quinta-feira, outubro 29, 2026

Nona-Feira — JORGE PALMA | Um ensaio memorialístico

Aquele abraço em Março de 2003, na cozinha da casa do Jorge em São Bento, após entrevista para o jornal Impress

Nona-Feira

JORGE PALMA
Um ensaio memorialístico

 

No instante fatal, caiu o copo de whisky entre nós. Um rapaz da Associação de Estudantes, que subia junto ao limite das bancadas, deu um pontapé ao copo sem querer. Era a minha vez. Jorge Palma estava diante de mim, atrás de uma pequena mesa montada no canto entre a bancada e a parede; o whisky ainda respingava no chão. Nos degraus, ao nosso lado, permanecia a garrafa ciclópica, de uns cinco litros, que os estudantes lhe tinham oferecido. Olhámos para o copo tombado, a mancha a abrir-se no chão, depois um para o outro.

«Deixa cair, aposto que não passa do chão», disse-lhe de rajada. Estacou. Olhou-me, surpreendido. Reconhecera a contrassenha. Era um verso de “Uma Vez”, de “Bairro do Amor”. Acabara de dar, com Zé Ernesto ao violino, um concerto de beneficência para recuperar o piano do Liceu Camões, onde estudara, como o meu pai, aliás. Ficara depois junto às bancadas a distribuir simpatia e autógrafos. Íamos a meio dos anos noventa. Eu era um fã adolescente, mas não estava naquela fila apenas por uma assinatura.

Antes do concerto, eu e o baterista dos Baby Jane tínhamos ido a minha casa gravar, à pressa, uma maquete nossa para lhe entregar em mão. Saímos a correr para o Liceu, que ficava a cinco minutos a passo largo de minha casa. Agora só a pequena mesa nos separava: o Jorge de um lado, eu do outro, a cassete na mão. Tremia e, comigo, tremelicava a cassete. Não obstante, segundos antes, à queda inopinada do copo, o nervosismo não me roubara a frase e o verso saiu inteiro, no momento exacto. Era isso, talvez, que eu mais queria que ele percebesse: aquele miúdo não chegara ali por acaso.

Ainda falámos breves minutos. Não me despachou; ouviu-me como se houvesse tempo. Escreveu a dedicatória, assinou e, no fim, acrescentou: «Baby Jane forever». Despedimo-nos. A cassete ficou com ele, o papel veio comigo. Saí do pavilhão com uma alegria difícil de conter. Tinha-lhe posto nas mãos a nossa música e conhecido, finalmente, em carne e osso, alguém que, até ali, me parecia pertencer mais à matéria dos sonhos e do maravilhamento do que à vida comum – um desses seres únicos, predestinados, improváveis e alados, que na adolescência se confundem com semideuses. Mas, mais extraordinário, percebi que a poesia estava precisamente ali: na crueza da vida comum, dita, escrita, cantada e vivida com a mesma honestidade das canções. Segui livre para a noite de Santos com a sensação nítida de que aquilo não ficava por ali.

I – “Só”

Alto de São João. Ia lá ter aulas de alemão, a casa de uma jovem explicadora de cujo nome, lamentavelmente, já não me recordo. Vivia perto do cemitério. Da casa, quase nada me ficou. Lembro-me, porém, da surpresa de encontrar o CD de “Só” no quarto dela. Tanto quanto me recordo, era fã de Jorge Palma. É muito provável que, em conversa, me tenha recomendado o disco. O que sei é que se prontificou a emprestar-mo para escuta atenta.

Levei-o comigo para casa. O impacto foi imediato e raro: não estava a começar a gostar de um disco, mas a reconhecer algo que já me dizia respeito. Havia ali uma grandeza sem aparato, uma evidência que não precisava de se anunciar – e o espanto de encontrar, à vista de todos, um tesouro por cartografar. Não terei pensado estar, desde logo, perante o mais inspirado disco da história da música portuguesa – essa é uma convicção que o tempo veio a consolidar –, mas lembro-me nitidamente de perceber que aquilo não era fogo-fátuo, entusiasmo de ocasião, mas um daqueles encontros que alteram a escala e a medida das coisas.

O que me desarmava em “Só” era precisamente a sensação de estar tão perto do lugar onde aquelas canções tinham nascido – na cabeça e no ouvido do mestre. Despidas de banda, de arranjos e de camadas artificiosas de estúdio, não perdiam espessura: ganhavam. Havia menos a acontecer e, paradoxalmente, ouvia-se mais — a arquitectura harmónica, o peso dramático de um silêncio, a escolha criteriosa de cada nota, uma sintaxe musical muito própria que o piano deixava inteiramente exposta. A redução ao essencial não simplificava: revelava toda a sofisticação do pensamento e da expressão do compositor – uma sensibilidade poética e humana extraordinária, servida por apuro e virtuosismo tais que situavam aquele disco noutra ordem de grandeza. Não era apenas alguém capaz de escrever grandes canções, mas um compositor e intérprete de primeira água em qualquer parte do mundo. E era português, estava ali, a beber copos connosco, comuns mortais. Eu podia admirar um groove, um riff, uma melodia, um solo ou um verso feliz e fazer o caminho até lá. Perante aquilo, sentia outra coisa – a consciência de estar diante de uma linguagem musical que, por muito que estudasse ou trabalhasse, não conseguiria simplesmente reproduzir, sequer mimetizar. Era estratosférico.

Além disso, o Jorge não precisava de escrever como um poeta para cantar poesia. Não tinha de purgar a língua do «epá», da bebedeira, da cama, da ressaca, do desejo, da interjeição que se adivinha, de tudo aquilo que a vida comum traz agarrado às palavras. Era, aliás, muitas vezes através dessa matéria impura que chegava à sublimação. Inclinava-se para nós à mesa e dizia, numa canção, «Eh, pá, deixa-me abrir contigo», e dessa proximidade nascia a solidão, o medo, o sexo, a ternura, a derrota, a liberdade, sem que a voz e as palavras alguma vez se empoleirassem para parecerem maiores. Essa não era apenas uma forma de proximidade; era também uma declaração estética de quem, com cultura e recursos de sobra para se pôr em bicos de pés, se recusava fazê-lo. A poesia, em Jorge, não vestia smoking nem pedia licença ao salão: entrava pela porta da frente, com a noite na voz, e ensinava a corte a dançar. Havia nisso uma vulnerabilidade rara: o Jorge não descrevia apenas sentimentos; expunha-se neles e, fazendo-o, puxava uma cadeira para que nos sentássemos. Mesmo na maior crueza, o corpo não se reduzia à carne; o acto sexual carregava abandono, desejo, violência, ironia, uma cidade inteira, e a imagem mais dura adquiria espessura simbólica sem deixar de ser corpórea. Talvez também por isso as palavras não ficassem fechadas em canções. Tinham a fluidez da oralidade e a densidade da poesia; podiam sair da música, atravessar uma conversa, aparecer num pensamento, oferecer, no momento mais oportuno do quotidiano, uma deixa para o que antes era apenas uma sensação sem nome. Eram palavras habitáveis à escala humana, mas nelas cabia a vida inteira. E ainda o indizível.

Depois, com “Palma’s Gang – Ao Vivo no Johnny Guitar”, o Jorge conseguiu algo que me parecia quase impossível: arrebatar-me de novo. “Só” tinha sido um choque de tal ordem que me deixara a sensação de ter encontrado o Graal, uma espécie de limite, o pote no final do arco-íris. Não o racionalizei assim, mas era difícil conceber que pudesse haver tão cedo outra revelação daquela grandeza. Mas houve. Se “Só” fora a primeira explosão em recital, o gang foi gasolina na fogueira. Eu vivia então fascinado pelo rock, pelas bandas e pelas guitarras eléctricas, e, quase sem aviso, o homem sozinho ao piano aparecia no centro de uma descarga de volume, bateria, guitarras e palco, cru, físico, visceral, acompanhado por Zé Pedro, Kalú, Flak e Alex — músicos que, para um adolescente como eu, pertenciam à mitologia do rock português. Fui apanhado no outro extremo do tornado Palma: depois da nudez e da precisão de “Só”, o Jorge atingia-me como um relâmpago, agora nas águas em que eu próprio navegava, e fazia-o com a mesma ausência de pose, a mesma entrega, a mesma verdade. Em “Só”, as canções escolhidas pediam aquele espaço rarefeito em que o silêncio tocava; em “Palma’s Gang” reclamavam alta voltagem, ruído, atrito, feedback, suor, palco e copos. A continuidade não estava no reportório, mas no Jorge. Num extremo, a nudez de um homem e um piano; no outro, a descarga do gang ao vivo nos sessenta metros quadrados do Johnny Guitar, levado ao ponto de ruptura. «Vamos partir este bar!», atira entre canções. Eis uma frase que saiu do disco comigo e entrou na minha vida. Durante anos foi uma espécie de senha entre amigos e companheiros de banda, antes de um concerto, de uma noitada ou apenas quando chegávamos a algum lado dispostos a fazer acontecer. A distância entre os dois discos era enorme. A verdade era a mesma. O Jorge não estava ali de visita a experimentar uma máscara nova. Estava tão inteiro no Johnny Guitar como estivera sozinho ao piano. Foi essa a segunda grande onda de choque: perceber que “Só” não era, afinal, a medida do Jorge, mas apenas uma das suas extremidades. No pólo quase oposto, com outra matéria, outra violência e outra temperatura, continuava a reconhecer exactamente o mesmo artista absoluto.

