sectores produtivos,
apesar das pressões externas e do aumento dos custos.
O mercado de trabalho mantém-se em evolução positiva,
com níveis elevados de emprego e aumento da população ativa.
Persistem, no entanto, constrangimentos no rendimento
disponível.
Os salários continuam a não acompanhar o aumento do custo de
vida.
No plano político, o Governo reafirma compromissos
com a estabilidade e com o cumprimento de metas.
As autoridades sublinham que o atual contexto exige realismo
e decisões responsáveis pela continuidade das políticas
adoptadas.
O Governo admite dificuldades causadas pelo cenário
internacional,
mas garante que os sacrifícios são necessários
para assegurar a confiança externa
e a sustentabilidade do País a médio prazo.
No plano internacional, a instabilidade mantém-se
com o agravamento de conflitos em várias regiões.
As autoridades alertam para um contexto geopolítico
imprevisível,
marcado por tensões persistentes e riscos acrescidos para a
segurança.
Perante a escalada de tensões, é considerada inevitável
a necessidade de reforço dos meios de defesa
e do investimento em dispositivos de segurança e áreas estratégicas.
Os mercados mantiveram uma trajetória positiva,
com valorização generalizada dos principais índices.
O desempenho reflete a confiança na solidez do sistema
e na sua continuidade operacional.
Os analistas sublinham a normalização de um panorama exigente
e a absorção das tensões em curso,
afastando receios imediatos quanto à estabilidade
dos ganhos das principais praças e dos investidores.
Para já, não são identificados riscos relevantes
para o funcionamento do sistema monetário.
Um novo indicador pretende medir, num só número, o estado
geral do mundo,
cruzando dimensões económicas, sociais e geopolíticas.
Crescimento económico, rendimento disponível,
níveis de emprego, acesso à habitação, estabilidade
política,
conflitos armados, investimento em defesa,
confiança dos mercados e perceção de risco social,
bem como a evolução dos grandes fluxos financeiros
e do património concentrado nos principais centros de
decisão.
Tudo reduzido a um único índice.
De acordo com os chamados “arquitetos” da tecnologia,
a criação de um indicador único permite organizar a leitura
de um cenário marcado por múltiplas variáveis simultâneas,
convertendo complexidade em síntese,
apesar da deterioração das condições de vida
em amplos segmentos da população mundial.
A simplificação é apresentada como condição necessária
para apoiar decisões, definir prioridades
e manter a coerência do sistema,
em contextos de elevada complexidade.
Os dados apurados situam-se, assim,
dentro de parâmetros considerados aceitáveis.
Não são identificados riscos sistémicos imediatos
para o funcionamento global do sistema
nem sinais de rutura estrutural,
e o resultado reflete ganhos consistentes nos principais
mercados,
níveis elevados de rentabilidade no topo da cadeia
económica,
forte valorização dos grandes patrimónios,
fluxos financeiros estáveis,
capacidade de absorção de choques
e margens de ajustamento ainda disponíveis.
Apesar da redução do poder de compra,
da compressão salarial,
do agravamento do custo da habitação,
da generalização da precariedade,
do aumento do número de trabalhadores pobres,
da intensificação dos conflitos armados,
do alargamento das zonas de exclusão,
da normalização da desigualdade como condição de
funcionamento.
No conjunto, o indicador aponta para um cenário global funcional.
O rating
“suficiente” valida a continuidade do modelo vigente.
[PAUSA PROLONGADA]
Os dados foram hoje apresentados
num relatório conjunto das entidades competentes,
que sublinham a robustez dos mecanismos de monitorização
e a capacidade de resposta do sistema
a cenários adversos de elevada pressão.
[SUOR VISÍVEL]
O documento destaca ainda a importância de mentir
— de manter, aliás —
uma leitura integrada dos fenómenos em curso,
evitando alarmismos
e interpretações precipitadas.
[AJUSTA A GRAVATA]
As conclusões apontam para a necessidade de continuar
a acompanhar a evolução da situação,
com especial atenção aos indicadores-chave
definidos pelas instâncias de regulação.
O relatório refere que a estabilidade observada
assenta num conjunto articulado de mecanismos técnicos,
processos de correção contínua
e medidas de contenção sucessivas,
aplicadas em diferentes planos de atuação.
A análise integrada dos dados
aponta para a necessidade de prudência,
de continuidade estratégica
e de confiança nos instrumentos existentes,
considerados adequados
para responder a flutuações prolongadas
em contextos de elevada pressão.
[OLHA PARA BAIXO]
No plano nacional, gerou polémica uma intervenção do
Ministro da Educação,
ao afirmar que residências universitárias ocupadas
maioritariamente
por alunos de rendimentos mais baixos
tendem a degradar-se mais rapidamente,
por falta de conservação adequada.
Segundo o governante,
«quando os serviços públicos são utilizados apenas pelos
mais pobres,
acabam por se degradar».
[PAUSA BREVE]
Organizações de estudantes e sindicatos reagiram às
declarações,
classificando-as como estigmatizantes
e acusando o Governo de associar pobreza
à degradação dos serviços públicos.
Dados hoje divulgados indicam que uma parte significativa
dos trabalhadores em Portugal permanece em risco de pobreza,
apesar de exercer atividade profissional.
Os números confirmam que o emprego, por si só,
já não assegura condições mínimas de vida digna.
O rendimento do trabalho revela-se insuficiente
para responder ao aumento dos custos essenciais,
com destaque para a habitação, a alimentação e a energia.
A estatística aponta para um crescimento sustentado
do número de trabalhadores pobres,
num contexto de emprego elevado
e atividade económica regular.
[PAUSA PROLONGADA]
Dados divulgados esta semana indicam um crescimento
expressivo
do património dos grandes grupos económicos
e das grandes fortunas.
