quarta-feira, março 25, 2026

Anno XX — O Jantar


Vinte anos depois, a 24 de Maio de 2025, voltámos à mesa.

O que começou em 2005 com a fundação do Caderno de Corda e, depois, em 2006, com um gesto simples à mesa — um jantar improvisado entre leitores e amigos —, tornou-se, com o passar do tempo, numa espécie de eixo fixo no calendário da vida, uma convocatória informal que dispensa convites e que, ainda assim, continua a reunir consorores e confrades em torno da linguagem única da Verdade dos afectos.

Ao longo destas duas décadas passaram por esta mesa mais de sete dezenas de corações — amigos de infância, colegas de escola e trabalho, leitores, companheiros de estrada, famílias que entretanto cresceram e novas gerações. Alguns vieram uma vez, outros regressaram muitas vezes, outros, ainda, acabaram por se tornar parte inseparável da liturgia cordiana. Mas todos fizeram, indelevelmente, a história d’O Jantar.

Curiosamente, se, nos primeiros anos, O Jantar parecia nascer do blogue, talvez possamos, de há algum tempo a esta parte, dizer o contrário: foi o jantar que acabou por sustentar o blogue, que hoje segue mais forte do que nunca em produção poética. Ainda assim, o encontro anual tornou-se a sua respiração mais visível, a prova de que a escrita encontrou corpo, mesa e rosto.

Em 2025 não foi diferente, mas também não foi igual. Nunca é. Como tantas vezes acontece, O Jantar começou antes de começar. Na antecâmara do encontro houve abraços demorados mas pressurosos, visitas de passagem, presenças breves mas significativas — daqueles gestos que confirmam, sem necessidade de explicação, o lugar que a oportunidade daquele abraço ocupa na vida de quem por aqui passa.

Caso paradigmático, o do Venerável Cavaleiro Prismático e Guardião do Tombo Cordiano, Ricardo Pinto. Vinha em dia de concerto, com soundcheck marcado e agenda apertada, mas apesar do bulício fez questão de passar. Veio dar aquele abraço, marcar presença e seguir caminho inevitável, como quem cumpre um pequeno ritual antes de partir para uma noite de rock ‘n’ roll. A ele voltaremos.

Também o estimado Irmão Joaquim Barbosa, nosso querido Quim, passou pela antecâmara d’O Jantar, como, aliás, tem feito nos últimos anos. Chegou cedo, cruzou-se com alguns dos primeiros confrades, mas acabou por não apanhar o Irmão Frederico Costa, que chegaria já mais tarde. Vieram ainda, pela primeira vez, as queridas Anabela (Belinha) e Gabriela Semedo, apenas para um beijinho e abraço rápido antes de seguirem caminho — um gesto simples, mas pleno de significado.

E, como reza a tradição, apareceu o assíduo e muito prezado clã Franchi-Costa — Leonor, Matilde, Rita e Rui Pedro. Nunca jantam, mas aparecem quase sempre no início ou no fim, como quem passa para confirmar que O Jantar continua no lugar certo do mundo. No final, fomos ainda brindados pela aparição do Grão-Mestre do Tabernáculo Rui Pina. Há presenças que fazem parte indispensável mesmo quando não se sentam à mesa.

Mas houve também um pequeno episódio que acabou por revelar, mais uma vez, a estranha geometria das coincidências cordianas. O Grão-Mestre do Ofício Luminar Hugo Dantas estava confirmado para O Jantar, mas, como tantas vezes acontece na azáfama da vida, esqueceu-se. Foi a sua querida progenitora, Ludovina Dantas, quem lhe telefonou quase à hora marcada para perguntar, com a naturalidade de quem sabe mais do que parece saber:

— Então, não vais ao jantar?

E foi nesse instante que o Dantas se lembrou. A coincidência revelou-se providencial. Já perto da hora do encontro percebi que não tinha comigo equipamento adequado para transmitir os vídeos que planeava mostrar na televisão da sala. Foi então que ele, tempestivo, me ligou para dizer estar a caminho e aproveitei para perguntar se, já que ainda estava em casa, poderia trazer um computador e um cabo HDMI compatível. E assim foi. Graças a esse pequeno atraso, e ao telefonema de coração materno que em boa hora alinhou astros, o plano previsto acabou por cumprir-se. Mais uma dessas pequenas conspirações benignas que parecem acompanhar O Jantar desde o início.

Mas houve também duas primeiras vezes, extraordinariamente especiais, aliás. A Fabrícia, minha companheira, esteve presente e, também pela primeira vez, celebrei n’O Jantar com a minha Vida – leia-se “celebrei com a minha filha”, aka Rosarinho. Duas presenças que dispensam qualificativos numa mesa que já atravessou duas décadas de vida — sinal claro de que aquilo que começou como encontro entre amigos encontrou, entretanto, formas cósmicas de continuação terrena.

Também pela primeira vez não houve fotografia de grupo. Não por decisão, esquecimento ou opção consciente, mas por ausência, pelo silêncio instalado quando falta quem sempre assume as despesas do registo fotográfico: o já mencionado Grão-Mestre, Venerável Cavaleiro Prismático e Guardião do Tombo Cordiano, Ricardo Pinto. A função é tão escrupulosamente cumprida ano após ano que, desta vez, ninguém sequer se lembrou da foto. E talvez, aos 20 anos, o facto seja mais gráfico do que qualquer imagem poderia mostrar.

Quando finalmente nos sentámos, demos por nós a contar: éramos vinte à mesa. Vinte anos de jantar. Vinte pessoas sentadas. Não foi planeado, mas pareceu certo. De novo, há coincidências que talvez não o sejam. Ao longo destas duas décadas celebrámos O Jantar de muitas formas: com dérbis acalorados, conversas intermináveis, leituras improvisadas, poemas sorteados à mesa, vídeos caseiros, pequenas experiências criativas que iam surgindo ao sabor do espírito da noite, mas nunca houvera discurso.

Em vinte anos de jantares cordianos passaram por esta mesa mais de setenta pessoas, oriundas de vários círculos de amizade — da Loja Salesiana à Loja Cruz Quebrada, das Doroteias à vida profissional, da blogosfera à família. Alguns vieram uma vez. Outros vieram muitas. Mas todos fazem parte desta história. Talvez o silêncio tenha gritado o que O Jantar sempre foi sem que alguma vez fosse necessário explicar o que aqui se passa.

Portanto, este ano houve discurso. Não como acto solene ou cerimonial, mas como ensaio retrospectivo necessário para perceber o que realmente aqui aconteceu por duas longas décadas que talvez merecessem, finalmente, uma tentativa de palavra viva dirigida a quem as fez e partilhou. E foi assim que, já todos jantados, tomei a palavra para ler o texto que se segue: um ensaio em voz alta daquilo que neste tempo fomos vivendo quase sempre sem explicação ou disso tentativa.


DISCURSO DOS 20 ANOS D'O JANTAR

(TRANSCRIÇÃO)


Vinte anos.

Talvez não tenha havido grandes promessas no início, nem planos de longo curso, nem anúncios. Mas houve gente, houve mesa, houve tempo marcado com presença, e isso bastou. Hoje, o que impressiona não é tanto termos começado — é termos continuado. Impressiona que, mesmo sem cartaz, sem programa, sem obrigação, tenhamos mantido isto aceso. Não porque era preciso, mas porque fazia sentido. Um jantar por ano. Um ponto fixo no calendário. Quando tudo o resto mudava — casas, trabalhos, cidades, rotinas, digníssimos esposos e esposas, e até mudanças de sexo, como no caso do João Trigo — este jantar mantinha-se. Como quem diz: há lugares onde o tempo não se dilui ou… há um tempo para nos fazermos lugar.

Vinte anos depois, o que se celebra já não é um blogue e nunca foi um autor, muito menos o gesto de convidar. É o gesto de saírem de casa, preterirem outras avarias e virem. Há anos em que a vida se estica, atrasa, atropela. Mas depois há este dia. E vocês chegam. Cada um com a sua vida inteira às costas. Com filhos, com ausências, com cansaços, com histórias que ficaram por contar. E, ainda assim, vêm. Sentam-se. Sorriem. Repetem abraços, nutrem memórias, cruzam ideias. Reencontram-se no outro, recordam-se verdadeiros num olhar puro de criança que ainda lá está espelhado, desde a infância nas Doroteias, nos Salesianos, no Agrupamento 77… Reconhecem-se provavelmente a vós próprios nessa essência verdadeira, saudosa e imutável que a adultez frequentemente se encarrega de poluir, pondo-nos a duvidar de nós próprios.

Isso — isso sim — é o milagre silencioso desta noite. E é por isso que não começo por mim. Começo por vocês. Obrigado por virem. Obrigado por fazerem isto continuar.