Entretanto, eu também já compunha pequenas canções. Tocava guitarra, escrevia e tinha os Baby Jane desde 1994. Aquilo que me arrebatava entranhava-se nos ensaios, nos ouvidos, na ambição ainda desordenada com que procurávamos uma linguagem própria. O Jorge tornou-se presença particularmente forte nesse território: não era apenas alguém que eu ouvia, mas que alargava a medida do que uma canção podia ser. A certa altura, receber já não chegava. Naquela noite do Camões, a admiração não vinha de mãos vazias. Tremia comigo dentro de uma cassete.

II – Sem cerimónia

Do Camões segui para Santos, rumo ao Até Qu’enfim, provavelmente para ver os Puzzle ou já os Jimdungo – sem favor, a melhor banda de covers de Lisboa, Portugal e arredores desde o dia do primeiro concerto. Especulo que, por isso, poderia ser quinta-feira. Ficámos até final, como sempre. Era tarde. Quando saí do Até Qu’enfim, já madrugada dentro, segui pela Rua das Janelas Verdes e desci a Calçada Ribeiro Santos em direcção ao Largo de Santos, ainda com o encontro do Camões a ocupar-me o pensamento. Creio até que vinha a falar do Jorge quando, do outro lado do passeio, o vi novamente, entre a incredulidade e a exultação. Estava na esplanada do Acinox, sentado com um homem mais novo do que ele e mais velho do que eu, que logo vim a saber ser Nuno Trinta de Sá. O Acinox, que corresponde ao actual Túnel de Santos – a designação terá oscilado entre uma e outra –, ocupava um espaço estreito e abobadado, tubular. Da rua, o interior prolongava-se prédio adentro como um corredor largo. Eles, porém, estavam cá fora, no passeio.

Poucas horas antes, esperara pela minha vez para chegar ao Jorge. Agora encontrava-o novamente, por absoluto acaso. Desta feita cheguei de peito aberto. Reconheceu-me, lembrava-se do nosso encontro no Camões. Terei chegado a brincar com ele e respondeu-me na mesma moeda. As palavras perderam-se, não vou inventá-las, mas ficou a naturalidade feliz daquele segundo encontro, apenas horas depois do primeiro. Saíra do Camões com a sensação nítida de que aquilo não ficava ali e, num ápice, o acaso devolvia-mo já reconhecido, com uma conversa por desdobrar, com tempo, sem distracções. O momento pareceu-me quase profético: não por premonição de coisa alguma, mas pela coincidência perfeita de a noite confirmar tão depressa a intuição que levara comigo para Santos. Havia duas mesas juntas. O Jorge e o Nuno ocupavam uma delas, encostada à parede. Puxou a cadeira da mesa ao lado para que me sentasse junto dele.

Falámos até ao amanhecer. Mais de trinta anos depois, não consigo reconstruir a conversa, mas tenho presente a sua matéria e a intensidade com que entrei nela. Falei-lhe muito da música dele, das canções, dos discos, do que encontrava neles; fui-lhe mostrando, com fervor adolescente, a que ponto conhecia a obra e a considerava. O Jorge terá percebido que tinha diante de si alguém que o escutara verdadeiramente, e isso talvez o tenha prendido. Não queria apenas dizer-lhe que gostava dele, mas transmitir-lhe a dimensão que, para mim, já tinha: a de uma figura maior da música e da cultura portuguesas, capaz ainda de muito mais do que aquilo que já fizera. Perguntava-lhe sobre o próximo disco, sobre o que ainda pensava escrever e gravar, sobre tudo o que me parecia estar ao alcance de um talento indomável. Havia nisso admiração evidente, mas também uma espécie de urgência juvenil: o receio de que tanta coisa pudesse ficar por cumprir, de que o próprio não tomasse por inteiro a medida do que era capaz de fazer. Não sei já quanto falei eu e quanto falou ele. O Nuno Trinta de Sá manteve-se à mesa, a assistir à minha irrupção, e ia triangulando connosco. Sei que o Jorge não me deixou a falar sozinho. Replicou, partilhou, ficou, e a madrugada avançava sem que alguma vez me fizesse sentir que estava a tomar-lhe o tempo.

A certo ponto vieram-me as lágrimas aos olhos e o Jorge acolheu-me nos braços, cabeça aninhada entre o pescoço e o peito. Chorei copiosamente, num desabafo prolongado. Não posso reconstruir tudo o que ali desabou, mas vinha do fundo e de longe: emoção, admiração, identificação e, sobretudo, as minhas próprias inquietações, para as quais as canções dele tinham encontrado linguagem. O abraço prolongou-se muito, o suficiente para lhe deixar a camisa molhada como se tivesse andado à chuva, e o Jorge ficou. Não me afastou, não reagiu com embaraço, tampouco gracejou diante de tão intensa descarga. Acarinhou a vulnerabilidade de um jovem imberbe. Deixou-se estar, encharcado nas minhas lágrimas, que lhe escorriam do pescoço para o peito.

Ficámos à conversa até a noite ceder. Já perto da despedida, voltou ao papel onde horas antes escrevera «Baby Jane forever» e acrescentou-lhe o número de telefone fixo de casa. Eu não lho pedira. O papel voltou comigo, agora com mais uns preciosos algarismos. Seguiram-se os telefonemas, conversas até ao raiar da manhã, reencontros à saída de concertos ou, por acaso, na rua. E se, muitas vezes, era eu que entrava nas noites dele, também aconteceu o contrário. Uma noite encontrou-nos à porta do Xafarix. Éramos talvez meia dúzia, com “litrosas” a passar de mão em mão. O Jorge juntou-se à roda com a mesma naturalidade, partilhou a nossa cerveja e ficou ali connosco à conversa. Podiam passar semanas ou meses entre encontros. Quando voltávamos a cruzar-nos, não havia grande coisa a recompor. O Jorge deixava-nos chegar. Não era um privilégio que me estivesse reservado. Havia família, amigos de toda a vida, gente muito mais próxima, e muitas vezes era eu quem voltava a procurá-lo. Ainda assim, aquela primeira noite foi demasiado perfeita. Não porque obedecesse a um destino desenhado nas estrelas, mas porque o homem que encontrei não desfez aquilo que a obra construíra em mim. De perto, o Jorge não desiludia: confirmava, à escala humana, a grandeza que eu reconhecera na obra.

Há reencontros que hoje só consigo reconstruir pela memória. Deste ficou uma nota quase a quente, registada três dias depois no Caderno de Corda: a 8 de Fevereiro de 2006 escrevi que, no dia 5, ao fim da tarde, estava no Pão de Açúcar das Amoreiras, a pegar num cacho de bananas, quando dei outra vez com o Jorge. Tinha uma pequena lista de compras na mão e o olhar perdido nos congelados. «Lulas, Jorge?», registei então. Pusemo-nos à conversa. Na noite anterior tocara no Maxime até perto das seis da manhã; juntara-se-lhe por lá pessoal dos Rádio Macau e calculava ter acumulado, sem cortes, cerca de quatro horas de concerto. Agora eram seis da tarde e ali estava ele, entre a lista de compras e os congelados, tranquilo, satisfeito, a contar-me a noite anterior como se ainda a trouxesse consigo. Três dias depois, ao fixar a imagem no blogue, escolhi uma palavra para o descrever: rejuvenescido.

III — «Organismo de ferro»

Durante demasiados anos, ouvi muito falar de outro Palma. «O bêbedo.» «Anda aos caídos.» «Nem acerta nas teclas.» Havia quem pouco ou nada soubesse da obra e ainda menos do homem, mas repetisse aquilo com a segurança definitiva da ignorância, do preconceito e da maledicência fácil. Não interessa agora quem disse exactamente o quê. A certo ponto, aquelas frases já não descreviam uma noite, um atraso ou um concerto: colavam-se ao nome.

Infelizmente, os preconceitos não tinham surgido do nada. Eu próprio o vi, algumas vezes, alcoolizado, entorpecido, perder o fio, esquecer-se de uma letra, improvisar a partir daí. Vi-o, ocasionalmente, aquém do seu melhor. Houve também atrasos, compromissos falhados e noites em que quem pagara um bilhete recebeu menos do que tinha direito a esperar. Eu, pessoalmente, tive a felicidade de nunca ter saído defraudado de um concerto do Jorge. Talvez os soubesse escolher. Mas a minha experiência não apagava a de outros. Houve quem esperasse demasiado, assistisse a concertos realmente menos conseguidos e tivesse razões para se sentir até, no sentido estritamente profissional da coisa, desrespeitado. A grandeza da obra não lhes devolvia a noite ou o bilhete. Ainda assim, a caricatura, não sendo totalmente falsa, era radicalmente insuficiente.

A inquietação já se exprimira naquela primeira madrugada do Acinox. Entre o que o Jorge já fizera e tudo o que, a meu ver, ainda podia ou devia fazer, havia em mim um sentido de urgência juvenil: o receio de que tanta coisa pudesse ficar por cumprir, ou ainda de que a narrativa popular ou histórica lhe fosse madrasta. Nos anos seguintes, esse receio foi ganhando matéria. Depois de “Bairro do Amor”, em 1989, continuaram a sair discos como “Só” e “Palma’s Gang”, mas, apesar do brilhantismo e da pedrada no charco, tratava-se de releituras de canções já existentes. Com impaciência própria de um adolescente, eu queria canções novas, um disco de inéditos, e os anos iam passando. Durante muito tempo, confundi ausência com desperdício. Mais tarde percebi melhor o que não via então: o término do curso de piano, o teatro, os concertos, as colaborações… e o próprio Jorge viria a falar-me também de dispersão, noitadas, indisciplina e até do receio de não conseguir fazer um disco de que realmente gostasse. A minha leitura era incompleta, mas já manifestava um receio que ainda não sabia nomear: que, com tanto por fazer, alguma coisa ficasse pelo caminho – e que tudo o que o Jorge já fizera acabasse soterrado pelo “boneco” do boémio errático.

