segunda-feira, março 09, 2026

Serão

 I

O mal sentou-se connosco à mesa

e a mesa não rangeu com o peso.

Coube inteiro no espaço da casa

e perdeu o nervo próprio do espanto.

 

“Normal” deu-se por lei ao que era dano,

luva de algodão que esbofeteia,

verniz na tábua podre a fazer sala,

até que o horror se torne mobília.



II

Olhos abertos, cobertos de moscas;

a pupila, um poço a afogar a luz;

o ventre inflado e osso à flor da pele.

Por trás da fome, o abutre espera.

 

Comíamos com moscas no ecrã.

O puto mexia a comida fria.

– Come tudo, há quem morra de fome.

(Anos oitenta. Comemos. Calámos.)



III

As torres ruíram sob gravidade

implodida, precisa e controlada.

Derreteu o aço; ficou a versão.

A queda fundou a narrativa.

 

Um rumor ateou fogo ao deserto.

A prova: um despacho de gravata,

assinado sobre areia fina

nas engrenagens vãs do latrocínio.



IV

O medo fez-se lei sem testemunha;

a presunção morreu sem julgamento;

a triagem separou corpo e nome

e a suspeita vestiu o protocolo.

 

A guerra voltou-se para dentro,

até duvidarmos de nós mesmos,

até que o espelho nos acuse

e agradeçamos a vigilância.



V

A emergência, paisagem do serão,

luz azul deixada acesa na sala,

administrada em doses moderadas.

O saque tornou-se procedimento.

 

A estatística calculou-nos mortos:

os números sem nome como nunca,

a pedagogia do isolamento,

o tão grave delito de um abraço.



VI

Páginas rasuradas – sepulturas,

nomes enterrados em tinta negra.

Verdade exposta; entronizado crime.

Veredicto: total impunidade.

 

Menu infantil à mesa de abutres

– pizzas, cachorros e pactos de sangue;

máscaras frias de olhos bem abertos

para a ignomínia, salvo-conduto.

 

Sabíamos os nomes e jantámos.

A verdade exposta não nos bastou.

Quem irá policiar o polícia?

Levantámos; não virámos a mesa.


Poema branco em seis cantos
por Jeremias Cabrita da Silva
in "Teoria Geral da Queda"
(Edições Gravidade, 2028)

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