[COMO NASCEU O BLOGUE]

O Caderno de Corda nasceu para que eu tivesse onde deitar a palavra. Não nasceu por acaso — nasceu por necessidade. Era o lugar onde vertia o estro: a poesia, a música, os textos, os delírios, os silêncios. Onde me ouvia em público, onde escrevia em voz alta. Era um gesto de exposição, sim, mas sobretudo de continuidade, memória, encontro. Uma forma de não perder a mão, de experimentar, de dar destino à escrita que precisava de sair. E era também, nesse tempo, um gesto com resposta.

Antes das redes sociais — antes dos algoritmos, dos feeds, dos likes apressados — nós líamo-nos. Procurávamo-nos nos blogues. Visitávamo-nos. Os comentários eram extensões dos textos. As caixas de comentários eram tertúlias. As leituras eram atentas, demoradas, pessoais. Muitos de nós tinham blogues. O Gustavo tinha o Blogueaberto, o César tinha o E Então?, o Pimenta o Boina Frígia, o Bruno Tomás o Página 23, o Rui Almeida ainda mantém o Poesia Distribuída na Rua, o João Trigo escrevia no Rato do Deserto… E todos nos líamos. Havia um sentido de comunidade, mas sem rede. Uma corrente sem algoritmo.

Não se clicava simplisticamente num thumbs up ou num coração. Comentava-se com neurónios e alma. E foi numa dessas caixas de comentários, em Março de 2006, num post chamado “Exortação aos estimados leitores”, que surgiu a ideia. O Gustavo — patrono do jantar, por direito e por provocação — escreveu: “Eu sugiro tudo o atrás sugerido... feito à mesa! Faz um jantar, abre as portas à mesa! Aquele Abraço.” E era o que bastava. Uma frase com vontade e intenção, lançada no sítio certo. E de repente o blogue ganhava corpo. Saía do ecrã. Fazia-se gesto. Fazia-se mesa. A escrita puxou-nos efetivamente e pôs-nos frente a frente.


[COMO NASCEU O JANTAR]

E assim nasceu o jantar, numa caixa de comentários. Uma provocação do Gustavo, no meio de outras sugestões e apartes, e ficou dito: “Faz um jantar. Abre as portas à mesa.” E eu pensei: “Agora é que me entalaste.” Não se mandaram convites impressos. Não se alugou sala. Não se ponderaram menus. Disse-se apenas, com uma ponta de libertinagem: é na Valenciana, aparece quem quiser. E o mais extraordinário é que... apareceu gente. Alguns que liam o blogue, outros porque eram amigos. Alguns sabiam à partida que valia a pena.

E foi-se criando ali qualquer coisa que não tinha substantivação, mas que se sentia. Um gesto simples, ainda sem flor, mas com raiz. E lembro-me da surpresa de perceber que aquele jantar, nascido de um gesto tão leve, podia ser alguma coisa. Que havia ali margem para mais do que uma noite. Não era uma ideia genial. Não era sequer uma ideia. Era só uma mesa com gente e foi isso que a tornou capaz de se repetir.


[COMO O JANTAR EVOLUIU]

Com o passar dos anos, O Jantar foi deixando de ser dos leitores do blogue e passou a ser, simplesmente, de quem vinha. Vieram amigos de infância, de escola primária, secundária, de banda, de trabalho, da faculdade… enfim, vieram os de sempre, mas também os de longe. Veio o Corado, figura mítica de Armação de Pêra, reencontrado quase duas décadas depois por ser Irmão próximo do Jacinto. E ficaram. Mais do que ficaram: o Corado é hoje um Irmão de empreitadas criativas importantes, como verão adiante. Impossível desfiar as circunstâncias e as coincidências que indicam muito mais do que por si só já sugerem.

Há um ano juntou-se, pela primeira vez em bloco, a geração Y da Loja Cruz Quebrada — João Carlos, André Paiva, Bruno Tomás, Bruno Sardo, Ken e Miko —, faltando apenas o André Nobre para completar a irmandade (ou “a máfia”). O feito foi notado, celebrado e, como tudo o que é raro e verdadeiro, tornou-se memória viva do que aqui se constrói. Não se tratou apenas de um reencontro, mas de um realinhamento cósmico. Uma entrada suave e exacta na órbita da Confraria Cordiana. Vieram até os que nem sabiam bem o que se celebrava, e ficaram também. Começou a criar-se espontaneamente uma espécie de ritual – um ritual do bem, uma conspiração que nunca precisa de ser dita, debatida, politizada.

Este ano, o Ricardo Pinto anulou um concerto só para poder vir e acabou por não conseguir jantar porque A Valenciana estava, afinal, fechada a 25 de Abril [N. do R.: data inicialmente prevista]. A agenda estava já preenchida e hoje tem concerto marcado, razão pela qual não se encontra presente – nem a Sofia, a Carolina e a Beatriz. Houve o Piri, que veio do Canadá de véspera e do Porto no próprio dia, e que hoje tornou a fazer centenas de quilómetros, se bem sei. Houve o Quim, que certa vez chegou directamente de uma regata no Tejo e, noutra, regressou da Polónia, creio que de véspera também. Houve o Zé Moreno, cuja presença fez parecer que as décadas se tinham dobrado ou colapsado sobre si mesmas.

Houve o Rui Martins, também conhecido como Fininho, que apareceu uma única vez, deixou um presente — um disco dos Pearl Jam guardado desde 2020 — e seguiu para um concerto. Houve o Ken, que se estreou com uma garrafa de vinho como oferenda. A querida Rute, que pintou e me ofereceu duas telas lindíssimas, em tons que sabia favorecerem a decoração da minha casa, e que levei para Almeirim após um jantar — telas que hoje vivem na sala e no quarto.

Houve também o Moisés, que dormiu então na minha casa de Lisboa e ficou até à tarde do dia seguinte, com os dedos em sangue das cordas da guitarra e um bilhete deixado no frigorífico, escrito com o mesmo sangue que deixara nas cordas...

E há sempre os que voltam, apesar dos interregnos, e os que hão-de voltar, estou certo. Como o João Trigo, que já me esperou à porta, pontual, e assegurou a receção dos primeiros confrades. Como o João Carlos, que ora me enche os bolsos com patés, garfos e a zombaria ritual do couvert, ora substitui o grande Kaiser nas tarefas contabilísticas — com rigor e seriedade contrastantes. Como o Pimenta, que era para vir hoje de Sines. Como o César da Silveira, Visconde do Reino de Maconge, que quase nunca falta. Foi ele, aliás, quem sugeriu que o jantar começasse mais cedo, e assim fizemos. Foi também ele que aventou a possibilidade de o jantar se realizar ao almoço e se estender pela noite dentro. E, também, um dia assim faremos.

Mais do que isso: o César é quem, há mais de uma década, assume o mapa e o compasso da logística — confirma nomes, revê faturas, equilibra contas, faz os acertos, já pagou de avanço, garante que ninguém fica em falta e que tudo bate certo no final. Se há quem transforme o gesto em cuidado e o cuidado em permanência, é ele também.

E há os que não vieram, mas ligaram. Os que ligam antecipadamente a perguntar: “Quando é que é o jantar?”, ainda a data não está definida. Ou “É no sábado, não é?”. Ou os que chegam indefetivelmente só para o abraço — como o estimado clã Franchi-Costa.

Há ainda, caso único, o José Couto — que veio às cegas porque descobriu o blogue, o jantar, e quis juntar-se a nós por conta própria. Sozinho, decidido, juntou-se à celebração sem convite prévio. E connosco ficou, como se sempre aqui tivesse pertencido.

E há, sobretudo, esta coisa rara: gente de mundos diferentes que se senta à mesma mesa e descobre afinidades que não são óbvias, mas que são verdadeiras. Como a Ana Rangel — presença luminosa e sincera —, que, num dos jantares, se comoveu com a alegria, emocionou-se com a ternura dos gestos simples, com a persistência e a resistência dos reencontros, com a amizade que ali pulsava sem artifício. Com a sensibilidade dos raros, a Ana tornou-se também ela presença, parte integrante e testemunho. Há afetos que tocam à flor da pele e, mais uma vez, ficam. A Ana que, pouco depois, me convidou, como ao Trigo, à Fabi, à Patrícia e ao Rui Lisboa, que nunca chegou a vir ao jantar, para assistirmos a uma das suas peças no Casino de Lisboa…

O Fred, o Quim e o Sérgio Miguel, amigos desde os três anos, podem um dia reencontrar-se aqui. O Girão e o Corado, que nunca se haviam visto, trocavam olhares cúmplices numa madrugada já alta. O Ricardo Pinto, o Ricardo Tomás, o Rui Pina orquestram uma sinfonia pelo simples facto de se sentarem juntos. O Dino, o Trigo, o César e o patrono Gustavo confirmam que o alinhamento de astros não é ocasional. Não são coincidências.

Houve mesas onde cabia a infância e o agora, sentados lado a lado como se nunca tivessem deixado de se ver. E talvez não tivessem mesmo. À mesa, na Valenciana, sabemos que há futuro, especialmente quando assistimos à formulação de novas amizades, também aqui consolidadas, entre as novas gerações. Os filhos fazem-se amigos e honram a amizade, o respeito e a admiração que em nós testemunham.

