Terça-feira, Maio 21, 2013

Foto DAQUI, com referência a ESTE poema dedicado a Ray Manzarek no dia da sua morte

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Luz Branca Cega

Eu quero estar lá,
onde a luz branca cega
e ergue cidades;
em local indefinido,
sem corpo,
tão amplo e tão esconso,
sólido e ténue, que só assim
sustenha a iniquidade erma
de uma palestiniana
e todas as coisas
que no cérebro encerramos
sem sabermos adormecer o universo.
Eu quero estar lá,
reflexo da luz branca
que extinguiu em cinzas,
num caixão selado,
o coração exausto do meu Irmão,
sem credenciais necessárias.
Quero estar na fronteira,
onde a luz branca cega
não permita distinguir
quem seja amigo
por não existir inimizade
e o caminho se faça
segredado por um ribeiro
sem que restem dúvidas
nem destino.
Quero estar lá,
banhado pela luz cega
que evolve continentes
e margens além da compreensão;
onde se trepem as ondas
até à espuma da lua,
donde regresse a esperança a nado.
Quero estar nessa manhã de luz branca
sem entardecer
para regressar à condição
de matéria sem memória.
Todos temos os nossos cães atropelados
e a pálida hora de negarmos quem somos
por não o sabermos nunca.
Quero estar lá, a memorar a morte,
para que a não confunda com a vida
e possa reconhecer as chaves do reino
em que me encontre e saiba ter renascido.
Quero estar lá, infinito,
numa viagem de luz e sangue
navegado pela ignorância de Colombo.
Cega e branca, a luz ofusca os magos
e deixa morrer o vinho na videira,
mas dá-nos asas no lugar de ombros
- macios como dorsos de corvos
engalanados em festim de família.
Quero estar na noite diurna do tempo
não sabendo em que fuso horário cósmico
deva converter sonhos de divindade,
numa praia em que casais nus de amantes
passeiem à beira-mar e sorriam.
Quero estar lá, sem corpos macios
nem ascendência polaca, nem luz branca,
a pairar sobre a consciência descalça,
como quem pede minutos ao despertador.
Não sei se agradeça pela luz branca cega.
O cálculo da razão planeia homicídios
e funda religiões tensas atrás de vedações.
Quero estar lá para um último beijo
antes que nos reencontremos.
Eu hei-de estar lá.

Obrigado, Ray Manzarek (12 de Fevereiro de 1939 - 20 de Maio de 2013)

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Sexta-feira, Maio 17, 2013

Videoclip de "Mãe"


A canção "Mãe" foi recentemente apresentada AQUI, no Caderno de Corda, mais precisamente no dia 5 de Maio de 2013. Hoje publico o videoclip possível, realizado por mim, pejadinho de imagens ilicitamente obtidas do YouTube. Não deixo, no entanto, de referir as fontes  de que me abeberei, "com todo o respeito":

- http://www.youtube.com/watch?v=gaK0VPV9NlE
- http://www.youtube.com/watch?v=mVutXcycUjQ
- http://www.youtube.com/watch?v=7GGzc3x9WJU
- http://www.youtube.com/watch?v=-2IElTsBsMo
- http://www.youtube.com/watch?v=pV58YptFTK0
- http://www.youtube.com/watch?v=ZhgR3zVfo-0
- http://www.youtube.com/watch?v=w1TQrc_UE7A
- http://www.youtube.com/watch?v=-xgZZPByb1A&NR=1&feature=fvwp
- http://www.youtube.com/watch?v=GdFRB7D53Do
- http://www.youtube.com/watch?v=RiGeqsGjhoY
- http://www.youtube.com/watch?v=Un5SEJ8MyPc
- http://www.youtube.com/watch?v=EIxAPFYDsnQ
- http://www.youtube.com/watch?v=0lMXAOc4FQA
- http://www.youtube.com/watch?v=Cd9cBlvfjow
- http://www.youtube.com/watch?v=AoisqOGQIVE
- http://www.youtube.com/watch?v=-VFe0DG7LDE

Devo acrescentar que o videoclip que aqui se estreia foi realizado por mim em software gratuito. Compus e gravei integralmente a música em casa (música, letra, baixo, guitarras, vozes), à excepção da bateria, gravada e tocada por Sebastiano Ferranti, que, por fim, misturou e masterizou a canção. Todas as informações no post de lançamento da canção.

n. b. - Porque a audição da música é prejudicada pela má qualidade do som pós-upload no YouTube, segue abaixo um player que remete para a mesma, com melhor qualidade de audição, embora num MP3 fraco, é certo. Se o estimado leitor quiser pode, em local apropriado, e sem procurar muito, fazer o download desta e doutras canções.
 

