segunda-feira, abril 25, 2022

Publicação da crónica d'O Jantar brevemente

Desenho do Mestre Nuno "Corado" Quaresma. 23 de Abril de 2022.
 
A publicação da crónica d'O Jantar está para breve. Desejavelmente, seria hoje, dia 25 de Abril, que o Caderno de Corda daria a conhecer o que foi O Jantar ao passar deste XVII Anno de blogue. São numerosas as fotos que ilustram a Fraternidade Cordiana, desde logo pelo empenho do Grão-Mestre Ricardo Pinto, que proverbialmente assume as despesas do registo fotográfico do evento. Este foi O Jantar da Libertação - a libertação legalista do grilhão icónico e paradigmático da pandemia (a máscara) na antevéspera da comemoração da madrugada mais clara; da alvorada da Liberdade. 

Passaram-se dois anos consecutivos sem que pudéssemos concretizar O Jantar, ao longo dos quais nos cercearam direitos e liberdades, nomeadamente de reunião. Digamos pouco agora. Tivemos a madrugada esperada e um dia limpo para emergir da noite e do silêncio. Livres habitámos a substância do tempo. Grato a Sophia de Mello Breyner Andresen por um simples verso, tão adequado às circunstâncias. Cravos para todos! O Caderno de Corda não vergará. 'Té já.

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quarta-feira, abril 25, 2012

25 de Abril - Um Olhar Para a Memória, 30 anos depois



"A revolução, se quiser resistir, deve permanecer revolução. Se se transforma em governo, já está falida... Os lugares que deixaram de ter uma revolução permanente recuperaram a tirania."

in "Aprire il Fuoco", L. Bianciardi (1922-1971)

Oito anos depois chega à Web o documentário fotográfico em filme que realizei em 2004 a propósito do trigésimo aniversário do 25 de Abril de 1974, quando pensava ter perdido definitivamente o seu registo, produzido no âmbito dos trabalhos da cadeira de Fotojornalismo, curso de Comunicação Social da Universidade Autónoma de Lisboa (UAL), leccionada por Luiz Carvalho.
Reencontrei uma cópia do original há dias, durante arrumações, e finalmente pude salvar a empreitada a que me dei, contando com a dádiva genial e incansável do excelente fotógrafo e jornalista Tiago Valente, meu prezado amigo cujo rasto perdi há uma mão cheia de anos, no seu regresso de Roma. É de elementar justiça referir que o Tiago fez a maior parte das fotos que posteriormente seleccionei para a composição narrativa.
Sem pregar olho nessa noite, eu e o Tiago encontrámo-nos para fotografar, 30 anos depois, in loco, desde a alta madrugada, o ponto de chegada de Salgueiro Maia a Lisboa, à hora exacta, até final do dia, calcorreados entretanto os caminhos e os palcos fulcrais, replicados, de um golpe de Estado absorvido, como que por osmose, por uma revolução dos cravos nascida da natureza da participação popular verificada. O trabalho foi misturado nos estúdios da UAL por Ricardo Sant'Ana e Hugo Simões a contra-relógio, com Carlos Paredes como pano de fundo. Adverte-se que, num olhar prismático, o 25 de Abril de 2004 pode eventualmente parecer tão ou mais longínquo do que o outro, de 74.
Mais uma vez, concluo levando de empréstimo uma frase de Zeca Afonso e, por fim, um poema do Grande Mestre Jorge de Sena. "Para se ser cidadão era necessário mais alguma coisa do que meter um voto numa urna."


"NÃO, NÃO, NÃO SUBSCREVO,..."

(JORGE DE SENA)