Com o tempo, a tradição deixou de ser uma coisa que se fazia; passou a ser uma coisa que se esperava, e isso, para mim, é um privilégio: ver-vos juntos. Ver-vos naturalmente misturados, sem máscaras sufocantes. Ver-vos em casa, uns com os outros, e perceber que este jantar, que começou como um gesto, é agora um lugar onde regressamos e onde sou feliz. Um lugar que me dá sentido e propósito…


[O FUTURO]

Vinte anos é muito tempo. Atravessámos pandemias, ausências, mudanças de cidade, de país, de pele. Anos difíceis, perdas, lutos, nascimentos, cansaços. E continuamos.

Hoje, O Jantar já não é um evento. Arrisco mesmo dizer que é mais do que o tal pretexto de que escrevo e falo há mais de 20 anos. É um lugar. Uma casa. Uma bola Nívea. Um tempo preservado fora do tempo, fidelidade sem contrato, sem contrapartidas. Uma forma de permanecer inteiro diante da dispersão. Um ponto de ancoragem no calendário mas também na memória do coração. E é por isso que, se me perguntarem o que celebramos, a resposta não é um número, nem um blogue. É isto: este preciso instante.

Não sei o que será o futuro d’O Jantar ou do Caderno de Corda, que aliás se encontra censurado pelos motores de busca – uma luta de Davi contra Golias que me encontro a travar em silêncio –, mas sei que há um gesto, uma pulsação, uma vontade que permanece, e isso basta.

Se daqui a vinte anos ainda nos sentarmos à mesa, talvez nem nos lembremos do que aqui foi dito, mas havemos de reconhecer, no fundo dos nossos olhos, essa coisa antiga, íntima e fiel que não se apaga com o tempo. Havemos de lembrar que é possível cumprir mais do que prazos, metas e notificações ao abrigo de algoritmos e agendas que se nos impõem, que nos cerceiam a liberdade. Havemos de lembrar que é possível viver com encontros marcados pela memória, pelo afeto, pela absurdidade belíssima de estarmos juntos assim — só porque sim. E sabermos – sabermos! – que a liberdade é uma maluca que sabe o quanto vale um beijo e um abraço tão grato quanto generoso.

Não sei o que virá, mas sei que vem gente boa. Gente que ainda é criança e percebe que aqui há verdade. Gente que hoje vem pela primeira vez e já pertence; gente que ainda nem sabe que virá, mas que, quando vier, saberá que está em casa. Talvez o futuro não precise de ser inventado. Precisa apenas de ser cuidado como uma planta que se rega, um lugar onde se volta.


[UMA CELEBRAÇÃO QUE É DE TODOS]

E talvez seja importante dizê-lo agora com toda a clareza: isto nunca foi sobre mim. O Caderno de Corda pode ter começado comigo, sim, mas este jantar é de todos. Não é uma homenagem, não é um palco, já nem é um pretexto. É pertença.

Sempre hesitei em impor ou trazer para aqui criações que se sobrepusessem ao nosso encontro com receio de que se confundissem com alguma forma de promoção pessoal ou artística, ainda que em tal não veja necessariamente um problema. Hoje reconheço o que sempre foi evidente: o jantar nunca foi vitrina, foi sempre oficina.

Por vezes testei aqui ideias, pus versos à prova, experimentei leituras, criei vídeos caseiros com música original, convidei-vos a escolherem versos ao acaso para formar poemas novos comemorativos. Foi aqui que alguns de vocês deram voz a palavras e versos sorteados que eu nunca disse, e o destino encarregou-se de que tudo fizesse, ainda assim, sentido.

O jantar não foi, na verdade, apenas lugar de encontro: foi um modo quase secreto e íntimo de manter viva a obra. É por isso que vos mostro hoje o que aí vem, mas não como apresentação. O que se segue é um gesto de devolução. É o que realmente posso e sei dar em troca do que me têm dado.

Tudo o que vos trago esta noite — os vídeos, o vislumbre de um disco-livro que também nos retrata, as palavras que ainda estão por vir — não são para vos convencer de nada: são para vos agradecer tudo. Vocês são o primeiro público. O cúmplice. O mais atento. O mais fiel, mas, sobretudo, os destinatários em quem penso quando crio. São o público que sente, que sabe, que esteve — desde sempre, e antes até. Partilhar aqui, primeiro aqui, é uma forma de continuar a viagem convosco. Não sozinho. Nunca seria capaz sozinho.

Porque se há ainda estrada para andar, e se há voz e ideias para cantar, compor ou escrever, começam hoje, aqui. Agora, com vossa licença — e com a alegria genuína de quem vos considera casa —, convido-vos a assistir ao que preparei com cuidado, entrega e, tanto quanto me foi possível, amor… e uma pitada de humor.


- * -

 

Depois do discurso, a noite prolongou-se em imagens. Revisitámos, em sucessão, os vídeos comemorativos dos jantares dos últimos anos — fragmentos de memória que, justapostos, nos fizeram mais uma vez sentir estarmos no sítio certo à hora certa e, nesse mesmo fio de continuidade, sedimentaram outros sinais…

Registos ainda não partilhados, mostrados pela primeira vez em círculo fechado, deixaram entrever uma obra em curso, uma travessia longa, feita de palavra, música e memória, que fecha também um ciclo de duas décadas e se projecta no futuro. Não se disse tudo, não era esse o propósito, mas ficou no ar a evidência de que a obra do devir ainda é nossa.

À data de publicação deste texto, e já na proximidade de um novo aniversário do Caderno de Corda, encontra-se ainda por definir a data de realização do próximo Jantar, que assinalará os 21 anos. A decisão será tomada em breve, em concertação entre o Estado-Maior Cordiano, procurando a data mais consensual — previsivelmente em Abril ou até Maio. Seguir-se-á, como é tradição, a respectiva convocatória.

ASSIM foi. Assim seja.

Links para posts análogos dos aniversários anteriores:

Registo de presenças na excepcional ausência de foto de grupo

Como já referido, não havendo registo fotográfico de grupo nesta edição — facto inédito em duas décadas de Jantares Cordianos —, fica consignada para memória futura a lista de estimadas consorores e prezados confrades presentes à mesa:

Hugo Passos (Ken), Hugo Dantas, Rui Almeida, Miguel Barreiros Lopes (Miko), João Carlos Graça, André Nobre, André Paiva, Ricardo Tomás, Frederico Cruzeiro Costa, Miguel Pereira, Pedro Farinha (Piri), João Trigo, Nuno “Corado” Quaresma, Rui Jacinto (Jason), César da Silveira, Sara Matos, Carlota Amaral, Fabrícia Pereira, Hugo Simões e Rosarinho.

Na antecâmara d’O Jantar, o Clã Franchi-Costa (Rita Franchi, Rui Pedro Costa, Leonor Costa e Matilde Costa) veio, como é há muito tradição, para nos dar o prazer da sua companhia, assim como os Irmãos Joaquim Barbosa e Ricardo Pinto, e as há muito desejadas consorores Anabela Semedo (Belinha) e Gabriela Semedo. O Rui Pina surgiu no final, após o repasto, mas a tempo do convívio. 

Um especial Abraço a todas e todos os que não puderam marcar presença, mas que estiveram no nosso pensamento. De bónus, a imagem de thumbnail criada para o vídeo comemorativo dos vinte anos do Caderno de Corda

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quinta-feira, fevereiro 13, 2025