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Domingo, Maio 05, 2013

Nova canção 'Mãe' em estreia aqui e agora no dia da... mãe

ComScore

'Mãe' é uma canção que deu o primeiro ar de graça no final do Verão de 2011, estava eu na minha anterior casa a trabalhar numa publicação que dirijo com o designer meu Amigo Luís Dias - ele estava a fazer paginação e eu a tocar guitarra enquanto o observava, mais precisamente. Foi assim que surgiram os primeiros acordes, que retive porque capturei o momento em vídeo, com o telemóvel, para eventualmente retomar o projecto de canção mais tarde. Muito tempo depois, quando acabei de gravar 'Liberdade É Escrever Canções', recorri às gravações que tenho de esboços de canções, feitas com recurso a telemóveis, computador, gravador e leitor de MP3 ou, claro, ao Boss Micro BR, e encontrei o tal registo em vídeo de quando estava sentado junto ao Luís a arranhar aquela primeira sequência de acordes em SI. De entre muitas gravações de ideias e esboços, engracei com aquilo naquele momento e peguei-lhe para fazer o que acabou por ser esta canção.  
Mais de um ano após o surgimento da primeira ideia, já quando formada uma estrutura básica, e enquanto eu procurava uma melodia para a voz, afigurou-se uma única palavra para o refrão: Mãe. A letra, por seu turno, teve a sua primeira versão escrita no Verão de 2012, passado quase todo à beira da piscina de um Irmão, mas só foi fechada em Fevereiro de 2013.
Essencial neste caso é referir que, desta vez, tive a colaboração indispensável e muito prezada do meu dear and old chap Sebastiano Ziani de Ferranti (Bill, ex-Three and a Quarter actualmente nos Youthless), que já se tinha predisposto por diversas vezes para ajudar no que fosse preciso, muito especialmente no que à gravação diz respeito. Acontece que 'Mãe' não poderia mesmo ser gravada inteiramente no meu gravador de quatro pistas Micro BR, uma vez que os padrões de bateria que o Micro BR apresenta não seriam adequados às especificidades desta canção em particular. Nem um ritmo do Micro BR se aproveitava... Por isso, falei com o Bill para que ele gravasse a bateria na velha cave/sala de ensaio dos Ferranti. O Bill gravou a bateria e acertou-se ali que esta canção seria gravada, misturada e masterizada por ele.
No entanto, por saudável divergência de métodos, e após algumas sessões infrutíferas de gravação de cordas na casa do Bill de então, na Graça, nas quais gravámos ainda o órgão com um controlador midi, acabámos por concluir que seria mais proveitoso e menos cansativo para ambos se eu gravasse o baixo e as guitarras em casa, com o Micro BR de sempre. O Bill ainda gravou ali o baixo que serviu de guia, mas, em minha casa, com o meu baixo Rockson de 80 euros, acabei por gravar a linha de baixo definitiva. Posto isto, avancei também com as guitarras em casa, mas senti, mais uma vez, que o processamento do Micro BR é por vezes curto ou insuficiente - não tanto em diversidade, mas quanto à qualidade de som de alguns presets. As guitarras usadas foram a electro-acústica Ibañez EWC-30 de cordas de aço e a eléctrica Duesenberg Starplayer TV. As pistas foram depois misturadas na actual casa do Bill, em Ranholas, com recurso ao software ProTools. O resultado disto e da masterização decorrente foi obtido após o trabalho possível nos tempos livres raros de que o Bill dispôs, especialmente encurtados com a recente paternidade da pequena Jasmin Ferranti. De referir que, em prazo indefinido, 'Mãe' terá mais duas versões de remistura e remasterização - uma segundo a interpretação do Bill e outra mais de acordo com o meu parecer.
Por capricho do calendário, a canção ficou pronta no passado dia 1 de Maio, a quatro dias deste dia 5, que não por acaso é o dia da mãe. Por isso a guardei para apresentação hoje, dia em que tenciono oferecê-la à minha mãe num CD. Apesar destes factos, esta não é uma canção de dia da mãe e muito menos um tema de alegre exaltação à progenitora ou a uma qualquer efeméride que daí decorra. Em boa verdade, esta é uma canção que, perante medos, desesperanças, sofrimentos e solidões, clama pela mãe - a mãe de todas as mães, chamem-lhe, porventura, Eterno Feminino. 
"Eterno Feminino" terão sido as últimas pa­lavras de Goethe, no segundo Fausto, para designar a atracção que guia o desejo transcendente do homem. Curioso que eu tenha utilizado, na letra, ideias e palavras de Fausto (o Bordalo Dias), mas também de Jorge Palma e, muito especialmente, de José Mário Branco, mas já lá vamos. Na ideia referida de Goethe, o feminino representa o desejo sublimado, e isso é proclamado por um coro místico: "O Eterno Feminino nos atrai para o Alto." Em muitas cogitações filosóficas, antropológicas ou místicas a mulher está mais li­gada do que o homem à alma do mundo, às primeiras forças elementares, e é através dela que o homem comunga dessas forças, mas não será a mulher emancipada nem aquela que se tornar semelhante ao homem a que terá um importante papel a desempenhar no período futuro da história, mas sim o chamado "Eter­no Feminino", que encontra no Amor a grande força cósmica. A Virgem-Mãe, Nossa Senhora, é a encarnação mais evidente do tema. O Feminino autên­tico e puro é, por excelência, uma energia luminosa e casta, portadora de coragem, de ideal e de bondade a que recorremos em oração e, por vezes, em desespero de causa, clamando pela mãe. Por vezes também se escrevem canções nesse mesmo estado de espírito... Para Jung, o feminino personifica as tendências psicológicas femininas na psique do homem, como, por exemplo, senti­mentos e humores instáveis, intuições proféticas, a sensibilidade ao irracional, a capacidade de amar, a faculdade de sentir a natureza e, finalmente, as relações com o inconsciente. 
Se foi nisto que o Jorge Palma pensou quando escreveu, por exemplo, o refrão da 'Canção de Lisboa', ou o Fausto, quando redigiu  o poema da canção 'Ó Mar', que obviamente inspira a segunda e a terceira estrofes, não faço ideia, mas é certo que o José Mário Branco tocou a ferida universal quando fez descambar um pranto doloroso à mãe já na parte final da épica canção 'FMI', à qual roubei palavras que adaptei para a última estrofe e último refrão da minha canção 'Mãe'.
 
Todas as canções originais deste player estão disponíveis para download gratuito.
Clique em "download".

