domingo, maio 24, 2026

II ServilivreS II. Imagem gerada por inteligência artificial (DALL-E) a partir do palíndromo reversível de Jeremias Cabrita da Silva.  

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II ServilivreS II

II ServilivreS II
palíndromo reversível de queda e retorno ↔ ↓↑
Lê-se da esquerda para a direita
e do avesso, da direita para a esquerda.
Lê-se de cima para baixo
e em retorno, de baixo para cima.

Lê-se em queda.
Vira-se do avesso.
Relê-se em retorno.
Livre do poder vil. Aura, rutura, rua. Livres, a rua somos. Sós, somos aura servil. Somos sós. Somos… – o breve verbo: Somos. Paz: zap! Livre, servil… servil é livres; livres é servil: servi livres. Até o poeta a rima mira e até o Papa poeta é. Rir, o breve verbo rir. Até o poder do povo é ovo podre do poeta. Paz: zap! O muro é o rumo, o teu gueto, o nó do dono, o copo no poço. O muro… rever o rumo. Adias a saída: remeter é temer o ano do não. Adias a data da saída. Livres. O muro. Remeter é temer o rumo servil. Paz: zap! Lei fiel. Erro comum ocorre. A lei… fiel a? Ó povo, pó! Livre temer; remeter vil. Livres? A corte. O corte é troco, é troca servil. Paz: zap! O lodo do dolo a casa saca. O nada dá dano; a base do teto desaba. A tropa à porta, o medo do demo, o rito: tiro à sacada da casa. Paz: zap! A torre da derrota, o rumo do muro, o rude e duro ódio do doido. Ato idiota. O lobo ama o bolo. Aí rufa a fúria. O trote torto, o treco certo. O terrível é ele vir reto. Livres. O muro. A greve verga o rumo servil. Paz: zap! Reviver, reler, reviver; rever para prever o muro, reviver o rumo, a rua, aura, a meta, tema, luz azul. O mito é ótimo. Servil, o muro. A greve verga. O rumo: livres. Paz: zap! Servil, a rua. Somos sós, somos aura, livres. Salta esse atlas. Reter e rever para prever e reter. Ó, e reter o mar é ter amor etéreo. Roma me tem amor, amada dama. O dia caído… A base desaba o voo do ovo. A dama cai acamada. Ame o poema. Livre-se, servil! Reviver!
↔ ↓↑
II ServilivreS II
palíndromo reversível de queda e retorno ↔ ↓↑
Reviver! Livre-se, servil! Ame o poema. A dama cai acamada. O voo do ovo. A base desaba. O dia caído, amada dama. Roma me tem amor. Ó, e reter o mar é ter amor etéreo. Reter e rever para prever e reter. Salta esse atlas. Servil, a rua. Somos sós, somos aura, livres. Paz: zap! Servil, o muro. A greve verga. O rumo: livres. O mito é ótimo. Luz azul. A meta: tema; a rua: aura. O muro… reviver o rumo, rever para prever. Reviver, reler, reviver. Paz: zap! Livres. O muro. A greve verga o rumo servil. O terrível é ele vir reto. O treco certo, o trote torto, aí rufa a fúria: o lobo ama o bolo. Ato idiota, ódio do doido, o rude e duro, o rumo do muro, a torre da derrota. Paz: zap! À sacada da casa, o rito: tiro. O medo do demo, a tropa à porta. A base do teto desaba. O nada dá dano; a casa saca o lodo do dolo. Paz: zap! Livres? A corte. O corte é troco, é troca servil. Livre temer; remeter vil. Ó povo, pó! A lei… fiel a? Erro comum ocorre: Lei fiel. Paz: zap! Livres. O muro. Remeter é temer o rumo servil. Adias a data da saída, o ano do não. Remeter é temer. Adias a saída. O muro… rever o rumo, o copo no poço, o nó do dono, o teu gueto: o muro é o rumo. Paz: zap! Até o poder do povo é ovo podre do poeta. Rir, o breve verbo rir, e até o Papa poeta é. A rima mira até o poeta. Servi livres. Livres é servil, servil é livres… Livre, servil… Paz: zap! Somos: o breve verbo. Somos sós. Somos livres, a rua somos. Sós, somos aura servil. Aura, rutura, rua livre do poder vil.

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segunda-feira, maio 18, 2026

Rios que Correm sem Foz. Imagem gerada por inteligência artificial (DALL-E) a partir da terza rima homónima de Jeremias Cabrita da Silva.