Anno XIX – O Jantar


O Caderno de Corda cumpriu 19 anos em 2024 e cumprimo-los também nós, uma vez mais, à mesa, num ritual de fraternidade e memória. O Jantar aconteceu a 12 de Abril de 2024, como sempre no restaurante A Valenciana, pela quarta vez em data posterior à data tradicional (de 26 para 27 de Março), evitando o período de férias da Páscoa e garantindo a adesão do maior número de Confrades Cordianos. A escolha revelou-se acertada, como verificado pelo número recorde de presenças: 33 no total — 32 à mesa e um visitante preambular, Rui Martins (Fininho), que apareceu no rendez-vous e seguiu caminho para assistir a um concerto, mas não sem antes deixar comigo um presente de inestimável simbolismo: o disco “Gigaton”, dos Pearl Jam, lançado precisamente a 27 de março de 2020, data do aniversário do Caderno de Corda – disco que o Rui guardara na data de lançamento para, com efeitos pandémicos pelo meio, me dar antes tarde que nunca. Regista-se a importante oferta e o quase baptismo do Rui na liturgia cordiana. Mas as oferendas ao Vosso fiel escriba não se quedaram por aqui. O debutante Hugo Passos (Ken) marcou também a sua estreia com o mimo de uma garrafa de vinho tinto à chegada - lembrança significativa que merece uma nota de especial e sentido agradecimento.
Este ano há subtextos por (quase) desvelar. No passado recente, justificou-se o abrandamento das publicações no blogue com a empreitada de um romance distópico, um projeto de grande fôlego e escala que monopolizou milhares de horas livres. Mas, como os tempos, os ventos mudam e, como as palavras, adquirem novos significados, seguem novos fluxos e novos trilhos semióticos. O romance repousa com terra à vista e a atenção volta-se para a consubstanciação de um foco renovado que em 2025 se revelará. O Caderno de Corda está em marcha e o que aí vem não se cinge à celebração de um número redondo. Há algo mais. Algo que cresce e transborda…
Como sabemos e vimos sempre aprendendo, também a Amizade é transbordante, exponencial e contagiosa — prova disso são @s sublimes estreantes definitivamente incorporad@s na Confraria Cordiana. Nove debutantes tiveram assento à mesa em 2024 e, como é nosso apanágio, uma vez da Confraria, sempre da Confraria. Entre @s recém-chegad@s, destacam-se quatro infantas e infantes cordian@s, responsáveis pelo significativo e desejável decréscimo da média etária do grupo, garantindo que o futuro da Confraria se inscreve na nova geração: Isaac Graça, Beatriz Paiva, David Pina e Rafael Nunes, dignos titulares das insígnias de Infantes da Cordialidade.
Aos restantes (e insignes) estreantes — Sandra Rodríguez, Pedro Sequeira, José Manuel Couto, Hugo Passos e Miguel Barreiros Lopes (Miko) —, a certeza de que os regressos são esperados e os encontros são perenes, prolongando-se noutras mesas e noutras horas, mas sobretudo na memória do coração. Uma nota para a participação espontânea de José Manuel Couto, que, tendo ligações à Cruz Quebrada, tomou conhecimento do Caderno de Corda e d’O Jantar no ciberespaço e quis, de livre e independente vontade, partilhar connosco a companhia, histórias e a mesa. Mais uma honraria para o Caderno de Corda, que assim cumpre um dos seus primordiais desígnios: estabelecer pontes tangíveis para lá do algoritmo e do éter.
O peso da Loja Cruz Quebrada fez-se sentir sobremaneira, destacando-se a presença fortíssima da geração Y, com João Carlos, André Paiva, Bruno Tomás, Bruno Sardo e os recém-chegados Ken e Miko, faltando apenas o André Nobre para, pela primeira vez, reunir em bloco a Fraternitas CQY. Apesar da menor afluência da Loja Salesiana nesta edição d’O Jantar, a força dos cruz-quebradenses compensou e excedeu expectativas. Muitos dos salesianos, como globetrotters que são, espalharam-se pelo País e pelo mundo nesta data — ausências que foram notadas e sentidas.
Este foi também um Jantar marcado pela extraordinária ausência do Grão-Mestre Cordiano, Visconde do Reino de Maconge, Magnífico Provedor do Tesouro e Supremo Jurisconsulto César da Silveira, que tradicionalmente assume o exercício da verificação, consolidação e regularização das obrigações pecuniárias inerentes ao encerramento financeiro d’O Jantar, compreendendo o minucioso apuramento das despesas globais, a equitativa distribuição das responsabilidades contributivas dos convivas, a subsequente arrecadação dos montantes devidos e a aferição final da conformidade do saldo de contas, garantindo a plena solvência e a exatidão dos lançamentos, preservando ainda a dignidade e a integridade fiscal do conclave. Mesmo não estando, o Kaiser, habitual titular absoluto, merecia este parágrafo…
Mas a Confraria é caudalosa como o Tejo e, à bolina, o Grão-Mestre e Grande Inspector Cuteleiro João Carlos Graça tomou o leme de roda da tesouraria com inexcedível eficiência e visão organizativa, destacando ao serviço os Infantes na recolha de nomes para conferência da fatura final. A turma dos digestivos, como de costume, chegou-se à frente para os ajustes necessários e ficaram mais uma vez confirmadas as vantagens do banquete face ao consumo à carta – o banquete é mais farto, mais simples, mais certo e acaba mesmo por ficar mais em conta. Tudo correu bem assim.
Quanto a esta crónica, escrita e publicada tardiamente, deixada a marinar ao limite do aceitável, peca pela delonga mas também pela inevitável fragmentação da memória, no entanto preservada pelo registo fotográfico. Foi, aliás, devido ao grande investimento de tempo no trabalho e nos projectos em curso, e porque, fazendo jus aos anos recentes, a crónica d’O Jantar vem sendo acompanhada de um vídeo comemorativo, que a publicação se atrasou tanto. Na iminência do vigésimo aniversário do blogue, urgia publicar, quanto mais não fosse a crónica e as fotos, mas o advento das ferramentas de modelação de imagens com base em inteligência artificial espicaçou novas ideias.
Assim se produziu, ao som de “Silêncio (Estamos no Ar)”, o vídeo d'O Jantar comemorativo do 19.º aniversário do Caderno de Corda, que deve a sua existência, em grande medida, à presença devotada do Grão-Mestre, Guardião do Tombo e Venerável Cavaleiro Prismático Ricardo Pinto, cuja objectiva regista proverbialmente o evento. Todas as imagens resultam de fotos não editadas, algumas das quais foram posteriormente trabalhadas na plataforma Runway ML, aplicada à criação de vídeos com ferramentas baseadas em IA generativa. A edição foi realizada e concluída no software Movie Studio 15. De referir que as fotos serão publicadas brevemente nas páginas Facebook de Davi Reis (poesia e música) e do Caderno de Corda.
Ao décimo nono ano, lançando-se sobre fundações sólidas na antecâmara dos vinte anos, O Jantar reafirma-se como eixo de alinhamento que assegura um lugar e um tempo próprios, sempre inclusivos e exclusivos, abertos e livres para ser, estar, partilhar, comungar, recordar e reinventar. A cada ano a mesa cresce e a amizade expande-se por gerações numa espiral de continuidade. E porque a Amizade não desiste, o Caderno de Corda não verga e há muita estrada para andar, ficam suspensas no fino ar novidades para 2025, ano em que o Caderno de Corda celebra duas décadas de existência e pretende festejar como nunca. E há mais, algo que cresce no horizonte e se insinua nas entrelinhas. Algo que em breve terá nome, som, visão, alma e forma. O que será, a seu tempo.
Até lá, sigamos caminho.
No mesmo sítio, à mesma hora, previsivelmente em Abril.
ASSIM foi. Assim seja.
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Legenda aleatória: Hugo Dantas, Bruno Sardo, Hugo Simões, Pedro Sequeira, Bruno Tomás, João Trigo, Sara Matos, Carlota Amaral, João Graça, Isaac Graça, André Paiva, Beatriz Paiva, José Moreno, Ricardo Pinto, Sofia Damião, Beatriz Damião Pinto, Carolina Pinto, Rita Franchi, Rui Pedro Costa, Leonor Costa, Matilde Costa, Carlos Nunes, Rafael Nunes, José Manuel Couto, Hugo Passos (Ken), Miguel Barreiros Lopes (Miko) e Rui Jacinto. Os comensais Rui Pina, Sandra Rodríguez, David Pina, Ricardo Tomás e Rute Ferreira já se haviam ausentado à hora da foto de grupo. O Clã Franchi-Costa veio, como é já tradição, para nos dar o prazer da sua companhia. Um especial Abraço às Consorores e aos Confrades que não puderam marcar presença, mas que estiveram no nosso pensamento. E a foto emoldurada, de bónus:
n.b. - As fotos d'O Jantar estarão também disponíveis brevemente na página de Facebook do Caderno de Corda.

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quinta-feira, julho 06, 2023

Anno XVIII - O Jantar da Maioridade

Uma corrida de fundo. Há 18 anos nenhum de nós imaginava que, um dia, estaríamos a celebrar o rito de passagem do Caderno de Corda para a vida adulta, especialmente com tamanha vivacidade e fulgor, à mesa, como inicialmente preconizado pelo Grão-Mestre Gustavo Silva, patrono d'O Jantar. Na vida sucedem-se ritos e ciclos, celebrações e reflexões sobre alegrias, conquistas e desafios, mas também sobre fracassos, infortúnios e desventuras, as quais não há como enjeitar, procurando-se seguir mais forte e sábio. No entanto, aqui, e por ocasião d’O Jantar, temos refletido, vivido e cultivado sempre alegrias, e fazemos por que perdurem.

O primeiro melhor amigo, a queda dos dentes de leite, o primeiro dia de escola são marcos da infância, alguns dos quais partilhamos entre nós em memórias ainda vívidas, porque pungentes e sentidas. Na adolescência surge a ebulição hormonal, a rebeldia, a contestação aos valores social e familiarmente estabelecidos, mas também o primeiro amor, o primeiro beijo. Ainda assim, é, diz-se, a maioridade que representa a transição das transições, com a entrada, por vezes forçada e prematura, na vida adulta.