Não, não, não subscrevo, não assino
que a pouco e pouco tudo volte ao de antes,
como se golpes, contra-golpes, intentonas
(ou inventonas - armadilhas postas
da esquerda prá direita ou desta para aquela)
não fossem mais que preparar caminho
a parlamentos e governos que
irão secretamente pôr ramos de cravos
e não de rosas fatimosas mas de cravos
na tumba do profeta em Santa Comba,
enquanto pra salvar-se a inconomia
os empresários (ai que lindo termo,
com tudo o que de teatro nele soa)
irão voltar testas de ferro do
capitalismo que se usou de Portugal
para mão-de-obra barata dentro ou fora.
Tiveram todos culpa no chegar-se a isto:
infantilmente doentes de esquerdismo
e como sempre lendo nas cartilhas
que escritas fedem doutras realidades,
incompetentes competiram em
forçar revoluções, tomar poderes e tudo
numa ânsia de cadeiras, microfones,
a terra do vizinho, a casa dos ausentes,
e em moer do povo a paciência e os olhos
num exibir-se de redondas mesas
em televisas barbas de falácia imensa.
E todos eram povo e em nome del' falavam,
ou escreviam intragáveis prosas
em que o calão barato e as ideias caras
se misturavam sem clareza alguma
(no fim das contas estilo Estado Novo
apenas traduzido num calão de insulto
ao gosto e à inteligência dos ouvintes-povo).
Prendeu-se gente a todos os pretextos,
conforme o vento, a raiva ou a denúncia,
ou simplesmente (ó manes de outro tempo)
o abocanhar patriótico dos tachos.
Paralisou-se a vida do país no engano
de que os trabalhadores não devem trabalhar
senão em agitar-se em demandar salários
a que tinham direito mas sem que
houvesse produção com que pagá-los.
Até que um dia, à beira de uma guerra
civil (palavra cómica pois que do lume os militares seriam quem tirava
para os civis a castanhinha assada),
tudo sumiu num aborto caricato
em que quase sem sangue ou risco de infecção
parteiras clandestinas apararam
no balde da cozinha um feto inexistente:
traindo-se uns aos outros ninguém tinha
(ó machos da porrada e do cacete)
realmente posto o membro na barriga
da pátria em perna aberta e lá deixado
semente que pegasse (o tempo todo
haviam-se exibido eufóricos de nus,
às Africas e às Europas de Oeste e Leste).
A isto se chegou. Foi criminoso?
Nem sequer isso, ou mais do que isso um guião
do filme que as direitas desejavam,
em que como num jogo de xadrez a esquerda
iria dando passo a passo as peças todas.
É tarde e não adianta que se diga ainda
(como antes já se disse) que o povo resistiu
a ser iluminado, esclarecido, e feito
a enfiar contente a roupa já talhada.
Se muita gente reagiu violenta
(com as direitas assoprando as brasas)
é porque as lutas intestinas (termo
extremamente adequado ao caso)
dos esquerdismos competindo o permitiram.
Também não vale a pena que se lave
a roupa suja em público: já houve
suficiente lavar que todavia
(curioso ponto) nunca mostrou inteira
quanta camisa à Salazar ou cueca de Caetano
usada foi por tanto entusiasta,
devotamente adepto de continuar ao sol
(há conversões honestas, sim, ai quantos santos
não foram antes grandes pecadores).
E que fazer agora? Choro e lágrimas?
Meter avestruzmente a cabeça na areia?
Pactuar na supremíssima conversa
de conciliar a casa lusitana,
com todos aos beijinhos e aos abraços?
Ir ao jantar de gala em que o Caetano,
o Spínola, o Vasco, o Otelo e os outros,
hão-de tocar seus copos de champanhe?
Ir já fazendo a mala para exílios?
Ou preparar uma bagagem mínima
para voltar a ser-se clandestino usando
a técnica do mártir (tão trágica porque
permite a demissão de agir-se à luz do mundo,
e de intervir directamente em tudo)?
Mas como é clandestina tanta gente
que toda a gente sabe quem já seja?
Só há uma saída: a confissão
(honesta ou calculada) de que erraram todos,
e o esforço de mostrar ao povo (que
mais assustaram que educaram sempre)
quão tudo perde se vos perde a vós.
Revolução havia que fazer.
Conquistas há que não pode deixar-se
que se dissolvam no ar tecnocrata do oportunismo à espreita de eleições.
Pode bem ser que a esquerda ainda as ganhe,
ou pode ser que as perca. Em qualquer caso,
que ao povo seja dito de uma vez
como nas suas mãos o seu destino está
e não no das sereias bem cantantes
(desde a mais alta antiguidade é conhecido
que essas senhoras são reaccionárias,
com profissão de atrair ao naufrágio o navegante intrépido).
Que a esquerda nem grite, que está rouca, nem invente
as serenatas para que não tem jeito.
Mas firme avance, e reate os laços rotos
entre ela mesma e o povo (que não é
aqueles milhares de fiéis que se transportam
de camioneta de um lugar pró outro).
Democracia é isso: uma arte do diálogo
mesmo entre surdos. Socialismo à força
em que a democracia se realiza.
Há muito socialismo: a gente sabe,
e quem mais goste de uns que dos outros.
É tarde já para tratar do caso: agora
importa uma só coisa - defender
uma revolução que ainda não houve,
como as conquistas que chegou a haver
(mas ajustando-as francamente à lei
de uma equidade justa, rechaçando
o quanto de loucuras se incitaram
em nome de um poder que ninguém tinha)
E vamos ao que importa: refazer
um Portugal possível em que o povo
realmente mande sem que o só manejem,
e sem que a escravidão volte à socapa
entre a delícia de pagar uma hipoteca
da casa nunca nossa e o prazer
de ter um frigorifico e automóveis dois.
Ah, povo, povo, quanto te enganaram
sonhando os sonhos que desaprenderas!
E quanto te assustaram uns e outros,
com esses sonhos e com o medo deles!
E vós, políticos de ouro de lei ou borra,
guardai no bolso imagens de outras Franças,
ou de Germânias, Rússias, Cubas, outras Chinas,
ou de Estados Unidos que não crêem
que latinada hispânica mereça
mais que caudilhos com contas na Suíça.
Tomai nas vossas mãos o Portugal que tendes
tão dividido entre si mesmo. Adiante.
Com tacto e com firmeza. E com esperança.
E com um perdão que há que pedir ao povo.
E vós, ó militares, para o quartel
(sem que, no entanto, vos deixeis purgar
ao ponto de não serdes o que deveis ser:
garantes de uma ordem democrática
em que a direita não consiga nunca
ditar uma ordem sem democracia).
E tu, canção-mensagem, vai e diz
o que disseste a quem quiser ouvir-te.
E se os puristas da poesia te acusarem
de seres discursiva e não galante
em graças de invenção e de linguagem,
manda-os àquela parte.
Não é tempo para tratar de poéticas agora.


