Dentro do morteiro,
por dentro do obus,
um papel por pólvora,
e a mãe deu à luz.
Jueju lusitano menor
(adaptação portuguesa, em redondilha menor, do jueju tradicional chinês)
por Jeremias Cabrita da Silva
in "Teoria Geral da Queda"
(Edições Gravidade, 2028)
José Saramago guardou a história de um obus que, durante a Guerra Civil de Espanha, não rebentou. Dentro, em vez de carga explosiva, havia um papel escrito em português: «Esta bomba não rebentará.» Supôs que talvez tivesse sido preparado por um operário da Fábrica de Braço de Prata, em Lisboa, que fornecia armamento ao exército de Franco. Saramago viria depois a perguntar por que razão nunca houve uma greve numa fábrica de armas. Antes da greve imaginada, teria já existido este valoroso acto anónimo de sabotagem. A história e a pergunta acabariam por desembocar em “Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas”, último romance de José Saramago, deixado inacabado e publicado postumamente em 2014.
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