Na idade adulta, ou idade da razão, são incrementadas, mais sérias e mais definitivas as responsabilidades, assim como as consequências das escolhas tomadas. Na maturidade, os sonhos tornam-se mais prementes e as opções mais dificilmente reversíveis. A Liberdade de quem dispõe de autonomia não se dissocia da responsabilidade pelo uso dessa mesma Liberdade. Tal consciência, dotada de sabedoria, excede em muito o cumprimento de deveres e obrigações, instigando os livres e autodeterminados a arpoar sonhos e a perseguir novas aventuras e possibilidades de descoberta, em particular de si mesmos.

O autoconhecimento, que nos conduz a tomar um lugar próprio no mundo – ou a sermos, nós próprios, um lugar -, beneficia do uso de saudável disciplina, mas não necessariamente de disciplina formal, mecânica, proficiente. Há, a montante, uma disciplina ontológica, se me permitem, que se traduz em persistente resiliência e inabalável crença. O mantra: "Não desistir." E assim se cumpriu, ao Anno XVIII, O Jantar; e assim Vos escrevo de maturidade, não ousando dar lições de tal coisa a um cão de companhia.

O Caderno de Corda e o livro-eucalipto

Em boa verdade, a maturidade a que aludimos não será, na sua génese e em teoria, relativa a uma pessoa, mas a um blogue que cumpriu 18 anos e que, de há muito a esta parte, tem n'O Jantar anual de comemoração, que serve de pretexto a muito mais do que apenas recordar escritos que nele se publicam, o seu momento alto. Tal deve-se, nos últimos anos, à concentração de esforços deste que humildemente Vos escreve na produção de uma obra literária que venha a ser digna desse nome - um romance com laivos de distopia política como sempre quis escrever e que, sendo uma empreitada quixotesca e de grande fôlego, absorve as horas livres de criação, qual eucalipto, secando qualquer outra veleidade criativa ou artística. Eis a razão (ou megalomania) primordial (e ciclópica) por que o Caderno de Corda não tem publicado mais poesia, prosa ou canções originais. Mas, se apontarmos ao Sol, talvez caiamos na Lua.

Novamente, a maturidade adverte-nos para que não se levantem véus prematuramente, muito menos de obra inacabada. Ainda assim, em perspectiva, pareceu-me apropriado utilizar uma impressão do referido trabalho em curso (à data, cerca de 120 mil caracteres em 250 páginas A4, Times New Roman, tamanho 12) para, através da consignação de folhas escolhidas por número de página, munir os Confrades Cordianos de matéria a excisar para leitura de trechos escolhidos e posterior criação de um vídeo comemorativo, como tem sido apanágio do Caderno de Corda nas mais recentes edições d'O Jantar. Simplificando, o vídeo resulta da escolha aleatória e da reorganização de trechos extirpados de um epopeico romance distópico em moroso processo de composição, mais uma vez com recurso a um intrincado mecanismo numerológico de cálculo por página, a interpretação estética à luz da sequência de Fibonacci e a uma avançada técnica de pot-pourri. Cada Consoror e cada Confrade escolheu um número de página, um excerto e leu-o para a câmara.

Saiba-se que, quando Vos escrevi a quase totalidade desta crónica, o vídeo ainda não estava sequer idealizado. Aliás, exceptuando o presente parágrafo, tudo o resto foi escrito antes mesmo que todas as Consorores e todos os Confrades me remetessem os registos das suas leituras – aqueles de nós que não chegaram a gravar na noite d’O Jantar. O último desses registos chegou apenas há  algumas semanas. A título de curiosidade, escrevo-Vos todo este parágrafo, inserido a talho de foice após a conclusão do vídeo, num apartamento em Marselha, junto ao Vieux Port, epicentro dos tumultos que eclodiram por toda a França nos últimos dias, em resposta ao assassinato do jovem Nahel, em Paris, às mãos da polícia. Ouvem-se as explosões e sente-se, por vezes, o cheiro a queimado e a gás pimenta sobreposto à lavanda marselhesa, seguindo-se um ligeiro ardor nos olhos. Fechamos as janelas. Os meliantes, muitos deles imberbes adolescentes, correm rua acima e gritam "Gucci, Gucci", mostrando os óculos e as malas a saque... Adiante, o vídeo é, como verão, composto em quatro actos, ao som de Richard Wagner (prelúdio do primeiro acto da ópera “Lohengrin”), Dominic Muldowny (“The Ministry of Truth” e “Winston's Diary, the Dream”, do álbum “Nineteen Eighty-Four, The Music of Oceania”) e The Doors (“Riders on the Storm”, do álbum “L.A. Woman”). A escolha de “Riders on the Storm” não é, no entanto, minha, mas do Grão-Mestre César da Silveira, que, ao introduzir novos elementos e uma outra abordagem, acabou por modelar e dar o tom para o trecho final do vídeo. A quase totalidade das fotos é do Grão-Mestre Ricardo Pinto e as ilustrações foram gentil e preciosamente cedidas pelo Irmão Cordiano e Missionário da Arte e do Belo Nuno “Corado” Quaresma.

Quanto ao livro que, desejavelmente, concluirei no médio prazo, posso dizer que se destina a leitores de todos os quadrantes, presentes mas também - sei-o - futuros. Porque, como aqui se escrevia há um ano, «é certo ser este o nosso tempo; o tempo para livres habitarmos a sua substância». E nunca é tarde demais. Agora e sempre.

Anno XVIII - O Jantar

Portanto, alimentado de fraternidade, memória, sonho, futuro e frango assado, O Jantar reuniu 25 à mesa no dia 25 de Março, casando números, tal como, curiosamente, há um ano fomos 23 a 23 de Abril. Chegámos, no entanto, a ser 30 Confrades no total, contando com a habitual e preambular presença do clã Franchi-Costa (Leonor, Matilde, Rita e Rui Pedro) e, desta feita, também do “padrinho” Joaquim Barbosa (Quim), que não ficou para jantar. Registe-se que, ao décimo oitavo ano, este foi o terceiro jantar realizado em data discrepante da data tradicional de 26 de Março, véspera do aniversário propriamente dito (27 de Março), e o primeiro a antecipar-se à data.

Também antecipadamente, assim estava o Grão-Mestre João Trigo à porta dianteira, onde esperou com estóica brandura e fraternal compreensão. Uma buzinadela e um aceno à passagem, de carro; o estacionamento apressado no parque e, passo rápido, os primeiros abraços, nas traseiras do restaurante, a Hugo Dantas, André Nobre e André Paiva, que também já ali aguardavam. Atravessámos A Valenciana por dentro e juntámo-nos ao Trigo, heroicamente só na dianteira, para aquele abraço apertado, grato e reparador, penitente pela delonga. Dali fomos para a Sala Fronteira, que a espaços revelou-se demasiado quente, ruidosa e esconsa para o grupo, mas chegou à conta, satisfatoriamente.

Mesa posta em “U” e acepipes na távola, foram entrando os comensais. Rapidamente se formaram, grosso modo, duas alas: a cruz-quebradense/dafundense e a salesiana, ambas pontuadas aqui e ali por Consorores e Confrades Cordianos de outras paragens, e alguns até de outras e de ambas, como é o curioso caso de Nuno “Corado” Quaresma, Missionário da Arte e do Belo. “Sintonia sinérgica”, “convergência holística”, “identificação simbiótica”, “assimilação integrativa” e “coerência paradigmática” são todas expressões que, referindo-se a uma harmonia profunda, colaborativa e produtiva, fértil, descrevem o modo como o já nosso genial “Corado” corporiza um estado etéreo que flui alegre e fraternamente pelos jantares cordianos. «Obrigado Meu Irmão pelo carinho e por estes momentos mágicos de ligação com esta Rapaziada vibrante e cheia de boa energia. Que possamos brindar muitas vezes nestes e noutros momentos de Criatividade, Amor e Reencontro”, escreveu o Corado após O Jantar via chat.

Tivemos, mais uma vez, estreias sublimes que merecem palavras especiais, como as das Infantas Rafaela Tomás, Daniela Tomás e Nicole Araújo, que iluminaram a sala e os corações; do Confrade André Nobre, primaveril e imune ao frescor da aragem, desejoso por dias mais longos e luminosos, eternamente fascinado pela fulgência das ideias, e, por fim, da maravilhosa Consoror Ana Rangel, cuja alegria e o brilho no olhar alumiam candeias em olhos outros e tangem emoções francas. São lágrimas, senhor! De alegria, concórdia e afetos partilhados, entretecidos. Registe-se, como é práxis, que os estreantes selam com a sua inestimável presença a incorporação definitiva na Confraria Cordiana. Repita-se: uma vez da Confraria, sempre da Confraria.

Registamos também, como sói dizer-se nesta ocasião, notadas ausências (eles sabem quem são) e o fenómeno dos globetrotters que, espalhados pelo mundo nesta data, não puderam comparecer. Estamos gratos, no entanto, pelos que, against all odds, conseguiram estar e ser, um dos quais vindo de uma regata no Tejo e outro do Porto, para dar os exemplos cabais dos Irmãos Cordianos Quim e Piri, respectivamente. E já que estamos a mencionar ex-Doroteias (Externato do Parque) que se conhecem desde os três anos, note-se o desencontro, por pouco, do Quim e do Frederico Cruzeiro Costa (Fred), mas também do Sérgio Miguel Ribeiro (Miguel), que esteve a uma unha de se estrear, mas adoeceu e não pôde juntar-se ao quarteto do Externato do Parque, transitado em bloco para as Oficinas de São José no ciclo preparatório.