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Rios que Correm sem Foz

Vim tocar a cicatriz de uma nascente.
Esta água era de todos, comunal.
Traz agora sangue e cobre na corrente,

usurpada ao chão, sangrada num canal,
que na jugular do monte foi captada,
medida, sem curso próprio, sem caudal.

Na medula do país corre sulcada,
na álgebra do lucro e da exploração,
a ribeira, pátria concessionada.

Do ventre do lugar, funda subtração
do bem comum sob decreto de captura,
nascimento revogado em servidão.

Há rios na garganta da infraestrutura,
nos altares do silício, domados
pela mansa precisão da ditadura.

Do livre curso da vida expropriados,
fluímos sem margem de ser, incompletos,
na foz do amor e do desejo castrados.

Nunca nos quiseram livres, mas quietos:
somos nós os servidores obsoletos.

Terza Rima de matriz dantesca
(tradição italiana medieval)
por Jeremias Cabrita da Silva
in "Poemas para um País por Fazer"
(Edições Cravo & Ferradura, 2039)

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segunda-feira, abril 20, 2026

Com o Devido Respeito. Imagem gerada por inteligência artificial (Sora) a partir do pantum homónimo de Jeremias Cabrita da Silva.

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domingo, abril 19, 2026

Com o Devido Respeito

Quem não deve não teme dizer as verdades,
como quem cospe o nome aos outros,
com um olho no burro e outro no cigano, 
à boca pequena para não dar nas vistas.

Como quem cospe o nome aos outros,
contam um conto e acrescentam-lhe um ponto,
à boca pequena para não dar nas vistas.
Já se sabe: cada macaco no seu galho.

Contam um conto e acrescentam-lhe um ponto,
andam de boca em boca as velhas comadres.
Já se sabe: cada macaco no seu galho.
Gente de bem escolhe bem as companhias.

Andam de boca em boca as velhas comadres:
parece que sem padrinhos se morre mouro.
Gente de bem escolhe bem as companhias.
Com o devido respeito, está-lhes no sangue.

Parece que sem padrinhos se morre mouro.
Hoje em dia já não se pode dizer nada.
Com o devido respeito, está-lhes no sangue,
e é certo que agora há liberdade a mais.

Hoje em dia já não se pode dizer nada,
com um olho no burro e outro no cigano,
e é certo que agora há liberdade a mais.
Quem não deve não teme dizer as verdades.


Pantum (forma poética de tradição malaia)
por Jeremias Cabrita da Silva
in "Poemas para um País por Fazer"
(Edições Cravo & Ferradura, 2039

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quarta-feira, abril 15, 2026

Aquele Abraço. Imagem gerada por inteligência artificial (Sora) a partir do ghazal homónimo de Jeremias Cabrita da Silva.

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terça-feira, abril 14, 2026

Aquele Abraço

Antes do verbo havia um gesto de abrigo naquele abraço
e dois corpos, um país sem inimigo naquele abraço.

Jurámos lealdade um ao outro; desertámos do mundo
e nenhuma lei impõe o seu castigo naquele abraço.

Os teus lábios sitiam a menagem da noite armada;
o medo está nu ao espelho do perigo naquele abraço.

Cidade murada alguma se fecha ao que arde por dentro.
A bruma fende na muralha um postigo naquele abraço.

Não é pedra a casa, mas o gesto curvado ante a ferida.
A mão não largou a mão, vestígio antigo naquele abraço.

Dormíamos a sós como facas na bainha do frio,
e o que era um descobre-se contigo naquele abraço.

A primeira cidade foi um colo quente de ternura.
Eu, Jeremias, a mão do amor bendigo naquele abraço.


Ghazal de tradição árabe-persa medieval
por Jeremias Cabrita da Silva
in "Poemas para um País por Fazer"
(Edições Cravo & Ferradura, 2039)

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segunda-feira, março 09, 2026

Serão. Imagem gerada por inteligência artificial (Sora) a partir do poema branco homónimo de Jeremias Cabrita da Silva.

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Serão

 I

O mal sentou-se connosco à mesa

e a mesa não rangeu com o peso.

Coube inteiro no espaço da casa

e perdeu o nervo próprio do espanto.

 

“Normal” deu-se por lei ao que era dano,

luva de algodão que esbofeteia,

verniz na tábua podre a fazer sala,

até que o horror se torne mobília.



II

Olhos abertos, cobertos de moscas;

a pupila, um poço a afogar a luz;

o ventre inflado e osso à flor da pele.

Por trás da fome, o abutre espera.

 

Comíamos com moscas no ecrã.