[AJUSTA A GRAVATA — NÃO CONSEGUE]
Os números apontam para ganhos acumulados
na ordem de dezenas de milhares de milhões,
concentrados num número cada vez mais reduzido de titulares,
num contexto de valorização acelerada de ativos financeiros
e reforço da rentabilidade do capital.
[RESPIRA FUNDO]
O relatório refere que a criação de riqueza
se mantém robusta nos estratos superiores,
com aumento significativo dos dividendos,
da capitalização bolsista
e da valorização dos grandes patrimónios.
[AJUSTA A GRAVATA — MAIS RÁPIDO]
A análise sublinha que a evolução
não constitui um desvio,
mas uma consequência direta
do normal funcionamento do modelo económico,
considerado eficiente na geração de valor
e na maximização de retornos.
No desporto, o Benfica venceu esta noite por três bolas a
zero
em jogo a contar para a Liga dos Campeões.
A equipa apresentou-se segura,
com domínio claro ao longo dos noventa minutos
e eficácia no momento decisivo.
Com estes três pontos, as águias mantêm-se
na luta pelo apuramento directo,
alimentando as expectativas dos adeptos
de um grande Benfica europeu.
Milhares celebraram a vitória
em vários pontos do País.
Para amanhã, o Instituto Português do Mar e da Atmosfera
prevê
céu geralmente nublado,
com períodos de chuva fraca no litoral norte e centro.
A temperatura mínima deverá descer ligeiramente,
com formação de geada em algumas regiões do interior.
[BREVE PAUSA]
As temperaturas…
as temperaturas máximas…
[CORRIGE]
As temperaturas mínimas deverão registar
uma ligeira descida.
[RESPIRA FUNDO]
O frio intensifica-se sobretudo durante a noite,
com especial impacto nas zonas mais vulneráveis.
[REAJUSTA A GRAVATA]
No interior,
as mínimas poderão atingir valores próximos de zero.
[SILÊNCIO CURTO]
No litoral, o vento soprará fraco a moderado,
rodando para norte ao longo do dia.
No interior, o frio será mais intenso durante a madrugada,
com descida acentuada das temperaturas mínimas.
[PAUSA BREVE]
As autoridades recomendam
especial atenção aos grupos mais sensíveis,
nomeadamente crianças, idosos
e pessoas em situação de vulnerabilidade.
[ALARGA O NÓ DA GRAVATA]
Aconselha-se o reforço do aquecimento
e a adoção de comportamentos preventivos,
de forma a evitar riscos desnecessários.
[OLHA PARA O TELEPONTO]
O frio vai provocar
— poderá provocar —
[PIGARREIA]
constrangimentos
a populações mais expostas.
[INSPIRA, FECHA OS OLHOS]
Populações mais expostas
a habitações mal isoladas,
a soluções de aquecimento improvisadas,
a rendimentos insuficientes.
Demasiado expostas
para responder
às condições climatéricas adversas.
[OLHA PARA O TELEPONTO]
As autoridades recomendam
a adoção de medidas preventivas
em períodos de frio intenso.
[PAUSA]
Medidas preventivas.
[CORRIGE]
Medidas adequadas
para evitar riscos evitáveis.
[SILÊNCIO CURTO]
Riscos evitáveis.
[REAJUSTA A GRAVATA]
Sempre que possível.
[VOZ NA ESCUTA]
— mantém-te no texto! —
[PAUSA. INDICAÇÃO DA RÉGIE]
Prosseguimos.
[OLHA PARA O TELEPONTO]
Prosseguimos com dados
e mortes. Números. Mercados.
Com frio. Com trabalho.
Com índices que sobem
e corpos que adormecem a morte.
Com crescimento moderado,
risco controlado e pobreza funcional.
Pobreza emocional.
Com emprego elevado
e vidas curtas.
Com previsões otimistas e noites geladas.
Com confiança dos mercados e fogareiros acesos.
Com estabilidade. Com esforço necessário.
Com gráficos verdes e quartos viciados.
Com rentabilidade robusta e respirações contadas.
Com rating suficiente.
Suficiente.
[PAUSA]
O fogareiro custava menos
do que um bilhete para o jogo.
No estádio há aquecimento.
No salário, contenção.
Mais golo, menos golo,
expropriam-se milionários;
redistribuem-se os salários.
Respira-se no quarto.
[VOZ NA ESCUTA]
— fecha com o Natal! —
[ENTREDENTES]
Ignorance is bliss…
[OLHA PARA O TELEPONTO]
Aproveitamos para desejar
a todos os telespectadores
um Natal…
[PAUSA]
feliz,
[RESPIRA FUNDO]
com saúde.
[VOZ NA ESCUTA]
— segue, segue —
[ATRASO DE SOM]
A emissão…
[GLITCH]
prossegue.
[OLHA PARA A CÂMARA]
Não mostramos tudo.
[PAUSA CURTA]
Não é por falta de imagens.
[SILÊNCIO]
Há imagens.
Há sempre imagens.
[CLOSE UP LIGEIRO]
Não passam porque não passam no crivo.
Não passam no alinhamento.
Não passam porque não cabem no tempo.
Não passam porque não fazem raccord;
não servem o enquadramento.
[PIGARREIA]
Não passam porque perturbam.
[VOZ MAIS BAIXA]
Porque fazem perguntas erradas.
Porque apontam para cima.
Porque não terminam onde devem.
[VOZ NA ESCUTA]
— mantém-te no texto —
— não é por aí —
— fecha —
— estamos no ar —
[SILÊNCIO MAIS LONGO]
O critério chama-se interesse.
Interesse editorial.
Interesse estratégico.
Interesse comercial.
Assim:
o que mantém a confiança, fica.
o que ameaça a confiança, sai.
Confiança de quem paga.
De quem investe.
De quem decide.
[OLHA PARA BAIXO]
Confiança dos mercados.
Confiança dos anunciantes.
Confiança do sistema.
[PAUSA]
Não é censura.
É curadoria.