Como disse o Irmão Fred à Ana no correr d’O Jantar, somos corredores de fundo, e daí vem a expressão que enceta este texto. O meu querido Fred teve de sair um pouco mais cedo para cumprir compromissos. À despedida, nas traseiras do restaurante, onde eu e o Nobre fumávamos, tirou do bolso das calças um olho turco em vidro que trouxe para oferecer a este Vosso escriba, dizendo que me protegeria. Já falámos depois. No entanto, não lhe disse ainda que a Rosarinho adorou o olho turco e adoptou-o mal o viu, mas que, sem incúria dela, o olho se partiu alguns dias depois. Caiu no chão de mármore vitrificado, deslizando do dorso da chave do aparador de entrada onde ela cuidadosamente o pendurara. Chorou serenamente, interiorizando a perda e atribuindo-lhe significado. Recolhemos os estilhaços e depositámo-los no lixo. Ficou sensibilizada. E eu. Mas vim a saber mais tarde que, na cultura turca, se o olho se partir terá cumprido a função de proteger os seus portadores, sendo que o descarte respeitoso e correcto dos fragmentos prolonga a boa sorte e a protecção.

Protegidos estaríamos também na presença do Grão-Mestre e Grande Inspector Cuteleiro João Carlos Graça, que esteve num pacato frente-a-frente com um seu velho amigo, o Grão-Mestre Hugo Dantas, acérrimo arguidor de traquinagens, em particular daquelas executadas sobre a sua pessoa enquanto dormita (recorde-se a despedida de solteiro do Pinto). Pois desta feita o João guardou a despesa das travessuras da noite para o que Vos escreve: já A Valenciana estava de portas fechadas e nós todos na rua quando descobri ter no capuz alguma pequena cutelaria e o naipe completo de manteigas, patés e queijos-creme que havia no restaurante, alguns encetados, já meio comidos. Mas foram os garfos nos bolsos traseiros das calças que, durante o jantar, ao sentar-me, agudamente me alertaram e indiciaram o mais que provável autor de tão bicuda e, simultaneamente, substanciosa tropelia. Não havia dúvidas: também a zombaria do couvert tinha a inconfundível assinatura do Grande Inspector Cuteleiro.

Com o João esteve em peso a fraternidade da geração Y da Loja Cruz Quebrada: João Carlos, André Paiva, André Nobre e Bruno Sardo. Para representar integralmente a estreita irmandade faltaram apenas o Grão-Mestre Bruno Tomás e o ainda candidato a confrade Miguel Lopes (Miko). Ambos confirmaram a presença, mas, crê-se que por motivos relacionados com distúrbios gastrointestinais, não puderam comparecer, lamentavelmente indispostos. Sentimos as suas ausências. Não deixamos, nesta linha, de registar duplas épicas que se reintegram n’O Jantar como se o tempo por elas não passasse: João Trigo e Dino; Pedro “Piri” Farinha e Miguel Guerreiro Pereira; Gustavo “KJ” Silva e César “Kaiser” da Silveira; Ricardo Tomás e Ricardo Pinto e múltiplas outras duplas de sonho e eternidade conjugáveis e intermutáveis, como Corado e Jacinto, sendo que apenas o Corado compareceu este ano, apesar da ausência do seu Irmão. Fazendo uso de ideias recorrentes nesta ocasião, e constatando que este foi O Jantar mais concorrido de sempre, verificamos mais uma vez que a Amizade que nos une é exponencial e contagiante, e as nossas vidas seriam menos do que outras sem do outro a nossa parte.

Menos do que outra sem a Grã-Dama Rute Ferreira e, claro, o Grão-Mestre e Venerável Cavaleiro Cordal Ricardo Tomás, que nos deu o privilégio de conduzi-la até nós e que será, quiçá, fonte de inspiração retroalimentada da sua própria musa. Foram dois os quadros de autor, predominantemente azuis, mas tão terrenos quanto celestes, magníficos, que a Rute trouxe propositadamente para ofertar à grata família do Vosso fiel escrevente. 

Menos do que outra sem o Grão-Mestre Cordiano, Visconde do Reino de Maconge, Magnífico Provedor do Tesouro e Supremo Jurisconsulto César da Silveira, que veio directo de dilecta almoçarada de convivas do Reino de Maconge – um dia literalmente em cheio.

Menos do que outra sem o Grão-Mestre e Perene Patrono Cordiano Gustavo Silva, que chegou mais tarde, cansado, de olhos a meia-haste, fazendo lembrar os olhos de madrugada a jogar Premier Manager na Calçada de Santo António, mas com a resiliência de sempre, apesar das cansativas tiradas Lisboa-Porto. Saiu mais cedo, mas esteve bem presente.

Menos do que outra sem o Grão-Mestre, Guardião do Tombo e Venerável Cavaleiro Prismático Ricardo Pinto, cuja óptica regista proverbial e devotamente O Jantar, e cujo coração alumia e colora a noite escura. As fotos são quase sempre dele, mas o Caderno de Corda e O Jantar são dele como meus, nossos.

Menos do que outra, por fim, sem o Grão-Mestre e Venerável Cavaleiro Congénito Ricardo Girão, à cabeceira oposta deste que Vos escreve, ambos comunicantes pelo simples olhar e por feixes etéreos de sinusoidais psiónicas no fino ar. Girão, o último dos moicanos a resistir à noite, depois de debandado o derradeiro grupo de obstinados Confrades Cordianos, entre os quais se incluíam Piri, Pereira, Dantas e Corado. No final dos finais, após várias voltas e pit stops em Benfica, a dupla Hugo-Girão encontrou finalmente uma roulotte em Sete Rios… Uma garrafa de água! O nosso reino por uma garrafa de água! E uma Coca-Cola. E uma imperial.

Prosaica, a imparável tendência inflacionária do preço d’O Jantar, a estória da negociação do banquete, que afinal se revelava mais vantajoso do que o consumo à carta, como acabou por acontecer, levando a turma dos digestivos a chegar-se à frente, e a civilizada discussão sobre as contas com a gerência. Concluiu-se que, afinal, teria sido melhor ficarmos pelo preço fixo do banquete. Os amores da minha vida irão ao Jantar quando a Rosarinho se sentar à mesa e comer tudo sozinha, autonomamente, com ambos os talheres… Registe-se finalmente que o Vosso fiel escriba chegou a casa perto das sete da manhã, silencioso mas com mundos ululantes no pensamento.

Este blogue é e continuará a ser o meu fiel depositório criativo.

Em 2024, no mesmo sítio, previsivelmente em Março.

ASSIM foi. Assim seja.

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Legenda aleatória: Hugo Dantas, Bruno Sardo, Hugo Simões, Ricardo Pinto, Sofia Damião, Beatriz Damião Pinto, Ricardo Girão, César da Silveira, Nuno “Corado” Quaresma, Miguel Pereira, Pedro Farinha, Nuno “Dino” Rodrigues, Ana Rangel, João Trigo, Sara Matos, João Graça e André Paiva. Os comensais Gustavo Silva, Frederico Costa, Rafaela Tomás, Daniela Tomás, Nicole Araújo, Ricardo Tomás, Rute Ferreira e André Nobre já se haviam ausentado à hora da foto de grupo ou não se encontravam naquele momento na sala. O Clã Franchi-Costa veio, como é já tradição, para nos dar o prazer da sua companhia antes e ao início d'O Jantar, tal como, desta vez, o Joaquim Barbosa. Um especial Abraço aos Confrades e às Consorores que não puderam marcar presença, mas que estiveram no nosso pensamento. E uma foto nocturna. de bónus: 
n.b. - As fotos d'O Jantar estarão também disponíveis brevemente na página de Facebook do Caderno de Corda.

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quarta-feira, maio 11, 2022

Anno XVII – O Jantar

Há um desígnio intraduzível que nos move e que nos une. Há uma Verdade antiga e simples que todos trazemos a pulsar no peito, aprisionada na garganta e no estômago; nos dentes e no sangue, pela qual nos reconhecemos. São os nossos olhos de crianças que se vêem puros, contendo ainda a reminiscência feliz de todos os sonhos do mundo. Está já ali, adiante, ao virar da esquina, a confirmação indomável, primeva e fatal de tal desígnio, tecido pela memória e encimado por um prolongado e amorável abraço de recreio que nos prendeu para sempre. As nossas vidas seriam menos do que outras sem do outro a nossa parte. Somos Irmãos e sabemo-lo. 