O puto mexia a comida fria.

– Come tudo, há quem morra de fome.

(Anos oitenta. Comemos. Calámos.)



III

As torres ruíram sob gravidade

implodida, precisa e controlada.

Derreteu o aço; ficou a versão.

A queda fundou a narrativa.

 

Um rumor ateou fogo ao deserto.

A prova: um despacho de gravata,

assinado sobre areia fina

nas engrenagens vãs do latrocínio.



IV

O medo fez-se lei sem testemunha;

a presunção morreu sem julgamento;

a triagem separou corpo e nome

e a suspeita vestiu o protocolo.

 

A guerra voltou-se para dentro,

até duvidarmos de nós mesmos,

até que o espelho nos acuse

e agradeçamos a vigilância.



V

A emergência, paisagem do serão,

luz azul deixada acesa na sala,

administrada em doses moderadas.

O saque tornou-se procedimento.

 

A estatística calculou-nos mortos:

os números sem nome como nunca,

a pedagogia do isolamento,

o tão grave delito de um abraço.



VI

Páginas rasuradas – sepulturas,

nomes enterrados em tinta negra.

Verdade exposta; entronizado crime.

Veredicto: total impunidade.

 

Menu infantil à mesa de abutres

– pizzas, cachorros e pactos de sangue;

máscaras frias de olhos bem abertos

para a ignomínia, salvo-conduto.

 

Sabíamos os nomes e jantámos.

A verdade exposta não nos bastou.

Quem irá policiar o polícia?

Levantámos; não virámos a mesa.


Poema branco em seis cantos
por Jeremias Cabrita da Silva
in "Teoria Geral da Queda"
(Edições Gravidade, 2028)

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terça-feira, janeiro 27, 2026

Emissão. Imagem gerada por inteligência artificial (Sora) a partir do poema beat homónimo de Jeremias Cabrita da Silva.

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Emissão

Boa noite, estas são as notícias que marcam a actualidade.

 

[SINAL HORÁRIO]

[VINHETA DE ABERTURA]

 

Abrimos com acontecimentos de gravidade variável,

normalizados segundo critérios editoriais prioritários.

No Paquistão, um descarrilamento fez mais de cem mortos.

Sem imagens disponíveis, a emissão segue

para Trás-os-Montes, no Norte do País,

onde uma família de três foi encontrada morta.

A causa: asfixia por monóxido de carbono,

após aquecimento do quarto com um fogareiro.

O episódio ocorreu durante o sono, em vésperas de Natal.

Trinta e três, vinte e nove e quatro anos.

Ambos os progenitores tinham emprego.

 

Em clima de festa, multiplicam-se os preparativos da época.

Começam a chegar às mesas os sabores tradicionais

e as campanhas de Natal arrancam com previsões optimistas,

apesar da acentuada subida de preços.

O recurso ao crédito continua a aumentar entre os portugueses.

O endividamento das famílias atingiu níveis recorde.

 

[EXCERTO – ESPECIALISTA EM FINANÇAS PESSOAIS]


«É importante que se façam escolhas responsáveis.

O crédito deve ser usado apenas em situações de absoluta necessidade,

sob pena de comprometer o equilíbrio financeiro dos agregados.»

 

[EXCERTO – CONSULTOR FINANCEIRO]


«Cada pessoa deve conhecer os seus limites.

Muitas situações de endividamento resultam de impulsos e decisões mal planeadas.»

 

No Médio Oriente prosseguem os confrontos.

Durante a madrugada registaram-se novos bombardeamentos.

Não há, para já, confirmação do número de vítimas.

A situação mantém-se em desenvolvimento.

 

[ZAPPING]


A situação em desenvolvimento…

zap

… acompanhamento dos acontecimentos.

     zap

… do desenvolvimento dos acontecimentos…

             zap

Acontecimentos em acompanhamento.

        zap

O desenvolvimento da situação…

                     zap

… situação.

   zap

Acontecimentos.

            zap

… em desenvolvimento.

       zap

… anhamento dos acontecimentos.

 

[INTERVALO]

 

Este é o momento de fazer escolhas certas.

Escolher bem faz a diferença.

Planeie. Priorize. Controle.

Soluções simples para o seu dia a dia.

Opções pensadas para famílias responsáveis.

Pagamentos ajustados à sua realidade.

Sem excessos. Sem surpresas.

 

[EMISSÃO EM ESTÚDIO]

 

Retomamos a emissão.

Registou-se hoje a morte de uma criança

na sequência de um acidente doméstico.