[PEQUENO RISO SECO — SEM HUMOR]
Escolhemos o sofrimento legível.
O sofrimento distante.
O sofrimento sem nome.
Cortamos o resto.
[VOZ TRÉMULA]
Cortamos quando o corpo é demasiado próximo.
Quando a criança tem o rosto de um anjo.
Quando o sangue se confunde com o grafismo.
[PAUSA]
Eu li os cortes.
Respeitei os tempos.
Obedeci aos sinais no ouvido.
[VOZ NA ESCUTA — DISTANTE]
— volta ao texto! —
[IGNORA]
Durante anos. Décadas.
[SILÊNCIO]
Eu disse:
«Não há confirmação independente.»
«As imagens são fortes.»
«Não podemos mostrar.»
[ENGOLE EM SECO]
Disse eu.
[PAUSA PROLONGADA]
Perdão.
Não por errar.
Por saber.
[SILÊNCIO ABSOLUTO NO ESTÚDIO E NA RÉGIE]
Eu também calo e como.
[OLHA FIXAMENTE PARA UM MONITOR FORA DE CÂMARA]
Mas eu vejo.
Vejo a criança com as unhas sujas de fezes.
Vejo o quarto enegrecido do fogo.
Vejo o fogareiro: três brasas pequenas, culpa inteira;
mãos cheias de nada ao passar dos meses;
a mágoa de um pai que o foi até à madrugada.
Vejo o papel de parede a descascar.
Um mapa gasto de Trás-os-Montes,
dobrado pela humidade e pelo frio.
Por baixo, um calendário antigo:
Dezembro.
Natal circulado a lápis de cera.
[SILÊNCIO PROLONGADO]
[RESPIRA FUNDO. A CÂMARA PERMANECE FIXA]
Vejo o índice subir em flecha
cravada no peito do pai.
Ficou no chão, embalado
numa siesta de
ratings,
colado à fuligem da cozinha,
entre um suspiro e um ai
de morte suficiente.
Vejo o mofo escalar o papel de parede,
um mapa fumado,
um enchido transmontano,
um gráfico, uma malha, uma rede
na garganta do filho.
O mesmo molde, o mesmo fungo,
o mesmo bafio sombreado a verde
nas estatísticas do frio.
[PAUSA. BIP DESFASADO]
Vejo o cão à porta.
Uma, duas, três almas
irrompem pelas fissuras do telhado
como nuvens de vapor;
curvas verdes no ecrã,
de subtil gás a entrar; ar a sair
no noticiário das oito.
Sobe o lucro. Desce o oxigénio.
[BIP IRREGULAR. ESTÁTICA. RUÍDO ELETROACÚSTICO. VOZ NA
ESCUTA]
— … estamos no ar, porra!… –
[SEGURA UMA CANETA COMO UM OSSO CONTUNDENTE. A CÂMARA TREME]
O ar do estúdio, climatizado,
cheira a contrato a prazo,
monóxido de carbono,
Inverno isolado a fita,
números, poeira, chumbo,
silêncio e asfixia.
O ar não é neutro.
Cheira a Trás-os-Montes
e soa à mesma sentença,
ao mesmo relatório.
Vejo o frio a entrar
pelo fio das janelas
e o ecrã a sorrir com os meus olhos
no quarto onde morriam crianças.
Eu a transitar de notícia em notícia
para a vitória do Benfica.
Eu sorria.
S
o
r
r
i
a
[RESPIRAÇÃO. O SOM DO PRÓPRIO PEITO]
Estamos todos no mesmo quarto.
Uns à janela. Outros à porta.
Sentimos o frio algorítmico
das coisas certas como o destino
– as conta de gás, água e luz
num prosema sísmico, assassino,
escrito sob um vão de porta
(de preferência em parede mestra).
Vejo o frio a violar o fio das janelas.
É o suficiente. Su-fi-ci-en-te.
A morte é certa.
[INTERFERÊNCIA. ZOOMS INDECISOS. VOZ NA ESCUTA]
— … chega! –
[SILÊNCIO TOTAL]
[PIXELIZAÇÃO. ECRÃ PRETO. 16 LONGOS SEGUNDOS]
[GLITCH TÉCNICO. IMAGEM RECOMPÕE-SE. O MESMO CENÁRIO. A
MESMA MESA.
UM LOCUTOR ESTREANTE LÊ EM TOM PROFISSIONAL]
Atenção às populações mais vulneráveis:
idosos, crianças,
trabalhadores em situação precária.
Recomenda-se
que mantenham a casa aquecida,
sempre que possível.
Deve evitar-se a utilização de fogareiros,
braseiras ou quaisquer equipamentos
de combustão desprotegida
em espaços mal ventilados,
de modo a prevenir a acumulação
de monóxido de carbono.
Sempre que possível.
[PAUSA CLÍNICA DE DOIS SEGUNDOS. OLHA DIRETO PARA A CÂMARA]
[A IMAGEM DO ECRÃ DE FUNDO DO ESTÚDIO MUDA SUBITAMENTE PARA
O FOTOGRAMA DE UM CALENDÁRIO COM O NATAL RISCADO A LÁPIS DE CERA]
Boa noite. Feliz Natal.
[VINHETA DE ENCERRAMENTO]
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quinta-feira, dezembro 11, 2025
Epigramas da Razão. Imagem gerada por inteligência artificial (Sora) a partir do tríptico homónimo de Jeremias Cabrita da Silva.
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terça-feira, dezembro 09, 2025
Epigramas da Ordem
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sábado, novembro 29, 2025
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quinta-feira, novembro 27, 2025
Epigramas da Razão
✧
Epigrama da Lei Universal
A lei interior precede o mundo.
Do silêncio fala o gesto claro.
Quem escuta vê o desamparo.
Quem vê ampara o moribundo.