* Mãe - letra *
 
Meto à boca o pão,
seco, duro como pedra, amor
que não me deste a...
 
beber do teu suor
o sal da vida salga
a ferida eterna e universal
 
Sou mais do que animal,
mais que a fera parida
- Mãe -
 
O que o tempo esqueceu
leva que hei-de voltar ao mar
profundo de um sono meu
 
Eu sou como quem vem
desamparado pra regressar
ao fundo ventre da mãe
 
Sou mais do que animal,
mais que a fera parida
- Mãe -
 
Sou algo que é só meu,
faço comigo o que quiser
 
Desde que haja amor?
- Amor não dá de comer!
 
Não posso desnascer,
ir embora sem ter de ir embora,
sou deste tempo
 
entre fugir de me encontrar
e me encontrar fugindo
- Mãe -

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Terça-feira, Abril 30, 2013

Segunda-feira, Abril 29, 2013

Uno

Presumes ser irrisório,
uma pequena entidade,
mas em ti está o universo.
És matéria das estrelas,
vindo de galácticas entranhas
de carbono, nitrogénio, oxigénio.
Conténs a cura e a doença;
és a vida e os seus ingredientes.
Perante o céu nocturno
pareces insignificante,
mas em ti está o universo.
És átomos de antigas estrelas
e o teu próprio mistério.

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Segunda-feira, Abril 22, 2013

Domingo, Abril 21, 2013

Que Poema Será Esse?

Quantos anos viverei sem saber
quantos anos viverei
na palma da mão?
Quantas estrelas vou em vidas habitar
nas estrelas que em mim habitam
em cosmos deste coração?
Quantos versos escreverei
sem saber quando escrever
um verso que se escreva só?
Que poema será esse?

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Sábado, Abril 06, 2013

Sexta-feira, Abril 05, 2013

Vida ao Lado

Bebo dos olhos a água
de uma fonte de ilusões
que, sedento, me deixou
de cabeça no lancil
acordar embriagado.
Quase consegui esquecer
ter vindo cá para morrer.
Seria feliz em olvido
quem por isso não tivesse
de recordar para sempre,
passando a vida ao lado.


Obrigado, Amália.

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Quarta-feira, Março 27, 2013

Oito anos de Caderno de Corda



Oito anos volvidos, o Caderno de Corda soma quase 1500 posts, mais de 110 mil visualizações de páginas e cerca de 60 mil visitantes oriundos dos cinco continentes. Os últimos três a quatro anos têm sido de publicação muito intermitente, mas nada que ponha em causa a continuidade de um espaço que se constituiu o meu quartel-general cibernético, onde deposito criações e algumas memórias.
Escrevia eu num post de 9 de Novembro de 2005 que "ao Caderno de Corda não interessa o individualismo opinativo, a recriação noticiosa, a política, os fait divers, o quotidiano esbatido e mastigado como pastilha elástica vezes sem conta, sem nutrir, enganando o estômago. Não interessa aquilo que já foi dito, a reposição da indignação dos outros nem a ruminagem desencontrada do primordial conhecimento: o de nós próprios". De facto, para isso os blogues já não servem há algum tempo, especialmente com a tomada de poder do Facebook, que transformou por completo o jogo.
Ainda assim, e não podendo vencê-los (ao Facebook, entenda-se), tornei pública ontem, dia 26 de Março, a página de FB do Caderno de Corda (clique no hipertexto e faça like) - um sítio a partir do qual poderei estabelecer novas pontes para este blogue, mas donde não se pretende, de modo algum, replicar conteúdos. A página de FB do Caderno de Corda não se quer desenvolvida, pretendendo ser antes um ponto de encontro e uma referência para o blogue nas redes sociais.
96 meses de existência blogosférica têm par em anos-luz de vida efectiva. Daqui já se publicaram dois livros de poesia e daqui já muitas canções originais inéditas foram apresentadas ao mundo. A conversão do factor tempo já foi até aventada por teóricos enredados em inutilidades várias, a jeito de se categorizar a cronologia como se faz quanto ao ano de César e seus respectivos sete anos caninos. Por isto, na pós-adolescência bloguística, o Caderno de Corda promete mais, embora não se saiba, para já, o quê, à excepção da publicação de uma canção que está quase pronta, chamada 'Mãe'. Obrigado a todos os leitores por serem, em última análise, a razão, se não dos escritos, da sua publicação.
 
Link para a página do Caderno de Corda no Facebook: http://www.facebook.com/CadernoDeCorda

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Anno VIII - O Jantar (ou O Regresso)

Mantendo a semi-aleatoriedade tradicional da legenda, eis os comensais e queridos Amigos presentes n' O Jantar cordiano de 8.º aniversário: César Silveira, Ricardo Pinto, Miguel Leão Miranda, Carlos Nunes, Gustavo Silva, Eu, João Pimenta, Rui Almeida, Bruno Sardo e João Carlos Graça.
 