Santa Bárbara, Fevereiro de 1976
(aniversário de uma tentativa heróica de conter uma noite que duraria décadas)
(de Quarenta Anos de Servidão, 1979)

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terça-feira, outubro 18, 2011

O meu 15 de Outubro de 2011 em Lisboa / My 15th of October 2011 in Lisbon

sexta-feira, março 25, 2011

Portugal Agora

Segundo dados de um estudo recente da Eurosondagem, 77% dos portugueses não se revê nos actuais partidos políticos nem acredita na política partidária. 73% de entre estes cépticos considera que a política partidária se move por interesses particulares e não por interesses nacionais, e 80% entende que deveria ser possível a candidatura de independentes nas legislativas.
Nas eleições presidenciais de 2011 a abstenção atingiu o valor recorde de 53,48% e nas legislativas de 2009 chegou aos 40,26%. Em paralelo, Portugal soma cerca de 668 mil desempregados, contando quem não se deslocou aos centros de emprego para inquérito e que, por isso, foi catalogado como inactivo. É este o número que melhor mede as consequências sociais da crise económica e financeira em Portugal.
200 mil dos desempregados têm menos de 34 anos - um terço dos quais licenciados, segundo números oficiais. 1,5 milhão está em situação precária ou intermitente, sem protecção social e em situação de precariedade. 500 euros é o ordenado médio desta geração, independentemente do mérito, da experiência ou das habilitações académicas. Mas a precariedade é transversal a várias gerações. Entre os mais velhos, um processo de desemprego significa ser novo demais para deixar o emprego e velho demais para voltar ao circuito do mercado de trabalho. Contudo, o problema não passa apenas pela falta de emprego, mas pela exploração determinada da força de trabalho; dos trabalhadores.
Cada vez menos os portugueses se revêem no actual modelo político, assente nos partidos e nos políticos de carreira - um modelo caduco com mais de 200 anos, herdado da revolução francesa. A representatividade está em risco e a desesperança no futuro angustia as pessoas tanto ou mais do que as dificuldades quotidianas e tangíveis que hoje atravessam. A contaminação desta falta de fé, juntamente com o desemprego em massa e a precariedade, alimentam mais o medo do que a vontade de lutar.
O sentimento generalizado de que o sistema político vigente está falido ganha consubstanciação entre a população, que não se revê nem nos governantes nem na oposição. O voto perde significado e a classe política apresenta-se muitas vezes desligada da realidade do crescente eleitorado descontente. Nisto, a Segunda República Portuguesa continua a apresentar, em 37 anos, os mesmos intervenientes políticos desde o 25 de Abril de 1974, num País estrangulado numa geração – a melhor preparada de sempre - sem perspectivas de mobilidade social, de ascensão de carreira, de melhoria salarial e sequer de emprego.
A gestão do ensino e da formação são movidos por interesses descontextualizados do mercado de trabalho. Muitas empresas vivem dos estagiários, sem intenção de contratar, e o Estado não dá o exemplo. Uma sociedade que desperdiça a sua geração qualificada em troca de ganhos a curto prazo põe em causa o futuro, mas é neste viciado e difícil contexto que grassa também, entre a dita geração, a indignação e uma nova vaga de intervencionismo político com prioridades opostas - por vezes antagónicas - àquelas que vêm sendo aplicadas. Com uma agenda fracturante quanto às políticas levadas a cabo no passado, constata-se, País fora, uma nova tomada de consciência: já não basta ao povo estar desperto e discutir as soluções que outros formulam para os seus problemas – há que partir da sociedade civil para o combate político, sob a forma de movimentos cívicos organizados local e regionalmente.
É por isso que nós, cidadãos que lutam por um Portugal honesto, justo e mais participativo, percebendo não haver alternativa senão intervir politicamente, da e para a sociedade civil, das e pelas pessoas, e renunciando a interesses outros que não os da população, nos devemos propor jogar o jogo político, ganhá-lo e então mudá-lo. Por dentro.