Em 2022 o XVII Jantar Cordiano aconteceu na antecâmara da celebração de Abril, realizando-se um dia após a libertação legalista do grilhão icónico e paradigmático da pandemia – a máscara – e na antevéspera da comemoração da madrugada mais clara; da alvorada da Liberdade. Este foi justamente cognominado “O Jantar da Libertação” – libertação simbólica de máscaras e recuperação plena do direito de reunião em convergência de afectos, memórias e destinos, cujas rotas, enlaçadas, traçam o mapa partilhado da nossa própria existência. Tal como em Abril de 1974 muitos detinham a convicção de que tudo era possível, é certo ser este o nosso tempo; o tempo para livres habitarmos a sua substância.

Ao décimo sétimo ano, conta-se o terceiro jantar realizado em data posterior à data tradicional de 26 de Março, véspera do aniversário propriamente dito (27 de Março). Motivo: a mãe de todas as mudanças de casa no mesmo período, e já foram muitas. Há dois anos, aquando do primeiro adiamento sob o jugo da pandemia, escrevia-se aqui que O Jantar se realizaria “com estímulo e intensidade redobrados”. No ano seguinte – há um ano, portanto -, e mantendo-se a vigência do cativeiro pandémico, elevou-se ao quadrado a tenção. Verificamos, pois, que exponencial e contagiosa é a Amizade – veja-se pelas estreias dos tão estimados Confrades Cordianos Joaquim Barbosa (Quim), Pedro “Piri” Farinha e José Moreno (Zé). Uma vez da Confraria, sempre da Confraria. Mas lembremos Pessoa: “Não o prazer, não a glória, não o poder: a Liberdade, unicamente a Liberdade.” Cravos!, cravos para todos!

O Caderno de Corda não vergou e em 2022 fomos 23 à mesa no dia 23, um número bom e oportuno. Numerologia e cabalística à parte, o simbolismo dos cravos dispensa explicações, mas exige que se atribua ao Grão-Mestre Cordiano César da Silveira, Visconde do Reino de Maconge, a ideia. Também por sua sugestão, O Jantar foi iniciado mais cedo do que vinha sendo costume, por volta das 17 horas, configurando um lanche ajantarado, espécie de high tea que redundou num jantar tradicional. Em boa verdade, o Irmão César da Silveira havia sugerido que o dia fosse dedicado quase por inteiro à comunhão cordiana, iniciando-se ao almoço e prolongando-se pelo jantar e noite dentro. Tão ambicioso fito exigiria, no entanto, esforços supletivos, nomeadamente negociais e logísticos, que não puderam ser satisfeitos nesta jornada. Não obstante, a concepção do insigne macongino estará, apesar do ousado intento, em cima da mesa em cogitações futuras.  

Cogitante estava, à chegada à Valenciana, o Maestro António Victorino d’Almeida, a ler um livro… À porta, pontual e espartano, o Grão-Mestre César da Silveira aguardava. Chegou então, segundos antes deste que Vos escreve, o Comendador da Liberdade Miguel Leão Miranda. Éramos três e, em pouco tempo, uma dezena. Saíam empíricas e entravam Confrades a bom ritmo até que nos constituímos indomáveis 23, por momentos 27, abençoados pela tradicional visita (fugaz!) do clã Franchi-Costa, que este ano não se deu à chapa – leia-se “à lente” do Irmão, Grão-Mestre e Guardião do Tombo Ricardo Pinto, que proverbialmente assume as despesas do registo fotográfico do evento e assegura a operação logística inerente. Assinale-se também a criação à mesa, no prosaico verso da ementa, do logograma do XVII Anno Cordiano pela mão de Nuno Quaresma, Missionário da Arte e do Belo, apesar do militante ateísmo optimista. Registamos também, como sempre, notadas ausências, desejados regressos e estreias sublimes como a da Infanta Beatriz Damião Pinto, Guardiã da Felicidade e da Alegria. O futuro é nosso.

Entre as estreias seniores notabiliza-se um Abraço de intensidade cósmica, há muito adiado, que marca o reencontro com o querido e eterno Irmão Quim, que se encontra a preparar o regresso da Polónia a Portugal – o reencontro com parte tão significativa, profunda e primacial de mim próprio. Já o mui querido “old chap” Piri, após anos de conquista por essa Europa fora, radicou-se finalmente no País, mas no Porto. Ainda assim, veio do Canadá de véspera e não falhou. Quim e Piri, dois verdadeiros globetrotters, dois brilhantes e queridos Amigos desde os três anos de idade. A distância nunca será bastante para nos apartar. Last but not least, o reencontro com o também mui querido Zé Moreno, cujo debute reforça sobremaneira a Fraternidade Cordiana. As décadas parecem contrair-se ao vê-lo e diluir-se assim que nos abraçamos de novo. Esta tríade de seniores selou com a sua inestimável presença a incorporação definitiva na Confraria Cordiana. Repita-se: uma vez da Confraria, sempre da Confraria.

Lunares, após O Jantar e de novo ao desafio do Grão-Mestre César da Silveira, seis resistentes levaram a noite cordiana a pé, da Valenciana ao Príncipe Real, onde o César se quedou por força de um almoço familiar no dia seguinte. Os restantes cinco - Girão, Hugo, Sardo, Jacinto e Corado - seguiram para o Bairro Alto e desaguaram perto das seis da matina em Santos, na Merendeira. Pão com chouriço e caldo verde para forrar o estômago e aconchegar o espírito. Eram sete da manhã quando este Vosso escriba chegou a casa, depois de atravessar a lezíria com o Sol à direita, a romper o horizonte, e o coração cheio, lamentando apenas não estar mais tempo com todos e cada um. Subsiste, mais uma vez, a ideia de que o Caderno de Corda não desiste porque a Amizade não desiste; nós não desistimos. O Caderno de Corda não vergou. Enquanto houver estrada para andar.

Não se conclui o post sem antes explicar a opção pela publicação das fotos em formato de vídeo, uma vez que o Blogspot (Blogger) não possui em backoffice um widget que permita publicar, por exemplo, uma galeria de fotos, pelo menos que se conheça. Tal poderá dever-se, em parte, ao facto de que o Caderno de Corda nunca cedeu à actualização de templates, uma vez que perderia todas as suas formatações originais em HTML autodidacta, o que também acabou por conduzir o blogue a um beco escuro e fundo da Internet que o Google abandonou e esqueceu. As fotos serão ainda posteriormente publicadas na página do Caderno de Corda na rede social Facebook. A delonga na publicação deve-se, por sua vez, ao facto de ter estado adoentado na semana seguinte, ao trabalho e, agora, ao Covid. Sim, fui diagnosticado positivo pela primeira vez. Embora o texto tivesse sido escrito logo após O Jantar, o vídeo tomou mais tempo do que o desejado.

Uma palavra final de especial apreço e gratidão para o Irmão e Grão-Mestre Ricardo Tomás, que, uma semana após O Jantar, sabendo da instalação de Internet deficiente e deficitária no quartel-general cordiano, viajou de imediato da Margem Sul para Almeirim e não apenas resolveu o problema, como otimizou todo o serviço. É graças a ele que os posts comemorativos do XVII Aniversário Cordiano finalmente Vos chegam pelo éter como se dançassem.

 

Este blogue é e continuará a ser o meu fiel depositório criativo. 

 

Em 2023, no mesmo sítio, previsivelmente em Março.

 

ASSIM foi. Assim seja.

 

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Anno II - O Jantar

Anno III - O Jantar

Anno IV - O Jantar

Anno V - O Jantar

Anno VI

Anno VII

Anno VIII - O Jantar (ou O Regresso)

Anno IX - O Jantar

Anno X - O Jantar

Anno XI - O Jantar

Anno XII - O Jantar

Anno XIII - O Jantar

Anno XIV - O Jantar

Anno XV

Anno XVI


Legenda aleatória: Rui Pina, João Barroso, Bruno Sardo, Miguel Leão Miranda, Ricardo Girão, Pedro “Piri” Farinha, Carlos Nunes, José Moreno, Nuno “Corado” Quaresma, João Trigo, Rui Jacinto, Rute Gil, Ricardo Tomás, Bruno Tomás, Rute Ferreira, Miguel Pereira, Beatriz Pinto, Joaquim Barbosa, Sofia Damião, Hugo Simões, Ricardo Pinto, César da Silveira e Carolina Pinto. O Clã Franchi-Costa veio, como é já tradição, para nos dar o prazer da sua companhia antes e ao início d'O Jantar. Um especial Abraço aos Confrades e às Consorores que, pela iniquidade da Vida, não puderam marcar presença, mas que estiveram no nosso pensamento.