Depois de nós e de um fogo que destruiu parcialmente o restaurante A Valenciana no dia 14 de Novembro de 2011, passaram-se dois anos sem que O Jantar se realizasse. Sobrevivemos a tanto que nos transformou e, está bom de ver, sobreviveu a feliz tradição deste jantar, recuperada para o que vier. Desde a primeira edição d' O Jantar, já escrevi esta nota anual a partir de quatro casas diferentes. Há oito anos quase tudo era tão diferente, exceptuando a amizade que nos une, indestrutível e à prova de fogo.
De há uns tempos a esta parte, o Caderno de Corda como que se envergonhou, rareando a publicação, outrora diária. Ainda assim, mantém sólidos os fundamentos que o  alicerçam enquanto depositório das minhas avarias criativas - poéticas, musicais ou outras... Nesse aspecto, permanece válido como sempre, e é minha convicção de que o que neste blogue está contido por trás de tags e de arquivos mensais tem algo que se lhe diga. Os conteúdos, para serem revisitados, exigem do leitor tempo de pesquisa e curiosidade. De facto, não fossem os conteúdos, muitas das visitas diárias ao Caderno de Corda, oriundas de todos os pontos do planeta, não aconteceriam. Hoje, a esmagadora maioria dos visitantes deste blogue chega de todas as partes do mundo por intermédio de pesquisas feitas em motores de busca. 
Mas, muito mais relevante do que isso, é de constatar que este é um blogue capaz de estabelecer outras pontes, mais próximas, e de inventar pretextos para a celebração da Amizade. Como já havia escrito antes, nós convergimos como deuses, astros ou mundos, porque queremos e não desistimos; porque somos crianças de olhos ternos postos na lua, apesar das cãs, dos grisalhos, das entradas. Fomos aprendendo a ser Homens, unidos na inexplicável simplicidade de crianças, no fundo dos olhos nossos, nos abraços, nas inquietudes, mas, acima de tudo, na alegria cintilante de uma estrela de destino que nos garante um descontentamento contente quando, apesar de sós, estamos sempre acompanhados. É também isso que o Caderno de Corda tem feito por mim, como mensagem perdida na garrafa pseudonimada das marés cibernéticas.
Retorno às fotos dos jantares anteriores e volto a constatar que, em não tanto tempo, tudo mudou para alguns de nós. Castelos se desmoronaram na fímbria enchente de amores, desamores, encontros e desencontros, batalhas e outras derrocadas desesperantes. No mesmo período, sonhos se realizaram em primaveras de Inverno e o encantamento ateou de surpresa a brasa de um Desígnio que sempre esteve dentro de nós -  uma coisa indizível e inebriante que nos traz juntos há tantos anos, predispondo-nos mutuamente, preterindo a esterilidade quotidiana.
Há muito que este jantar transcendeu a liça cibernética, resgatando o virtual para a mais tangível realidade dos afectos - jantar que é igualmente um feito de todos, muito além da mera celebração do aniversário deste blogue: o jantar dos que abrem as portas ao Mundo, sem medo da felicidade, como me sugeriu, em tempos idos, uma expressão icónica constante  no blogue do Gustavo, que recupero, reformulando-a, de quando em vez para aqui.
Brindámos, mais uma vez, à amizade, ao reencontro, à certeza do que foi, do que está para vir - do que é. Um brinde nosso; não do Caderno de Corda, mas um brinde que muito honra este blogue e o seu autor - mais: que lhe confere a autenticidade e o fito das coisas partilhadas e vividas. Em suma, a efeméride não pode passar sem concretização à mesa; o Caderno de Corda não se pode fazer sem isto.
Este ano tivemos algumas estreias: Bruno Sardo, Carlos Nunes e Miguel Leão Miranda (a Mariana Azevedo Peres apareceu depois da foto de grupo). Apesar de confirmados, não puderam comparecer Paulo Amaral e família, e Hugo Dantas. Em dúvida estiveram muitos outros Amigos, alguns dos quais reincidentes n' O Jantar, como os irmãos Tomás, o João Trigo, a Constança Amaral, a Sara Amaral, o Felipe Gomes, a Margarida Geraldo, a Carolina Pinto ou a Joana Gonçalves, a quem deixo Aquele Abraço e, desde já, o convite para o próximo ano. Por isto, insisto que a vossa amizade é um privilégio que defendo como a um tesouro à vista. Siga mais um abraço a todos os estimados leitores e Amigos que, por incontornável impedimento, gostariam de ter levantado ferro, à tona do éter morno onde navegam resignadamente os desolados pescadores de Umbigo, mas não puderam.
Depois do jantar, eu, o Pimenta e o Carlos ainda fomos beber mais um copo ao Foxtrot, que se recomenda, mas não conseguimos jogar a snookerada prevista por a mesa se encontrar indefinidamente ocupada. O Caderno de Corda promete, para breve, a publicação de uma nova canção, chamada 'Mãe', que já está escrita e parcialmente gravada há quase um ano, mas cujos trabalhos de mistura e masterização estão a demorar mais do que o desejável, especialmente porque serão feitos com o meu querido Sebastiano Ferranti (Bill), em sua casa, mas o Bill foi pai muito recentemente, aliás, tal como o César Silveira...
Como sempre nesta ocasião, o cabeçalho do Caderno de Corda está agora actualizado, podendo ler-se, no final da animação, Anno VIII.
 
Para o ano há mais. No mesmo sítio, à mesma hora.
 
Assim seja.
 
Links para posts análogos dos aniversários anteriores:

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Terça-feira, Março 26, 2013

Anno VIII - O Jantar (convocatória)

Atípica e breve, a convocatória para o regresso d' O Jantar do Caderno de Corda, após dois anos de interregno por motivos de força maior, surgiu desta feita no Facebook em primeira mão. Este post cumpre a mera formalidade de manter-se um registo devido no blogue, que o FB mobiliza mas não satisfaz nesse capítulo. 
Como sempre, O Jantar, que se realiza invariavelmente no restaurante A Valenciana,  é de participação totalmente livre e dedicado aos meus indefectíveis Irmãos cordianos, pensando também nos estimados leitores, fisicamente distantes. São igualmente bem-vindos portadores de instrumentos musicais e bailarinas exóticas. Note-se que O Jantar se realiza sempre a dia 26, para que, a 27, dia de aniversário, O Caderno de Corda se apresente devidamente engalanado.

