terça-feira, setembro 08, 2026

Excelente Oportunidade

Cartaz imobiliário HABITRIA: T0 para arrendamento em Vale Mourão, Rio de Mouro, Sintra, por 1.170 €/mês.

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Poema-cartaz
por Jeremias Cabrita da Silva
in “Formas de Revolta”

(Edições Cravo & Ferradura, 2037)

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segunda-feira, agosto 24, 2026

Quantos [Somos (Precisos)]?

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Poema concreto
por Jeremias Cabrita da Silva
in “Formas de Revolta”
(Edições Cravo & Ferradura, 2037)

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domingo, agosto 23, 2026

Prova de Vida. Imagem gerada por inteligência artificial (DALL-E) a partir do poema-processo à portuguesa homónimo de Jeremias Cabrita da Silva.

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Prova de Vida

Prova de Vida

poema-processo à portuguesa

 

Vistos os autos

 

A parte dá por cumprido o que lhe coube

e requer reparação do que, cumprindo,

lhe coube desviver.

 

Factos provados

 

Resulta provado que a parte cumpriu

quanto lhe era exigível

pelo tempo que o dever lhe exigiu,

com zelo irrepreensível.

 

A parte permaneceu

porque sair lhe custaria

o sustento que a mantinha

e o de quem dela dependia.

 

A parte adiou-se

à promessa do dia inteiro,

sob pacto de reciprocidade.

A contraparte, sem paradeiro.

 

O tempo deixou no corpo prova,

a coluna inveterada, a insónia, a apneia,

a matéria falível da parte invertebrada,

o sono preso a respiração alheia.

 

Dos autos resulta que a parte adiou

o que em vida ainda continha

a faculdade de acontecer,

extinta na promessa que a diferia.

 

Fica assente que, por não subsistir em parte alguma,

o tempo decorrido não deixou matéria restitutiva.

 

Certifica-se, para os devidos efeitos,

que a parte se encontra viva.

 

Do direito

 

Assente, o zelo irrepreensível da parte

pode exceder o que lhe era exigido

sem acrescer ao direito devido.

Ainda que necessária à subsistência,

a permanência não se presume coactiva

se à parte não foi vedada a saída.

O pacto de reciprocidade invocado,

ainda que tenha ordenado o cumprimento,

não vincula a contraparte,

por constituir mera expectativa.

Demonstrados o dano e o nexo

entre o cumprimento da parte

e a perda que, no seu decurso,

se tornou definitiva,

não se tem por ilícita

a consequência lesiva

conforme à ordem normativa.

A perda só é demonstrável

quando já nada subsiste

que ainda seja reparável.

 

Decisão

 

Nestes termos, julga-se improcedente

o pedido de reparação,

absolvida a contraparte de obrigação.

Notifique-se.

Arquive-se.

 

A parte não se conformou.


Poema-processo à portuguesa
por Jeremias Cabrita da Silva
in "Livro de Reclamações"
(Edições Cravo & Ferradura, 2041)

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quinta-feira, agosto 06, 2026

Braço de Prata. Imagem gerada por inteligência artificial (DALL-E) a partir do jueju lusitano homónimo de Jeremias Cabrita da Silva.

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terça-feira, agosto 04, 2026

Braço de Prata

Dentro do morteiro,
por dentro do obus,
um papel por pólvora,
e a mãe deu à luz.
Jueju lusitano menor
(adaptação portuguesa, em redondilha menor, do jueju tradicional chinês)
por Jeremias Cabrita da Silva
in "Teoria Geral da Queda"
(Edições Gravidade, 2028)
José Saramago guardou a história de um obus que, durante a Guerra Civil de Espanha, não rebentou. Dentro, em vez de carga explosiva, havia um papel escrito em português: «Esta bomba não rebentará.» Supôs que talvez tivesse sido preparado por um operário da Fábrica de Braço de Prata, em Lisboa, que fornecia armamento ao exército de Franco. Saramago viria depois a perguntar por que razão nunca houve uma greve numa fábrica de armas. Antes da greve imaginada, teria já existido este valoroso acto anónimo de sabotagem. A história e a pergunta acabariam por desembocar em “Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas”, último romance de José Saramago, deixado inacabado e publicado postumamente em 2014.

