Anno XX — O Jantar
Vinte anos depois, a 24 de Maio
de 2025, voltámos à mesa.
O que começou em 2005 com a
fundação do Caderno de Corda e, depois, em 2006, com um gesto simples à mesa —
um jantar improvisado entre leitores e amigos —, tornou-se, com o passar do
tempo, numa espécie de eixo fixo no calendário da vida, uma convocatória
informal que dispensa convites e que, ainda assim, continua a reunir consorores
e confrades em torno da linguagem única da Verdade dos afectos.
Ao longo destas duas décadas
passaram por esta mesa mais de sete dezenas de corações — amigos de infância,
colegas de escola e trabalho, leitores, companheiros de estrada, famílias
que entretanto cresceram e novas gerações. Alguns vieram uma vez, outros
regressaram muitas vezes, outros, ainda, acabaram por se tornar parte
inseparável da liturgia cordiana. Mas todos fizeram, indelevelmente, a história
d’O Jantar.
Curiosamente, se, nos primeiros
anos, O Jantar parecia nascer do blogue, talvez possamos, de há algum tempo a
esta parte, dizer o contrário: foi o jantar que acabou por sustentar o blogue,
que hoje segue mais forte do que nunca em produção poética. Ainda assim, o
encontro anual tornou-se a sua respiração mais visível, a prova de que a
escrita encontrou corpo, mesa e rosto.
Em 2025 não foi diferente, mas
também não foi igual. Nunca é. Como tantas vezes acontece, O Jantar começou
antes de começar. Na antecâmara do encontro houve abraços demorados mas pressurosos,
visitas de passagem, presenças breves mas significativas — daqueles gestos que
confirmam, sem necessidade de explicação, o lugar que a oportunidade daquele
abraço ocupa na vida de quem por aqui passa.
Caso paradigmático, o do
Venerável Cavaleiro Prismático e Guardião do Tombo Cordiano, Ricardo Pinto. Vinha
em dia de concerto, com soundcheck
marcado e agenda apertada, mas apesar do bulício fez questão de passar. Veio
dar aquele abraço, marcar presença e seguir caminho inevitável, como quem
cumpre um pequeno ritual antes de partir para uma noite de rock ‘n’ roll. A ele voltaremos.
Também o estimado Irmão Joaquim
Barbosa, nosso querido Quim, passou pela antecâmara d’O Jantar, como, aliás,
tem feito nos últimos anos. Chegou cedo, cruzou-se com alguns dos primeiros
confrades, mas acabou por não apanhar o Irmão Frederico Costa, que chegaria já
mais tarde. Vieram ainda, pela primeira vez, as queridas Anabela (Belinha) e
Gabriela Semedo, apenas para um beijinho e abraço rápido antes de seguirem
caminho — um gesto simples, mas pleno de significado.
E, como reza a tradição, apareceu
o assíduo e muito prezado clã Franchi-Costa — Leonor, Matilde, Rita e Rui
Pedro. Nunca jantam, mas aparecem quase sempre no início ou no fim, como quem
passa para confirmar que O Jantar continua no lugar certo do mundo. No final,
fomos ainda brindados pela aparição do Grão-Mestre do Tabernáculo Rui Pina. Há
presenças que fazem parte indispensável mesmo quando não se sentam à mesa.
Mas houve também um pequeno
episódio que acabou por revelar, mais uma vez, a estranha geometria das
coincidências cordianas. O Grão-Mestre do Ofício Luminar Hugo Dantas estava
confirmado para O Jantar, mas, como tantas vezes acontece na azáfama da vida,
esqueceu-se. Foi a sua querida progenitora, Ludovina Dantas, quem lhe telefonou
quase à hora marcada para perguntar, com a naturalidade de quem sabe mais do
que parece saber:
— Então, não vais ao jantar?
E foi nesse instante que o Dantas
se lembrou. A coincidência revelou-se providencial. Já perto da hora do
encontro percebi que não tinha comigo equipamento adequado para transmitir os
vídeos que planeava mostrar na televisão da sala. Foi então que ele,
tempestivo, me ligou para dizer estar a caminho e aproveitei para perguntar
se, já que ainda estava em casa, poderia trazer um computador e um cabo HDMI
compatível. E assim foi. Graças a esse pequeno atraso, e ao telefonema de
coração materno que em boa hora alinhou astros, o plano previsto acabou por
cumprir-se. Mais uma dessas pequenas conspirações benignas que parecem
acompanhar O Jantar desde o início.