As autoridades falam em «fatalidade».

 

Uma “fatalidade” evitável…

 

Os indicadores económicos revelam sinais de crescimento moderado,

num contexto ainda marcado pela incerteza dos mercados.

Verifica-se a recuperação gradual de alguns sectores produtivos,

apesar das pressões externas e do aumento dos custos.

 

O mercado de trabalho mantém-se em evolução positiva,

com níveis elevados de emprego e aumento da população ativa.

Persistem, no entanto, constrangimentos no rendimento disponível.

Os salários continuam a não acompanhar o aumento do custo de vida.

 

No plano político, o Governo reafirma compromissos

com a estabilidade e com o cumprimento de metas.

As autoridades sublinham que o atual contexto exige realismo

e decisões responsáveis pela continuidade das políticas adoptadas.

O Governo admite dificuldades causadas pelo cenário internacional,

mas garante que os sacrifícios são necessários

para assegurar a confiança externa

e a sustentabilidade do País a médio prazo.

 

No plano internacional, a instabilidade mantém-se

com o agravamento de conflitos em várias regiões.

As autoridades alertam para um contexto geopolítico imprevisível,

marcado por tensões persistentes e riscos acrescidos para a segurança.

Perante a escalada de tensões, é considerada inevitável

a necessidade de reforço dos meios de defesa

e do investimento em dispositivos de segurança e áreas estratégicas.

 

Os mercados mantiveram uma trajetória positiva,

com valorização generalizada dos principais índices.

O desempenho reflete a confiança na solidez do sistema

e na sua continuidade operacional.

Os analistas sublinham a normalização de um panorama exigente

e a absorção das tensões em curso,

afastando receios imediatos quanto à estabilidade

dos ganhos das principais praças e dos investidores.

Para já, não são identificados riscos relevantes

para o funcionamento do sistema monetário.

 

Um novo indicador pretende medir, num só número, o estado geral do mundo,

cruzando dimensões económicas, sociais e geopolíticas.

Crescimento económico, rendimento disponível,

níveis de emprego, acesso à habitação, estabilidade política,

conflitos armados, investimento em defesa,

confiança dos mercados e perceção de risco social,

bem como a evolução dos grandes fluxos financeiros

e do património concentrado nos principais centros de decisão.

 

Tudo reduzido a um único índice.

 

De acordo com os chamados “arquitectos” da tecnologia,

a criação de um indicador único permite organizar a leitura

de um cenário marcado por múltiplas variáveis simultâneas,

convertendo complexidade em síntese,

apesar da deterioração das condições de vida

em amplos segmentos da população mundial.

A simplificação é apresentada como condição necessária

para apoiar decisões, definir prioridades

e manter a coerência do sistema,

em contextos de elevada complexidade.

Os dados apurados situam-se, assim,

dentro de parâmetros considerados aceitáveis.

Não são identificados riscos sistémicos imediatos

para o funcionamento global do sistema

nem sinais de rutura estrutural,

e o resultado reflete ganhos consistentes nos principais mercados,

níveis elevados de rentabilidade no topo da cadeia económica,

forte valorização dos grandes patrimónios,

fluxos financeiros estáveis,

capacidade de absorção de choques

e margens de ajustamento ainda disponíveis.

Apesar da redução do poder de compra,

da compressão salarial,

do agravamento do custo da habitação,

da generalização da precariedade,

do aumento do número de trabalhadores pobres,

da intensificação dos conflitos armados,

do alargamento das zonas de exclusão,

da normalização da desigualdade como condição de funcionamento.

No conjunto, o indicador aponta para um cenário global funcional.

O rating “suficiente” valida a continuidade do modelo vigente.

 

[PAUSA PROLONGADA]

 

Os dados foram hoje apresentados

num relatório conjunto das entidades competentes,

que sublinham a robustez dos mecanismos de monitorização

e a capacidade de resposta do sistema

a cenários adversos de elevada pressão.

 

[SUOR VISÍVEL]

 

O documento destaca ainda a importância de mentir

— de manter, aliás —

uma leitura integrada dos fenómenos em curso,

evitando alarmismos

e interpretações precipitadas.

 

[AJUSTA A GRAVATA]

 

As conclusões apontam para a necessidade de continuar

a acompanhar a evolução da situação,

com especial atenção aos indicadores-chave

definidos pelas instâncias de regulação.

O relatório refere que a estabilidade observada

assenta num conjunto articulado de mecanismos técnicos,

processos de correção contínua

e medidas de contenção sucessivas,

aplicadas em diferentes planos de atuação.