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segunda-feira, julho 13, 2026

Achados e Perdidos da República. Imagem gerada por inteligência artificial (DALL-E) a partir do poema-inventário homónimo de Jeremias Cabrita da Silva.

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Achados e Perdidos da República

Achados e Perdidos da República
relação de bens por reclamar
Poema-inventário

I — Bens móveis encontrados em via pública
Natureza dos bens: móveis, achados na via pública.
Reclamante: não identificado.
Estado: sinais de uso e abandono.

Consta uma chave sem imóvel conhecido,
achada entre tendas e recibos de renda,
com raiva e ferrugem nos dentes.

Regista-se uma senha de atendimento,
encontrada em manhã fria, no bolso de um utente,
com chamada posterior ao falecimento.

Guarda-se uma ficha de escolha múltipla,
recolhida no recreio do colégio, preenchida a quadrícula
da cruz que nos cabe por resposta certa.

Recolhe-se uma luva de trabalho,
vinda de parte incerta, dedos curvados,
sem mão que a feche em punho cerrado.

Assinala-se um cartaz dobrado,
com palavras de ordem vincadas ao meio,
sem braços que o ergam do passeio.

Dá entrada um cravo sem lapela,
flor-rastilho de caule fino,
sem peito que o devolva ao perigo.

Averba-se um mapa rasgado,
com o Norte puído no vinco da dobra
e a estrada cortada na planta da obra.

No termo da relação, uma enxada de ferro gasto,
com o selo da cooperativa no cabo, em relevo,
à ordem de quem lavre sem pedir licença.

II — Bens comuns sem titular identificado
Natureza dos bens: de uso comum.
Reclamante: por constituir.
Estado: acesso condicionado.

Arrola-se uma parcela de chão fértil,
vedada à gente por monopólio ou abandono,
com a lavra cativa por excesso de dono.

Liquida-se um litro de água potável
pelo direito de não ter sede,
fiada como garantia de cobrança.

Reserva-se a sombra de um banco de praça,
sob licença comercial de esplanada,
com permanência sujeita a consumo mínimo.

Figura uma cela própria permanente,
contraída para fugir ao relento,
com a vida indexada a trinta anos.

Comparece outro número de utente
para triagem de corpo presente,
ainda vivo demais para ter vaga.

Indexa-se uma Alexandria sem cinzas,
a crédito, por tokens e assinatura
— pilhagem registada em factura.

Debita-se uma noite de sono
ao banco de horas em escala,
de prevenção, ao toque do dono.

Simula-se um filho por haver,
com um nome sem berço,
sem quarto onde caber.

III — Bens imateriais por reclamar
Natureza dos bens: imateriais, sem valor declarado.
Reclamante: desmobilizado.
Estado: inflamável.

Fica em acta a verdade sem consequência,
com prova bastante, nenhuma sentença,
até que a memória arda em audiência.

Afere-se o limiar do intolerável,
que da ruína comum faz coisa privada,
rasgando de indignação a vergonha.

É devolvida ao mandante a infâmia
de fabricar escassez e cobrar a culpa
a quem amassa o pão que lhe falta.

Dá-se por achada uma reclamação sem balcão,
não pela avaria, mas pela máquina inteira,
assinada por um povo sem nação.

Consigna-se o não em legítima defesa
ante a continência da lei à casta do saque;
ante a obediência, farda civil da rapina.

Apura-se um degrau ao fundo da queda,
o explorado a ensaiar-se capataz da ruína,
o magricela a empurrar o escanzelado.

Lavre-se termo de levantamento,
compareça por reclamante a rua arrancada
a ferros em riste e pedras da calçada.

