quarta-feira, setembro 23, 2026

Jorge Palma (4 de Junho de 1950 - 21 de Setembro de 2026)

Sabia que o dia havia de chegar. Não sabia como me sentiria à notícia da partida do Jorge, que me socou em seco no nariz, ontem à noite. Dormi e foi hoje, ao longo do dia, que se instalou o sentimento do que significava já não o ter entre nós. Murro no esterno, depois no estômago e novamente no nariz, a cada bom dia pesaroso com referência à nossa perda colectiva, a cada mensagem de amigos que me diziam ter-se lembrado de mim quando souberam, a cada post na avalanche de feeds hoje tomados por um trovador como nunca se viu. Cheguei ao gabinete e, na rádio, “Senta-te Aí”. As lágrimas caíam sem pedir licença, inoportunamente. Percebi que a ausência definitiva dele mudava alguma coisa em mim. Passei o dia a processar a irrevogabilidade ante a vulgaridade de um dia de trabalho. E foi nesse turbilhão que voltei a ler duas folhas que o Jorge escreveu à mão há dezasseis anos.
Em 2010, pedi-lhe que escrevesse breves palavras para o meu segundo livro de poesia, “Sétima-Feira”. Insisti. Tanto que a primeira coisa que ele escreveu foi precisamente: «Hugo: insististe…». Acabou por me deixar duas páginas manuscritas que guardo desde então. Hoje reli-as. Eram as mesmas folhas, a mesma letra, as mesmas palavras, mas já não eram o mesmo texto. Pela primeira vez, li-as num mundo em que o Jorge já não estava. E havia ali uma frase, sobretudo uma, que durante dezasseis anos pertencera ao futuro e que hoje, subitamente, se impunha no imediato. No fim da nota, o Jorge escreveu: «Se, por naturalidade, morrer antes leva-me até à nona feira no teu pensamento, tu sabes – e deixa-me cair livre.»
Nunca lhe quis perguntar o que queria dizer com «nona-feira». Nunca soube ao certo se era apenas uma invenção do momento, um trocadilho, ou se havia ali, codificada, qualquer outra coisa. O livro chamava-se “Sétima-Feira” e o Jorge pediu-me que o levasse, no pensamento, não à “oitava-feira”, mas à nona. Hoje é difícil não ouvir música no subtexto. A oitava leva-nos à repetição da mesma nota, noutra frequência; a nona está para lá do regresso, segue caminho. Não sei se foi isso que o Jorge quis dizer, mas foi assim que hoje o li. E a «nona-feira», esse dia que não existe, passou a ser para mim o nome do que prossegue e persiste enquanto houver estrada para andar, sempre inspirado e acalentado pelo Jorge.
E há o aparente paradoxo no fim: «leva-me [...] no teu pensamento» e «deixa-me cair livre». As palavras pedem-me duas coisas em simultâneo: levá-lo comigo adiante e deixá-lo partir em paz. O Jorge seguiu viagem, mas o que pôs em movimento em mim não morreu com ele. É o que me cabe agora: responder-lhe com um texto de memória sem frenesim imediatista que devolva e testemunhe, com tempo e verdade, o Jorge que conheci e o lugar central que ocupou e continuará a ocupar na minha vida. E com um poema cujo título se tornou hoje imperativo: “Nona-Feira”.
Jorge Palma (4 de Junho de 1950 - 21 de Setembro de 2026) no jantar do seu sexagésimo aniversário. O maior dos maiores.

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