A análise integrada dos dados

aponta para a necessidade de prudência,

de continuidade estratégica

e de confiança nos instrumentos existentes,

considerados adequados

para responder a flutuações prolongadas

em contextos de elevada pressão.

 

[OLHA PARA BAIXO]

 

No plano nacional, gerou polémica uma intervenção do Ministro da Educação,

ao afirmar que residências universitárias ocupadas maioritariamente

por alunos de rendimentos mais baixos

tendem a degradar-se mais rapidamente,

por falta de conservação adequada.

 

Segundo o governante,

«quando os serviços públicos são utilizados apenas pelos mais pobres,

acabam por se degradar».

 

[PAUSA BREVE]

 

Organizações de estudantes e sindicatos reagiram às declarações,

classificando-as como estigmatizantes

e acusando o Governo de associar pobreza

à degradação dos serviços públicos.

 

Dados hoje divulgados indicam que uma parte significativa

dos trabalhadores em Portugal permanece em risco de pobreza,

apesar de exercer atividade profissional.

Os números confirmam que o emprego, por si só,

já não assegura condições mínimas de vida digna.

O rendimento do trabalho revela-se insuficiente

para responder ao aumento dos custos essenciais,

com destaque para a habitação, a alimentação e a energia.

A estatística aponta para um crescimento sustentado

do número de trabalhadores pobres,

num contexto de emprego elevado

e atividade económica regular.

 

[PAUSA PROLONGADA]

 

Dados divulgados esta semana indicam um crescimento expressivo

do património dos grandes grupos económicos

e das grandes fortunas.

 

[AJUSTA A GRAVATA — NÃO CONSEGUE]

 

Os números apontam para ganhos acumulados

na ordem de dezenas de milhares de milhões,

concentrados num número cada vez mais reduzido de titulares,

num contexto de valorização acelerada de ativos financeiros

e reforço da rentabilidade do capital.

 

[RESPIRA FUNDO]

 

O relatório refere que a criação de riqueza

se mantém robusta nos estratos superiores,

com aumento significativo dos dividendos,

da capitalização bolsista

e da valorização dos grandes patrimónios.

 

[AJUSTA A GRAVATA — MAIS RÁPIDO]

 

A análise sublinha que a evolução

não constitui um desvio,

mas uma consequência direta

do normal funcionamento do modelo económico,

considerado eficiente na geração de valor

e na maximização de retornos.

 

No desporto, o Benfica venceu esta noite por três bolas a zero

em jogo a contar para a Liga dos Campeões.

A equipa apresentou-se segura,

com domínio claro ao longo dos noventa minutos

e eficácia no momento decisivo.

Com estes três pontos, as águias mantêm-se

na luta pelo apuramento directo,

alimentando as expectativas dos adeptos

de um grande Benfica europeu.

Milhares celebraram a vitória

em vários pontos do País.

 

Para amanhã, o Instituto Português do Mar e da Atmosfera prevê

céu geralmente nublado,

com períodos de chuva fraca no litoral norte e centro.

A temperatura mínima deverá descer ligeiramente,

com formação de geada em algumas regiões do interior.

 

[BREVE PAUSA]

 

As temperaturas…

as temperaturas máximas…

 

[CORRIGE]

 

As temperaturas mínimas deverão registar

uma ligeira descida.

 

[RESPIRA FUNDO]

 

O frio intensifica-se sobretudo durante a noite,

com especial impacto nas zonas mais vulneráveis.

 

[REAJUSTA A GRAVATA]

 

No interior,

as mínimas poderão atingir valores próximos de zero.

 

[SILÊNCIO CURTO]

 

No litoral, o vento soprará fraco a moderado,

rodando para norte ao longo do dia.

No interior, o frio será mais intenso durante a madrugada,

com descida acentuada das temperaturas mínimas.

 

[PAUSA BREVE]

 

As autoridades recomendam

especial atenção aos grupos mais sensíveis,

nomeadamente crianças, idosos

e pessoas em situação de vulnerabilidade.

 

[ALARGA O NÓ DA GRAVATA]

 

Aconselha-se o reforço do aquecimento

e a adoção de comportamentos preventivos,

de forma a evitar riscos desnecessários.

 

[OLHA PARA O TELEPONTO]

 

O frio vai provocar

— poderá provocar —

 

[PIGARREIA]

 

constrangimentos

a populações mais expostas.

 

[INSPIRA, FECHA OS OLHOS]

 

Populações mais expostas

a habitações mal isoladas,

a soluções de aquecimento improvisadas,

a rendimentos insuficientes.