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quarta-feira, março 09, 2011

Videoclip de "Tecto de Abrir", agora legendado

segunda-feira, março 07, 2011

Videoclip de "Tecto de Abrir"


Este é o meu segundo videoclip e sem dúvida o mais oportuno. A canção "Tecto de Abrir", escrita, gravada e apresentada AQUI, no Caderno de Corda, em Abril de 2008, teve então como mote a contestação a um conjunto de medidas tomadas pelo Governo que conduziram a profundos e inesperados cortes ao anterior Incentivo ao Arrendamento Jovem (IAJ), subitamente transformado em Porta 65.
Como breve beneficiário do IAJ que fui, dei o meu contributo à luta e ofereci a canção ao movimento cívico Porta 65 Fechada, que venceu entretanto muitas batalhas, mas não a guerra. "Tecto de Abrir" foi, pois, uma canção de protesto e de crítica declarada à política do Governo, que não hesitou pôr em causa um dos pilares do Estado-providência no seu âmago - o direito à habitação -, mais uma vez pervertendo e entorpecendo toda a lógica de apoio à emancipação dos jovens. AQUI pode ler-se o texto que, no blogue do movimento, apresenta "Tecto de Abrir" como a sua canção de protesto - uma canção que ressoou então pelas ruas de Lisboa e Porto em manifestações do Porta 65 Fechada, como ESTA, e que permanece disponível para audição no blogue do movimento.
Devo acrescentar que o videoclip de "Tecto de Abrir", que aqui se estreia, foi realizado por mim em software gratuito com recurso a imagens ilicitamente obtidas do YouTube. Compus e gravei integralmente a música em casa (música, letra, baixo, guitarras, vozes, gravação, produção e masterização) num modesto fourtrack digital de quatro pistas, como, aliás, melhor se pode ler no post de lançamento da canção.
Muito obrigado a todos os que, pelo seu trabalho, nomeadamente jornalistas, editores de imagem, operadores de câmara, entre outros, muitos deles da esfera do audiovisual, tornaram o videoclip de "Tecto de Abrir" possível. Hoje declaro oferecido este vídeo ao manifesto e dado o corpo à manifestação. Abrir asas e voar. Ejectar.

n. b. - Porque a audição da música é prejudicada pela má qualidade do som pós-upload no YouTube, segue abaixo um player que remete para a mesma, com melhor qualidade de audição, embora num MP3 fraco, é certo. Mas quem quiser pode, sem procurar muito, fazer o download desta e doutras canções.



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quinta-feira, março 03, 2011

Em 1984...

sábado, abril 25, 2009

:R.

