segunda-feira, abril 20, 2026

Com o Devido Respeito. Imagem gerada por inteligência artificial (Sora) a partir do pantum homónimo de Jeremias Cabrita da Silva.

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domingo, abril 19, 2026

Com o Devido Respeito

Quem não deve não teme dizer as verdades,
como quem cospe o nome aos outros,
com um olho no burro e outro no cigano, 
à boca pequena para não dar nas vistas.

Como quem cospe o nome aos outros,
contam um conto e acrescentam-lhe um ponto,
à boca pequena para não dar nas vistas.
Já se sabe: cada macaco no seu galho.

Contam um conto e acrescentam-lhe um ponto,
andam de boca em boca as velhas comadres.
Já se sabe: cada macaco no seu galho.
Gente de bem escolhe bem as companhias.

Andam de boca em boca as velhas comadres:
parece que sem padrinhos se morre mouro.
Gente de bem escolhe bem as companhias.
Com o devido respeito, está-lhes no sangue.

Parece que sem padrinhos se morre mouro.
Hoje em dia já não se pode dizer nada.
Com o devido respeito, está-lhes no sangue,
e é certo que agora há liberdade a mais.

Hoje em dia já não se pode dizer nada,
com um olho no burro e outro no cigano,
e é certo que agora há liberdade a mais.
Quem não deve não teme dizer as verdades.


Pantum (forma poética de tradição malaia)
por Jeremias Cabrita da Silva
in "Poemas para um País por Fazer"
(Edições Cravo & Ferradura, 2039

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quarta-feira, abril 15, 2026

Aquele Abraço. Imagem gerada por inteligência artificial (Sora) a partir do ghazal homónimo de Jeremias Cabrita da Silva.

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terça-feira, abril 14, 2026

Aquele Abraço

Antes do verbo havia um gesto de abrigo naquele abraço
e dois corpos, um país sem inimigo naquele abraço.

Jurámos lealdade um ao outro; desertámos do mundo
e nenhuma lei impõe o seu castigo naquele abraço.

Os teus lábios sitiam a menagem da noite armada;
o medo está nu ao espelho do perigo naquele abraço.

Cidade murada alguma se fecha ao que arde por dentro.
A bruma fende na muralha um postigo naquele abraço.

Não é pedra a casa, mas o gesto curvado ante a ferida.
A mão não largou a mão, vestígio antigo naquele abraço.

Dormíamos a sós como facas na bainha do frio,
e o que era um descobre-se contigo naquele abraço.

A primeira cidade foi um colo quente de ternura.
Eu, Jeremias, a mão do amor bendigo naquele abraço.


Ghazal de tradição árabe-persa medieval
por Jeremias Cabrita da Silva
in "Poemas para um País por Fazer"
(Edições Cravo & Ferradura, 2039)

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