terça-feira, abril 14, 2026

Aquele Abraço

Antes do verbo havia um gesto de abrigo naquele abraço
e dois corpos, um país sem inimigo naquele abraço.

Jurámos lealdade um ao outro; desertámos do mundo
e nenhuma lei impõe o seu castigo naquele abraço.

Os teus lábios sitiam a menagem da noite armada;
o medo está nu ao espelho do perigo naquele abraço.

Cidade murada alguma se fecha ao que arde por dentro.
A bruma fende na muralha um postigo naquele abraço.

Não é pedra a casa, mas o gesto curvado ante a ferida.
A mão não largou a mão, vestígio antigo naquele abraço.

Dormíamos a sós como facas na bainha do frio,
e o que era um descobre-se contigo naquele abraço.

A primeira cidade foi um colo quente de ternura.
Eu, Jeremias, a mão do amor bendigo naquele abraço.


Ghazal de tradição árabe-persa medieval
por Jeremias Cabrita da Silva
in "Poemas para um País por Fazer"
(Edições Cravo & Ferradura, 2039)

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