✧
Epigrama da Lei Iníqua
Na mão do opulento a lei repousa,
servindo o grande, calando o fraco,
em clausulado arcano, opaco.
A injusta farsa em trono impune pousa.
✧
Epigrama da Desobediência Legítima
Quando a lei dita o que a justiça acusa,
cessa a virtude em quem se entrega.
Firme, à lei iníqua, a razão recusa:
Só é justo quem à injusta lei se nega.
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quarta-feira, novembro 19, 2025
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Epigramas da Pedra
✧
Epigrama da Palavra Original
O golpe do cinzel talha o verbo inteiro
e o nome na pedra pare o ser primeiro
✧
Epigrama da Verdade Essencial
A verdade que acende o justo fala
quando em redor o mundo, inerme, cala
✧
Epigrama do Veio Primordial
O primeiro passo abre o veio primordial;
a pedra inaugural guarda inteira a catedral
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terça-feira, novembro 11, 2025
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Elegia do Desígnio
O código herdou o sopro do criador.
A pátria jaz, funerária, sob o lençol
– a silhueta no sudário do censor.
Velha bandeira, mortalha de poeira,
o falso profeta monetiza a capela;
a democracia é vitrina de algibeira
num púlpito em que o ódio é sentinela.
Havia um tempo aceso, de lampejo,
da palavra a fitar a cobardia.
O homem rendeu-se à usura do desejo,
à verdade conscrita à demagogia.
O amor, finalmente, feito transação
– cruz de néon num registo civil,
esperança possível em promoção
no código frio de um milagre útil.
Marcha a procissão em silente nudez.
Nada como a fome ensina a esperar.
O verbo morde a língua da lucidez
e o povo aplaude o algoz por se salvar.
Ó plebeus da renúncia, onde estais,
que deixais as hordas invasoras
nas tribunas grunhir como animais?
Quem elegeu tantos facínoras?
Um fósforo reacende um templo de luz
e a gente desperta — renasce em lume.
A míngua recusa o silêncio que a reduz.
De archote em punho, rompemos o negrume.
Do fogo à palavra eis a verdade:
Aqui jaz o medo, respira a razão;
reaprende o desígnio a vontade.
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domingo, outubro 19, 2025
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Sestina da Dívida Perpétua
Do berço de Abril despertou a dívida.
No corpo do sonho abriu-se um corte
e o sangue secou sobre o tapete.
Lavaram-no com água do resgate
no jugo eterno do trabalho.
Por decreto, a vida cingida ao trabalho.
Da Liberdade à tirania do juro,
a pátria, de joelhos, pediu resgate;
a Revolução assinou de cruz a dívida
e o sangue do sonho tingiu o tapete.
Lâmina, Fundo Monetário – corte.
Depois do PREC, regressou a corte,
e a vida picava o ponto no trabalho.
O País foi outra vez ao tapete
– em letras pequenas estava o juro.
A esperança incauta pariu a dívida
e o povo assinou de cruz o resgate.
O Santo Mercado pregou o resgate.
De cravo à lapela, posava a corte,
e o País, ébrio, bebeu a dívida.
Na ressaca, o preço foi trabalho.
Do crédito à ditadura do juro,
o século findou bêbedo no tapete.
O povo, varrido sob o tapete,
ajoelhou-se à Troika e ao resgate.
O futuro curvou-se ao peso do juro;
o bisturi do medo firmou o corte;
o corpo rendido voltou ao trabalho.
Do sacrifício restou-nos a dívida.
Do medo inoculado renasceu a dívida;
do chão da esperança puxaram o tapete
ao homem remoto a rezar ao trabalho
e à salvação da vacina, ao resgate.
No fino fio da seringa, sem corte,
o sangue da cura coagula em juro.
O trabalho consumido em juro
e o velho resgate renova a dívida.
Na corte, varridos sob o tapete.
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terça-feira, setembro 30, 2025
Etiquetas: Chordian Poetry, Fotos e Imagens Cordianas, Imagens de IA, Imagens e Afins, Jeremias Cabrita da Silva - Citações e Textos, Poemas da Crise, Poesia Cordiana, Revolucionando
Vilanela do Pão Repartido
Etiquetas: 25 de Abril Sempre, Chordian Poetry, Jeremias Cabrita da Silva - Citações e Textos, Poemas da Crise, Poesia Cordiana, Revolucionando, Vilanelas
sábado, setembro 27, 2025
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Vilanela do Homem-Resíduo
Um turno é um túmulo a prestações.
A app escraviza em tempo real.
Diz não colectivo: faz revoluções.
Cérebro rendido não cria opiniões;
corpo registado em chip digital.
Um turno é um túmulo a prestações.
Mente submersa em simulações,
juízes em púlpito virtual.
Diz não colectivo: faz revoluções.
Suor transcrito em frias equações,
métrica do lucro, saldo imoral.
Um turno é um túmulo a prestações.
Máquinas de versejar vãs canções,
tributo no altar do capital:
Diz não colectivo – faz revoluções.
O homem, cascalho das instituições,
jaz mero resíduo industrial.
Um turno é um túmulo a prestações.
Diz não colectivo: faz revoluções.
Etiquetas: 25 de Abril Sempre, Chordian Poetry, Jeremias Cabrita da Silva - Citações e Textos, Poemas da Crise, Poesia Cordiana, Revolucionando, Vilanelas
segunda-feira, setembro 22, 2025
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Vilanela do Tempo Vendido
Etiquetas: 25 de Abril Sempre, Chordian Poetry, Jeremias Cabrita da Silva - Citações e Textos, Poemas da Crise, Poesia Cordiana, Revolucionando, Vilanelas
segunda-feira, setembro 15, 2025

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Ode à Utopia
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sexta-feira, agosto 22, 2025
Palavra de Abril. Imagem gerada por inteligência artificial (Sora) a partir do soneto homónimo de Jeremias Cabrita da Silva.