Termo de guarda provisória

Aos bens constantes da relação
não se lhes dará abate ou alienação;
permanecem em guarda provisória,
à ordem de pessoa colectiva
sem firma, selo, capital, moratória.

Não prescreve a parte cativa.
Nada mais havendo a declarar,
resta tudo por levantar.

Poema-inventário
por Jeremias Cabrita da Silva
in "Livro de Reclamações"
(Edições Cravo & Ferradura, 2041)

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domingo, maio 24, 2026

II ServilivreS II. Imagem gerada por inteligência artificial (DALL-E) a partir do palíndromo reversível de Jeremias Cabrita da Silva.  

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II ServilivreS II

II ServilivreS II
palíndromo reversível de queda e retorno ↔ ↓↑
Lê-se da esquerda para a direita
e do avesso, da direita para a esquerda.
Lê-se de cima para baixo
e em retorno, de baixo para cima.

Lê-se em queda.
Vira-se do avesso.
Relê-se em retorno.
Livre do poder vil. Aura, rutura, rua. Livres, a rua somos. Sós, somos aura servil. Somos sós. Somos… – o breve verbo: Somos. Paz: zap! Livre, servil… servil é livres; livres é servil: servi livres. Até o poeta a rima mira e até o Papa poeta é. Rir, o breve verbo rir. Até o poder do povo é ovo podre do poeta. Paz: zap! O muro é o rumo, o teu gueto, o nó do dono, o copo no poço. O muro… rever o rumo. Adias a saída: remeter é temer o ano do não. Adias a data da saída. Livres. O muro. Remeter é temer o rumo servil. Paz: zap! Lei fiel. Erro comum ocorre. A lei… fiel a? Ó povo, pó! Livre temer; remeter vil. Livres? A corte. O corte é troco, é troca servil. Paz: zap! O lodo do dolo a casa saca. O nada dá dano; a base do teto desaba. A tropa à porta, o medo do demo, o rito: tiro à sacada da casa. Paz: zap! A torre da derrota, o rumo do muro, o rude e duro ódio do doido. Ato idiota. O lobo ama o bolo. Aí rufa a fúria. O trote torto, o treco certo. O terrível é ele vir reto. Livres. O muro. A greve verga o rumo servil. Paz: zap! Reviver, reler, reviver; rever para prever o muro, reviver o rumo, a rua, aura, a meta, tema, luz azul. O mito é ótimo. Servil, o muro. A greve verga. O rumo: livres. Paz: zap! Servil, a rua. Somos sós, somos aura, livres. Salta esse atlas. Reter e rever para prever e reter. Ó, e reter o mar é ter amor etéreo. Roma me tem amor, amada dama. O dia caído… A base desaba o voo do ovo. A dama cai acamada. Ame o poema. Livre-se, servil! Reviver!
↔ ↓↑
II ServilivreS II
palíndromo reversível de queda e retorno ↔ ↓↑
Reviver! Livre-se, servil! Ame o poema. A dama cai acamada. O voo do ovo. A base desaba. O dia caído, amada dama. Roma me tem amor. Ó, e reter o mar é ter amor etéreo. Reter e rever para prever e reter. Salta esse atlas. Servil, a rua. Somos sós, somos aura, livres. Paz: zap! Servil, o muro. A greve verga. O rumo: livres. O mito é ótimo. Luz azul. A meta: tema; a rua: aura. O muro… reviver o rumo, rever para prever. Reviver, reler, reviver. Paz: zap! Livres. O muro. A greve verga o rumo servil. O terrível é ele vir reto. O treco certo, o trote torto, aí rufa a fúria: o lobo ama o bolo. Ato idiota, ódio do doido, o rude e duro, o rumo do muro, a torre da derrota. Paz: zap! À sacada da casa, o rito: tiro. O medo do demo, a tropa à porta. A base do teto desaba. O nada dá dano; a casa saca o lodo do dolo. Paz: zap! Livres? A corte. O corte é troco, é troca servil. Livre temer; remeter vil. Ó povo, pó! A lei… fiel a? Erro comum ocorre: Lei fiel. Paz: zap! Livres. O muro. Remeter é temer o rumo servil. Adias a data da saída, o ano do não. Remeter é temer. Adias a saída. O muro… rever o rumo, o copo no poço, o nó do dono, o teu gueto: o muro é o rumo. Paz: zap! Até o poder do povo é ovo podre do poeta. Rir, o breve verbo rir, e até o Papa poeta é. A rima mira até o poeta. Servi livres. Livres é servil, servil é livres… Livre, servil… Paz: zap! Somos: o breve verbo. Somos sós. Somos livres, a rua somos. Sós, somos aura servil. Aura, rutura, rua livre do poder vil.
Palíndromo reversível
por Jeremias Cabrita da Silva
in "Teoria Geral da Queda"
(Edições Gravidade, 2028)