Mas houve também duas primeiras
vezes, extraordinariamente especiais, aliás. A Fabrícia, minha companheira,
esteve presente e, também pela primeira vez, celebrei n’O Jantar com a minha Vida
– leia-se “celebrei com a minha filha”, aka
Rosarinho. Duas presenças que dispensam qualificativos numa mesa que já
atravessou duas décadas de vida — sinal claro de que aquilo que começou como
encontro entre amigos encontrou, entretanto, formas cósmicas de continuação
terrena.
Também pela primeira vez não
houve fotografia de grupo. Não por decisão, esquecimento ou opção consciente,
mas por ausência, pelo silêncio instalado quando falta quem sempre assume as
despesas do registo fotográfico: o já mencionado Grão-Mestre, Venerável
Cavaleiro Prismático e Guardião do Tombo Cordiano, Ricardo Pinto. A função é
tão escrupulosamente cumprida ano após ano que, desta vez, ninguém sequer se
lembrou da foto. E talvez, aos 20 anos, o facto seja mais gráfico do que
qualquer imagem poderia mostrar.
Quando finalmente nos sentámos,
demos por nós a contar: éramos vinte à mesa. Vinte anos de jantar. Vinte
pessoas sentadas. Não foi planeado, mas pareceu certo. De novo, há
coincidências que talvez não o sejam. Ao longo destas duas décadas celebrámos O
Jantar de muitas formas: com dérbis acalorados, conversas intermináveis,
leituras improvisadas, poemas sorteados à mesa, vídeos caseiros, pequenas
experiências criativas que iam surgindo ao sabor do espírito da noite, mas houvera
discurso.
Em vinte anos de jantares
cordianos passaram por esta mesa mais de setenta pessoas, oriundas de vários
círculos de amizade — da Loja Salesiana à Loja Cruz Quebrada, das Doroteias à
vida profissional, da blogosfera à família. Alguns vieram uma vez. Outros
vieram muitas. Mas todos fazem parte desta história. Talvez o silêncio tenha
gritado o que O Jantar sempre foi sem que alguma vez fosse necessário explicar
o que aqui se passa.
Portanto, este ano houve discurso.
Não como acto solene ou cerimonial, mas como ensaio retrospectivo necessário
para perceber o que realmente aqui aconteceu por duas longas décadas que talvez
merecessem, finalmente, uma tentativa de palavra viva dirigida a quem as fez e
partilhou. E foi assim que, já todos jantados, tomei a palavra para ler o texto
que se segue: uma tentativa de dizer em voz alta aquilo que neste tempo fomos
vivendo quase sempre sem explicação ou disso tentativa.
DISCURSO DOS 20 ANOS D'O
JANTAR
(TRANSCRIÇÃO)
Vinte anos.
Talvez não tenha havido grandes
promessas no início, nem planos de longo curso, nem anúncios. Mas houve gente,
houve mesa, houve tempo marcado com presença, e isso bastou. Hoje, o que
impressiona não é tanto termos começado — é termos continuado. Impressiona que,
mesmo sem cartaz, sem programa, sem obrigação, tenhamos mantido isto aceso. Não
porque era preciso, mas porque fazia sentido. Um jantar por ano. Um ponto fixo
no calendário. Quando tudo o resto mudava — casas, trabalhos, cidades, rotinas,
digníssimos esposos e esposas, e até mudanças de sexo, como no caso do João
Trigo — este jantar mantinha-se. Como quem diz: há lugares onde o tempo não se
dilui ou… há um tempo para nos fazermos lugar.
Vinte anos depois, o que se
celebra já não é um blogue e nunca foi um autor, muito menos o gesto de
convidar. É o gesto de saírem de casa, preterirem outras avarias e virem. Há anos
em que a vida se estica, atrasa, atropela. Mas depois há este dia. E vocês
chegam. Cada um com a sua vida inteira às costas. Com filhos, com ausências,
com cansaços, com histórias que ficaram por contar. E, ainda assim, vêm.
Sentam-se. Sorriem. Repetem abraços, nutrem memórias, cruzam ideias.
Reencontram-se no outro, recordam-se verdadeiros num olhar puro de criança que
ainda lá está espelhado, desde a infância nas Doroteias, nos Salesianos, no
Agrupamento 77… Reconhecem-se provavelmente a vós próprios nessa essência
verdadeira, saudosa e imutável que a adultez frequentemente se encarrega de
poluir, pondo-nos a duvidar de nós próprios.