Ainda não é desta que assinalo o dia do golpe de Esta... er... quero dizer... Revolução com a publicação de um documentário fotográfico em filme que realizei em 2004, pelo trigésimo aniversário do 25 de Abril de 1974... Pedi há já longo tempo a um amigo para converter o filme em formato adequado, de modo a que eu pudesse fazer o respectivo upload no You Tube, mas o encontro ainda não foi possível, apesar de morarmos tão perto!...
O famigerado filme teve a genial e indispensável contribuição do excelente fotógrafo e jornalista Tiago Valente, meu bom amigo, recentemente regressado de Roma, onde permaneceu nos últimos dois ou três anos.
As três fotografias que aqui publico - não demonstrativas do intenso trabalho fotográfico que eu e o Tiago fizemos desde as 5 horas da manhã até às 20 da noite de há cinco anos - foram recuperadas de um conjunto de CD's dos quais apenas consigo aceder ao breve conteúdo de um...
Em cima, uma das muitas centenas de fotos do Tiago Valente, esta no Largo do Carmo (creio que tirámos, os dois, mais de duas mil); a meio, uma foto minha, no Terreiro do Paço a alvorecer, e, em baixo, eu mesmo, fotografado pelo Tiago, quando disparava a foto do meio.
Termino, levando de empréstimo uma frase de Zeca Afonso lida hoje no Poesia Distribuída na Rua e, por fim, um poema do Grande Mestre Jorge de Sena. "Para se ser cidadão era necessário mais alguma coisa do que meter um voto numa urna."
«NÃO, NÃO, NÃO SUBSCREVO,...»
(JORGE DE SENA)
Não, não, não subscrevo, não assino
que a pouco e pouco tudo volte ao de antes,
como se golpes, contra-golpes, intentonas
(ou inventonas - armadilhas postas
da esquerda prá direita ou desta para aquela)
não fossem mais que preparar caminho
a parlamentos e governos que
irão secretamente pôr ramos de cravos
e não de rosas fatimosas mas de cravos
na tumba do profeta em Santa Comba,
enquanto pra salvar-se a inconomia
os empresários (ai que lindo termo,
com tudo o que de teatro nele soa)
irão voltar testas de ferro do
capitalismo que se usou de Portugal
para mão-de-obra barata dentro ou fora.
Tiveram todos culpa no chegar-se a isto:
infantilmente doentes de esquerdismo
e como sempre lendo nas cartilhas
que escritas fedem doutras realidades,
incompetentes competiram em
forçar revoluções, tomar poderes e tudo
numa ânsia de cadeiras, microfones,
a terra do vizinho, a casa dos ausentes,
e em moer do povo a paciência e os olhos
num exibir-se de redondas mesas
em televisas barbas de falácia imensa.
E todos eram povo e em nome del' falavam,
ou escreviam intragáveis prosas
em que o calão barato e as ideias caras
se misturavam sem clareza alguma
(no fim das contas estilo Estado Novo
apenas traduzido num calão de insulto
ao gosto e à inteligência dos ouvintes-povo).
Prendeu-se gente a todos os pretextos,
conforme o vento, a raiva ou a denúncia,
ou simplesmente (ó manes de outro tempo)
o abocanhar patriótico dos tachos.
Paralisou-se a vida do país no engano
de que os trabalhadores não devem trabalhar
senão em agitar-se em demandar salários
a que tinham direito mas sem que
houvesse produção com que pagá-los.
Até que um dia, à beira de uma guerra
civil (palavra cómica pois que do lume os militares seriam quem tirava
para os civis a castanhinha assada),
tudo sumiu num aborto caricato
em que quase sem sangue ou risco de infecção
parteiras clandestinas apararam
no balde da cozinha um feto inexistente:
traindo-se uns aos outros ninguém tinha
(ó machos da porrada e do cacete)
realmente posto o membro na barriga
da pátria em perna aberta e lá deixado
semente que pegasse (o tempo todo
haviam-se exibido eufóricos de nus,
às Africas e às Europas de Oeste e Leste).
A isto se chegou. Foi criminoso?
Nem sequer isso, ou mais do que isso um guião
do filme que as direitas desejavam,
em que como num jogo de xadrez a esquerda
iria dando passo a passo as peças todas.
É tarde e não adianta que se diga ainda