Não era a sobrevivência das canções que me inquietava. O risco estava noutra variável: no homem que precisava de tempo para continuar. Receava que o álcool lhe roubasse saúde, anos de trabalho ou a própria vida. Temia que a dependência acabasse por ocupar, na memória colectiva, um espaço que pertencia fundamentalmente ao génio e às canções. Sabia apenas que havia demasiado por fazer e inquietava-me sobremaneira a possibilidade de o perder prematuramente. Esse receio ficou lavrado a 14 de Abril de 2003, numa longa entrevista que lhe fiz na sua casa, então na Rua de São Bento, para o primeiro número do jornal Impress, que co-fundei. Foi também matéria para um trabalho da cadeira de Cultura e Língua Portuguesa, do curso de Ciências da Comunicação da Universidade Autónoma de Lisboa. Perguntei-lhe: «E agora? Assentaste? A saúde é uma preocupação tua ou ainda te dás a alguns excessos?». Na transcrição integral ficou registado um aparte que seria cortado na edição publicada: «era uma chatice perdermos prematuramente um criador como tu».

«É verdade», respondeu. Pouco antes, já havia dito que a abstinência da bebida era bastante recente e que várias tentativas, sobretudo em 2002, tinham terminado em recaída. Disse-me que bebia em excesso, que as ressacas eram «horríveis» e que começara a sentir-se deprimido por não estar a construir. Quando sugeri se, a certo ponto, já não era ele quem tinha mão nas coisas, concordou: «Não, às tantas já não era.» Faltavam-lhe força de vontade e energia, e, quando estava alcoolizado, «não fazia nada de jeito». Houve também concertos de que saía sabendo que «podia ter dado muito melhor». Às vezes esquecia-se de letras – «isso pode acontecer, acontece a muito boa gente» –, mas o que o incomodava era outra coisa: «A minha prestação, a minha dádiva, a minha oferta, estava muito aquém daquilo que eu podia fazer, e nas ressacas, então, era uma inactividade total.» Pouco depois, deu nome ao problema: «O álcool, digamos que tem sido a minha droga.»

Quanto às restantes drogas, dizia não sentir necessidade delas. Na transcrição integral, ficou registada uma autocorrecção que a edição publicada alisou: «Nesta altura do campeonato, estou a evitar tudo isso. A evitar não, estou mesmo afastado desses consumos.» O tabaco, porém, já surgira pouco antes na conversa – «estou a fumar desalmadamente» – e voltava agora, acompanhado pelo café. Fumava muito, bebia muito café e reconhecia que eram essas, naquele momento, as substâncias que lhe poderiam prejudicar a saúde. Então disse: «Acontece que eu tenho um organismo de ferro, pelos vistos. Podia muito bem já não estar aqui...» Mas havia «outra coisa fundamental em relação a isso»: o engano de pensar que a criatividade pudesse esgotar-se sem o «auxílio dessa bengala». «Não sinto nada isso, pá, é um medo injustificado. Sinto a minha cabeça muito mais leve e livre.»

Nessa tarde, por indicação do Jorge, eu próprio fui ao frigorífico buscar as Coca-Colas. Não me recordo de ter visto álcool. Lembro-me de termos ambos particular consciência do que estávamos a beber, sobretudo no contexto da conversa franca sobre álcool e sobre o esforço para se afastar da bebida. Não se tratava de uma proclamação de vitória, nem assim entendi. Era um gesto pequeno, mas concreto e significativo, no momento em que me dizia estar a tentar mudar.

IV — «Isto está em ebulição»

Da janela da sala, fronteira para as janelas de Amália, à cozinha pequena, interior, no outro extremo da casa, havia ainda caixas por arrumar. Num gravador de bolso, a microcassete ia registando a conversa, que se prolongaria, sem interrupções de que me lembre, até perto da hora de jantar. Sobre a mesa iam-se acumulando os sinais da tarde: maços de Camel, cinzeiro, isqueiros, canetas, papéis, latas de Coca-Cola, copos. E, sem ocupar espaço, o bem mais escasso: tempo. O Jorge inteiro, à conversa, disponível para responder a tudo. Conhecia-lhe os discos, as canções, as letras. Passara anos a escutá-lo em pelo menos duas vias: para dentro da música, entre camadas, nos desvios, em arquitecturas escondidas, e para dentro de mim, em busca de razões sem léxico para explicar canções que tanto me podiam precipitar em vertigem como suspender em ascese. Mais uma vez tinha à frente o homem que fizera a obra, mas desta feita com a missão de lhe perguntar tudo o que pudesse, directamente. Interessavam-me as histórias das gravações e as circunstâncias que tinham dado origem às canções, mas queria sobretudo aproximar-me do instante anterior à forma, do ponto embrionário em que a ideia começava a sussurrar música. Tinha vinte e poucos anos, concluía a licenciatura em Jornalismo, fazia ali a minha primeira grande entrevista para o primeiro número do jornal universitário que co-fundara; tocava, tinha uma banda, escrevia canções. Diante de mim estava a minha maior referência. Havia no entrevistador curiosidade profissional, no músico fome e vontade de comer, e no admirador o privilégio quase indecente de poder perguntar à fonte como nascia a água. Fiz-lhe então a tão previsível e sacramental pergunta sobre o método criativo.

Não tinha, dizia, um «método disciplinado de trabalhar»: «É uma coisa um bocado anárquica, é conforme calha.» A pergunta sacramental recebera resposta profana. Mas, assim que lhe pedi um caso concreto – o que acontecia quando tinha de fazer uma letra ou música para o dia seguinte –, começou a desvelar-se o mecanismo e as engrenagens. Era-lhe mais fácil musicar uma letra já escrita do que fazer caber palavras numa música preexistente. A letra conduzia-o «à primeira ou à segunda»: sugeria-lhe um ambiente mais calmo ou mais agitado, um tom menor ou maior, uma linha mais contínua ou maior variedade de tempos e ritmos, simplicidade ou complexidade. Quando lhe opus as canções que dificilmente poderiam nascer assim, à primeira, veio o resto: exploração rítmica e harmónica, variações de compasso, Genesis, Zappa, Gentle Giant, Soft Machine, jazz, e a lembrança de um tempo em que lhe dava particular prazer fazer canções de oito minutos. Não apareceu, sem surpresa, um método fixo milagroso, mas surgiu uma consciência muito fina da matéria com que trabalhava.

Adiante, ao falarmos de “Só”, a exigência adquiriu contornos obsessivos não pela perfeição, mas pela sublimação. Sabia como o disco fora gravado, voz e piano em simultâneo, sem rede, punch ins ou overdubs. O que desconhecia era o preço dessa escolha. Se se enganasse nos últimos segundos, voltava-se ao princípio, e podia voltar-se ao princípio mesmo sem “pregos”. José Manuel Fortes e Francis Mann, que produziram o disco, não deixavam passar uma interpretação se aquilo estivesse, nas palavras do Jorge, «um bocado mortiço». Interpretações sublimes eram descartadas por uma pequena falha quase no fim – ou, mais revelador ainda, sem falha alguma que se pudesse assinalar numa pauta. As notas podiam estar todas na mouche e a interpretação não ser suficientemente “viva”. Em “Só”, não bastava tocar tudo impecavelmente de ponta a ponta, era preciso que acontecesse um arrepio na espinha.

Eu via ainda alguma incompatibilidade entre dispersão e criação. Perguntei-lhe se tantos trabalhos para teatro, encomendas, colaborações, letras e músicas para outros não acabariam por afastá-lo daquilo a que, com a solenidade dos vinte e poucos anos, chamei «o mais sublime da tua criação». O Jorge virou a premissa do avesso. Havia trabalhos que aceitava pelo prazer, pelas pessoas, pela aprendizagem, e muitos rendiam pouco ou nada. Por sua vez, quando alguma coisa lhe exigia trabalho mais árduo – as canções de Brecht, por exemplo, ou quatro músicas que tivera de escrever de repente para o espectáculo “Os Filhos de Rimbaud” –, a exigência, no fio da navalha, podia produzir o efeito contrário. «Estimula as minhas células cinzentas», explicou. A actividade aumentava, uma coisa puxava a outra. Era preciso saber gerir, aproveitar «o balanço, a inércia, a velocidade». Embalado por esse movimento, conseguia desdobrar-se e escrever também para si. Mas o fluxo não era de rotação constante. «Não tenho uma caixa de velocidades ajustada», disse. Podia atravessar períodos em que, visto de fora, parecia não estar a fazer nada. O motor não obedecia a um regime certo: alternava paragem e aceleração, acumulação e descarga. Sugeri que, ainda assim, algo devia estar sempre a fervilhar. «Pois. Isto está em ebulição.»

