Nona-Feira
Aplaudimos-te até ao fim da estrada.
No ar, um aroma doce, floral.
Se te trago, levo também os que cantaste:
o velho no jardim, a que fazia amor com qualquer um,
o que fugiu, o que ficou à espera de um sinal.
Fui dar comigo numa vida que cantavas,
a preferir o amor ao longe, intacto,
sem lhe ocupar lugar na cama.
Na rua, um rastilho pedia lume a outro,
mãos em redor do isqueiro, corpos unidos pelo vento,
e uma moça atravessava a ponte a rir,
o vestido a fugir-lhe para o rio.
Lisboa tem os pés molhados de quem a lava ao amanhecer,
de quem vende as horas e volta sem dia.
A nona-feira chegará sem cumprir horário,
atrasada para o equinócio da Liberdade.
«Tu sabes», escreveste. Eu sei lá —
o que não sei viver, tiro de ouvido.
O que sei já mal me dá para uma vida inteira.
Ainda te chamava mestre quando me tiraste da plateia
e me devolveste versos onde encontraste gente
– o piano a atravessar a noite,
a levar ao colo a palavra dita de pé.
Se me deres o tom, perco a compostura
e deixo o corpo ir à frente,
sem decidir se é pecado.
A última vez esteve tão perto da próxima que não dei por
ela.
Dá-me um minuto que não seja de silêncio,
vindo da rua, do ruído, de não ter sabido.
A alegria também sabe onde me dói.
Que ninguém te componha o colarinho,
a cair livre no modo como se é lembrado,
para fora da quadratura do retrato.
Dás a última sílaba a personagens sem canção,
com a vida a fugir pelas margens da biografia
e a dignidade de não ser exemplo para ninguém.
Trouxe de ti a má educação da esperança,
a eternidade interrompida por um copo caído,
de cabeça pousada num ombro amigo.
A tua voz ainda não sabe que morreste:
acabaste de me pedir lume
com a pronúncia da ternura
a encontrar a interjeição.
A cidade não sabe digerir a canção que lhe caiu no estômago;
devolve-a pelas frinchas das persianas.
Na madrugada, quem varre a rua assobia
um cansaço sem vocação para a derrota.
No bairro do amor há loiça suja, a conta da luz,
um disco que tem de ouvir-se do princípio ao fim
e o amor mal aprendido a fazer estragos
– a vontade toda em ponto morto,
passividade de fazer mal à saúde,
e eu, tão cheio de vida, a ver o que fazia com ela.
Na pauta, o teu pulso em contramão;
a nota a demorar-se; o corpo a perder a conta;
uma mão miúda a interromper a contabilidade do mundo.
Tão independente até me faltar um fósforo,
também eu pedi ternura sem delicadeza,
com ferocidade aflita por mansidão
e um jeito de gostar sem quarto próprio,
sem saber onde pousar as mãos.
A chuva apanhou-nos a rir do temporal
e uma canção deu-nos abrigo.
Também eu fui estrangeiro dentro de casa;
também eu dormi voltado para a parede;
também eu disfarcei o ridículo
com a coragem toda por usar;
também eu já pedi abrigo
e subi com o perfume dela,
descia o prédio à minha volta.
A outra tirou os brincos, sorriu
e pousou a tarde na cómoda.
Também eu pedi contas ao silêncio,
para não se acabarem as canções.
Dou voltas a um verso em que caibas
sem ficares do tamanho da minha falta.
Que dimensão existe além deste horizonte?
Um coro nasceu onde se mandava fazer silêncio,
sem dar à melancolia o governo do voo.
No ventre da baleia, começámos pelo eco.
Há sempre forma de chegar fora de horas,
ainda assim em tempo certo.
É nona-feira, faz-se tarde.
Tirei-te de ouvido na paisagem de um andaime
e abri um livro de páginas em branco.
Dedicado a Jorge Palma
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