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Quarta-feira, Novembro 07, 2012

'Sétima-Feira' no jornal A BOLA

'Sétima-Feira' hoje no jornal A BOLA, com os auspícios do meu querido e eterno chefe António Simões (canto inferior direito)

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Terça-feira, Novembro 06, 2012

Revista Tempo Livre destaca 'Sétima-Feira'

'Sétima-Feira' na revista Tempo Livre deste mês, página 14. Um forte Abraço fraterno à equipa da TL, com um agradecimento especial a Eugénio Alves, José Frade e Teresa Joel

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Segunda-feira, Novembro 05, 2012

'Sétima-Feira' de novo na revista VIP (n.º 799)

Sexta-feira, Novembro 02, 2012

Primeiras impressões sobre 'Sétima-Feira' no Rua de Baixo

'Sétima-Feira' em texto "rabino" do meu querido Pedro Miguel Silva no site Rua de Baixo

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Segunda-feira, Outubro 29, 2012

Fotos da apresentação de 'Sétima-Feira' na Fábrica Braço de Prata

Foto: João Trigo
Com Paulo Amaral, João Pimenta e Gustavo Silva
Foto: José Frade
Foto: João Trigo
Foto: João Trigo
 Foto: João Trigo
 
Um agradecimento especial ao meu querido e velho Amigo João Trigo e ao meu querido compadre e companheiro José Frade

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Segunda-feira, Outubro 22, 2012

'Sétima-Feira' na revista VIP

 
Com um agradecimento especial à minha amiga Carla Moelas

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Sábado, Outubro 20, 2012

Hoje, pelas 18 horas, vê-mo-nos na Fábrica Braço de Prata

Capa de 'Sétima-Feira', pelo meu querido amigo designer Michael Cavero de Carondelet

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Quinta-feira, Outubro 18, 2012

A foto de 'Sétima-Feira', por José Miguel Sardo

Foto do jornalista e amigo José Miguel Sardo, feita em Campolide, na oficina de um estofador, por volta de 2010, que resultou na capa do livro 'Sétima-Feira'.

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Quarta-feira, Outubro 03, 2012

Apresentação de 'Sétima-Feira', dia 20 de Outubro de 2012, na Fábrica Braço de Prata

Estimado(a) Leitor(a),

o Caderno de Corda orgulha-se de anunciar que 'Sétima-Feira', o segundo livro de poesia deste que vos escreve, será apresentado no próximo dia 20 de Outubro, pelas 18 horas, na Fábrica Braço de Prata, onde, aliás, decorreu a apresentação de 'Pôr a Escrita em Noite'. Mais uma vez, o momento é, obviamente, de grande importância para o autor, que não dispensa a presença de amigos e família.
Sob a chancela da Corpos Editora, o livro terá um preço de venda ao público de 15 euros. Fico duplamente agradecido aos estimados leitores que divulgarem o convite. Abaixo segue um pequeno mapa da zona onde se realizará o evento.


Fábrica Braço de Prata
Rua da Fábrica de Material de Guerra, n.º 1
(diante dos correios do Poço do Bispo)

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Quinta-feira, Setembro 20, 2012


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Quarta-feira, Setembro 19, 2012

Mandala

Sou os 99 irmãos que preferias esquecer,
a criança dos pensos rápidos,
do ranho no nariz e aftas.
Sou o cão rafeiro, cheio de mazelas,
com um olhar perdido que as carraças consomem.
Sou o órfão a quem deste um cobertor roto
e a mama albanesa a descoberto no engarrafamento.
Sou o Outro e eu próprio sou de mim um outro,
que quereria ser tu.
Por isso sequer me queres deixar ser.
Eu.

A ouvir a discografia de Saturnia, do Luís Simões

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Quarta-feira, Setembro 12, 2012

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Quarta-feira, Setembro 05, 2012

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Terça-feira, Agosto 21, 2012

Chegou hoje ao Reverb Nation, directamente do ano 2000, a canção "Dia Final"



"Dia Final" terá sido escrito por volta de 1998 ou 1999, no meio de um turbilhão de mudanças e traumatismos. Encontrei uma pessoa que partira. A pessoa que ainda me ilumina. Há outras, mas ainda não as encontrei assim. A canção, essa, foi originalmente gravada no ano 2000, de novo na garagem do Carlos, dos Beringelas, pelo técnico João Martins, então baixista dos Skamioneta do Lixo, tal como já havia sido feito nas gravações de "Italian Wool" e "Universo de 1".
"Dia Final" foi, aliás, gravado entre takes com "Universo de 1", no mesmo período. Tal como em "Universo de 1", a bateria foi tocada por Paulo Amaral, baterista dos Baby Jane, e tudo o resto, incluindo sintetizadores quase inexistentes, além de guitarras, baixo e vozes, por mim.  
AQUI pode ler-se um post publicado em Junho de 2005 acerca da canção, contendo, no entanto, incongruências quanto às datas. Nesse post explica-se o porquê de esta versão incluir o trecho de um poema de José Régio. Há outras versões, com outros versos no último terço da letra, nomeadamente aquela gravada pela banda Baby Jane no EP "História de Um Vinho Azedo", em 2008, na qual foi reescrita essa parte final da letra, de modo a que esta não coincidisse com as palavras de Régio.

Dia Final (letra)
A tua cor de sol
E os teus pés de areia
São o princípio e o final
De uma força que receia.

E foi ter-te tão perto
Que me fez deslumbrar
Quando o teu braço de ferro
Se deu a descambar.

- Temos o dia final
mas antes podemos ter o proveito –

Foi então que eu peguei
E te resolvi escrever
Mas tu nunca vais compreender. (2x)

Peço-te por favor,
Já que tu não me ouves,
Esta não é uma história de amor
Porque tu nunca me viste como eu te vi...

