domingo, junho 17, 2018

Sobre a Almofada dos Teus Ossos

Viste os anjos cair de alturas vertiginosas
e tu, como eles, sabias ser tão mais humano do que divino
- o próximo, tarde ou cedo.
De cada vez que olhas para o Sol
procuras a razão de ser e, perfurante,
a visão, cega, queima a luz e tudo em redor,
deixando-te caído numa Lua bêbeda e entorpecida,
imprópria dos imortais.
Vamos, criança lunar que estás tão longe esta noite.
A porta já foi arrombada de par em par.
Como foi que tu te fizeste brisa volátil mas selvagem,
flor de prata tão distante e capaz de florir a qualquer instante,
em qualquer parte?
Crepúsculo e sombra, és o passageiro, a visão e a cicatriz,
as brasas do teu mistério, que afagam a incredulidade
no brilho refulgente deste próprio pesar
- dependurado no lábio superior da depressão,
tal a febre pintada em recuo da mentira sem a dor,
sem a chance do remorso.
E quando fosse apenas sim ou não,
e agora se tornasse demasiado cedo,
convidavas-me para ver a Lua, mais uma vez,
sob a cintilação azul dos mistérios ansiosos da inquietude.
Todo o coração deveria ter batida;
toda a noite se embalaria no sonho;
todo o rei deveria ter rainha
e todo o santo deveria ter pecado.
Somos a margem à mercê da maré
e poeira diamantina.
O metal enferruja e afoga-se, Ilha de Homem.
Estamos cercados por nós próprios.
Mas como?, se desde que nascemos até ao dia final,
na escuridão da noite mais escura
e até sob o brilho solar da cegueira,
dizias ser à luta sangrenta
que não se viram costas,
para chegares tão cansado de viver na linha da frente,
mesmo sendo um príncipe e uma sombra.
Cada momento deixa-nos mais próximos de dizermos adeus para sempre.
És o inimigo de ti, o inimigo que tragicamente trazes contigo.
Porque não existe tal coisa como nada.
Sim, não há tal coisa como coisa nenhuma.
Mas tens o dedo no gatilho e prometeste desligar o mundo.
Durmo há duas noites sobre a almofada dos teus ossos.
Há duas noites sobre a almofada dos teus ossos.

E tu olhas para mim
em pose de Cristo,
pecaminosa emulação
de braços estendidos,
como se te carregasses sempre
- o maior fardo.
Injurias de liberdade o escravo
que nunca quis ser salvo
e renegas a alma luminosa
que em ti viram
e que tu crês fingir.
Foste sábio, ferida, máscara,
pilar de fumo, braços abertos e coração de platina;
entulho espalhado na berma da estrada,
segredo velado e revelado em ira.
És livre; nada te aprisiona, nem tu próprio.
No entanto, aí te prostras à imagem de Cristo,
e assim previste a desaparição no breu,
o tresmalho atrás das cortinas.
Não tinhas onde esconder-te
do paraíso e do carnaval de almas,
da doce euforia - coração fora do peito;
da graça perdida - deslumbramento desfeito.
Mil bocejos de um amor esquecido, desolado desejo,
e os olhos de éter, vagos e cegos, ausentes, como a vontade.
Mas como?, se até sob o brilho solar da cegueira
dizias ser à luta sangrenta
que não se viram costas,
para chegares tão cansado de viver na linha da frente,
mesmo sendo um príncipe e uma sombra.
Tinhas o dedo no gatilho, prometeste desligar o mundo
e eu dormi por duas noites sobre a almofada dos teus ossos.

O que querias ver claramente cegou-te;
o que mais querias possuir aprisionou-te,
mesmo sabendo não poder deter
algo que se pretende ver voar.
Sob disfarce, como se ninguém soubesse,
mais cantavas sublimemente
e menos se imaginava
que esses olhos secos
vidravam a tua verdade crua,
feia, que as vozes te segredavam
e que nas palavras expuseste
sem que alguém verdadeiramente as lesse
e escutasse para te salvar ou odiar.
Amado, não te compreendias,
como se por te amarem
te tornassem devedor
e incapaz de retribuir.
Desmereceste-te.
O espelho repudiava a tua imagem
e os outros não inquiriam o sorriso pintado
através do qual te escondias
e crias forjar as emoções.
És o inimigo de ti, o inimigo que tragicamente trazes contigo.
Porque não existe tal coisa como nada.
Só a exaustão que te adormecia.
Que te seguissem quando nada liderasses,
quando te perdesses e fosses apenas inseguro,
frágil e puro, inerme, amado incondicionalmente.
Porque não existe tal coisa como coisa nenhuma.
Como dantes, dormes sob um lençol de lua cheia,
sete penas na cabeça e sonhos a pairar sobre a cama,
perdidos atrás de palavras que nunca encontrarás,
e as estações seguem-se umas às outras.
Tinhas o dedo no gatilho. Prometeste desligar o mundo.
Dormi por duas noites sobre a almofada dos teus ossos.

Poema escrito em memória de Chris Cornell, iniciado a 19 de Maio de 2017 e concluído a 17 de Junho de 2018. As duas noites referidas no poema reportam-se à insónia de 48 horas após a notícia da sua morte.