(como antes já se disse) que o povo resistiu
a ser iluminado, esclarecido, e feito
a enfiar contente a roupa já talhada.
Se muita gente reagiu violenta
(com as direitas assoprando as brasas)
é porque as lutas intestinas (termo
extremamente adequado ao caso)
dos esquerdismos competindo o permitiram.
Também não vale a pena que se lave
a roupa suja em público: já houve
suficiente lavar que todavia
(curioso ponto) nunca mostrou inteira
quanta camisa à Salazar ou cueca de Caetano
usada foi por tanto entusiasta,
devotamente adepto de continuar ao sol
(há conversões honestas, sim, ai quantos santos
não foram antes grandes pecadores).
E que fazer agora? Choro e lágrimas?
Meter avestruzmente a cabeça na areia?
Pactuar na supremíssima conversa
de conciliar a casa lusitana,
com todos aos beijinhos e aos abraços?
Ir ao jantar de gala em que o Caetano,
o Spínola, o Vasco, o Otelo e os outros,
hão-de tocar seus copos de champanhe?
Ir já fazendo a mala para exílios?
Ou preparar uma bagagem mínima
para voltar a ser-se clandestino usando
a técnica do mártir (tão trágica porque
permite a demissão de agir-se à luz do mundo,
e de intervir directamente em tudo)?
Mas como é clandestina tanta gente
que toda a gente sabe quem já seja?
Só há uma saída: a confissão
(honesta ou calculada) de que erraram todos,
e o esforço de mostrar ao povo (que
mais assustaram que educaram sempre)
quão tudo perde se vos perde a vós.
Revolução havia que fazer.
Conquistas há que não pode deixar-se
que se dissolvam no ar tecnocrata do oportunismo à espreita de eleições.
Pode bem ser que a esquerda ainda as ganhe,
ou pode ser que as perca. Em qualquer caso,
que ao povo seja dito de uma vez
como nas suas mãos o seu destino está
e não no das sereias bem cantantes
(desde a mais alta antiguidade é conhecido
que essas senhoras são reaccionárias,
com profissão de atrair ao naufrágio o navegante intrépido).
Que a esquerda nem grite, que está rouca, nem invente
as serenatas para que não tem jeito.
Mas firme avance, e reate os laços rotos
entre ela mesma e o povo (que não é
aqueles milhares de fiéis que se transportam
de camioneta de um lugar pró outro).
Democracia é isso: uma arte do diálogo
mesmo entre surdos. Socialismo à força
em que a democracia se realiza.
Há muito socialismo: a gente sabe,
e quem mais goste de uns que dos outros.
É tarde já para tratar do caso: agora
importa uma só coisa - defender
uma revolução que ainda não houve,
como as conquistas que chegou a haver
(mas ajustando-as francamente à lei
de uma equidade justa, rechaçando
o quanto de loucuras se incitaram
em nome de um poder que ninguém tinha)
E vamos ao que importa: refazer
um Portugal possível em que o povo
realmente mande sem que o só manejem,
e sem que a escravidão volte à socapa
entre a delícia de pagar uma hipoteca
da casa nunca nossa e o prazer
de ter um frigorifico e automóveis dois.
Ah, povo, povo, quanto te enganaram
sonhando os sonhos que desaprenderas!
E quanto te assustaram uns e outros,
com esses sonhos e com o medo deles!
E vós, políticos de ouro de lei ou borra,
guardai no bolso imagens de outras Franças,
ou de Germânias, Rússias, Cubas, outras Chinas,
ou de Estados Unidos que não crêem
que latinada hispânica mereça
mais que caudilhos com contas na Suíça.
Tomai nas vossas mãos o Portugal que tendes
tão dividido entre si mesmo. Adiante.
Com tacto e com firmeza. E com esperança.
E com um perdão que há que pedir ao povo.
E vós, ó militares, para o quartel
(sem que, no entanto, vos deixeis purgar
ao ponto de não serdes o que deveis ser:
garantes de uma ordem democrática
em que a direita não consiga nunca
ditar uma ordem sem democracia).
E tu, canção-mensagem, vai e diz
o que disseste a quem quiser ouvir-te.
E se os puristas da poesia te acusarem
de seres discursiva e não galante
em graças de invenção e de linguagem,
manda-os àquela parte.
Não é tempo para tratar de poéticas agora.

