terça-feira, setembro 30, 2025

Vilanela do Pão Repartido

Uns vivem de sobra, outros de nada.
Champanhe do tecto, seco o lameiro.
Do pão repartido vem a alvorada.

O latifúndio sela a terra vedada;
a fortuna perpetua-se no herdeiro.
Uns vivem de sobra, outros de nada.

A luz cortada, a noite gelada;
febre de Inverno, fome em Janeiro.
Do pão repartido vem a alvorada.

À mesa comum, vida semeada –
da terra nasce um pacto verdadeiro.
Uns vivem de sobra, outros de nada.

A brasa do povo inflama a jornada;
a foice abre um amplo carreiro.
Do pão repartido vem a alvorada.

Terra, poema em seara bordada.
A aurora é pão aberto, mundo inteiro.
Uns vivem de sobra, outros de nada.
Do pão repartido vem a alvorada.

Vilanela integrante do "Tríptico de Vilanelas para o Século XXI",
por Jeremias Cabrita da Silva, in "Ars Poetica et Rebellis"
(Edições Cravo & Ferradura, 2027)

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sábado, setembro 27, 2025

Vilanela do Homem-Resíduo

Um turno é um túmulo a prestações.

app escraviza em tempo real.

Diz não colectivo: faz revoluções.


Cérebro rendido não cria opiniões;

corpo registado em chip digital.

Um turno é um túmulo a prestações.


Mente submersa em simulações,

juízes em púlpito virtual.

Diz não colectivo: faz revoluções.


Suor transcrito em frias equações,

métrica do lucro, saldo imoral.

Um turno é um túmulo a prestações.


Máquinas de versejar vãs canções,

tributo no altar do capital:

Diz não colectivo – faz revoluções.


O homem, cascalho das instituições,

jaz mero resíduo industrial.

Um turno é um túmulo a prestações.

Diz não colectivo: faz revoluções.


Vilanela integrante do "Tríptico de Vilanelas para o Século XXI",
por Jeremias Cabrita da Silva, in "Ars Poetica et Rebellis"
(Edições Cravo & Ferradura, 2027)

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segunda-feira, setembro 22, 2025

Vilanela do Tempo Vendido

Vendemos o tempo: o tempo é a vida.
O lucro é do dono; nossa a clausura.
Rompe a corrente, fecha a ferida.

A vida em contrato nasce perdida.
À mesa vazia chega a factura.
Vendemos o tempo: o tempo é a vida,

trocada por promessa falida.
Os juros, os impostos, a usura.
Rompe a corrente, fecha a ferida.

Forja, turno, vida consumida.
A luta do justo rompe a sutura.
Vendemos o tempo: o tempo é a vida.

Só a desobediência enche a medida.
Ordem do medo: a ditadura.
Rompe a corrente; fecha a ferida.

A lei do tirano é letra corrompida.
Rasga o contrato: força a ruptura.
Vendemos o tempo – o tempo é a vida:
Rompe a corrente, fecha a ferida.

Vilanela integrante do "Tríptico de Vilanelas para o Século XXI", 
por Jeremias Cabrita da Silva, in "Ars Poetica et Rebellis"
(Edições Cravo & Ferradura, 2027)

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