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Palavra de Abril
domesticaram a luta, a revolta,
fizeram-na dia manso, de folga,
liberdade cunhada em vil moeda.
Abril roubado, o lucro de quem o herda.
Esquerda e direita, o embuste da escolha –
a elite decide sob escolta;
Abril na teia que o poder enreda.
O caos não significa anarquia,
lâmina que degola a iniquidade
no gume da língua da tirania.
Chamaram à utopia vã ingenuidade,
quimera canora da profecia
que há-de libertar a humanidade.
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domingo, agosto 10, 2025
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Ciclo de Haikus para Donald Trump
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quarta-feira, agosto 06, 2025
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terça-feira, agosto 05, 2025
Alfa e Ómega
e foi imediatamente vacinado.
Antes do choro, já devia à Caixa.
Antes do leite, já devia ao Estado.
Antes do nome, já tinha número
para repúdio à herança do passado.
A mãe sorriu serena ao assinar papéis.
Lá fora, os tios faziam contas e desejos
de não serem os padrinhos —
de não lhes caber a honra dos benfazejos.
O avô estava com mau vinho.
Via na TV que o défice tinha subido.
No ecrã da entrada: inserir novo utente —
e o país registou mais um contribuinte.
Como pode um nascimento
ser burocrático e indiferente?
II. Primeira Factura
Aos noventa dias, a mãe foi trabalhar.
O pai andava pelas margens do relógio;
de costas para a proa, de frente para o mar;
pela casa como sombra no soalho.
Morava nas horas de vazio, ao contrário.
Ao miúdo faltou colo, mas houve horário.
Entrou cedo, sem saber despedir-se.
Só à tarde soube estar no infantário.
Chorava todo o dia como quem protesta
e foi entregue à ama com uma tabela.
Um recibo em troca de uma promessa
de afecto, atenção e beijos na testa.
As manhãs chegavam frias, cheiravam a sopa velha.
De olhos esbugalhados, aprendeu a esperar cedo.
Vindo do estômago, acusou na alma um lamento.
À pele tinha já tatuagens por dentro.
Ficou no peito um choro permanente em ponto pequeno.
III. Primeira Lição
Aprendeu a contar antes de brincar
e a levantar a mão, nunca a voz,
que saía engasgada para perguntar.
Sabia o seu lugar, mas não o porquê.
O recreio era curto para um silêncio de pé.
Pintava o sol amarelo no canto direito.
A relva era verde; o céu azul por defeito.
Um dia trocou as cores por pura invenção
e levou um reparo jocoso de reprovação.
Mãos nos bolsos como raízes no solo,
olhos clementes, na cabeça já um nevoeiro,
e no peito um precoce alvoroço,
um medo ansioso do próprio receio.
Distraído e sensível, era um problema,
peça numerada, desencaixada do sistema.
Sempre pessimista o prognóstico.
E num dossiê com nome e diagnóstico,
chamaram-lhe desatento e coisas que tais.
Depois chamaram os pais.
IV. Primeira Nota
Mediam-lhe os lapsos, nunca o sonho.
Pesavam-lhe a voz, o timbre, os gestos.
Não lhe auguravam futuro risonho.
O erro pontuava sempre mais do que o resto.
Imaturo, preguiçoso, sem método, disperso,
cortaram-lhe a dúvida no quadro a giz.
Finda a aula, a equação era o verso
do poema a metro que não escreveu nem quis.
A ferida em pus da comparação,
o silêncio vedado da sobrevivência,
os dedos nus expondo a hesitação
das mãos frias e húmidas da subserviência.
E a vergonha que se fazia identidade,
a evitar os olhos e os conselhos,
desejava apenas a faculdade
de desaparecer nos recreios.
V. Primeira Porta Fechada
Entrou na faculdade como quem entra no mar:
sem saber nadar, mas saturado da margem;
com esperança amarrada a frágil coragem
e uma sentença adiada, por classificar.
Na mochila levava clamores da infância;
nos cadernos o virtuosismo da inocência,
e o mundo parecia quase possível,
num passo novo, mais alto e livre, uma dança
incauta sobre o tabuado da passagem de nível.
O primeiro licenciado da família.
Em casa, o chão tremia.
O pai — que andara anos ao volante,
tendo o camião por cama —,
de alma remendada e corpo exangue,
trazia tostões de vergonha e má fama.
Paletes, verbas e volumes não conferiam.
Folhas por fechar, colunas que não batiam,
planilhas discrepantes, contas erradas,
e o erro vestiu o fato das madrugadas.
Veio o despedimento e depois o silêncio,
o olhar embaciado, o gesto ausente,
a década de trabalho num saco de expediente
e o resumo sumido num último recibo,
a sombra gelada do que não auferiu
em perdão, clemência ou apenas abrigo.
A mãe gritou durante semanas
até que, perante a letargia, deixou de falar —
um dia fez as malas à pressa, sem dramas,
deixou a casa pela de outro; levou o lar.
O filho ficou com o pai, num pacto mudo
entre a culpa e o pudor do abandono.
Era já homem, dizia-se, e isso era tudo,
mas sentia-se cão com trela sem dono.
Faltou o passe. Faltou o mês.
Faltaram livros, sorrisos, jantares.
Venderam-se enciclopédias, vinis e CDs.
Acumularam-se dívidas e pratos por lavar,
currículos enviados inutilmente.
De olhos vagos noutro lugar,
no fundo RGB de um ecrã, ausente,
o pai passava noites brancas a fumar.
O miúdo voltou às aulas, fingiu rotina,
mas os livros pesavam como tijolos na obra.
A vergonha colada à cadeira, vidrada na retina,
e à janela o futuro extinguia-se a cada hora.
A chamada em falta não foi indisciplina,
apenas um dia fora, uma cadeira vazia,
e no anfiteatro ninguém perguntou.
Deixou o curso no segundo outono
para sustentar a casa em colapso.