Santa Bárbara, Fevereiro de 1976
(aniversário de uma tentativa heróica de conter uma noite que duraria décadas)
(de Quarenta Anos de Servidão, 1979)

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quinta-feira, maio 01, 2008

Honras sejam feitas!

O meu amigo Rui Almeida deu-me a satisfação e a honra de figurar na sua galeria de inúmeros e, muitos deles, notáveis poetas. O post encontra-se AQUI e foi publicado no blogue Poesia Distribuída na Rua, a 25 de Abril passado. O poema, "Grita, Liberdade!"
Este ano não assinalei, lamentavelmente, o dia do golpe de Esta... er... quero dizer... Revolução. Dos cravos. Falhei o prometido há um ano, sobre a publicação, a 25 de Abril, no Caderno de Corda, de um documentário fotográfico em filme que realizei pelo trigésimo aniversário da Revolução. O Rui salvou, assim, a minha face, assinalando por mim uma data que não queria deixar passar mudamente.
Acontece que ainda nem fiz o upload no YouTube. Pedi a um amigo para converter o filme em formato adequado - o que ele fez prontamente -, mas o encontro ainda não foi possível, apesar de morarmos tão perto!...
Vou mudar de estratégia: assim tenha a coisa na minha posse, faço o upload e toca a embutir aqui o player, mesmo que a data seja a mais inapropriada e longínqua daquela simbólica.
Por falar em "toca", e dando uma pirueta semiológica, o meu querido amigo T. atribuiu-me, na toca do Rato do Deserto, mais exactamente AQUI, um prémio piegas... Qualquer coisa como o glorioso laurel "Este blogue é um mimo". Parece que uma das regras sugere a passagem da honra a 50 (?!) blogues considerados "mimosos" ("ternurentos, simpáticos e agradáveis de se visitar").
Lamentavelmente, não me recordo de um único blogue "mimoso" que visite regularmente. Talvez por ser "mimoso"... Mas eu sei que o meu Irmão T., que me tramou anteontem com uma futebolada infernal que fez de mim guarda-redes quase após cinco minutos à Benfica de Artur Jorge, fez por bem. E ele refere-o: "Pela história, maturidade e evolução." Mais uma vez, obrigado pela honra (vindo de ti!) e por te teres lembrado deste valdevinos errante dos relvados sintéticos... Seu "mimoso"! :)

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segunda-feira, junho 18, 2007

Resultados da Sondagem Cordiana V: Portugal precisa de uma nova Revolução?

Chegado finalmente o tempo de analisar os resultados da votação na "Sondagem Cordiana V: Portugal precisa de uma nova Revolução?", comecemos pelo óbvio: Em 52 votos totais para 11 respostas possíveis de três tendências dominantes (afirmativa, contrária e "branca"), a maioria absoluta (55%) inclina-se para a ideia de que "Sim", o País precisa mesmo de um abanão. Mas não nos esqueçamos de que a Revolução deve permanecê-lo... Já lá vamos.
Assim sendo, dos 28 votos (55%) "revolucionários", 18 recaíram sobre a resposta "Sim, e temos o dever de utilizar as Novas Tecnologias de Informação para difundi-la" [n.d.r -a Revolução]. Esta foi, aliás, a resposta mais escolhida, correspondendo a uma percentagem de 35% do total. Ainda pela tendência afirmativa, registam-se seis votos (12%) em simplesmente "Sim", demonstrando que, independentemente das opções apresentadas, o propósito da mudança de rumo urgente é mais largo do que a estrada ou o traçado. Talvez porque é sempre necessário um português para que lhe sigam mais dois ou três (o que, dito assim, não poderia ser logicamente de outra forma), foram precisamente três (6%) os votos em "Sim, se todos nos unirmos por uma causa". De qualquer modo, metendo a minha colherada, atomizados como estamos nas grandes urbes, separados pelo trânsito, pela hora de ponta, pelo stress, pelo excesso, e até, diria, pelos telemóveis, como propagar uma ideia que nos una senão pelo uso das Novas Tecnologias de Comunicação - os blogues, por exemplo? Assinale-se ainda um voto solitário (2%) em "Sim, desde que em conformidade com outros países da UE" - a meu ver, uma resposta extremamente traiçoeira, visto ser a UE um sulco federativo inevitável na soberania nacional (e) popular, se me permitem a expressão tosca.
Adiante, pela perspectiva contrária ao inquirido, 10 votos (19%) somam o total genérico pela tendência do "Não". Com sete votos (13%), a resposta "Não, depois da primeira experiência, está visto que uma segunda não traria nada de bom" indicia talvez a profunda desilusão pelo que da "Revolução dos Cravos" resultou, sendo certo que os privilégios e as desigualdades se nos apresentam tão ou mais notórios que antes. No entanto, o mesmo erro não deve cometer-se duas vezes. Que o 25 de Abril de '74 tenha sido uma experiência ainda assim válida, identificados seus erros e, quem sabe, corrigidos um dia por empirismo e síntese dialéctica. Em terra de cegos...
Dois votos (4%) recaíram sobre a simplicidade do "Não" e apenas um (2%) na hipótese "Não, o povo não tem a mesma consciência política nem ideais revolucionários". Temos assim um não categórico, à semelhança dos desiludidos com o pós-25 de Abril, com um travo reaccionário ainda latente, como o pulsar do cão amestrado que não sabe senão fazer o que lhe pedem a troco de comida. Eis o espelho de muitos portugueses - projecção de si mesmos - aguado no fundo de um pires de tremoços, iguaria das iguarias enquanto não servirem camarão a acompanhar a mini.
Por fim, mas não de somenos importância, registam-se 14 votos (27%) na resposta "Voto em branco (o da lucidez...)", uma alusão óbvia à obra literária "Ensaio Sobre a Lucidez", de José Saramago, na qual se narra uma estória insólita mas extremamente interessante: Numa cidade - Lisboa, supõe-se -, capital de um país, em dia de eleições, 70% dos eleitores, cansados com a política vigente, votam em branco. Repetidas as eleições no domingo seguinte, o número de votos em branco ultrapassa os 80%. Receoso e desconfiado, o governo, ao invés de se interrogar sobre os motivos dos eleitores, desencadeia uma vasta operação policial para descobrir qual o foco infeccioso que está a minar a sua base política e eliminá-lo. É assim que se desencadeia um processo de ruptura violenta entre o poder político e o povo, cujos interesses aquele deve supostamente servir e não afrontar. Parafraseando a sinopse da Editorial Caminho, "Ensaio sobre a Lucidez (...) constitui uma representação realista e dramática da grande questão das democracias no mundo de hoje: serão elas verdadeiramente democráticas? Representarão nelas os cidadãos, os eleitores, um papel real, e não apenas meramente formal?"
A terminar, penso novamente em como seria interessante assistir a autárquicas brancas...