 

Demasiado expostas

para responder

às condições climatéricas adversas.

 

[OLHA PARA O TELEPONTO]

 

As autoridades recomendam

a adoção de medidas preventivas

em períodos de frio intenso.

 

[PAUSA]

 

Medidas preventivas.

 

[CORRIGE]

 

Medidas adequadas

para evitar riscos evitáveis.

 

[SILÊNCIO CURTO]

 

Riscos evitáveis.

 

[REAJUSTA A GRAVATA]

 

Sempre que possível.


[VOZ NA ESCUTA]

 

— mantém-te no texto! —

 

[PAUSA. INDICAÇÃO DA RÉGIE]

 

— Prosseguimos. 

 

[OLHA PARA O TELEPONTO]

 

Prosseguimos com dados

e mortes. Números. Mercados.

Com frio. Com trabalho.

Com índices que sobem

e corpos que adormecem a morte.

Com crescimento moderado,

risco controlado e pobreza funcional.

Pobreza emocional.

Com emprego elevado

e vidas curtas.

Com previsões otimistas e noites geladas.

Com confiança dos mercados e fogareiros acesos.

Com estabilidade. Com esforço necessário.

Com gráficos verdes e quartos viciados.

Com rentabilidade robusta e respirações contadas.

Com rating suficiente.

Suficiente.

 

[PAUSA]

 

O fogareiro custava menos

do que um bilhete para o jogo.

No estádio há aquecimento.

No salário, contenção.

Mais golo, menos golo,

expropriam-se milionários;

redistribuem-se os salários.

Respira-se no quarto.

 

[VOZ NA ESCUTA]

 

— fecha com o Natal! —

 

[ENTREDENTES]

 

Ignorance is bliss…

 

[OLHA PARA O TELEPONTO]

 

Aproveitamos para desejar

a todos os telespectadores

um Natal…

 

[PAUSA]

 

feliz,

 

[RESPIRA FUNDO]

 

com saúde.

 

[VOZ NA ESCUTA]

 

— segue, segue —

 

[ATRASO DE SOM]

 

A emissão…

 

[GLITCH]

 

prossegue.

 

[OLHA PARA A CÂMARA]

 

Não mostramos tudo.

 

[PAUSA CURTA]

 

Não é por falta de imagens.

 

[SILÊNCIO]

 

Há imagens.

Há sempre imagens.

 

[CLOSE UP LIGEIRO]

 

Não passam porque não passam no crivo.

Não passam no alinhamento.

Não passam porque não cabem no tempo.

Não passam porque não fazem raccord;

não servem o enquadramento.

 

[PIGARREIA]

 

Não passam porque perturbam.

 

[VOZ MAIS BAIXA]

 

Porque fazem perguntas erradas.

Porque apontam para cima.

Porque não terminam onde devem.

 

[VOZ NA ESCUTA]

 

— mantém-te no texto —

— não é por aí —

— fecha —

— estamos no ar —

 

[SILÊNCIO MAIS LONGO]

 

O critério chama-se interesse.

Interesse editorial.

Interesse estratégico.

Interesse comercial.

 

Assim:

o que mantém a confiança, fica;

o que ameaça a confiança, sai.

 

Confiança de quem paga.

De quem investe.

De quem decide.

 

[OLHA PARA BAIXO]

 

Confiança dos mercados.

Confiança dos anunciantes.

Confiança do sistema.

 

[PAUSA]

 

Não é censura.

É curadoria.

 

[PEQUENO RISO SECO — SEM HUMOR]

 

Escolhemos o sofrimento legível.

O sofrimento distante.

O sofrimento sem nome.

 

Cortamos o resto.

 

[VOZ TRÉMULA]

 

Cortamos quando o corpo é demasiado próximo.

Quando a criança tem o rosto de um anjo.

Quando o sangue se confunde com o grafismo.

 

[PAUSA]

 

Eu li os cortes.

Respeitei os tempos.

Obedeci aos sinais no ouvido.

 

[VOZ NA ESCUTA — DISTANTE]

 

— volta ao texto! —

 

[IGNORA]

 

Durante anos. Décadas.

 

[SILÊNCIO]

 

Eu disse:

«Não há confirmação independente.»

«As imagens são fortes.»

«Não podemos mostrar.»

 

[ENGOLE EM SECO]

 

Disse eu.

 

[PAUSA PROLONGADA]

 

Perdão.

Não por errar.

 

Por saber.