A pergunta já trazia outro prisma: «Eras ou és um homem em fuga? De quê?» Devolveu concretude e realismo. «Aproveitei enquanto tinha pernas para andar.» Muitas vezes, quando se sentira desconsolado ou insatisfeito com a vida que levava, encontrara solução em mudar de ambiente: fazer a mala, pegar na guitarra e abalar. Insisti. «Mesmo sem rede... fugias de quê?» E respondeu: «Mesmo sem rede.» Fugira, dizia, «em virtude do desagrado em relação à vida que estava a levar». Por vezes, a melhor saída era simplesmente «ir dar uma curva». Perguntei-lhe se isso acabara. «Não sei se acabou.» Aos cinquenta e poucos anos, reconhecia já menos elasticidade, paciência, «pedalada». Observei que não precisava de dormir na rua. Corrigiu-me: se fosse preciso, dormir-se-ia. Mas havia agora responsabilidades. «Os filhos...», a relação com a editora, contratos, o management. «Há uma máquina montada», disse. Uma máquina que tornava menos concebível pegar na guitarra e desaparecer para as Bahamas — «para as Bahamas!» — ou para Timor. E, no mesmo fôlego: «Mas nunca se sabe». À data havia também a banda, o projecto Cabeças no Ar na estrada, músicos, público, gente a pedir-lhe letras e músicas, coisas sempre a acontecer, até uma mudança de casa precisamente naquele período. Dizia que já não lhe passava pela cabeça voltar a fazer saídas daquelas e admitia que «há uma idade para tudo». A mala e a guitarra na bagagem permaneceriam sempre, mas noutro registo. Vieram anos de estrada, concertos, deslocações, viagens de férias. O Jorge continuou a fazer muitas milhas, mas não mais, que eu saiba, em fuga, a ponto de fazer a mala, pegar na guitarra e desaparecer sem rede porque a vida que levava deixara de lhe servir. Naquela tarde, porém, ainda não renegava em absoluto a possibilidade: «Eu não sei se acabou.» A «máquina montada» era também isso que entretanto se construía em redor dele: não apenas responsabilidades, mas reconhecimento, estrutura — público, músicos, trabalho, solicitações, um lugar conquistado ao sol.

Depois de o ter interrogado sobre criação, trabalho, fuga e responsabilidade, pedi-lhe uma síntese: «Consegues identificar uma mensagem predominante, ou várias, que subjazam na tua obra?» Estava a pedir ao autor que enfiasse a obra inteira numa resposta sumária. O Jorge respondeu sem solenidade: «Sê quem tu és» – e riu-se. Mas acrescentou: procurar sê-lo o melhor possível, encontrar força para se afirmar «não de uma forma prepotente, mas com jeito e com espírito humanista, se quiseres». E deixou a resposta desembocar em três valores: «liberdade», «justiça», «verdade». O riso fazia parte da resposta. Tirava-lhe a solenidade das máximas sem diminuir o peso real de palavras que tocavam questões e linhas de força que eu já vinha perseguindo na obra. Poucas semanas depois, reapareceriam num trabalho académico em que procurei organizar a leitura que vinha fazendo das canções e do Jorge.

A conversa da cozinha passou imediatamente da microcassete para o papel. Além da entrevista, escrevi “Portugal, Lisboa e Jorge Palma”, um trabalho para a cadeira de Cultura e Língua Portuguesa para o qual tinha sido estipulado o limite de dez páginas, que acabei por ultrapassar largamente, perfazendo 33. Ainda assim, obtive a melhor nota. A introdução ensaiara desde logo perdões e justificativas para o «descomedimento». O motivo estava confessado: «A admiração e a estima» que nutria pelo Jorge tinham sido motivação «por demais catalisante». Eu sabia, portanto, onde estavam os perigos e anunciei a defesa: «Procurei distanciar-me afectivamente, procurando fazer valer os factos. Perder-me-ia em elogios e louvores efusivos e embriagados. Infindos e desorientados.» Para lhes resistir, escolhi aquilo a que, já então entre aspas, chamei «abordagem “científica”».

Não queria que um panegírico de laudas em prosa poética inflamada inquinasse um trabalho académico. Precisava de impor estrutura e método à leitura. No entanto, rapidamente percebi que a obra não se deixava repartir facilmente: as matérias cruzavam-se, uma mesma canção podia pertencer a vários lugares, as etiquetas desfaziam-se assim que começavam a ser aplicadas. Foi para lidar com essa ambiguidade que inventei a «Questão Transversal», procurando transformar, como então escrevi, uma «linha de ideias desfocada e pairante» numa «massa de coesão». Eu próprio assumia que a operação era discutível e, antes de a definir, deixava o aviso: «De forma redutora.» Nos extremos coloquei poder e liberdade; de um lado, dinheiro e «ditadura de consumo»; do outro, as coisas simples, integridade, valores. O Jorge dissera-me na cozinha que não tinha método. Eu saí de lá a ter de formular um.

Era Cultura e Língua Portuguesa, a cadeira que me permitira introduzir como elemento de avaliação uma leitura de Portugal através da obra do Jorge: a memória da ditadura e do 25 de Abril, Lisboa, a política, a Igreja, os media, o povo, o desencontro entre gerações. Organizei matérias numa dimensão histórico-política e noutra sociocultural, cruzando letras, elementos biográficos e declarações recolhidas em entrevistas. A «Questão Transversal» tentava ligar o que as categorias separavam: poder e liberdade, aparência e genuinidade, dinheiro e integridade, dependência e possibilidade de escolha, livre arbítrio. Houve, efectivamente, mais do que devoção vertida em 33 páginas – uma busca séria, numa obra extensa, exigente e heterogénea, por continuidades capazes de trazer luz sobre a cultura, o País e o tempo dessa mesma obra.

Hoje compreendo que a exigência do trabalho excedia em muito o tempo e os instrumentos de que dispunha. Algumas afirmações sobre Portugal e os portugueses eram demasiado largas; certas intuições apareciam com mais convicção do que demonstração; poderei até, por vezes, ter aproximado excessivamente o homem das canções e daquilo que eu entendia ser a visão do autor. Mas não me parece que estivesse errado em procurar relações, tensões e recorrências. A liberdade que encontrava na obra não era uma palavra isolada: surgia repetidamente ao despique com diferentes formas de dependência. Em “Razão de Estado” lia o indivíduo comprimido pelo poder e pela vigilância; em “Canção de Lisboa”, a vida fingida, o estatuto e a aparência a ocuparem o lugar da autonomia; em “À Espera do Fim”, a engrenagem do consumo contraposta à possibilidade de ter pouco e ainda assim fruir a vida; em “A Gente Vai Continuar”, a dependência surgia já explicitamente ligada às necessidades que nos escravizam.

Apesar do esquema rudimentar, a intuição era já menos ingénua do que hoje me poderia parecer: procurava nas canções do Jorge a tensão entre as forças que nos prendem e aquilo que ainda preserva em nós um espaço de liberdade. E há uma frase que não preciso de projectar retrospectivamente porque já estava escrita em 2003: «Jorge oferece-nos sempre a possibilidade do amanhecer e de um caminho por percorrer.» Surgia a propósito de “A Gente Vai Continuar”. A leitura não terminava, portanto, no diagnóstico. Restava estrada. Talvez seja isso que melhor reconheço agora no que julgava ter percebido então. “Portugal, Lisboa e Jorge Palma” era uma tentativa de demonstrar essa leitura, situada, extensa, argumentada e suficientemente reflectida para ainda hoje me rever a discuti-la. Fiz chegar o trabalho ao Jorge, em mão, numa das nossas combinações.

Pouco tempo depois tentou telefonar-me. Eu estava numa sessão remunerada de estudo de mercado, com o telefone desligado, a fazer uns cobres necessários à vida de trabalhador-estudante. Quando voltei a ligar o telemóvel tinha na caixa de voz uma sequência de mensagens dele que totalizavam quinze minutos ou mais. O longo recado era muito grato, elogioso; o tom, sério, afectuoso e, por momentos, emocional. Do conteúdo, ficou-me sobretudo o sentido de que encontrara no trabalho relações, recorrências e ângulos sobre si próprio e sobre a obra que nunca organizara exactamente daquela maneira. Lamentavelmente, já não consigo lembrar as palavras; apenas o sentido que delas fui guardando.

Como ainda sucede, creio, as mensagens não ficavam gravadas no telemóvel como ficheiros, permanecendo na caixa de voz da operadora, e acabavam por ser eliminadas automaticamente após período determinado. Cheguei a pensar em passá-las para um gravador ou improvisar alguma ligação que me permitisse conservá-las. Não o fiz. Não por lhes dar pouca importância – dei-lhes muita, de tal ordem que as dei a ouvir a familiares e amigos próximos –, mas porque não vivia aquela relação como matéria de arquivo. A mensagem era privada e chegara ao destinatário. Não senti necessidade de a transformar em objecto a conservar. Quando desapareceu da caixa de voz, não havia cópia. Durante anos ouvira o Jorge nas canções. Naquela cozinha, interrogara-o. Depois transformara a escuta em leitura e fizera-lha chegar. O Jorge leu atentamente e sentiu necessidade de me devolver o seu efeito – o apreço, a surpresa, a emoção e, sobretudo, o facto de aquilo o ter feito parar e reflectir sobre si mesmo.

V — «De mão em mão»

Em 1997, quando os Baby Jane se preparavam para a estreia televisiva, numa actuação ao vivo na eliminatória inaugural do programa Reis do Estúdio, da RTP, a nossa primeira escolha foi “Portugal, Portugal”, do Jorge. Havíamos sido demovidos pela produção de tocar canções originais… Sem Internet ou YouTube, eu queria tocar a canção na guitarra com os acordes certos, sem depender apenas do que conseguíssemos tirar de ouvido, e ninguém melhor do que o autor para confirmá-los. Naquele tempo, querer tocar correctamente uma canção podia significar telefonar ao homem que a escrevera. Falámos do assunto em Santos, no Acinox ou ali por perto, numa das nossas noites de copos e conversa. Não tínhamos uma guitarra à mão, mas o Jorge logo me deu indicações dos acordes e sugeriu arranjar-me uma partitura. O que tinha, porém, era uma parte de sintetizador, em folhas fotocopiadas que não continham toda a informação de que eu precisava. Acrescentou-lhes anotações a caneta, completando o que lá estava com indicações simplificadas dos acordes. Combinámos por telefone que eu passaria por casa dele para ir buscar as folhas.

