domingo, maio 05, 2013

Nova canção 'Mãe' em estreia aqui e agora no dia da... mãe

ComScore

'Mãe' é uma canção que deu o primeiro ar de graça no final do Verão de 2011, estava eu na minha anterior casa a trabalhar numa publicação que dirijo com o designer meu Amigo Luís Dias - ele estava a fazer paginação e eu a tocar guitarra enquanto o observava, mais precisamente. Foi assim que surgiram os primeiros acordes, que retive porque capturei o momento em vídeo, com o telemóvel, para eventualmente retomar o projecto de canção mais tarde. Muito tempo depois, quando acabei de gravar 'Liberdade É Escrever Canções', recorri às gravações que tenho de esboços de canções, feitas com recurso a telemóveis, computador, gravador e leitor de MP3 ou, claro, ao Boss Micro BR, e encontrei o tal registo em vídeo de quando estava sentado junto ao Luís a arranhar aquela primeira sequência de acordes em SI. De entre muitas gravações de ideias e esboços, engracei com aquilo naquele momento e peguei-lhe para fazer o que acabou por ser esta canção.  
Mais de um ano após o surgimento da primeira ideia, já quando formada uma estrutura básica, e enquanto eu procurava uma melodia para a voz, afigurou-se uma única palavra para o refrão: Mãe. A letra, por seu turno, teve a sua primeira versão escrita no Verão de 2012, passado quase todo à beira da piscina de um Irmão, mas só foi fechada em Fevereiro de 2013.
Essencial neste caso é referir que, desta vez, tive a colaboração indispensável e muito prezada do meu dear and old chap Sebastiano Ziani de Ferranti (Bill, ex-Three and a Quarter actualmente nos Youthless), que já se tinha predisposto por diversas vezes para ajudar no que fosse preciso, muito especialmente no que à gravação diz respeito. Acontece que 'Mãe' não poderia mesmo ser gravada inteiramente no meu gravador de quatro pistas Micro BR, uma vez que os padrões de bateria que o Micro BR apresenta não seriam adequados às especificidades desta canção em particular. Nem um ritmo do Micro BR se aproveitava... Por isso, falei com o Bill para que ele gravasse a bateria na velha cave/sala de ensaio dos Ferranti. O Bill gravou a bateria e acertou-se ali que esta canção seria gravada, misturada e masterizada por ele.
No entanto, por saudável divergência de métodos, e após algumas sessões infrutíferas de gravação de cordas na casa do Bill de então, na Graça, nas quais gravámos ainda o órgão com um controlador midi, acabámos por concluir que seria mais proveitoso e menos cansativo para ambos se eu gravasse o baixo e as guitarras em casa, com o Micro BR de sempre. O Bill ainda gravou ali o baixo que serviu de guia, mas, em minha casa, com o meu baixo Rockson de 80 euros, acabei por gravar a linha de baixo definitiva. Posto isto, avancei também com as guitarras em casa, mas senti, mais uma vez, que o processamento do Micro BR é por vezes curto ou insuficiente - não tanto em diversidade, mas quanto à qualidade de som de alguns presets. As guitarras usadas foram a electro-acústica Ibañez EWC-30 de cordas de aço e a eléctrica Duesenberg Starplayer TV. As pistas foram depois misturadas na actual casa do Bill, em Ranholas, com recurso ao software ProTools. O resultado disto e da masterização decorrente foi obtido após o trabalho possível nos tempos livres raros de que o Bill dispôs, especialmente encurtados com a recente paternidade da pequena Jasmin Ferranti. De referir que, em prazo indefinido, 'Mãe' terá mais duas versões de remistura e remasterização - uma segundo a interpretação do Bill e outra mais de acordo com o meu parecer.
Por capricho do calendário, a canção ficou pronta no passado dia 1 de Maio, a quatro dias deste dia 5, que não por acaso é o dia da mãe. Por isso a guardei para apresentação hoje, dia em que tenciono oferecê-la à minha mãe num CD. Apesar destes factos, esta não é uma canção de dia da mãe e muito menos um tema de alegre exaltação à progenitora ou a uma qualquer efeméride que daí decorra. Em boa verdade, esta é uma canção que, perante medos, desesperanças, sofrimentos e solidões, clama pela mãe - a mãe de todas as mães, chamem-lhe, porventura, Eterno Feminino. 
"Eterno Feminino" terão sido as últimas pa­lavras de Goethe, no segundo Fausto, para designar a atracção que guia o desejo transcendente do homem. Curioso que eu tenha utilizado, na letra, ideias e palavras de Fausto (o Bordalo Dias), mas também de Jorge Palma e, muito especialmente, de José Mário Branco, mas já lá vamos. Na ideia referida de Goethe, o feminino representa o desejo sublimado, e isso é proclamado por um coro místico: "O Eterno Feminino nos atrai para o Alto." Em muitas cogitações filosóficas, antropológicas ou místicas a mulher está mais li­gada do que o homem à alma do mundo, às primeiras forças elementares, e é através dela que o homem comunga dessas forças, mas não será a mulher emancipada nem aquela que se tornar semelhante ao homem a que terá um importante papel a desempenhar no período futuro da história, mas sim o chamado "Eter­no Feminino", que encontra no Amor a grande força cósmica. A Virgem-Mãe, Nossa Senhora, é a encarnação mais evidente do tema. O Feminino autên­tico e puro é, por excelência, uma energia luminosa e casta, portadora de coragem, de ideal e de bondade a que recorremos em oração e, por vezes, em desespero de causa, clamando pela mãe. Por vezes também se escrevem canções nesse mesmo estado de espírito... Para Jung, o feminino personifica as tendências psicológicas femininas na psique do homem, como, por exemplo, senti­mentos e humores instáveis, intuições proféticas, a sensibilidade ao irracional, a capacidade de amar, a faculdade de sentir a natureza e, finalmente, as relações com o inconsciente. 
Se foi nisto que o Jorge Palma pensou quando escreveu, por exemplo, o refrão da 'Canção de Lisboa', ou o Fausto, quando redigiu  o poema da canção 'Ó Mar', que obviamente inspira a segunda e a terceira estrofes, não faço ideia, mas é certo que o José Mário Branco tocou a ferida universal quando fez descambar um pranto doloroso à mãe já na parte final da épica canção 'FMI', à qual roubei palavras que adaptei para a última estrofe e último refrão da minha canção 'Mãe'.
 
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* Mãe - letra *
 
Meto à boca o pão,
seco, duro como pedra, amor
que não me deste a...
 
beber do teu suor
o sal da vida salga
a ferida eterna e universal
 
Sou mais do que animal,
mais que a fera parida
- Mãe -
 
O que o tempo esqueceu
leva que hei-de voltar ao mar
profundo de um sono meu
 
Eu sou como quem vem
desamparado pra regressar
ao fundo ventre da mãe
 
Sou mais do que animal,
mais que a fera parida
- Mãe -
 
Sou algo que é só meu,
faço comigo o que quiser
 
Desde que haja amor?
- Amor não dá de comer!
 
Não posso desnascer,
ir embora sem ter de ir embora,
sou deste tempo
 
entre fugir de me encontrar
e me encontrar fugindo
- Mãe -

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