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sábado, setembro 19, 2020

Mãe

Completa-se hoje uma semana que a minha mãe partiu, ainda não seriam sete da manhã de dia 12 de Setembro. A minha mãe está viva em mim. Ela é eu e eu sou ela, como sempre fomos, indissociáveis. Se sou Amor, carinho, ternura e compaixão, sou ela. 
Marco a passagem desta semana sem adjectivos ou qualificativos, mas com uma canção que escrevi, compus, toquei, cantei e gravei chamada "Mãe", publicada no dia 5 de Maio de 2013 (dia da Mãe) no Caderno de Corda. A canção contou com a colaboração do meu querido amigo Sebastiano Ferranti, que tocou bateria, gravou, misturou e masterizou no seu estúdio caseiro. O baixo e as guitarras foram gravados por mim, em minha casa, num modesto gravador de quatro pistas. 
Apesar destes e de outros factos, esta não é uma canção de dia da mãe e muito menos um tema de alegre exaltação à progenitora ou a uma qualquer efeméride que daí decorra. Em boa verdade, é uma canção que, perante medos, desesperanças, sofrimentos e solidões, clama pela mãe - a mãe de todas as mães, porventura o Eterno Feminino. 
"Eterno Feminino" terão sido as últimas pa­lavras de Goethe, no segundo Fausto, para designar a atracção que guia o desejo transcendente do homem. Curioso que eu tenha utilizado, na letra, ideias e palavras de Fausto (o Bordalo Dias), mas também de Jorge Palma e, muito especialmente, de José Mário Branco. Na ideia referida de Goethe, o feminino representa o desejo sublimado, o que é proclamado por um coro místico: "O Eterno Feminino atrai-nos para o Alto." 
Em muitas cogitações filosóficas, antropológicas ou místicas, a mulher está mais li­gada do que o homem à alma do mundo, às primeiras forças elementares, e é através dela que o homem comunga dessas forças, encontrando no Amor a grande força cósmica. 
A Virgem-Mãe, Nossa Senhora, é uma encarnação evidente do tema. O Feminino autên­tico e puro é, por excelência, uma energia luminosa e casta, portadora de coragem, de ideal e de bondade a que recorremos em oração e, amiúde, em desespero de causa, clamando pela mãe. Por vezes, escrevem-se canções com esse fito... 
Para Jung, o feminino personifica as tendências psicológicas femininas na psique do homem, como, por exemplo, senti­mentos e humores instáveis, intuições proféticas, sensibilidade face ao irracional, capacidade de amar, a faculdade de sentir a natureza e, finalmente, as relações com o inconsciente.
Se foi nisto que o Jorge Palma pensou quando escreveu, por exemplo, o refrão da "Canção de Lisboa", ou o Fausto, quando redigiu o poema da canção "Ó Mar", que obviamente inspira a segunda e a terceira estrofes, não faço ideia, mas certo é que o José Mário Branco tocou a ferida universal quando descambou num pranto doloroso à mãe já na parte final da épica canção "FMI", à qual roubei palavras que adaptei para a última estrofe e último refrão da minha canção "Mãe".


* Mãe - letra *

Meto à boca o pão
seco, duro como pedra, amor
que não me deste a...
beber do teu suor
o sal da vida salga
a ferida eterna e universal
Sou mais do que animal,
mais que a fera parida
- Mãe -

O que o tempo esqueceu
leva que hei-de voltar ao mar
profundo de um sono meu
Eu sou como quem vem
desamparado pra regressar
ao fundo ventre da mãe
Sou mais do que animal,
mais que a fera parida

- Mãe -

Sou algo que é só meu,
faço comigo o que quiser
Desde que haja amor?
- Amor não dá de comer
Não posso desnascer,
ir embora sem ter de ir embora,
sou deste tempo,
entre fugir de me encontrar
e me encontrar fugindo

- Mãe -

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segunda-feira, março 23, 2020

A canção do meu Pai

Compus e gravei esta canção para o meu pai quando era seu cuidador. O "Naninho" (como eu lhe chamava nestes últimos anos) acompanhou todo o processo, em casa comigo, ao longo de largas horas de prática e gravação, especialmente durante a noite. Apesar da demência, entoou a canção, bateu o pé e meneou a cabeça quando a masterizei e lha mostrei nos phones. Hoje, que o meu pai chegou à sua morada definitiva, divulgo pela segunda vez a canção que fiz só para ele em 2014. Devo ainda mencionar a colaboração do meu querido e velho amigo Nuno 'Dino' Rodrigues, que me recebeu em sua casa, no seu estúdio caseiro, para gravarmos o coro.

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quarta-feira, abril 10, 2019

Anno XIV - O Jantar


Pela segunda vez nos 14 anos de existência do Caderno de Corda, O Jantar anual realizou-se em data posterior à data da celebração do aniversário do blogue (27 de Março), uma vez que este vosso fiel escriba tinha viagem marcada para estadia de uma semana em Fez, Marrocos – viagem que não se concretizou por medida profiláctica, tendo em conta um súbito estado febril da minha Rosarinho. Assim, foi definido inicialmente o dia 1 de Abril, de imediato alterado para dia 2 de Abril para que o Grão-Mestre Cordiano Ricardo Pinto pudesse estar presente, na companhia da querida Mestre Sofia Damião.
Como sempre no restaurante A Valenciana e dedicado aos indefectíveis Irmãos cordianos e estimados leitores, O Jantar viu introduzidas algumas novidades nesta edição, sendo certo que quase todas se consubstanciam no vídeo que enceta o presente post e que introduz o novel poema “Quartus Decimus”. Aqui apresentado em estreia absoluta, “Quartus Decimus” resulta da escolha aleatória e da reorganização de versos extirpados do livro “Sétima-Feira” (2012).
Com recurso a um intrincado mecanismo numerológico de cálculo por página e linha, a interpretação estética à luz da sequência de Fibonacci e a uma avançada técnica de pot-pourri, “Quartus Decimus” é, em primeira análise, formado pelos estimados confrades d’ O Jantar. Cada qual escolheu um número de página, um número de linha e leu para a câmara o verso que lhe coube em sorte. Os maestros da composição são, no entanto, John Cage (Sonata I) e Iannis Xenakis (Pléiades). A câmara e parte significativa das fotos são do Grão-Mestre Ricardo Pinto. Bem vistas as coisas, não precisei de fazer nada. Fizeram tudo por mim.

Eis o poema:
Quartus Decimus
Último e primeiro por Saturno,
o Grande Chef tem a mesa posta pelos seus criados,
apóstolos, anjos, autores do mais fantástico romance.
A voz, ao nascer, caminha sobre um espelho partido.
Um puto de boné do Benfica chuta torto
e a bola aloja-se debaixo do banco.
Os pássaros cantam no escuro
e sou uma espécie de capricho,
uma epiderme granítica de seixos
que escondera outra cidade.
Posso convocar dos confins subterrâneos
os átomos das pessoas desaparecidas.
A erva-moura tem dons de terapia.
Esperança é coisa com penas que canta sem palavras;
montar uma tenda junto à praia
e deixar ir o carro em ponto morto, ir,
e de nada me valia saber no exacto instante.
Tu sabes que um sorriso falso nos esmorece.
Se eu morrer antes, sobrevive-me.
Talvez o fim seja um começo.
O dinheiro continua a ser papel. 

Além de notadas ausências – algumas das quais de última hora, como a do Grão-Mestre João Trigo -, sublinhe-se a do Grão-Mestre João Pimenta, que, este ano, apesar da permanência em Sines, quase teria marcado presença em virtude do expectável nascimento da sua terceira filha por estes dias, em Lisboa, mas tal acabou por não ser possível dada a fixação do dia do nascimento para momento posterior, tendo o Pimenta regressado a Sines à data d’ O Jantar. Podemos assim espalhar a feliz notícia em primeira mão do nascimento da doce Maria Francisca Pimenta, mas no dia 8 de Abril de 2019 ao meio-dia.
No capítulo das estreias, contámos pela primeira vez com a querida Inês Sampaio Soeiro e com o meu velho e talentosíssimo amigo "algarvio" Nuno “Corado” Quaresma, companheiro de aventuras incontáveis no final do século passado em Armação de Pera, reencontrado casualmente por intermédio do amigo comum e Intendente Cordiano Rui Jacinto. Uma vez da Confraria, sempre da Confraria. 
No final da noite juntou-se a nós o Mestre do Tabernáculo Rui Pina, saído de um dos muitos ensaios pós-laborais da sua agenda, ainda a tempo de devorar um prego bem passado. Os últimos cartuchos foram queimados no exterior, na companhia dos sublimes comendadores da Loja Cruz Quebrada – Ricardo Tomás, Rui Pina, Hugo Dantas e Ricardo Pinto.

Este blogue é e continuará a ser o meu fiel depositório criativo. 

Daqui a um ano, no mesmo sítio, à mesma hora.

ASSIM foi. Assim seja.

Legenda aleatória: Gustavo Silva, Ricardo Pinto, Hugo Simões, César da Silveira, Miguel Leão Miranda, Rui Jacinto, João Barroso, Simone Palma Mezzomo, Inês Sampaio Soeiro, Nuno Quaresma (Corado), Miguel Pereira, Ricardo Tomás, Hugo Dantas e Sofia Damião. A Rita Franchi, o Rui Pedro Costa e as suas queridas meninas vieram, como vem sendo habitual, para nos dar o prazer da sua companhia antes e ao início d' O Jantar. O Rui Pina chegou depois, ainda a tempo de desmanchar um prego.

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