Sei que me não entendes.
Sei que quanto melhor te revelar
O meu mundo profundo,
O fundo do meu mar;
Os limos do meu poço,
O antro que é só meu,
(sendo, apesar de tudo, nosso)
Menos me entenderás...

- Temos o dia final
mas antes podemos ter o proveito –

- Temos o dia final
mas antes Temos de ter o proveito –

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Segunda-feira, Agosto 13, 2012

Duas das actuações dos Baby Jane nos "Reis do Estúdio" chegam ao YouTube

Descobri hoje que estão no Youtube dois vídeos de duas das três actuações da banda finalista Baby Jane no programa "Reis do Estúdio", emitido pela RTP em 97/98. Neste post reúno os vídeos das actuações na primeira eliminatória do programa ("Sol da Caparica") e na semi-final ("Impressões Digitais"), ambas ganhas pelos rapazes com distinção. Falta ainda publicar na net o vídeo da actuação na finalíssima, no qual a banda interpretou "Playback", da Carlos Paião. Do tempo em que havia música ao vivo na TV... Obrigado ao Dino Duarte, que fez o upload!

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Quinta-feira, Junho 14, 2012

Nova canção "Liberdade É Escrever Canções" em estreia mundial aqui e agora

ComScore

'Liberdade É Escrever Canções' é uma canção com muitos avôs, admitindo que eu seja o pai. Trata-se do tema mais curto (apenas 2,32 minutos) e mais simples que já compus, novamente com recurso ao gravador digital de quatro pistas Boss Micro BR. A gravação durou alguns meses, durante as horas livres, e a letra só ficou verdadeiramente concluída hoje, no decorrer do processo de gravação da voz.
Embora já estivesse parcialmente escrita, a letra teve como mote a frase "enquanto te exploram gritas golo", que li algures numa imagem partilhada no Facebook há bastantes meses. Essa frase, e toda uma lógica metafórica em torno da vida contemporânea e do futebol, redundou numa analogia premente, uma vez estando a disputar-se neste momento o Europeu de futebol 2012 na Polónia e na Ucrânia. Tão premente a analogia que me vi quase obrigado a concluir a canção no curto prazo, ganhando momentum de empurrão e chuto para a frente. Devo acrescentar que o título se deve a Sérgio Godinho, que entrevistei recentemente, tendo usado essa mesma frase para titular uma grande entrevista.
Antes de proceder a algumas considerações acerca do processo criativo e das chaves-mestras que deram luz à ideia, inevitável é dizer que, em 'Liberdade É Escrever Canções', contei com a participação do meu querido e velho amigo (de infância, mesmo!) Moisés nas teclas, também conhecido por Bernardo Rodrigues. O Moisés, que já havia gravado comigo em 'Italian Wool' (versão de 1999), tocou com um Roland daqueles que quase não cabem num carro grande, com oitavas a mais, diga-se, mas de momento não sei enunciar a referência do órgão.
Sobre a origem da ideia, revelo tudo, sem cartas na manga: foi quando estava a ouvir bootlegs e gravações de ensaios de uma banda chamada Nirvana, onde despontava Kurt Cobain, que deslindei um projecto de música interessante: 'Old Age'. Não me fiz rogado, peguei na guitarra e toquei o tema à primeira, descarrilando rapidamente para 'All Along the Watchtower', de Bob Dylan. Deitei uma pitada de modernidade com Strokes de guitarra, palminhas, feedbacks orgânicos e sintetizados, e incorporei tudo numa nova canção. 
Voltei a tocar com o pobre baixo Rockson do costume, com a guitarra electro-acústica Ibañez EWC-30 de cordas de aço e com a guitarra eléctrica Duesenberg Starplayer TV. Mais uma vez, a bateria é programada no Micro BR. O Caderno de Corda volta a ser o suporte de lançamento (leia-se publicação) de uma canção inédita.  
Antes de concluir o post com a inserção da letra de 'Liberdade É Escrever Canções', reforço que esta e as outras gravações disponíveis no player acima foram, à excepção de 'Italian Wool' (1999) e 'Universo de 1' (2000), inteiramente produzidas, gravadas, masterizadas, produzidas, you name it, no minúsculo four-track Boss Micro BR. De recordar que, em 'Por Aquela Estrada', tive o privilégio e a honra de contar com a amizade e a colaboração do saxofonista inglês Mark Cain. Ainda assim, sublinhe-se que, neste Micro BR Sport Billy, que é fantástico, as limitações são inúmeras se compararmos o sistema ao do estúdio caseiro mais modesto. Para melhor audição, aconselha-se o uso de headphones.
PS - E eu sei que infortúnio é um substantivo, adianto, precavendo-me contra o chico-espertismo intelectual de trazer por casa que se afirma apenas sobre o erro alheio.

Todas as canções originais deste player estão disponíveis para download gratuito.
Clique em "download".


* Liberdade É Escrever Canções - letra *

Amanhã vais sair mudo,
a tempo de ver o jogo...
Enquanto te exploram gritas golo...

Depois vais entrar calado
e ficar por um bocado
a digerir o infortúnio resultado.

Eu cá já dei prá petição;
assinei de cruz a votação.
Liberdade é escrever canções,
fazer amor e revoluções...

Amanhã jogas pró empate;
dos males o menos grave...
Glorificas os remates à trave.

Depois deixas correr a sorte,
mas isso toda a gente sabe...
Quem não marca... sofre.

Eu cá já dei prá petição;
assinei de cruz a votação.
Liberdade é escrever canções,
fazer amor e revoluções...

