segunda-feira, maio 18, 2026

Rios que Correm sem Foz

Vim tocar a cicatriz de uma nascente.
Esta água era de todos, comunal.
Traz agora sangue e cobre na corrente,

usurpada ao chão, sangrada num canal,
que na jugular do monte foi captada,
medida, sem curso próprio, sem caudal.

Na medula do país corre sulcada,
na álgebra do lucro e da exploração,
a ribeira, pátria concessionada.

Do ventre do lugar, funda subtração
do bem comum sob decreto de captura,
nascimento revogado em servidão.

Há rios na garganta da infraestrutura,
nos altares do silício, domados
pela mansa precisão da ditadura.

Do livre curso da vida expropriados,
fluímos sem margem de ser, incompletos,
na foz do amor e do desejo castrados.

Nunca nos quiseram livres, mas quietos:
somos nós os servidores obsoletos.

Terza Rima de matriz dantesca
(tradição italiana medieval)
por Jeremias Cabrita da Silva
in "Poemas para um País por Fazer"
(Edições Cravo & Ferradura, 2039)

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