Não houve anúncio, só abandono
e um nome ausente nas pautas,
frequência da licenciatura por meio ano,
como se nunca ali tivesse estudado,
como se naquelas salas nunca tivesse tido aulas.
Inútil para efeitos profissionais.
VI. Primeiro Recibo Verde
Começou por dias sem nome nem recibo,
horas ao sol de Junho, a ganhar tostões
fora da folha, por baixo da mesa, do vidro.
Dois meses num balcão, três num arquivo,
quatro num escritório a tresandar desinfetante.
Chamavam-lhe rapaz, moço, assistente.
Nunca usavam o nome constante
na ficha que fora para o lixo.
Não lhe conheciam apelido.
Levava pão e papel higiénico na mochila.
Guardava restos de si no bolso, rabiscos,
resumos e esquemas de vidas sonhadas
noutra dimensão de astros e meteoritos –
ideias, poemas curtos num caderno de escritos,
versos, apontamentos e autoavisos,
pedaços de sim e talvez de um longo Inverno
que rompiam terços e fardas de improviso.
Tinha uma camisa para cada semana
e as solas gastas de desventura.
Picava o ponto como quem se ausenta,
sorrindo por compaixão e ternura.
Trabalhou até as palavras sangrarem
e os músculos, silenciados, pararem
com as fotocópias e o toner,
com a síncope de rolamentos,
com as horas extraordinárias
de um esforço nado-morto.
Jazia, ao final do longo dia,
a embalagem de um corpo
reposto, inerte, na prateleira.
Nem o espelho devolvia o rosto
e não haveria outra maneira –
mãos cheias de horas até ao osso,
majoradas como o sono ao tutano –
a vida a boiar no fundo de um poço.
No bolso, o poema insistia:
riscado, rasurado, uma pedra de sal.
No bornal, cadernos gastos onde escrevia histórias
de vidas que já não sabia se eram suas —
às vezes, de tão escritas, pareciam-lhe já memórias.
VII. Primeira Morada
Trabalhava para dois.
Não bastava para o mês —
como um cântaro rachado,
carroça manca de bois,
suor do corpo quebrado,
vazado com o brio da surdez,
silêncio fervido, arroz para três.
Pratos lavados com água da véspera,
moedas escondidas num frasco de vidro,
migalhas de um mapa, ossos de medo –
guardada uma porta por dentro.
O pai, apagado em brasa fria,
e a casa encolhida, sem fôlego,
a respirar sem saber que doía
o ar denso, a roupa a cheirar a mofo,
o tempo parado no fio da travessa,
o vazio sentado à cabeceira da mesa.
Era amor doente, na borda do precipício,
silente, cabeça encostada à parede
e os olhos a meio sem suplício.
Vendeu-se um candeeiro de griffe,
um móvel de sala quase dado,
um conjunto de cama bordado,
e ao jantar houve bife.
Depois da máquina de café,
foi a televisão,
e o mundo deixou de entrar.
Já nada crescia naquele chão gasto.
O afeto pendia de um prego torto.
O amor dormia sem luz de presença.
Mordendo o apelido, enrolou o casaco,
alçou as memórias felizes ao ombro
e deixou a chave, como uma sentença.
Pagou o mês de caução e o mês de renda,
e mais um, adiantado. O poema, inacabado.
Na periferia, um cubículo com eco,
uma janela opaca para o poente
de antenas tortas sem conserto.
Sem estrado, o corpo dormente.
Sobre o colchão, os braços inertes,
as mãos e os olhos secos fechados,
a marcar território de recomeço.
Era sua a chave do desengano.
Seu, o desígnio de rodar a tranca
do cárcere e da liberdade.
Eis a chave, a porta, o ardil.
Eis da vida o maior preço:
a miragem do oásis transariano –
da família nuclear a três
à desdita tragicómica do covil,
saldada mês a mês.
VIII. Primeira Traição
Uma janela sem mundo, uma luz que pendia,
três pratos de vidro, uma colher de plástico
e o silêncio opressivo — espesso, doméstico.
Havia espaço para o tempo, surdo-mudo,
e nenhum lugar onde pousá-lo.
O vagar sem préstimo futuro
corroía-o, tornava-se espelho.
No vazio, teimava o poema,
crescia devagar entre nervuras,
cicatrizes de sal, linhas de fractura,
erva daninha a brotar dos azulejos –
poema escrito sozinho, linha a linha,
tomando-lhe a mão sobre textos
que o desenhavam em liturgia íntima
de salvação penitente, solitária, impossível.
A caneta era cruz, o papel sacrário,
tacteando a luz com dedos de sombra,
soprando cinzas em busca de brasa,
traçando na terra o território.
Às vezes, no lume breve de um verso,
acendiam-se os rostos do pai, da mãe,
e o cabelo de um amor desconhecido.
A mãe sussurrava na presença de um homem.
O pai esquecera-se do próprio nome.
Ninguém viera ainda por ele.
Quando o frio se fez hábito
e já não esperava visita,
viraram-lhe o mundo ao contrário,
chegou um incêndio vestido de brisa.
Ao silêncio que por fim se fez casa,
respondeu uma voz embriagante, sem aviso.
Pensava-se enfim intacto,
e eis que a voz reabriu a ferida.
Outras houvera em noites de bebedeira,
beijos molhados e corpos sem nome,
fogos-fátuos de um desejo sem fome,
mas esta era chama que fingia lareira,
promessa suave com corpo, mãos, língua, enleio.
Conheceu-a online, num dia qualquer,
e tropeçou no que parecia passeio.
Entrou sem bater uma presença de neblina,
ondulante, generosamente feminina.
Era olhar e feitiço, beijo e doutrina,
e ele, ajoelhado, cansado e carente,
rendeu-se ao calor de um regaço.
Beijava-a com o frémito do tempo perdido,
como se o corpo soubesse sempre o caminho,
como quem afaga a ferida e encontra abrigo.