Isso — isso sim — é o milagre
silencioso desta noite. E é por isso que não começo por mim. Começo por vocês. Obrigado
por virem. Obrigado por fazerem isto continuar.
[COMO NASCEU O BLOGUE]
O Caderno de Corda nasceu para
que eu tivesse onde deitar a palavra. Não nasceu por acaso — nasceu por
necessidade. Era o lugar onde vertia o estro: a poesia, a música, os textos, os
delírios, os silêncios. Onde me ouvia em público, onde escrevia em voz alta. Era
um gesto de exposição, sim, mas sobretudo de continuidade, memória, encontro.
Uma forma de não perder a mão, de experimentar, de dar destino à escrita que
precisava de sair. E era também, nesse tempo, um gesto com resposta.
Antes das redes sociais — antes
dos algoritmos, dos feeds, dos likes apressados — nós líamo-nos.
Procurávamo-nos nos blogues. Visitávamo-nos. Os comentários eram extensões dos
textos. As caixas de comentários eram tertúlias. As leituras eram atentas,
demoradas, pessoais. Muitos de nós tinham blogues. O Gustavo tinha o
Blogueaberto, o César tinha o E Então?, o Pimenta o Boina Frígia, o Bruno Tomás
o Página 23, o Rui Almeida ainda mantém o Poesia Distribuída na Rua, o João
Trigo escrevia no Rato do Deserto… E todos nos líamos. Havia um sentido de
comunidade, mas sem rede. Uma corrente sem algoritmo.
Não se clicava simplisticamente
num thumbs up ou num coração.
Comentava-se com neurónios e alma. E foi numa dessas caixas de comentários, em
Março de 2006, num post chamado “Exortação aos estimados leitores”, que surgiu
a ideia. O Gustavo — patrono do jantar, por direito e por provocação —
escreveu: “Eu sugiro tudo o atrás sugerido... feito à mesa! Faz um jantar, abre
as portas à mesa! Aquele Abraço.” E era o que bastava. Uma frase com vontade e
intenção, lançada no sítio certo. E de repente o blogue ganhava corpo. Saía do
ecrã. Fazia-se gesto. Fazia-se mesa. A escrita puxou-nos efetivamente e pôs-nos
frente a frente.
[COMO NASCEU O JANTAR]
E assim nasceu o jantar, numa
caixa de comentários. Uma provocação do Gustavo, no meio de outras sugestões e
apartes, e ficou dito: “Faz um jantar. Abre as portas à mesa.” E eu pensei:
“Agora é que me entalaste.” Não se mandaram convites impressos. Não se alugou
sala. Não se ponderaram menus. Disse-se apenas, com uma ponta de libertinagem:
é na Valenciana, aparece quem quiser. E o mais extraordinário é que... apareceu
gente. Alguns que liam o blogue, outros porque eram amigos. Alguns sabiam à
partida que valia a pena.
E foi-se criando ali qualquer
coisa que não tinha substantivação, mas que se sentia. Um gesto simples, ainda
sem flor, mas com raiz. E lembro-me da surpresa de perceber que aquele jantar,
nascido de um gesto tão leve, podia ser alguma coisa. Que havia ali margem para
mais do que uma noite. Não era uma ideia genial. Não era sequer uma ideia. Era
só uma mesa com gente e foi isso que a tornou capaz de se repetir.
[COMO O JANTAR EVOLUIU
Com o passar dos anos, O Jantar
foi deixando de ser dos leitores do blogue e passou a ser, simplesmente, de
quem vinha. Vieram amigos de infância, de escola primária, secundária, de
banda, de trabalho, da faculdade… enfim, vieram os de sempre, mas também os de
longe. Veio o Corado, figura mítica de Armação de Pêra, reencontrado quase duas
décadas depois por ser Irmão próximo do Jacinto. E ficaram. Mais do que
ficaram: o Corado é hoje um Irmão de empreitadas criativas importantes, como
verão adiante. Impossível desfiar as circunstâncias e as coincidências que
indicam muito mais do que por si só já sugerem.
Há um ano juntou-se, pela
primeira vez em bloco, a geração Y da Loja Cruz Quebrada — João Carlos, André
Paiva, Bruno Tomás, Bruno Sardo, Ken e Miko —, faltando apenas o André Nobre
para completar a irmandade (ou “a máfia”). O feito foi notado, celebrado e,
como tudo o que é raro e verdadeiro, tornou-se memória viva do que aqui se
constrói. Não se tratou apenas de um reencontro, mas de um realinhamento
cósmico. Uma entrada suave e exacta na órbita da Confraria Cordiana. Vieram até
os que nem sabiam bem o que se celebrava, e ficaram também. Começou a criar-se
espontaneamente uma espécie de ritual – um ritual do bem, uma conspiração que
nunca precisa de ser dita, debatida, politizada.