"A revolução, se quiser resistir, deve permanecer revolução. Se se transforma em governo, já está falida... Os lugares que deixaram de ter uma revolução permanente recuperaram a tirania."

in "Aprire il fuoco", L. Bianciardi (1922-1971)

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quarta-feira, maio 09, 2007

Está aberta a votação na "Sondagem Cordiana V: Portugal precisa de uma nova Revolução?" (clique aqui para acesso directo)

quinta-feira, maio 03, 2007

Com um pé numa galera e outro no fundo do mar...

sexta-feira, abril 27, 2007

E AGORA, meus amigos?

Excertos de "As Armas e o Povo", reportagem de Glauber Rocha (1974-75)

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quarta-feira, abril 25, 2007

25 de Abril Sempre

Cerco ao Quartel do Carmo, em Lisboa. 25 de Abril de 1974.

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Grândola, Vila Morena - 2.ª senha

"Grândola, Vila Morena" é a canção de Zeca Afonso escolhida pelo Movimento das Forças Armadas (MFA) para segunda senha de sinalização da Revolução dos Cravos. Composta como homenagem à "Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense", onde, no dia 17 de Maio de 1964, José Afonso actua e conhece o guitarrista Carlos Paredes - "o que esse bicho faz da guitarra", escreveria aos pais em carta -, "Grândola" passou no programa "Limite", da Rádio Renascença, às 0h20m do dia 25. Estava dado o sinal para o arranque das tropas mais afastadas de Lisboa e a confirmação de que a revolução ganhava terreno. Zeca havia ficado impressionado com a colectividade Grandolense, "um local obscuro, quase sem estruturas nenhumas, com uma biblioteca com claros objectivos revolucionários, uma disciplina generalizada e aceite entre todos os membros, o que revelava já uma grande consciência e maturidade políticas".

"Vivi o 25 de Abril numa espécie de deslumbramento. Fui para o Carmo, andei por aí... Estava de tal modo entusiasmado com o fenómeno político que nem me apercebi bem, ou não dei importância a isso de Grândola. Só mais tarde, com o 28 de Setembro, o 11 de Março, quando recomeçaram os ataques fascistas e a Grândola era cantada nos momentos de maior perigo ou entusiasmo, me apercebi bem de tudo o que ela significava - e, naturalmente, tive uma certa satisfação".

Zeca Afonso

Fontes:

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E Depois do Adeus - 1.ª senha

"E depois do Adeus" foi a canção que serviu de senha de início da revolução de 25 de Abril de 1974. Com letra de José Niza e música de José Calvário, foi escrita para ser interpretada por Paulo de Carvalho na 12.ª edição do Festival RTP da Canção, do qual tinha saído vencedora pouco tempo antes. Transmitida pelos Emissores Associados de Lisboa às 22h55m do dia 24 de Abril de 1974, "E depois do adeus" dava a ordem de partida dos quartéis. (Fonte: Wikipedia)

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