Fui à Avenida António Augusto de Aguiar numa tarde de que guardo sobretudo a penumbra das escadas e do corredor. Ainda era dia, mas lá dentro parecia anoitecer. Não cheguei a entrar em casa. Foi o Vicente quem me abriu a porta. Teria uns treze ou catorze anos e pareceu-me algo ensonado, de roupa de andar por casa. Estava avisado da minha ida e sabia onde o pai deixara as folhas. Foi buscá-las enquanto eu esperava no corredor. Quando apresentámos a nossa escolha à produção do programa, porém, disseram-nos que outra banda, que se chamaria Pé de Vento, creio, já tinha interpretado “Portugal, Portugal” e não podíamos repetir a canção. Acabámos por tocar “Sol da Caparica”, dos Peste & Sida. A pauta não chegou a servir para aquela actuação. Ficou comigo. Ainda hoje a guardo entre os meus discos de vinil.

Anos mais tarde, já na casa da Rua Artilharia 1, para onde o Jorge se mudara depois de São Bento, dei com um CD-R meu numa prateleira junto à entrada. Era “11216561”, um pequeno EP que editara por conta própria e assinara apenas como Hugo: três canções da minha autoria — “Italian Wool”, “Universo de 1” e “Dia Final” —, em que cantava, tocava guitarra e dava uns toques noutros instrumentos, com a importante participação de alguns músicos e amigos nas gravações. Fizera e vendera centenas daqueles discos. O título era o número do meu bilhete de identidade. Na capa branca figuravam apenas a impressão digital do meu indicador direito e uma rubrica. Na contracapa, o alinhamento das canções aparecia num papel engelhado na mão de Manolito, personagem de Quino em “Mafalda”, como uma lista de compras. Foi uma boa surpresa encontrar ali um daqueles exemplares, à vista, entre as coisas do Jorge. Noutra ocasião, reparei numa cópia promocional do disco “Cabeças no Ar”, que ele me disse ter trazido na véspera da editora. Comentei que nunca tinha ouvido o disco e o Jorge fez questão de que o levasse, sem que eu lho tivesse pedido.

No Verão de 2009, depois de “Voo Nocturno” e do sucesso comercial de “Encosta-te a Mim”, o Jorge chegava a um público cada vez mais amplo. Numa dessas tardes, combinámos encontrar-nos no Páteo Bagatela. Chegou de táxi, de calções e chinelos de meter no dedo, com dois sacos enormes de roupa que acabara de levantar da lavandaria. Ajudei-o com a carga e lá fomos, cada um com o seu saco, dois Pais Natais fora de época.

À entrada no Páteo Bagatela, avistei, na primeira esplanada à esquerda, o César da Silveira, um dos meus amigos mais queridos desde os tempos do liceu, sentado a tomar café com um grupo de colegas advogados – o escritório situava-se na Artilharia 1. O César é também um grande admirador do Jorge, a quem pedi que parássemos. Queria muito apresentá-los. Sem fretes, o maior pousou o saco no chão e esperou enquanto eu chamava o César, que veio até nós, incrédulo com a visão. Ficámos um pouco à conversa, ali mesmo, com os sacos pretos da lavandaria pelo meio. O César regressou ao grupo e nós fomos sentar-nos numa esplanada ao fundo do Páteo, para comer e beber qualquer coisa.

As guitarras eram assunto recorrente. Eu escrevia então sobre música, concertos, artistas, instrumentos e equipamento para duas revistas especializadas da Editorial Bolina e recebera directamente da fábrica alemã, meses antes, uma Duesenberg Starplayer TV preta, com ferragens douradas, para experimentar, avaliar e escrever. Passara muitas horas a tocá-la, começara a usá-la nas minhas próprias gravações e estava verdadeiramente rendido ao instrumento. A review, acompanhada de fotografias minhas com a guitarra (e a t-shirt de Baby Jane), saiu na edição de Verão de 2009 da Produção Áudio & Música. O Jorge sabia do meu trabalho e já me pedira opinião sobre guitarras para ele. Naquela tarde voltámos ao assunto. Falei-lhe da Starplayer TV, da sonoridade, da versatilidade e da qualidade de construção que me tinham conquistado. Recomendei-lhe o modelo. Interessou-se particularmente pela versão preta e dourada, exactamente igual à minha, e quis saber mais. Não foi conversa de apenas uma tarde. Sei que depois lhe dei informações e contactos ligados à distribuição das primeiras Duesies em Portugal.

A certa altura, disse-me que tínhamos de ir para casa: ia lá alguém mostrar-lhe o «Rambo». Não percebi bem a referência e o Jorge não se deu ao trabalho de a esclarecer. A conversa cirandou e assim seguimos para a casa da Rua Artilharia 1 – a terceira que lhe conheci numa dúzia de anos. O apartamento era claro, predominantemente branco. Transversal à entrada, um corredor; na sala, à direita, estava um piano de cauda, entre livros, discos e papéis, muitos ainda sem lugar. Havia também o sofá, a televisão, a aparelhagem e outras coisas em torno das quais se ia arrumando a vida. Foi já pela casa que descobri o que vinha a ser o «Rambo». Era Rainbow, o aspirador.

A 27 de Maio de 2010, no Rock in Rio, ao lado de Zeca Baleiro, o Jorge estreou a guitarra eléctrica que passaria a acompanhá-lo na estrada. Era a Duesenberg Starplayer TV preta, com ferragens douradas, exactamente igual à que eu lhe dera a conhecer e recomendara. Não uma variante, não uma guitarra semelhante à minha, mas aquele preciso modelo, naquele acabamento – a mesma Duesy entretanto escolhida por Chris Cornell. Fora eu quem lhe falara da marca, lhe mostrara a guitarra e partilhara a experiência de a tocar. Dei-lhe informações e contactos. Pelo que mais tarde me disse, se a memória não me falha, terá acabado por concretizar o negócio por intermédio de Rui Veloso, o primeiro músico português de primeira linha que me recordo de ter visto tocar com uma Duesenberg em palcos nacionais. O Jorge fez a sua escolha e adoptou-a como principal guitarra eléctrica de concerto. Não consigo precisar em que espectáculo a vi pela primeira vez nas mãos dele, mas lembro-me do arrepio. Para quem estava na plateia, era a guitarra do Jorge Palma. Para mim, a guitarra tinha uma história invisível que só eu conhecia, das primeiras conversas, quando a marca ainda lhe era desconhecida, à decisão de tocar precisamente com a “minha” Starplayer TV. O instrumento era dele, o som era dele, a música era dele, mas havia naquele palco e naquele som uma história que também me pertencia.

Em Junho desse ano, o Jorge fez sessenta anos. Convidou-me para o jantar de aniversário e, nas semanas anteriores, voltou a lembrar-me duas ou três vezes de que contava comigo. A celebração foi no Páteo Bagatela, na tal primeira esplanada à esquerda onde, no Verão anterior, o Jorge pousara o saco preto da lavandaria para conhecer o César. Agora, o espaço estava tomado por uma grande mesa em “U”. O Jorge sentava-se ao centro da base, ladeado pelos filhos Francisco e Vicente. Fiquei bastante próximo do Jorge e do Francisco, com Victor Bandeira, viajante, coleccionador e cofundador dos Tjak — projecto de música electrónica de inspiração étnica —, à minha esquerda, e Pedro Sotiry, pianista, compositor e também fundador do grupo, à direita. Com o Pedro, que participara nas gravações de “Voo Nocturno”, passei boa parte da noite numa longa e inspiradora conversa. Em volta, familiares, músicos, companheiros de estrada, gente do teatro, amizades antigas, pessoas que tinham partilhado com o Jorge fases diferentes da vida.

Há honras que a distância engrandece e outras que reconhecemos no próprio instante. Soube-o logo e mantenho: aquela foi a maior honra que tive à mesa. Estivera entre os filhos, a família e os amigos de longa data do Jorge porque ele me quisera ali. Para o miúdo que, tantos anos antes, tinha levado uma cassete dos Baby Jane a um concerto na esperança de lha entregar, aquele jantar foi de tal ordem significativo que não precisei de esperar pelo futuro para o reconhecer. A certa altura, o trovador passou um chapéu de aba, que de imediato circulou pela mesa para ajudar a pagar a nova Duesenberg, entretanto estreada no Rock in Rio. Cada um dava o que queria ou podia, ou não dava nada. O homem que décadas antes tocara nas ruas e no metro de Paris, a cantar «qualquer coisa para a música», continuava a passar o chapéu, mas agora entre os convidados do jantar do seu sexagésimo aniversário. Quando chegou a minha vez, meti sete euros em moedas. Portanto, sete euros daquela guitarra que se via nos palcos eram também meus.

Ainda em 2010, quando preparava “Sétima-Feira”, o meu segundo livro de poesia, pedi ao Jorge que escrevesse a nota introdutória. Aceitou. Entreguei-lhe o original em folhas A4, soltas mas organizadas pela sequência dos poemas, antes de terem forma definitiva em livro. O Jorge levou-as de férias, com a intenção de aproveitar o tempo para ler e escrever a nota. Após o regresso, numa visita a casa do Jorge, encontrei a mala de viagem ainda no chão da sala, junto ao piano. Lá dentro, entre a roupa pessoal, estavam, de facto, as minhas folhas manuseadas, vincadas, desarrumadas, fora de ordem. A nota, porém, continuava por chegar.

A certo ponto, havia um editor à espera da entrega do livro concluído. O Jorge aceitara escrever a nota e eu já não admitia publicar o livro sem ela. Lembrei-lho, esperei, voltei a insistir. A oportunidade editorial não podia ficar indefinidamente em suspenso. Perdi a conta às vezes que voltei ao assunto em encontros ou telefonemas. Sei que não desisti e que, a dada altura, a insistência começou a pesar. O pedido inicial, tantas vezes repetido, já não saía nem soava da mesma forma. Até que, num desses telefonemas, o Jorge perdeu a paciência e resmungou qualquer coisa como «Epá, tu és mesmo chato». Felizmente, era um desabafo irritado, não uma recusa. Em novo telefonema, acabou por me pedir desculpa, ainda antes de entregar o texto. Respondi-lhe que, comigo, tinha crédito infindo, plafond ilimitado.

