sexta-feira, novembro 06, 2026

Nona-Feira

Jorge Palma. Foto: LUSA, 2019


Aplaudimos-te até ao fim da estrada.

No ar, um aroma doce, floral.

Se te trago, levo também os que cantaste:

o velho no jardim, a que fazia amor com qualquer um,

o que fugiu, o que ficou à espera de um sinal.

Fui dar comigo numa vida que cantavas,

a preferir o amor ao longe, intacto,

sem lhe ocupar lugar na cama.

 

Na rua, um rastilho pedia lume a outro,

mãos em redor do isqueiro, corpos unidos pelo vento,

e uma moça atravessava a ponte a rir,

o vestido a fugir-lhe para o rio.

Lisboa tem os pés molhados de quem a lava ao amanhecer,

de quem vende as horas e volta sem dia.

A nona-feira chegará sem cumprir horário,

atrasada para o equinócio da Liberdade.

«Tu sabes», escreveste. Eu sei lá —

o que não sei viver, tiro de ouvido.

O que sei já mal me dá para uma vida inteira.

 

Ainda te chamava mestre quando me tiraste da plateia

e me devolveste versos onde encontraste gente

– o piano a atravessar a noite,

a levar ao colo a palavra dita de pé.

Se me deres o tom, perco a compostura

e deixo o corpo ir à frente,

sem decidir se é pecado.

A última vez esteve tão perto da próxima que não dei por ela.

Dá-me um minuto que não seja de silêncio,

vindo da rua, do ruído, de não ter sabido.

A alegria também sabe onde me dói.

 

Que ninguém te componha o colarinho,

a cair livre no modo como se é lembrado,

para fora da quadratura do retrato.

Dás a última sílaba a personagens sem canção,

com a vida a fugir pelas margens da biografia

e a dignidade de não ser exemplo para ninguém.

Trouxe de ti a má educação da esperança,

a eternidade interrompida por um copo caído,

de cabeça pousada num ombro amigo.

A tua voz ainda não sabe que morreste:

acabaste de me pedir lume

com a pronúncia da ternura

a encontrar a interjeição.

 

A cidade não sabe digerir a canção que lhe caiu no estômago;

devolve-a pelas frinchas das persianas.

Na madrugada, quem varre a rua assobia

um cansaço sem vocação para a derrota.

No bairro do amor há loiça suja, a conta da luz,

um disco que tem de ouvir-se do princípio ao fim

e o amor mal aprendido a fazer estragos

– a vontade toda em ponto morto,

passividade de fazer mal à saúde,

e eu, tão cheio de vida, a ver o que fazia com ela.

Na pauta, o teu pulso em contramão;

a nota a demorar-se; o corpo a perder a conta;

uma mão miúda a interromper a contabilidade do mundo.

Tão independente até me faltar um fósforo,

também eu pedi ternura sem delicadeza,

com ferocidade aflita por mansidão

e um jeito de gostar sem quarto próprio,

sem saber onde pousar as mãos.

 

A chuva apanhou-nos a rir do temporal

e uma canção deu-nos abrigo.

Também eu fui estrangeiro dentro de casa;

também eu dormi voltado para a parede;

também eu disfarcei o ridículo

com a coragem toda por usar;

também eu já pedi abrigo

e subi com o perfume dela,

descia o prédio à minha volta.

A outra tirou os brincos, sorriu

e pousou a tarde na cómoda.

 

Também eu pedi contas ao silêncio,

para não se acabarem as canções.

Dou voltas a um verso em que caibas

sem ficares do tamanho da minha falta.

 

Que dimensão existe além deste horizonte?

Um coro nasceu onde se mandava fazer silêncio,

sem dar à melancolia o governo do voo.

No ventre da baleia, começámos pelo eco.

Há sempre forma de chegar fora de horas,

ainda assim em tempo certo.

É nona-feira, faz-se tarde.

Tirei-te de ouvido na paisagem de um andaime

e abri um livro de páginas em branco.

 

Dedicado a Jorge Palma

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