 

[SILÊNCIO ABSOLUTO NO ESTÚDIO E NA RÉGIE]

 

Eu também calo e como.

 

[OLHA FIXAMENTE PARA UM MONITOR FORA DE CÂMARA]

 

Mas eu vejo.

 

Vejo a criança com as unhas sujas de fezes.

Vejo o quarto enegrecido do fogo.

Vejo o fogareiro: três brasas pequenas, culpa inteira;

mãos cheias de nada ao passar dos meses;

a mágoa de um pai que o foi até à madrugada.

 

Vejo o papel de parede a descascar.

Um mapa gasto de Trás-os-Montes,

dobrado pela humidade e pelo frio.

Por baixo, um calendário antigo:

 

Dezembro.

Natal circulado a lápis de cera.

 

[SILÊNCIO PROLONGADO]

[RESPIRA FUNDO. A CÂMARA PERMANECE FIXA]

 

Vejo o índice subir em flecha

cravada no peito do pai.

Ficou no chão, embalado

numa siesta de ratings,

colado à fuligem da cozinha,

entre um suspiro e um ai

de morte suficiente.

 

Vejo o mofo escalar o papel de parede,

um mapa fumado,

um enchido transmontano,

um gráfico, uma malha, uma rede

na garganta do filho.

O mesmo molde, o mesmo fungo,

o mesmo bafio sombreado a verde

nas estatísticas do frio.

 

[PAUSA. BIP DESFASADO]


Vejo o cão à porta.

Uma, duas, três almas

irrompem pelas fissuras do telhado

como nuvens de vapor;

curvas verdes no ecrã,

de subtil gás a entrar; ar a sair

no noticiário das oito.

Sobe o lucro. Desce o oxigénio.

 

[BIP IRREGULAR. ESTÁTICA. RUÍDO ELETROACÚSTICO. VOZ NA ESCUTA]

 

— … estamos no ar, porra!… –

 

[SEGURA UMA CANETA COMO UM OSSO CONTUNDENTE. A CÂMARA TREME]

 

O ar do estúdio, climatizado,

cheira a contrato a prazo,

monóxido de carbono,

Inverno isolado a fita,

números, poeira, chumbo,

silêncio e asfixia.

O ar não é neutro.

Cheira a Trás-os-Montes

e soa à mesma sentença,

ao mesmo relatório.

 

Vejo o frio a entrar

pelo fio das janelas

e o ecrã a sorrir com os meus olhos

no quarto onde morriam crianças.

Eu a transitar de notícia em notícia

para a vitória do Benfica.

Eu sorria.

S

  o

    r

      r

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[RESPIRAÇÃO. O SOM DO PRÓPRIO PEITO]

 

Estamos todos no mesmo quarto.

Uns à janela. Outros à porta.

Sentimos o frio algorítmico

das coisas certas como o destino

– as conta de gás, água e luz

num prosema sísmico, assassino,

escrito sob um vão de porta

(de preferência em parede mestra).

 

Vejo o frio a violar o fio das janelas.

É o suficiente. Su-fi-ci-en-te.

A morte é certa.

 

[INTERFERÊNCIA. ZOOMS INDECISOS. VOZ NA ESCUTA]

 

— … chega! 

 

[SILÊNCIO TOTAL]

[PIXELIZAÇÃO. ECRÃ PRETO. 16 LONGOS SEGUNDOS]

[GLITCH TÉCNICO. IMAGEM RECOMPÕE-SE. O MESMO CENÁRIO. A MESMA MESA.
UM LOCUTOR ESTREANTE LÊ EM TOM PROFISSIONAL]

 

Atenção às populações mais vulneráveis:

idosos, crianças,

trabalhadores em situação precária.

Recomenda-se

que mantenham a casa aquecida,

sempre que possível.

 

Deve evitar-se a utilização de fogareiros,

braseiras ou quaisquer equipamentos

de combustão desprotegida

em espaços mal ventilados,

de modo a prevenir a acumulação

de monóxido de carbono.

 

Sempre que possível.

 

[PAUSA CLÍNICA DE DOIS SEGUNDOS. OLHA DIRECTAMENTE PARA A CÂMARA]

[A IMAGEM DO ECRÃ DE FUNDO DO ESTÚDIO MUDA SUBITAMENTE PARA O FOTOGRAMA DE UM CALENDÁRIO COM O NATAL RISCADO A LÁPIS DE CERA]

 

Boa noite. Feliz Natal.