O Jorge acabou por escrever a nota à mão. Estaria de partida para outra viagem e por isso não ma entregou pessoalmente. Combinámos que a deixaria num envelope na loja de um sapateiro ali no Páteo Bagatela. De pouco ou nada me recordo senão da luz e de um balcão em madeira clara. Só muito mais tarde, ao tentar identificar o estabelecimento, encontrei um nome: Alid Assanali, sapateiro filmado pela RTP em 2010 e identificado, num registo de 2013, precisamente no Páteo Bagatela. Tudo indica que terá sido o senhor Alid a entregar-me o envelope. Ao recebê-lo, surpreendeu-me encontrar a nota inteiramente manuscrita, numa caligrafia nem sempre fácil de decifrar. Hoje, não a quereria de outra maneira.

A 20 de Outubro de 2012, na Fábrica Braço de Prata, “Sétima-Feira” foi finalmente lançado, com a nota introdutória do Jorge, que não pôde estar presente por motivos de agenda profissional. Queria entregar-lhe um exemplar, mas por motivos vários tornaram-se escassas as saídas e os encontros. Durante algum tempo, “Sétima-Feira” andou regularmente na minha mala à tiracolo. Levei mesmo o livro a concertos, mas nunca quis furar até aos bastidores apenas para lho dar. Noutras ocasiões, esqueci-me simplesmente de o levar. Cheguei até a encontrar o Jorge por acaso, mas não tinha o livro comigo. A entrega foi ficando sempre para um próximo encontro. Por esses dias, voltei à Fábrica Braço de Prata, a convite do Jorge, para a apresentação de “Parto”, primeiro álbum de Vicente Palma, editado a 22 de Outubro. Não consigo precisar qual dos dois eventos aconteceu primeiro. Estavam lá o Jorge, familiares e Sérgio Godinho. O Vicente, que, adolescente, me entregara à porta de casa as pautas de “Portugal, Portugal”, apresentava agora, ao piano, canções em nome próprio.

Mas anos antes das pautas já a música chegara pelas mãos de outras pessoas. A explicadora de alemão, no Alto de São João, emprestara-me o CD de “Só”. Creio que foi o meu querido amigo Miguel Aragão, colega da primária nas Doroteias e, em 1995, no propedêutico da Universidade Católica, quem me emprestou uma cassete com “Palma’s Gang — Ao Vivo no Johnny Guitar” completo. Ao longo dos anos, incontáveis vezes pus o Jorge a tocar para amigos, família e gente de quem gostava ou que se cruzava favoravelmente no meu caminho. Às vezes bastava um «ouve isto». Outras, escolhia-se uma canção e deixava-se que a conversa desse lugar à escuta. Em 2011, numa entrevista ao jornal Sol, o Jorge contou que havia quem lhe dissesse ter dado o primeiro beijo ao som de uma música sua. Falava também dos miúdos que o descobriam porque os pais tinham os discos em casa. No meu caso, foram os pais os doutrinados.

Imagino os pequenos e grandes gestos que cabem entre histórias e memórias: uma canção gravada numa cassete para alguém a quem nunca se teve coragem de beijar; um disco que passa da estante dos pais para o quarto dos filhos, ou vice-versa; dois amantes que, muito depois de se separarem, continuam a guardar a mesma música, cada qual com uma lembrança singular; uma voz que vem da cozinha e se entranha na infância de quem a escuta do quarto ao lado; a última viagem de autocaravana de um pai e de um filho, com “Só” a preencher de amor e lágrimas o silêncio da noite e da estrada. São muitas as canções que ficam para sempre ligadas a quem as mostrou, a uma noite, a um amor, a uma idade da vida. Quem as partilhava entregava também um pouco da sua história para que o outro viesse a encontrar uma história inteiramente sua. Há no gesto de partilhar a música do Jorge confiança e generosidade particulares: queremos que o outro encontre o que nos tocou tão fundo, mesmo quando nos magoou. O Jorge pusera tanto de si nas canções que, ao partilhá-las, acabávamos também por dar um pouco dele. E juntávamos-lhe um pouco de nós. Conheci muito boa gente que, nunca tendo trocado uma palavra com o Jorge, falava dele com ternura que não se explica apenas pela admiração artística. A gente queria-lhe bem.

VI — Jogador de grandes jogos

Foi por acaso, num qualquer fim de tarde da minha adolescência, que vi na televisão o concerto do Jorge no São Luiz. Chorei a vê-lo entre tantos amigos e músicos de peso, num vaivém pelo palco, com alegria, orgulho e brio. Se vaidade havia, era artística, sem peneiras, pelo prazer de tocarem juntos em nome do Jorge. Passavam cerca de vinte anos de carreira e o respeito granjeado entre pares tornava-se muito visível naquela ocasião. Ao apresentar os concertos de 4 e 5 de Novembro de 1994, o crítico Fernando Magalhães escrevera no Pop Rock, suplemento do Público: «Músicos excelentes para música excelente, em eterna mutação.» As canções tinham muitas vidas noutras mãos e vozes, e uma alegria poética de viver transbordava do ecrã. Emocionei-me com o que via e ouvia; com o respaldo de uma guarda de honra luxuosa, reconhecendo-lhe valor inestimável e desfrutando do dom comungado. Era bonito, digno, verdadeiro. Faltavam ainda muitos anos para “Voo Nocturno” e para “Encosta-te a Mim” o levarem a tanta outra gente. Naquele fim de tarde, pela televisão, eu via-o rodeado de músicos de primeira linha tão felizes por estar ali como eu por testemunhá-lo. De alegria. Baba e ranho. Chorei também por ele.

“Juntos” reuniu, em 2015, o Jorge e Sérgio Godinho — dois deuses destacados do Olimpo das artes e das letras lusitanas. Sérgio era, no meu ranking pessoal, o único autor português capaz de ombrear com o Jorge em génio, dimensão da obra e influência cultural. Em 2012, na entrevista que lhe fiz para o n.º 18 da Produção Áudio & Música, Sérgio descrevera o Jorge como «um tipo muito inspirado naturalmente» e falara de «uma cumplicidade muito solta e muito vivencial». “Na Terra dos Sonhos”, contara-me antes o Jorge, começara por ser «uma tentativa de imitar o Sérgio». Convidara-o, por isso, a cantar consigo na gravação de “Qualquer Coisa Pá Música”, de 1979. E acrescentara, a rir: «É evidente que quando o tento imitar, eu já sei que não vai sair igual.» O que ambos tinham escrito já pertencia à história da música portuguesa e às vidas de muita gente. Agora, entravam nas canções um do outro diante de um público devoto que levava décadas a ouvi-los.

A imagem mais bela que conheço da história partilhada de ambos remonta ao final dos anos setenta: Sérgio entrara numa carruagem do metro de Paris onde Jorge tocava guitarra e cantava. Ao reconhecê-lo entre os passageiros, o Jorge, provavelmente a tocar Dylan, passou a cantar “A Noite Passada”. Em entrevistas separadas conduzidas por mim, ambos recordariam o arrepio do entendimento mudo do olhar, entre passageiros que ignoravam o significado daquele encontro e da mudança repentina de canção. «Foi incrível», resumira Sérgio. Quando os ouvi ao vivo no Coliseu, em 2016, o encontro pedia muito e o Jorge parecia ter sempre mais para dar. Estava inteiramente senhor do piano e da voz, com técnica, swing, groove e liberdade de fraseado que faziam do piano, da guitarra e do canto conversa solta. Sentia as canções do Jorge perderem na abordagem (co)medida do Sérgio, enquanto as do Sérgio ganhavam no piano e, sobretudo, no canto do Jorge. Com a fasquia tão alta, o Jorge, sem surpresa, pôs o melhor de si em canções de alguém que admirava profundamente.

De um concerto de “Só” ao vivo ficou-me um «shiu». Julgo que foi no CCB, com o meu Irmão Ricardo Pinto, num dos recitais dos vinte e cinco anos do disco, em 2016, gravados para a edição em CD e DVD que sairia no ano seguinte. Lugares sentados, uma plateia muito composta, sem nuvens de fumo sobre as cabeças. Começámos a cantar e uma mulher empertigada mandou-nos calar. Talvez o conforto da sala a tivesse feito esquecer-se de que estava a ver o concerto de um trovador de rua, por vezes rocker da pesada. Olhámo-nos, esgazeados e divertidos, e continuámos em uníssono. Num instante, outras vozes juntaram-se às nossas, foram-se avolumando, até parecer que a sala inteira cantava. Deixámos a senhora a falar sozinha: havia muito quem mandar calar agora.

Estou convencido de que as vagas de carinho de uma cada vez mais expressiva legião de Palmaníacos ajudaram a salvar o Jorge e a mantê-lo afinado. Ao receio que lhe confessara nos anos noventa e retomara na entrevista de 2003, ia-se juntando a alegria de o ver mais sóbrio, mais seguro, mais constante na entrega. Não é segredo: tivera a lucidez de procurar ajuda para a dependência do álcool e fizera tratamento no Hospital Júlio de Matos. Voltou a aproximar-se de pessoas que a bebida afastara, trabalhava com outra clareza, recuperava o gosto de viver as relações estando realmente presente. Ser tão querido parecia enternecê-lo, acender-lhe a vontade de corresponder e tornar-lhe mais preciosa a própria vida. Aos setenta, celebrava com uma orquestra de câmara no Castelo de São Jorge. Em Novembro de 2022, voltei a ouvi-lo com o Gang no Capitólio, já sem o Zé Pedro, mas com uma gravação recuperada da sua guitarra a abrir o concerto. O homem que eu temera perder cedo demais ganhara tempo para a música e para os seus – até para fazer renascer aquelas noites loucas no Johnny Guitar, agora sem gin tónico mas ainda com ganas de partir o bar. O disco de originais que aí vinha chamar-se-ia “Vida”.