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quinta-feira, dezembro 11, 2025

Epigramas da Ordem. Imagem gerada por inteligência artificial (Sora) a partir do tríptico homónimo de Jeremias Cabrita da Silva.

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terça-feira, dezembro 09, 2025

Epigramas da Ordem


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Epigrama da Submissão Cognitiva

A linguagem já não significa: determina
A consciência move-se na órbita do comando


✧

Epigrama da Obsolescência

O pensamento foi automatizado.
O sujeito não pensa: é pensado.
O humano tornou-se obsoleto.


✧

Epigrama da Matriz Impronunciada

O mundo dobrou-se dentro do alfabeto
e o nome, sem boca para o dizer;
o verso, sem mão para o escrever,
cessaram de realizar a realidade.


Terceiro de três trípticos de "Epigramas",
por Jeremias Cabrita da Silva, in "Ars Poetica et Rebellis"
(Edições Cravo & Ferradura, 2027)

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sábado, novembro 29, 2025

Epigramas da Razão. Imagem gerada por inteligência artificial (Sora) a partir do tríptico homónimo de Jeremias Cabrita da Silva.

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quinta-feira, novembro 27, 2025

Epigramas da Razão


✧

Epigrama da Lei Universal


A lei interior precede o mundo.

Do silêncio fala o gesto claro.

Quem escuta vê o desamparo.

Quem vê ampara o moribundo.



✧

Epigrama da Lei Iníqua


Na mão do opulento a lei repousa,

servindo o grande, calando o fraco,

em clausulado arcano, opaco.

A injusta farsa em trono impune pousa.



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Epigrama da Desobediência Legítima


Quando a lei dita o que a justiça acusa,

cessa a virtude em quem se entrega.

Firme, à lei iníqua, a razão recusa:

Só é justo quem à injusta lei se nega.



Segundo de três trípticos de "Epigramas",
por Jeremias Cabrita da Silva, in "Ars Poetica et Rebellis"
(Edições Cravo & Ferradura, 2027)

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quarta-feira, novembro 19, 2025

Epigramas da Pedra. Imagem gerada por inteligência artificial (Sora) a partir do tríptico homónimo de Jeremias Cabrita da Silva.

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Epigramas da Pedra

 

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Epigrama da Palavra Original


O golpe do cinzel talha o verbo inteiro

e o nome na pedra pare o ser primeiro



✧

Epigrama da Verdade Essencial


A verdade que acende o justo fala

quando em redor o mundo, inerme, cala



✧

Epigrama do Veio Primordial


O primeiro passo abre o veio primordial;

a pedra inaugural guarda inteira a catedral





Primeiro de três trípticos de "Epigramas",
por Jeremias Cabrita da Silva, in "Ars Poetica et Rebellis"
(Edições Cravo & Ferradura, 2027)

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domingo, agosto 10, 2025

Ciclo de Haikus para Donald Trump

O Berço Dourado

Chave no berço,
a porta estava aberta —
mundo comprado.

*

O Magnata de Estuque
(tríptico)

Torre de papel,
alicerces de chantagem —
a lei calou-se.