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Terça-feira, Maio 15, 2012

Cobardia

O silêncio engole tudo.
A ausência de gesto e de vontade é, em presença,
pior do que a própria ausência.
O abandono reflecte a morte viva
- a morte dos outros e nossa neles.
Estar pode ser um verbo feliz
apenas se colocado em perspectiva.
A memória do presente entedia o futuro;
é uma teia aspirada por um tubo.
Não há enganos:
os amores e os corpos findam.
Esquecer existindo não é opção.
Uns esquecem sem saber
e outros, sabendo-o, esquecem de sentir,
lembrando-o no entanto.
Em ambos os casos
há um rumor de morte anunciada
sem urgência.
Sem dádiva, a vida encontra-se
no erro das circunstâncias.
Aceitar o karma entrega-nos a um destino
que nada mais é do que cobardia.
A felicidade exige coragem.

Torel

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Cremilde de Almeida (1932-2012)

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Sábado, Maio 12, 2012

Agnus Dei

Ainda te levei a ver o mar
marginal das nossas vidas.
O teu corpo esteve nestes braços
inermes para te suster à tona.
Sentei-te antes de brincar com os teus dedos
e de abrir-te a janela
para que respirasses fundo.
A última maresia também não deve
encontrar em nós consolo.
Tinhas angústia nos olhos,
mas pazes feitas com a iniquidade.
Inerte e trémula;
a pele macia e manchada
por uma alergia à panaceia.
A impaciência de ser
torna-nos pacientes da vida.
Na inquietude de ter os pés quentes
esfregamos o corpo ao corpo
no lugar de estar só.
O desejo é infinito
que nos devora, avó.
Partiste ainda nem há dois dias.
A imagem bela, terna e doce
a que regressarei sempre
está na foto que te tirei na pastelaria.

À minha avó Cremilde de Almeida. 12 de Maio de 2012

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Quarta-feira, Abril 25, 2012

25 de Abril - Um Olhar Para a Memória, 30 anos depois



"A revolução, se quiser resistir, deve permanecer revolução. Se se transforma em governo, já está falida... Os lugares que deixaram de ter uma revolução permanente recuperaram a tirania."

in "Aprire il Fuoco", L. Bianciardi (1922-1971)

Oito anos depois chega à Web o documentário fotográfico em filme que realizei em 2004 a propósito do trigésimo aniversário do 25 de Abril de 1974, quando pensava ter perdido definitivamente o seu registo, produzido no âmbito dos trabalhos da cadeira de Fotojornalismo, curso de Comunicação Social da Universidade Autónoma de Lisboa (UAL), leccionada por Luiz Carvalho.
Reencontrei uma cópia do original há dias, durante arrumações, e finalmente pude salvar a empreitada a que me dei, contando com a dádiva genial e incansável do excelente fotógrafo e jornalista Tiago Valente, meu prezado amigo cujo rasto perdi há uma mão cheia de anos, no seu regresso de Roma. É de elementar justiça referir que o Tiago fez a maior parte das fotos que posteriormente seleccionei para a composição narrativa.
Sem pregar olho nessa noite, eu e o Tiago encontrámo-nos para fotografar, 30 anos depois, in loco, desde a alta madrugada, o ponto de chegada de Salgueiro Maia a Lisboa, à hora exacta, até final do dia, calcorreados entretanto os caminhos e os palcos fulcrais, replicados, de um golpe de Estado absorvido, como que por osmose, por uma revolução dos cravos nascida da natureza da participação popular verificada. O trabalho foi misturado nos estúdios da UAL por Ricardo Sant'Ana e Hugo Simões a contra-relógio, com Carlos Paredes como pano de fundo. Adverte-se que, num olhar prismático, o 25 de Abril de 2004 pode eventualmente parecer tão ou mais longínquo do que o outro, de 74.
Mais uma vez, concluo levando de empréstimo uma frase de Zeca Afonso e, por fim, um poema do Grande Mestre Jorge de Sena. "Para se ser cidadão era necessário mais alguma coisa do que meter um voto numa urna."


"NÃO, NÃO, NÃO SUBSCREVO,..."

(JORGE DE SENA)

