Bravo Pinho
À mesa, talhava rodas
dum velho taco de pinho
com dedos de nó e veia
até sair um carrinho.
No largo, ninguém corria,
ninguém rasgava o calção;
já nem a carreira vinha
trazer filhos pela mão.
Aparava cada farpa
na prova do polegar;
afagava um rosto longe
sem nele poder tocar.
O tampo fez-se terreiro
de um aroma de Agosto
que na ânsia de abraçar
se tornara fogo posto.
Ligaram: talvez domingo
dessem um salto à aldeia.
Na casa dentro do peito
acendeu-se uma candeia.
Varreu da mesa as aparas,
pôs a toalha de linho,
puxou mais uma cadeira,
deixou à vista o carrinho.
Domingo veio por fim,
já em final de viagem,
com areia nos chinelos
e souvenirs na bagagem.
Traçou no linho uma estrada;
procurou no neto um brilho.
O pai compôs o silêncio:
– foi o avô que fez, filho.
A alegria ficou sem pouso.
Fez de conta que era pouco.
A tarde fechou-se ao fundo;
o cheiro dizia fogo.
Disseram: venha connosco,
mas a aldeia não deixou.
Deixaram pão e ovos moles;
levaram beijos do avô.
O pó assentou no pão.
Vinha no ar bravo pinho.
Como se ainda chamasse,
ficou à vista o carrinho.
Trova popular em redondilha maior
por Jeremias Cabrita da Silva
in "Teoria Geral da Queda"
(Edições Gravidade, 2028)
Etiquetas: Chordian Poetry, Jeremias Cabrita da Silva - Citações e Textos, Poemas da Crise, Poesia Cordiana, Revolucionando


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