Chegou em 2023, incluindo uma valsinha escrita a pensar nos filhos, seus «grandes amigos e compinchas». Em “3 Palmas na Mão”, Jorge, Vicente e Francisco cantavam e tocavam cada um a sua guitarra – e eu a ouvir o “Les Champs-Élysées”, de Joe Dassin. Vicente levava mais de vinte anos a acompanhá-lo, desde os recitais do Villaret registados em “No Tempo dos Assassinos”, em 2002. No jantar dos sessenta anos, eu vira o Jorge sentado entre os dois filhos; agora juntavam três guitarras e três vozes dentro de uma canção, de uma tournée. A fechar o disco, “Canção de Vida” trazia outra história: Carlos do Carmo pedira-lha cerca de vinte anos antes. Ainda a conseguiu gravar. O Jorge cantava-a agora à sua maneira, sozinho ao piano. Havia naquela obra nova filhos com quem tocar e uma voz amiga a quem responder. É o meu maior lamento nesta história: nunca ter tocado com o Jorge… A 7 de Julho desse ano, levou também as novas canções ao NOS Alive, com Vicente na banda, naquele que ficou recordado como um dos melhores concertos desse Alive. O Jorge recordaria o público a ficar até ao fim, mesmo com os Arctic Monkeys já a arrancarem no palco principal. Pouco dado a rever-se em gravações, viu aquela do princípio ao fim. «Não houve ali um momento morto.» Tinha setenta e três anos.

A 23 de Abril de 2026, no Coliseu dos Recreios, recebeu o Prémio Carreira dos PLAY. Sérgio Godinho e Tim juntavam-se a outras vozes reconhecidas e aos seus dois filhos numa homenagem feita das canções dele. A música voltava a ser também a maneira de os outros lhe dizerem o que valia um beijo. Ao agradecer, lembrou os profissionais do SNS e os meios escassos com que trabalhavam, reclamou melhores condições para a cultura e pediu que Abril continuasse vivo: «Temos de reinventar o espírito de Abril, sempre.» Reconheço nessas palavras a liberdade e a justiça de que me falara na cozinha, em 2003. Homenageavam-no; o Jorge lembrava-se dos outros. «Malta, mãos à obra!»

VII — De vez em quando

Terá sido por volta de 2015. Levava o meu pai de carro, já muito debilitado, quando avistei o Jorge perto de casa, à beira da estrada, na Rua Artilharia 1. «Há-de vir alguém ao meu encontro na estrada», n’est-ce pas, Jorge? Parei para o cumprimentar, como fizera tantas vezes, algumas a interromper o trânsito rude e ruidoso em traçados que sobreviveram ao terramoto. O Jorge veio até nós e dirigiu-se à janela do lado do meu pai. Nunca antes estivéramos os três juntos. Cumprimentou-o com respeito e delicadeza. Trocámos um olhar. O Jorge sabia que o meu pai estava doente e que eu o acompanhava havia algum tempo. Vendo-o adentrar-se pela janela, o Orlando arregalou os olhos num espasmo subtil de lucidez e espanto, um «ohhh» a fazer lembrar Gabriel Alves perante uma defesa impossível. Não sei a que ponto o meu pai o reconheceu. Perguntei-lhe, quando retomámos a viagem, se sabia quem era aquele homem. Fiquei com a clara impressão de que o rosto lhe dissera alguma coisa. Podia ser apenas o reflexo da minha pergunta. Seguimos viagem em silêncio.

Durante anos, Lisboa encarregara-se de nos cruzar os caminhos. Na noite em que nos conhecemos, fê-lo duas vezes. Não foi caso único: houve dias em que nos despedimos para voltarmos a encontrar-nos horas depois. Havia os concertos, as esplanadas, os bares, as ruas por onde andávamos e, sobretudo, tempo e vida para andar. Entre 2012 e 2017, os cuidados ao meu pai e o trabalho absorveram-me quase por inteiro. Em 2013, deixei o jornalismo. A vida foi tomando outro rumo e as noites sem hora de acabar ficaram para trás. Os Baby Jane estavam praticamente parados, mas a música não totalmente. Continuei a compor, a tocar e a gravar em casa. Em 2017, antecipando o nascimento da minha filha, Rosário, mudei-me para Santarém. Também o Jorge tinha a sua vida, entre filhos, amigos, concertos, viagens, compromissos e cada vez mais gente à sua espera. Nunca tivéramos uma convivência diária, mas o acaso, que durante tantos anos trabalhara a nosso favor, começava a não ter onde nos encontrar.

Continuava a ligar de vez em quando, a escrever-lhe nos aniversários, ocasiões especiais ou porque me apetecia, com a familiaridade de quem o conhecia havia tantos anos; sempre com o entusiasmo incorrigível de pretenso fã número um, a que o Jorge respondia com humor e afecto. Também me escreveu quando nasceu a Rosário e lhe disse que já tinha mais uma ouvinte. Mais tarde, fê-lo por ocasião do falecimento do meu pai. Depois da longa insistência para que concluísse a nota de “Sétima-Feira”, evitava procurá-lo para lhe pedir fosse o que fosse. Preferia encontros sem obrigações e o que o destino nos guardasse, mas os intervalos foram-se tornando longos. Num exemplar do livro “Na Terra dos Sonhos”, de João Carlos Calixto, deixara-me uma dedicatória que dizia tudo com a maior naturalidade: «Hey Hugo, cá estamos nós em plena actividade after all these years. É bom assim, como é bom estarmos juntos de vez em quando. ’Té já...» Daquela noite longínqua em que nos conhecemos ficaram-me imagens de extraordinária nitidez: o whisky a respingar no chão, a cassete a tremer-me nas mãos, a cadeira que o Jorge puxou para me sentar ao seu lado. Os detalhes nunca se apagaram. Mas não consigo identificar a última vez que estivemos juntos, o lugar, o último telefonema. Nunca houve razão para fazer das despedidas algo de especial.

VIII — Nona-feira

Levava comigo um exemplar de “Sétima-Feira”. Era quarta-feira, 23 de Setembro de 2026. O Jorge partira na noite de segunda-feira. Nesse dia, à hora de almoço, fui sujeito a uma pequena intervenção cirúrgica ao ombro direito. À tarde, a Fabrícia, minha companheira, levou-me de Santarém a Lisboa e acompanhou-me no velório. O livro saíra catorze anos antes, com uma nota introdutória manuscrita pelo Jorge. Chegámos ao quarto andar da Voz do Operário. No Salão Nobre, familiares, amigos, músicos, artistas, políticos, figuras da vida pública e admiradores prestavam-lhe homenagem. Na parede oposta ao palco, em letras capitais, lia-se (e lê-se!): «TRABALHADORES UNI-VOS!» O Jorge conhecia bem a casa. Após o 25 de Abril, apresentou-se ali inúmeras vezes, nos cantos livres, entre personalidades como Sérgio Godinho, Zeca Afonso, Fausto e outros. Em 2015, em entrevista a Ana Sousa Dias para o Diário de Notícias, recordou esses tempos: «Não havia semana em que eu não cantasse n'A Voz do Operário, por exemplo.» Mais de cinquenta anos depois, entre os que ali se reuniam para a despedida, encontrei Sérgio Godinho. Abraçámo-nos. «O chato das entrevistas longuíssimas...», disse-lhe. Sorriu ternamente. Havia uma longa fila para apresentar condolências a Rita Tomé.

Encontrei Pedro da Silva Martins, dos Deolinda, antes de chegar à fila – um compositor e letrista extraordinário, da minha geração, que entrevistara anos antes e com quem estabelecera uma excelente relação. Metemos conversa em dia e, juntando-nos à fila, deparámo-nos imediatamente com o enorme Kalú. Conhecia-o havia muitos anos, de entrevistas, concertos, trabalho, bastidores e algumas longas conversas. Não esperava encontrá-lo assim, de modo tão perfeitamente imperfeito, naquele preciso momento. A Fabrícia juntou-se-nos. Entretanto, a Rita, abatida e indisposta, precisou de se ausentar. A fila parou. Teremos esperado entre trinta minutos a uma hora, tempo suficiente para uma conversa que atravessou décadas. Ora falávamos a quatro, ora dois a dois, desfiando recordações e histórias que cada um trazia consigo. O Jorge, a música, as noites de Lisboa, as amizades, o passado e o futuro.

