segunda-feira, fevereiro 05, 2018

Sobre a Almofada dos Teus Ossos (parte 2)

E tu olhas para mim
em pose de Cristo,
pecaminosa emulação
de braços estendidos,
como se te carregasses sempre
- o maior fardo.
Injurias de liberdade o escravo
que nunca quis ser salvo
e renegas a alma luminosa
que em ti viram
e que tu crês fingir.
Foste sábio, ferida, máscara,
pilar de fumo, braços abertos e coração de platina;
entulho espalhado na berma da estrada,
segredo velado e revelado em ira.
És livre; nada te aprisiona, nem tu próprio.
E, no entanto, aí te prostras à imagem de Cristo,
e assim previste a desaparição no breu,
o tresmalho atrás das cortinas.
Não tinhas onde esconder-te
do paraíso e do carnaval de almas,
da doce euforia - coração fora do peito;
da graça perdida - deslumbramento desfeito.
Mil bocejos de um amor esquecido, desolado desejo.
E os olhos de éter, vagos e cegos, ausentes, como a vontade.
Mas como?, se até sob o brilho solar da cegueira
dizias ser à luta sangrenta
que não se viram costas,
para chegares tão cansado de viver na linha da frente,
mesmo sendo um príncipe e uma sombra.
Tinhas o dedo no gatilho, prometeste desligar o mundo 
e eu dormi por duas noites sobre a almofada dos teus ossos.


Poema (segunda parte) escrito no dia 4 de Fevereiro de 2018 pela morte de Chris Cornell (Seattle, 20 de Julho de 1964 - Detroit, 17 de Maio de 2017)

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