Este ano, o Ricardo Pinto anulou um
concerto só para poder vir e acabou por não conseguir jantar porque A
Valenciana estava, afinal, fechada a 25 de Abril [N. do R.: data inicialmente
prevista]. A agenda estava já preenchida e hoje tem concerto marcado, razão
pela qual não se encontra presente – nem a Sofia, a Carolina e a Beatriz. Houve
o Piri, que veio do Canadá de véspera e do Porto no próprio dia, e que hoje
tornou a fazer centenas de quilómetros, se bem sei. Houve o Quim, que certa vez
chegou directamente de uma regata no Tejo e, noutra, regressou da Polónia,
creio que de véspera também. Houve o Zé Moreno, cuja presença fez parecer que
as décadas se tinham dobrado ou colapsado sobre si mesmas.
Houve o Rui Martins, também
conhecido como Fininho, que apareceu uma única vez, deixou um presente — um
disco dos Pearl Jam guardado desde 2020 — e seguiu para um concerto. Houve o
Ken, que se estreou com uma garrafa de vinho como oferenda. A querida Rute, que
pintou e me ofereceu duas telas lindíssimas, em tons que sabia favorecerem a
decoração da minha casa, e que levei para Almeirim após um jantar — telas que
hoje vivem na sala e no quarto.
Houve também o Moisés, que dormiu
então na minha casa de Lisboa e ficou até à tarde do dia seguinte, com os dedos
em sangue das cordas da guitarra e um bilhete deixado no frigorífico, escrito
com o mesmo sangue que deixara nas cordas...
E há sempre os que voltam, apesar
dos interregnos, e os que hão-de voltar, estou certo. Como o João Trigo, que já
me esperou à porta, pontual, e assegurou a receção dos primeiros confrades.
Como o João Carlos, que ora me enche os bolsos com patés, garfos e a zombaria
ritual do couvert, ora substitui o grande Kaiser nas tarefas contabilísticas —
com rigor e seriedade contrastantes. Como o Pimenta, que era para vir hoje de
Sines. Como o César da Silveira, Visconde do Reino de Maconge, que quase nunca
falta. Foi ele, aliás, quem sugeriu que o jantar começasse mais cedo, e assim
fizemos. Foi também ele que aventou a possibilidade de o jantar se realizar ao
almoço e se estender pela noite dentro. E, também, um dia assim faremos.
Mais do que isso: o César é quem,
há mais de uma década, assume o mapa e o compasso da logística — confirma
nomes, revê faturas, equilibra contas, faz os acertos, já pagou de avanço,
garante que ninguém fica em falta e que tudo bate certo no final. Se há quem
transforme o gesto em cuidado e o cuidado em permanência, é ele também.
E há os que não vieram, mas
ligaram. Os que ligam antecipadamente a perguntar: “Quando é que é o jantar?”,
ainda a data não está definida. Ou “É no sábado, não é?”. Ou os que chegam
indefetivelmente só para o abraço — como o estimado clã Franchi-Costa.
Há ainda, caso único, o José
Couto — que veio às cegas porque descobriu o blogue, o jantar, e quis juntar-se
a nós por conta própria. Sozinho, decidido, juntou-se à celebração sem convite
prévio. E connosco ficou, como se sempre aqui tivesse pertencido.
E há, sobretudo, esta coisa rara:
gente de mundos diferentes que se senta à mesma mesa e descobre afinidades que
não são óbvias, mas que são verdadeiras. Como a Ana Rangel — presença luminosa
e sincera —, que, num dos jantares, se comoveu com a alegria, emocionou-se com
a ternura dos gestos simples, com a persistência e a resistência dos
reencontros, com a amizade que ali pulsava sem artifício. Com a sensibilidade
dos raros, a Ana tornou-se também ela presença, parte integrante e testemunho.
Há afetos que tocam à flor da pele e, mais uma vez, ficam. A Ana que, pouco
depois, me convidou, como ao Trigo, à Fabi, à Patrícia e ao Rui Lisboa, que
nunca chegou a vir ao jantar, para assistirmos a uma das suas peças no Casino
de Lisboa…
O Fred, o Quim e o Sérgio Miguel,
amigos desde os três anos, podem um dia reencontrar-se aqui. O Girão e o
Corado, que nunca se haviam visto, trocavam olhares cúmplices numa madrugada já
alta. O Ricardo Pinto, o Ricardo Tomás, o Rui Pina orquestram uma sinfonia pelo
simples facto de se sentarem juntos. O Dino, o Trigo, o César e o patrono
Gustavo confirmam que o alinhamento de astros não é ocasional. Não são
coincidências.