 

[VINHETA DE ENCERRAMENTO]


Poema beat contemporâneo
por Jeremias Cabrita da Silva
in "Teoria Geral da Queda"
(Edições Gravidade, 2028)

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quinta-feira, dezembro 11, 2025

Epigramas da Ordem. Imagem gerada por inteligência artificial (Sora) a partir do tríptico homónimo de Jeremias Cabrita da Silva.

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terça-feira, dezembro 09, 2025

Epigramas da Ordem



Epigrama da Submissão Cognitiva

A linguagem já não significa: determina
A consciência move-se na órbita do comando



Epigrama da Obsolescência

O pensamento foi automatizado.
O sujeito não pensa: é pensado.
O humano tornou-se obsoleto.



Epigrama da Matriz Impronunciada

O mundo dobrou-se dentro do alfabeto
e o nome, sem boca para o dizer;
o verso, sem mão para o escrever,
cessaram de realizar a realidade.


Terceiro de três trípticos de "Epigramas",
por Jeremias Cabrita da Silva, in "Ars Poetica et Rebellis"
(Edições Cravo & Ferradura, 2027)

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sábado, novembro 29, 2025

Epigramas da Razão. Imagem gerada por inteligência artificial (Sora) a partir do tríptico homónimo de Jeremias Cabrita da Silva.

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quinta-feira, novembro 27, 2025

Epigramas da Razão


Epigrama da Lei Universal


A lei interior precede o mundo.

Do silêncio fala o gesto claro.

Quem escuta vê o desamparo.

Quem vê ampara o moribundo.



Epigrama da Lei Iníqua


Na mão do opulento a lei repousa,

servindo o grande, calando o fraco,

em clausulado arcano, opaco.

A injusta farsa em trono impune pousa.



Epigrama da Desobediência Legítima


Quando a lei dita o que a justiça acusa,

cessa a virtude em quem se entrega.

Firme, à lei iníqua, a razão recusa:

Só é justo quem à injusta lei se nega.



Segundo de três trípticos de "Epigramas",
por Jeremias Cabrita da Silva, in "Ars Poetica et Rebellis"
(Edições Cravo & Ferradura, 2027)

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quarta-feira, novembro 19, 2025

Epigramas da Pedra. Imagem gerada por inteligência artificial (Sora) a partir do tríptico homónimo de Jeremias Cabrita da Silva.

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Epigramas da Pedra

 

Epigrama da Palavra Original


O golpe do cinzel talha o verbo inteiro

e o nome na pedra pare o ser primeiro



Epigrama da Verdade Essencial


A verdade que acende o justo fala

quando em redor o mundo, inerme, cala



Epigrama do Veio Primordial


O primeiro passo abre o veio primordial;

a pedra inaugural guarda inteira a catedral





Primeiro de três trípticos de "Epigramas",
por Jeremias Cabrita da Silva, in "Ars Poetica et Rebellis"
(Edições Cravo & Ferradura, 2027)

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terça-feira, novembro 11, 2025

Elegia do Desígnio. Imagem gerada por inteligência artificial (Sora) a partir do poema homónimo de Jeremias Cabrita da Silva.

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Elegia do Desígnio

A era expirou; o mar levou o farol.
O código herdou o sopro do criador.
A pátria jaz, funerária, sob o lençol
– a silhueta no sudário do censor.

Velha bandeira, mortalha de poeira,
o falso profeta monetiza a capela;
a democracia é vitrina de algibeira
num púlpito em que o ódio é sentinela.

Havia um tempo aceso, de lampejo,
da palavra a fitar a cobardia.
O homem rendeu-se à usura do desejo,
à verdade conscrita à demagogia.

O amor, finalmente, feito transação
– cruz de néon num registo civil,
esperança possível em promoção
no código frio de um milagre útil.

Marcha a procissão em silente nudez.
Nada como a fome ensina a esperar.
O verbo morde a língua da lucidez
e o povo aplaude o algoz por se salvar.

Ó plebeus da renúncia, onde estais,
que deixais as hordas invasoras
nas tribunas grunhir como animais?
Quem elegeu tantos facínoras?

Um fósforo reacende um templo de luz
e a gente desperta — renasce em lume.
A míngua recusa o silêncio que a reduz.
De archote em punho, rompemos o negrume.

Do fogo à palavra eis a verdade:
Aqui jaz o medo, respira a razão;
reaprende o desígnio a vontade.
Sob a pele, o chão: a refundação.

Elegia de ressonância clássica
por Jeremias Cabrita da Silva
in "Poemas para um País por Fazer"
(Edições Cravo & Ferradura, 2039)

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