Falámos de “Só”, disco que também tinha um lugar especial na vida do Pedro e do Kalú, do Palma's Gang e das noites memoráveis do Johnny Guitar. O Kalú vivera-as do lado de dentro, à bateria, com o Jorge, o Zé Pedro, o Flak e o Alex. Eu chegara a elas através de um disco que me arrebatara na adolescência, muito antes de me cruzar com aqueles homens, portugueses de excepção. E ali estávamos, a recordar concertos, amizades, episódios de outros tempos; a conversar sobre a estrada ainda pela frente. O Zé Pedro voltava frequentemente à conversa. Kalú, com o humor afectuoso de quem partilhou com ele uma vida inteira, chegou a imaginar a farra que ambos, Jorge e Zé, estariam a fazer juntos. Resgatei uma alegria muito particular naquele reencontro, com os músicos e as canções a regressarem pela voz de quem estivera no coração de tantas delas. A certa altura, emocionado, fiz questão de dizer ao Kalú o quanto significava para mim encontrá-lo ali, precisamente naquele dia. Foi ao procurar transmitir-lhe a importância daquele acaso, a sorte de poder abraçá-lo em ocasião tão simbólica, que comecei a chorar. O Kalú recebeu as minhas palavras com humildade desarmante, lisonjeado, como se lhe custasse aceitar o lugar extraordinário que tinha naquela memória. Abraçámo-nos longamente, e voltaríamos a fazê-lo ao longo da conversa. Senti que abraçava também o Jorge, o Zé Pedro, o Johnny Guitar, as noites de Lisboa e a banda sonora da minha infância, da adolescência e da vida adulta. Estava a despedir-me de um homem que amava e admirava profundamente e, por feliz alinhamento dos astros, encontrava diante de mim parte viva e preciosa da sua história. Foi uma conversa maravilhosa, emotiva mas alegre, cúmplice. A fila continuava parada. Quando a Rita regressou, começámos a avançar.

Chegada a minha vez, encontro a Rita exaurida. «Estou completamente atarantada com isto tudo.» Noutra fila, quase três décadas antes, uma cassete dos Baby Jane tremia-me nas mãos. Do outro lado da pequena mesa, no Camões, estava o Jorge no seu prime. Agora tinha a Rita diante de mim e “Sétima-Feira” nas mãos. Anos antes, encontrei-a por acaso na Rua Rodrigo da Fonseca, em Lisboa. Creio que levava então um exemplar comigo, mas a Rita sugeriu que o desse directamente ao Jorge. Concordámos. Haveria oportunidade. Entreguei-lho, por fim. Disse-lhe que o livro chegava finalmente a casa. A Rita recebeu-o com apreço e assegurou que o guardaria com carinho. Abraçámo-nos de novo. De olhos mareados, disse-lhe uma vez mais quanto amava o Jorge e que aquele abraço era também para ele.

Nas primeiras páginas, a caligrafia do Jorge ocupava duas folhas, reproduzidas com as rasuras e emendas do original. O texto era breve. Havia mais leitura do que escrita. Começava com uma alusão bem-humorada à minha insistência e, quase de imediato, entrava nos poemas. O Jorge fora buscar-lhes versos, imagens e palavras, que depois cruzava com as suas, fazendo da nota uma espécie de diálogo entre nós. Reconhecia o que era meu, mas na voz dele. «Não és lamechas, és delicado, escreves preto no branco a cores.» E «sobretudo não estás só quando escreves sobre nós». Falava das aventuras quase sempre solitárias de quem cria, da necessidade de escrever, compor, pintar, de encontrar companhia na própria criação. Até chegar a uma afirmação que me comoveu especialmente: «Eu sei, sou como tu.» As palavras não aproximavam a grandeza das nossas obras, mas alguma coisa da nossa condição humana. O Jorge tinha lido, deixara-se tocar por certos versos e devolvia-me uma resposta pessoal, íntima, generosa. Quase a terminar, no mesmo movimento de aproximação, escreveu: «Se, por naturalidade, morrer antes leva-me até à nona feira no teu pensamento, tu sabes — e deixa-me cair livre.» Não havia então despedidas à vista. Daquele pedido, ficaram-me a nona-feira e um «tu sabes» que nunca lhe pedi que explicasse. A última palavra do manuscrito, escrita na linha seguinte: «Sinceramente».

Na noite de quarta-feira, a Fabrícia regressou a Santarém e eu fiquei em casa da minha prima Marta. Pedi-lhe que me acompanhasse ao funeral. Aceitou prontamente. Estivera sempre ao meu lado nas despedidas dos meus pais, em 2020, e conhecia bem o lugar que o Jorge ocupava no meu coração. Queria também prestar-lhe homenagem. Nunca o conhecera pessoalmente, mas gostava da sua música e reconhecia a importância do artista. Na quinta-feira, 24 de Setembro, regressámos de táxi à Voz do Operário, onde se preparava a partida do cortejo fúnebre. Distribuíram cravos vermelhos, que levámos sempre connosco. O carro funerário seguia à frente, com a família mais próxima imediatamente atrás. A Marta e eu caminhávamos entre as centenas de pessoas que acompanhavam o Jorge pelas ruas de Lisboa. Os aplausos vinham também de fora do cortejo. Nos passeios, às portas dos cafés e dos estabelecimentos comerciais, havia quem deixasse por momentos um balcão ou interrompesse o que estava a fazer para aplaudir à nossa passagem; outros, nas suas casas, aplaudiam das janelas e das varandas. De alguns desses lugares ouviam-se canções do Jorge. Ao longo dos cerca de dois quilómetros até ao Alto de São João, aquela voz chegava-nos de diferentes pontos do percurso, misturada com o som das palmas de quem caminhava e de quem ficava. Recordo mais de uma hora de aplausos. Aplaudi demoradamente, apesar do incómodo no ombro operado na véspera.

Aproximávamo-nos do Alto de São João. Mesmo em frente à entrada do cemitério ficava a casa da explicadora de alemão que, na minha mais tenra adolescência, me emprestara “Só”. Antes de chegarmos aos portões, encontrei o Francisco, com quem nunca tinha trocado palavras. Fomos conversando, abraçados, enquanto avançávamos. Contei-lhe que conhecera o pai três décadas antes, desfiei rapidamente algumas memórias e falei do afecto e da admiração que sentia pelo Jorge. «O teu pai é o maior de sempre», disse-lhe, por fim. Abraçámo-nos. Quando nos separámos, o Francisco adiantou-se e, já a passar sob os arcos do portão, gritou para todos os que ali se encontravam: «O Jorge é o maior!» Em volta, as pessoas responderam-lhe com uma algazarra de vozes e aplausos. Já lá dentro, houve quem começasse a cantar o refrão de “A Gente Vai Continuar”.

Findas as cerimónias e as despedidas, a multidão que acompanhara o Jorge uma última vez pelas ruas de Lisboa já se dispersara. Nas imediações do crematório, restariam talvez trinta ou quarenta pessoas. Dirigi-me então ao Vicente e ficámos à conversa. Falei-lhe de uma mensagem que, em Maio de 2025, procurara fazer-lhe chegar através do agente Tiago Branco. O Vicente confirmou que tivera conhecimento e pediu-me desculpa por não ter dado resposta. Disse-lhe que nada havia a desculpar e aproveitei para lhe contar que, na véspera, entregara finalmente à Rita um exemplar de “Sétima-Feira”, o livro para o qual o pai escrevera uma nota introdutória em 2010. Falei-lhe do que aquela nota significara para mim e da emoção com que voltara a lê-la no dia da morte do Jorge. Perguntou-me, com um sorriso terno, se o Jorge a escrevera à mão, com papel e caneta. Sorri também. Sim, fora assim, com rasuras e emendas.

Recitei-lhe então de memória as últimas linhas: «Se, por naturalidade, morrer antes leva-me até à nona feira no teu pensamento, tu sabes – e deixa-me cair livre.» Comovi-me ao dizê-las. O Vicente suspirou que esgotara as lágrimas nos últimos dias. Abraçámo-nos. Havia uma invulgar intimidade naquele encontro, e eu, que guardara durante dezasseis anos palavras que o pai me escrevera, dizia-as agora ao filho, no dia da sua despedida. De novo a propósito da mensagem, o Vicente fez questão de que ficasse com o seu número de telemóvel e pediu-me que lhe ligasse daí a uma semana, para conversarmos com calma. Despedimo-nos com outro abraço. Já passou bastante mais do que uma semana e ainda não liguei. Quero primeiro terminar estas páginas e partilhá-las com ele. Se possível, fazê-las chegar à restante família.

A Marta esperara por mim num banco de jardim. Tínhamos combinado descer até à zona do cemitério onde a nossa avó Rosário fora sepultada. Fomos até lá, mas nenhum de nós se lembrava exactamente onde ficara a campa. Admitimos que talvez já nem ali estivesse. Permanecemos mais alguns minutos. Saímos do cemitério já após a hora de fecho.

Naquela noite, depois do jantar, continuámos a falar do Jorge na sala de casa da Marta. Estávamos com a Carolina, filha da minha prima. A irmã mais nova, Sofia, entretinha-se com qualquer coisa num dos pisos de cima. Conheço-as bem desde que nasceram. Estive muito presente na infância da Carolina, tomei conta dela algumas vezes e tantas outras tive-a adormecida ao colo. Agora falávamos daquele dia, da despedida e do que o Jorge significava para a música portuguesa e para mim. Sublinhei que aquele fora um dia importante, que gostaria que guardasse na memória. A Carolina mostrou interesse e a conversa levou-nos às canções, aos discos, à obra. Dizia-lhe que, para conhecer o Jorge, tinha de começar por ouvir “Só” de ponta a ponta, quando a Marta pôs o disco a tocar na televisão da sala. “Estrela do Mar” interpôs-se à conversa.

Procurava não falar demasiado por cima das canções enquanto observava a Carolina, sentada à mesa a pintar, atenta. A música pôs-nos em sentido. Tanta coisa para dizer sobre o Jorge e, agora que o ouvíamos, comecei a ficar sem palavras. A voz embargou-se-me. A Carolina apercebeu-se da minha comoção, levantou-se, veio ter comigo e abraçámo-nos longamente. Foi naquele abraço que também ela se comoveu, e chorámos os dois enquanto o Jorge cantava. A Marta estava connosco, sentada no sofá. Mais tarde, o João, seu marido, juntou-se a nós. Ouvimos juntos o disco até à última canção, “O Fim”. Até aos últimos versos: «e foi nesta viagem que percebi que não estou só».

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