Houve mesas onde cabia a infância
e o agora, sentados lado a lado como se nunca tivessem deixado de se ver. E
talvez não tivessem mesmo. À mesa, na Valenciana, sabemos que há futuro,
especialmente quando assistimos à formulação de novas amizades, também aqui
consolidadas, entre as novas gerações. Os filhos fazem-se amigos e honram a
amizade, o respeito e a admiração que em nós testemunham.
Com o tempo, a tradição deixou de
ser uma coisa que se fazia; passou a ser uma coisa que se esperava, e isso,
para mim, é um privilégio: ver-vos juntos. Ver-vos naturalmente misturados, sem
máscaras sufocantes. Ver-vos em casa, uns com os outros, e perceber que este
jantar, que começou como um gesto, é agora um lugar onde regressamos e onde sou
feliz. Um lugar que me dá sentido e propósito…
[O FUTURO]
Vinte anos é muito tempo.
Atravessámos pandemias, ausências, mudanças de cidade, de país, de pele. Anos
difíceis, perdas, lutos, nascimentos, cansaços. E continuamos.
Hoje, O Jantar já não é um
evento. Arrisco mesmo dizer que é mais do que o tal pretexto de que escrevo e
falo há mais de 20 anos. É um lugar. Uma casa. Uma bola Nívea. Um tempo
preservado fora do tempo, fidelidade sem contrato, sem contrapartidas. Uma forma
de permanecer inteiro diante da dispersão. Um ponto de ancoragem no calendário
mas também na memória do coração. E é por isso que, se me perguntarem o que
celebramos, a resposta não é um número, nem um blogue. É isto: este preciso
instante.
Não sei o que será o futuro d’O Jantar
ou do Caderno de Corda, que aliás se encontra censurado pelos motores de busca
– uma luta de Davi contra Golias que me encontro a travar em silêncio –, mas
sei que há um gesto, uma pulsação, uma vontade que permanece, e isso basta.
Se daqui a vinte anos ainda nos
sentarmos à mesa, talvez nem nos lembremos do que aqui foi dito, mas havemos de
reconhecer, no fundo dos nossos olhos, essa coisa antiga, íntima e fiel que não
se apaga com o tempo. Havemos de lembrar que é possível cumprir mais do que
prazos, metas e notificações ao abrigo de algoritmos e agendas que se nos
impõem, que nos cerceiam a liberdade. Havemos de lembrar que é possível viver
com encontros marcados pela memória, pelo afeto, pela absurdidade belíssima de
estarmos juntos assim — só porque sim. E sabermos – sabermos! – que a liberdade
é uma maluca que sabe o quanto vale um beijo e um abraço tão grato quanto
generoso.
Não sei o que virá, mas sei que
vem gente boa. Gente que ainda é criança e percebe que aqui há verdade. Gente
que hoje vem pela primeira vez e já pertence; gente que ainda nem sabe que virá,
mas que, quando vier, saberá que está em casa. Talvez o futuro não precise de
ser inventado. Precisa apenas de ser cuidado como uma planta que se rega, um
lugar onde se volta.
[UMA CELEBRAÇÃO QUE É DE TODOS]
E talvez seja importante dizê-lo
agora com toda a clareza: isto nunca foi sobre mim. O Caderno de Corda pode ter
começado comigo, sim, mas este jantar é de todos. Não é uma homenagem, não é um
palco, já nem é um pretexto. É pertença.
Sempre hesitei em impor ou trazer
para aqui criações que se sobrepusessem ao nosso encontro com receio de que se
confundissem com alguma forma de promoção pessoal ou artística, ainda que em
tal não veja necessariamente um problema. Hoje reconheço o que sempre foi
evidente: o jantar nunca foi vitrina, foi sempre oficina.
Por vezes testei aqui ideias, pus
versos à prova, experimentei leituras, criei vídeos caseiros com música
original, convidei-vos a escolherem versos ao acaso para formar poemas novos
comemorativos. Foi aqui que alguns de vocês deram voz a palavras e versos
sorteados que eu nunca disse, e o destino encarregou-se de que tudo fizesse,
ainda assim, sentido.