Não, não, não subscrevo, não assino
que a pouco e pouco tudo volte ao de antes,
como se golpes, contra-golpes, intentonas
(ou inventonas - armadilhas postas
da esquerda prá direita ou desta para aquela)
não fossem mais que preparar caminho
a parlamentos e governos que
irão secretamente pôr ramos de cravos
e não de rosas fatimosas mas de cravos
na tumba do profeta em Santa Comba,
enquanto pra salvar-se a inconomia
os empresários (ai que lindo termo,
com tudo o que de teatro nele soa)
irão voltar testas de ferro do
capitalismo que se usou de Portugal
para mão-de-obra barata dentro ou fora.
Tiveram todos culpa no chegar-se a isto:
infantilmente doentes de esquerdismo
e como sempre lendo nas cartilhas
que escritas fedem doutras realidades,
incompetentes competiram em
forçar revoluções, tomar poderes e tudo
numa ânsia de cadeiras, microfones,
a terra do vizinho, a casa dos ausentes,
e em moer do povo a paciência e os olhos
num exibir-se de redondas mesas
em televisas barbas de falácia imensa.
E todos eram povo e em nome del' falavam,
ou escreviam intragáveis prosas
em que o calão barato e as ideias caras
se misturavam sem clareza alguma
(no fim das contas estilo Estado Novo
apenas traduzido num calão de insulto
ao gosto e à inteligência dos ouvintes-povo).
Prendeu-se gente a todos os pretextos,
conforme o vento, a raiva ou a denúncia,
ou simplesmente (ó manes de outro tempo)
o abocanhar patriótico dos tachos.
Paralisou-se a vida do país no engano
de que os trabalhadores não devem trabalhar
senão em agitar-se em demandar salários
a que tinham direito mas sem que
houvesse produção com que pagá-los.
Até que um dia, à beira de uma guerra
civil (palavra cómica pois que do lume os militares seriam quem tirava
para os civis a castanhinha assada),
tudo sumiu num aborto caricato
em que quase sem sangue ou risco de infecção
parteiras clandestinas apararam
no balde da cozinha um feto inexistente:
traindo-se uns aos outros ninguém tinha
(ó machos da porrada e do cacete)
realmente posto o membro na barriga
da pátria em perna aberta e lá deixado
semente que pegasse (o tempo todo
haviam-se exibido eufóricos de nus,
às Africas e às Europas de Oeste e Leste).
A isto se chegou. Foi criminoso?
Nem sequer isso, ou mais do que isso um guião
do filme que as direitas desejavam,
em que como num jogo de xadrez a esquerda
iria dando passo a passo as peças todas.
É tarde e não adianta que se diga ainda
(como antes já se disse) que o povo resistiu
a ser iluminado, esclarecido, e feito
a enfiar contente a roupa já talhada.
Se muita gente reagiu violenta
(com as direitas assoprando as brasas)
é porque as lutas intestinas (termo
extremamente adequado ao caso)
dos esquerdismos competindo o permitiram.
Também não vale a pena que se lave
a roupa suja em público: já houve
suficiente lavar que todavia
(curioso ponto) nunca mostrou inteira
quanta camisa à Salazar ou cueca de Caetano
usada foi por tanto entusiasta,
devotamente adepto de continuar ao sol
(há conversões honestas, sim, ai quantos santos
não foram antes grandes pecadores).
E que fazer agora? Choro e lágrimas?
Meter avestruzmente a cabeça na areia?
Pactuar na supremíssima conversa
de conciliar a casa lusitana,
com todos aos beijinhos e aos abraços?
Ir ao jantar de gala em que o Caetano,
o Spínola, o Vasco, o Otelo e os outros,
hão-de tocar seus copos de champanhe?
Ir já fazendo a mala para exílios?
Ou preparar uma bagagem mínima
para voltar a ser-se clandestino usando
a técnica do mártir (tão trágica porque
permite a demissão de agir-se à luz do mundo,
e de intervir directamente em tudo)?
Mas como é clandestina tanta gente
que toda a gente sabe quem já seja?
Só há uma saída: a confissão
(honesta ou calculada) de que erraram todos,
e o esforço de mostrar ao povo (que
mais assustaram que educaram sempre)
quão tudo perde se vos perde a vós.
Revolução havia que fazer.
Conquistas há que não pode deixar-se
que se dissolvam no ar tecnocrata do oportunismo à espreita de eleições.
Pode bem ser que a esquerda ainda as ganhe,
ou pode ser que as perca. Em qualquer caso,
que ao povo seja dito de uma vez
como nas suas mãos o seu destino está
e não no das sereias bem cantantes
(desde a mais alta antiguidade é conhecido
que essas senhoras são reaccionárias,
com profissão de atrair ao naufrágio o navegante intrépido).
Que a esquerda nem grite, que está rouca, nem invente
as serenatas para que não tem jeito.
Mas firme avance, e reate os laços rotos
entre ela mesma e o povo (que não é
aqueles milhares de fiéis que se transportam
de camioneta de um lugar pró outro).
Democracia é isso: uma arte do diálogo
mesmo entre surdos. Socialismo à força
em que a democracia se realiza.
Há muito socialismo: a gente sabe,
e quem mais goste de uns que dos outros.
É tarde já para tratar do caso: agora
importa uma só coisa - defender
uma revolução que ainda não houve,
como as conquistas que chegou a haver
(mas ajustando-as francamente à lei
de uma equidade justa, rechaçando
o quanto de loucuras se incitaram
em nome de um poder que ninguém tinha)
E vamos ao que importa: refazer
um Portugal possível em que o povo
realmente mande sem que o só manejem,
e sem que a escravidão volte à socapa
entre a delícia de pagar uma hipoteca
da casa nunca nossa e o prazer
de ter um frigorifico e automóveis dois.
Ah, povo, povo, quanto te enganaram
sonhando os sonhos que desaprenderas!
E quanto te assustaram uns e outros,
com esses sonhos e com o medo deles!
E vós, políticos de ouro de lei ou borra,
guardai no bolso imagens de outras Franças,
ou de Germânias, Rússias, Cubas, outras Chinas,
ou de Estados Unidos que não crêem
que latinada hispânica mereça
mais que caudilhos com contas na Suíça.
Tomai nas vossas mãos o Portugal que tendes
tão dividido entre si mesmo. Adiante.
Com tacto e com firmeza. E com esperança.
E com um perdão que há que pedir ao povo.
E vós, ó militares, para o quartel
(sem que, no entanto, vos deixeis purgar
ao ponto de não serdes o que deveis ser:
garantes de uma ordem democrática
em que a direita não consiga nunca
ditar uma ordem sem democracia).
E tu, canção-mensagem, vai e diz
o que disseste a quem quiser ouvir-te.
E se os puristas da poesia te acusarem
de seres discursiva e não galante
em graças de invenção e de linguagem,
manda-os àquela parte.
Não é tempo para tratar de poéticas agora.


Santa Bárbara, Fevereiro de 1976
(aniversário de uma tentativa heróica de conter uma noite que duraria décadas)
(de Quarenta Anos de Servidão, 1979)

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