Serão
I
O mal sentou-se connosco à mesa
e a mesa não rangeu com o peso.
Coube inteiro no espaço da casa
e perdeu o nervo próprio do espanto.
“Normal” deu-se por lei ao que era dano,
luva de algodão que esbofeteia,
verniz na tábua podre a fazer sala,
até que o horror se torne mobília.
II
Olhos abertos, cobertos de moscas;
a pupila, um poço a afogar a luz;
o ventre inflado e osso à flor da pele.
Por trás da fome, o abutre espera.
Comíamos com moscas no ecrã.
O puto mexia a comida fria.
– Come tudo, há quem morra de fome.
(Anos oitenta. Comemos. Calámos.)
III
As torres ruíram sob gravidade
implodida, precisa e controlada.
Derreteu o aço; ficou a versão.
A queda fundou a narrativa.
Um rumor ateou fogo ao deserto.
A prova: um despacho de gravata,
assinado sobre areia fina
nas engrenagens vãs do latrocínio.
IV
O medo fez-se lei sem testemunha;
a presunção morreu sem julgamento;
a triagem separou corpo e nome
e a suspeita vestiu o protocolo.
A guerra voltou-se para dentro,
até duvidarmos de nós mesmos,
até que o espelho nos acuse
e agradeçamos a vigilância.
V
A emergência, paisagem do serão,
luz azul deixada acesa na sala,
administrada em doses moderadas.
O saque tornou-se procedimento.
A estatística calculou-nos mortos:
os números sem nome como nunca,
a pedagogia do isolamento,
o tão grave delito de um abraço.
VI
Páginas rasuradas – sepulturas,
nomes enterrados em tinta negra.
Verdade exposta; entronizado crime.
Veredicto: total impunidade.
Menu infantil à mesa de abutres
– pizzas, cachorros e pactos de sangue;
máscaras frias de olhos bem abertos
para a ignomínia, salvo-conduto.
Sabíamos os nomes e jantámos.
A verdade exposta não nos bastou.
Quem irá policiar o polícia?
Levantámos; não virámos a mesa.
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