O jantar não foi, na verdade,
apenas lugar de encontro: foi um modo quase secreto e íntimo de manter viva a
obra. É por isso que vos mostro hoje o que aí vem, mas não como apresentação. O
que se segue é um gesto de devolução. É o que realmente posso e sei dar em
troca do que me têm dado.
Tudo o que vos trago esta noite —
os vídeos, o vislumbre de um disco-livro que também nos retrata, as palavras
que ainda estão por vir — não são para vos convencer de nada: são para vos
agradecer tudo. Vocês são o primeiro público. O cúmplice. O mais atento. O mais
fiel, mas, sobretudo, os destinatários em quem penso quando crio. São o público
que sente, que sabe, que esteve — desde sempre, e antes até. Partilhar aqui,
primeiro aqui, é uma forma de continuar a viagem convosco. Não sozinho. Nunca
seria capaz sozinho.
Porque se há ainda estrada para
andar, e se há voz e ideias para cantar, compor ou escrever, começam hoje, aqui.
Agora, com vossa licença — e com a alegria genuína de quem vos considera casa —,
convido-vos a assistir ao que preparei com cuidado, entrega e, tanto quanto me
foi possível, amor… e uma pitada de humor.
- * -
Depois do discurso, a noite
prolongou-se em imagens. Revisitámos, em sucessão, os vídeos comemorativos dos
jantares dos últimos anos — fragmentos de memória que, justapostos, nos fizeram
mais uma vez sentir estarmos no sítio certo à hora certa e, nesse mesmo fio de
continuidade, sedimentaram outros sinais…
Registos ainda não partilhados,
mostrados pela primeira vez em círculo fechado, deixaram entrever uma obra em
curso, uma travessia longa, feita de palavra, música e memória, que fecha também
um ciclo de duas décadas e se projecta no futuro. Não se disse tudo, não era
esse o propósito, mas ficou no ar a evidência de que a obra do devir ainda é
nossa.
À data de publicação deste texto,
e já na proximidade de um novo aniversário do Caderno de Corda, encontra-se
ainda por definir a data de realização do próximo Jantar, que assinalará os 21
anos. A decisão será tomada em breve, em concertação entre o Estado-Maior
Cordiano, procurando a data mais consensual — previsivelmente em Abril ou até
Maio. Seguir-se-á, como é tradição, a respectiva convocatória.
ASSIM foi. Assim seja.
Links para posts análogos dos aniversários anteriores:
- Anno I - O Jantar
- Anno II - O Jantar
- Anno III - O Jantar
- Anno IV - O Jantar
- Anno V - O Jantar
- Anno VI
- Anno VII
- Anno VIII - O Jantar (ou O Regresso)
- Anno IX - O Jantar
- Anno X - O Jantar
- Anno XI - O Jantar
- Anno XII - O Jantar
- Anno XIII - O Jantar
- Anno XIV - O Jantar
- Anno XV
- Anno XVI
- Anno XVII - O Jantar
- Anno XVIII - O Jantar
- Anno XIX – O Jantar
Registo de presenças na excepcional ausência de foto de grupo
Como já referido, não havendo
registo fotográfico de grupo nesta edição — facto inédito em duas décadas de
Jantares Cordianos —, fica consignada para memória futura a lista de estimadas consorores
e prezados confrades presentes à mesa:
Hugo Passos (Ken), Hugo Dantas,
Rui Almeida, Miguel Barreiros Lopes (Miko), João Carlos Graça, André Nobre,
André Paiva, Ricardo Tomás, Frederico Cruzeiro Costa, Miguel Pereira, Pedro
Farinha (Piri), João Trigo, Nuno “Corado” Quaresma, Rui Jacinto (Jason), César
da Silveira, Sara Matos, Carlota Amaral, Fabrícia Pereira, Hugo Simões e Rosarinho.
Na antecâmara d’O Jantar, o Clã Franchi-Costa (Rita Franchi, Rui Pedro Costa, Leonor Costa e Matilde Costa) veio, como é há muito tradição, para nos dar o prazer da sua companhia, assim como os Irmãos Joaquim Barbosa e Ricardo Pinto, e as há muito desejadas consorores Anabela Semedo (Belinha) e Gabriela Semedo. O Rui Pina surgiu no final, após o repasto, mas a tempo do convívio.
Um especial Abraço a todas e todos os que
não puderam marcar presença, mas que estiveram no nosso pensamento. De bónus, a imagem de thumbnail criada para o vídeo comemorativo dos vinte anos do Caderno de Corda:
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