Respiravam-se inteiros, no mesmo compasso,
odor febril a lume húmido, cioso perfume,
disparo certeiro, júbilo e queixume, erro crasso.
Um deus cego pedia-lhes lume
numa vertigem de sombra inteira,
estreitando o cubículo num abraço.
Nela viu um país por fundar.
Mas o país não tinha mapa,
era bruma em manhã sem estrada,
e o riso, outrora fonte, secava as margens
devolutas de sede a cada gesto.
Já não lia poemas até ao fim,
sorria a meio, mudava de tema.
Tudo nela se tornou frio indigesto
onde dantes havia frenesim,
e ele, sem saber, já saíra de cena.
A cama, quente, fazia-se ilha
de um náufrago em corpo ancorado.
Ela ainda lá estava, depois da neblina,
mas algo no gesto ia já longe,
num horizonte que não pedia resposta,
um olhar que não devolvia reflexo.
O coração tornou-se um anexo
onde começou a chover por dentro,
num adeus sinalizado pela ausência de sexo,
espelhado em promessas de vento,
na alteridade do toque que fora abrigo,
agora estéril recusa, castigo.
Quando enfim entendeu o enredo,
era tarde: traíra-se por migalhas de afeto,
fizera-se menos que concubino.
Curvado no altar do talvez,
pedia apenas uma palavra inteira –
bom dia, boa tarde, um sinal cortês,
feito cão à porta, sujeito às probabilidades.
Ela menos falava, e quando o fazia
era como quem dissesse outra coisa.
O amor transacional revelou-se à luz do dia.
Não fora amado, mas usado.
O poema, rasgado, escrevia-se à faca.
IX. Primeira Herança
Veio pequeno, de olhos baços, sem verbo,
um choro sem gramática, um tremor de berço.
Ele viu-o como quem se olha do avesso,
num clarão translúcido de perguntas sem resposta.
A infância reencontrava o silêncio.
No fundo da memória, uma voz de cetim, uma rota.
Uma ternura longeva latejava no pulso,
um instinto sem nome, um abraço perdido.
Recordou o lar que lhe faltara,
o colo adiado, o abrigo prometido.
Sentiu no peito um sopro de alvorada,
promessa de sol depois do nevoeiro,
aroma de Lua nova e terra molhada.
Na pele doce do filho, escrevia o futuro inteiro,
fundava o tal país num só verso,
jardim por regar, fundeado nas entranhas do universo.
Na consciência o profundo receio
de falhar como lhe falharam primeiro.
Enquanto isso, erguiam-se trincheiras no quarto,
beijos conjurados num cerco pós-parto, ventre fechado.
A criança tornou-se penhor de amor taciturno,
cobiçoso, avarento, a medir cada afago como hora de turno.
No berço ele via uma jangada, um contrato assinado no escuro,
um bilhete de resgate ou condenação.
O leite azedava sem lume, a noite rangia nos dentes
e no peito farto, gelado num idioma de fome.
O desejo contrariado, rejeitado, deficitário.
Ali estava, sem nome, a contabilidade da ternura.
Ele dera por si visitante na própria casa,
pagante de uma dívida sem fatura,
credor improvável de desejo lúbrico,
estilhaçado no reflexo de um espelho translúcido.
No poema inacabado, um voto secreto a cada sílaba:
quebrar a sombra antes que a luz se apague.
Mais que nome, sangue, carne, rosto,
herança era sopro de abandono ou esperança,
cisma sem dono, sismo no osso,
e um pacto inexprimível na página branca.
Ali, às grades do berço, germinava a condenação.
X. Primeira Sentença
Rubricou a ausência com a mão tremida
sobrevoando a última cópia em papel timbrado.
Um carimbo sobre a paternidade; sobre a vida.
Sem apelo, estava anulado o contrato.
Pagou a primeira pensão de alimentos
na penumbra dos dias sem volta.
No sigilo da casa, o colapso, a revolta,
o grito mudo dos brinquedos arrumados,
a alucinação de uma criança a correr descalça,
sem chão, sem pátio, sem extrato bancário –
apenas as semanas hipotecadas no calendário.
No poema faltava uma hora para a meia-noite,
por entre recibos e segundas vias sem rumo,
restos de dias vagos guardados no fundo do armário,
pedaços de vácuo e saliva, um expediente de fumo,
envelopes rasgados sem outro destinatário.
Quebrado, sem rosto, sem cais, apenas um nome
com saldo negativo às portas dos tribunais.
A família reduzira-se a dígitos, selos, clausulados
em penumbras facturadas ao mês com código IBAN.
A própria família. Menos que sozinho,
fora-lhe extirpado o coração, amputado o caminho,
sem eco de humanidade devolvido num silvo,
sem memória de arquivo, mendigo administrativo
nas esquinas refundidas da retórica jurídica,
paiol de fantasmas insensíveis das pragmáticas,
a empurrar almas em custódia nas órbitas da compaixão.
Selado num código postal, reduzido a rubrica digital,
observava sem altar um deus de plástico,
como tantos de joelhos, prostrados nos sacrários
das repartições públicas, em súplicas e sermões burocráticos.
No genuflexório fiscal silenciam-se os rumores da insurreição.
Quem decide quem fica, quem parte, quem sobra?
Quem é o traidor, o traído, o réu, o arauto?
Entre códigos e autos, era possível sonhar nova obra,
era ainda a árvore passível de rebentar do asfalto?
Na quietude do verso, germinava a fagulha, a centelha,
um clarão que incendiasse o mundo, o poema.
XI. Primeiro Crepúsculo
Os meses caíam como folhas mortas na tijoleira.
O tiquetaque latejava no pulso um aviso de falência.
O baque à partida do pai ao domingo; da mãe à terça-feira.
O corpo um pergaminho gasto, uma lembrança de linho,
o adeus ao destino, o regresso infame à inocência.