Fachada dourada
com mijo de sem-abrigo –
comprada a saldo.

Estala o verniz —
dos andaimes da mentira
pendem tribunais.

*

Jackpot de Mentiras
(tríptico)

Trump dá as cartas –
oito falências depois,
Mar-a-Lago ri.

Fachada de néon,
bluff como trave mestra –
ouro ferrugento.

Payout da fraude,
o saque dorme em offshores –
blackout na torre.

*

Carne de Troca
(tríptico)

Chuva dourada
sobre a cama do czar –
no dossier Steele.

Stormy calou-se –
cento e trinta mil notas
goela abaixo.

Mão nos genitais –
McDougal, Maxwell, Epstein,
pactos impunes.

*

Fogo Amigo

Bala de fumo –
a orelha por um reino
de fogo eterno.

Jeremias Cabrita da Silva in "Ars Poetica et Rebellis"
(Edições Cravo & Ferradura, 2027)

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sexta-feira, agosto 05, 2022

Funcionalismo

Um funcionário apagado e triste,
escondido e envergonhado,
esperando que não lhe dirijam palavra,
planta uma árvore no canteiro da varanda,
debruçada sobre a Estrada Nacional,
onde a luz solar resta ardente no asfalto,
sabendo de antemão que não lhe cabe a fruição
nem do fruto nem da sombra.

Débito e crédito debitado;
toda uma vida de empregado,
operário pontual e exemplar
sem orgulho no cumprimento de um dever
e sem sombra nem fruto,
irremediavelmente cansado,
sem presente e sem futuro.

Como a natureza, trabalha
continuamente e em silêncio,
absorto e conformado,
canário mudo na gaiola,
alimentado a alpista,
no labor desditoso do desejo
único de esquecer-se quem é;
na lida de tudo o que é matemático
e geométrico, assíduo,
inquestionável, previsível,
sem canto nem engano,
sem desvio, prazer nem esperança.

Os músculos lassos e flácidos
sabem de cor o equilíbrio
dos movimentos repetidos,
sendo sua a substância da letargia
no enlace justo dos tendões,
nos dedos como malhos,
nas palmas tectónicas das mãos,
capazes de adormecer paisagens
privatizadas, nunca visitadas.
Pernas como tesouras
recortam sulcos febris
de infindáveis plantios e lavouras;
de trilhos e carreiras fabris,
arquitectando perenes destinos
nas paredes do tempo.

O funcionário recurva-se na secretária
mirando um memorando
como quem contempla a morte
anunciada de um conhecido.
Chegara a requisição de mobiliário de escritório
e o que restava lá fora era a dor da tarde
esperando o hálito moroso das folhas por nascer,
supondo a dúvida de saber
se se é incompletamente infeliz.

Foto DAQUI

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segunda-feira, abril 09, 2012

Esquecidos

Havia alguém a fumar à janela,
mas a calçada já não sacudia dos estendais
o mesmo cheiro a roupa lavada.
O asfalto cobrira a pedra preta do godo
- uma epiderme granítica de seixos
que escondera outra cidade
em valas comuns no topo de uma encosta.
Aqui, onde a memória ainda estanca o Tejo
e a menagem da Praça do Comércio;
aqui, onde a cidade nasceu, amou e morreu mil vezes,
morrem como nunca morreram,
esquecidos seus corpos por meses,
netos, filhos, pais e avós de Lisboa.

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quarta-feira, março 28, 2012

Dominó

O corpo encostado à parede.
A meio da tarde, na cama,
nada melhor que observar
a dança de partículas suspensas no ar,
tornadas visíveis por raios de sol primaveril.
Toda a liberdade de ser velho
com 180 euros por mês.
A um canto do quarto divorciado,
numa caixa, um conjunto de peças de dominó
ainda cantava a música chilreada do jardim
onde dantes, almoçados, amigos se juntavam
aos pássaros, aos gatos, aos cães
e à brisa da tarde numa canção de Paz.

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