O tempo, na sombra da perda, nunca devolve o início.
O filho calçava os seus velhos sapatos de inglória;
herdada a mesma febre de fantasmas sem nome,
inelutavelmente à sombra do que viria a perder.
Passava menos vezes, sem mágoa, culpa, história.
Na voz arrastada, monossílabos de fome.
O miúdo era já pai sem enredo, reencenando a memória.
O agora avô e órfão via-se passar ao espelho sem reflexo.
Tornara-se vulto nas salas de espera, imprestável
como o relógio de parede parado nas duas horas;
presença decorativa nas reuniões de família.
Espectador de um filme dobrado, lábios desconexos,
comia pré-cozinhado o limiar da lucidez, insanável,
e ninguém batia à porta, o telefone não tocava.
Comprimidos e TV generalista, peça carcomida de mobília.
Já ninguém o reconhecia no quiosque, no café, na farmácia,
ou seria antes o contrário, o ângulo obtuso no átrio da falácia?
Senhas, consultas, corredores, máquinas, vozes automatizadas
numa dança esterilizada de corpos numerados promovidos a utentes,
e um multiverso de outras dores, mais a obsolescência programada.
Árduo é o caminho dos mártires sem promessa de virgens para os crentes.
A alma, diziam, sobrevivia, mas onde? Em que servidor,
se tudo cabia num processo arquivado, razoado no computador?
Quem herdará os restos de uma rotina sem testamento?
A identidade tornara-se documento sem validade, sem leitor,
encerrada numa pasta sem estante ou corredor, um ofício digital
codificado e marcado a negrito de nulidade existencial.
Nada ficou de uma vida garimpada em recibos e diagnósticos
triturados por juristas, call centers, prestamistas e médicos.
A liberdade da escolha múltipla, entre vícios não subsidiados –
e outros, subsidiados, à boca da urna. Votara e pagara sempre,
sem alguma vez lhe ter sido devolvida a pátria, os anos.
Passavam-lhe à frente sem cortesia nos transportes públicos
e na fila de atendimento da Segurança Social, uma carestia visceral,
um alheamento comprometido em anestesia testemunhal.
No bolso do último casaco, gasto e amarelado, um caderno manuscrito.
XII. Primeiro e Último
O filho dobrou o casaco. Não disse nada.
Não sabia o que fazer com o caderno.
Não o abriu nem se desfez dele: guardou-o
no fundo de uma caixa de cartão,
sob uma pilha de documentos e recibos,
sem respirar ao canto de um sótão.
Muitas décadas passaram pelas dobras do calendário
até que o neto o achou, inscrevendo-o numa lista
– um inventário de objetos – sem razão aparente.
Não leu, mas cuidou-o numa caixa-relicário
de um tempo analógico como documento.
Havia peso no silêncio gritante da memória,
uma aura dourada de papel velho, eloquente,
com manchas de café, rasuras, vestígios de saliva, histórias.
Geração após geração, o caderno ficava.
O nome fora apagado das bases de dados,
mas a solenidade mística da matéria teimava.
Três gerações depois, foi o bisneto que, enfim, o leu
pela primeira vez, num gesto profano de curiosidade sagrada.
O texto pulsava, as palavras ardiam intactas, um fogo cresceu
em labaredas inextinguíveis de uma única e íntima chama.
Nunca conhecera o bisavô, mas ouvira dizer que escrevia.
Não quisera ser imperador ou sua senhoria,
mas lembrar que este é um lugar próspero
de abundância e beleza para todos;
que a ganância envenenou os poços
e barricou-se em trincheiras de certeza e ódio.
Homens e mulheres, mulheres contra homens,
e passado tanto tempo dos mesmos no pódio,
repetiam-se os medos, os gritos e as palavras de ordem.
Mas pensamos demais e sentimos de menos.
Se as mãos se dessem, os muros caíam
sem donos, sem deuses, sem a esperteza
que fractura a humanidade e macula a inteligência.
A natureza é violenta sem bondade, sem gentileza,
às mãos de brutos que regimentam a decência.
Não somos máquinas nem gado, mas homens
que lutam contra a escravatura,
quando a luta é pela liberdade!
E mais de um século depois ainda a palavra
a transpirar de um lugar livre sob a pele,
de beleza plantada sobre as cinzas do desespero.
Ainda a tal “democracia” a revolutear numa parada
de armamento imperialista sem quartel,
acesa apenas quando o povo espantar o medo.
Ainda o repto pela demolição das fronteiras,
da intolerância e do ódio; por um mundo de razão
onde o progresso seja fruto de alegria, não um açoite.
Ainda a promessa gorada dos brutos, uma longa noite
de mentiras e gumes afiados pelo jugo da liberdade.
Na contracapa, entre emendas, contas e datas,
encontrava-se um sussurro sublinhado,
um cometa de grafite que aguardava
olhos cadentes no rodapé gasto.
“Não somos o que nos fazem, mas o que fazemos de nós”,
leu em verso quase ilegível, urgente e torto.
O bisavô não estava vivo. Não estava morto.
Dissolveu-se na base de dados, mas o poema resistira,
e com ele uma luta simples pelo que é decente,
por libertar a vida, fazê-la dançar ao vento.
O bisneto, já homem no mundo,
citou-o em discurso diante da assembleia.
A câmara permaneceu em silêncio mudo.
Anos, séculos, milénios e nunca depois, sobreviveu a ideia
e o caderno reapareceu depois de tudo –
da ruína, do arquivo, da arca, do museu, da feira,
do infinito do espaço-tempo profundo.
A ideia fecundada derrubou todos os muros.
A palavra fez-se semente sussurrada,
reinventada, retransmitida, ousada.
Como senha, prece, rumor.
Como se fosse a primeira vez.
Como luz em água,
eco em pedra dura,
chama ao vento,
incendiando o silêncio
ao nascer da aurora.
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