terça-feira, setembro 08, 2026

Excelente Oportunidade

Cartaz imobiliário HABITRIA: T0 para arrendamento em Vale Mourão, Rio de Mouro, Sintra, por 1.170 €/mês.

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Poema-cartaz
por Jeremias Cabrita da Silva
in “Formas de Revolta”

(Edições Cravo & Ferradura, 2037)

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segunda-feira, agosto 24, 2026

Quantos [Somos (Precisos)]?

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Poema concreto
por Jeremias Cabrita da Silva
in “Formas de Revolta”
(Edições Cravo & Ferradura, 2037)

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domingo, agosto 23, 2026

Prova de Vida. Imagem gerada por inteligência artificial (DALL-E) a partir do poema-processo à portuguesa homónimo de Jeremias Cabrita da Silva.

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Prova de Vida

Prova de Vida

poema-processo à portuguesa

 

Vistos os autos

 

A parte dá por cumprido o que lhe coube

e requer reparação do que, cumprindo,

lhe coube desviver.

 

Factos provados

 

Resulta provado que a parte cumpriu

quanto lhe era exigível

pelo tempo que o dever lhe exigiu,

com zelo irrepreensível.

 

A parte permaneceu

porque sair lhe custaria

o sustento que a mantinha

e o de quem dela dependia.

 

A parte adiou-se

à promessa do dia inteiro,

sob pacto de reciprocidade.

A contraparte, sem paradeiro.

 

O tempo deixou no corpo prova,

a coluna inveterada, a insónia, a apneia,

a matéria falível da parte invertebrada,

o sono preso a respiração alheia.

 

Dos autos resulta que a parte adiou

o que em vida ainda continha

a faculdade de acontecer,

extinta na promessa que a diferia.

 

Fica assente que, por não subsistir em parte alguma,

o tempo decorrido não deixou matéria restitutiva.

 

Certifica-se, para os devidos efeitos,

que a parte se encontra viva.

 

Do direito

 

Assente, o zelo irrepreensível da parte

pode exceder o que lhe era exigido

sem acrescer ao direito devido.

Ainda que necessária à subsistência,

a permanência não se presume coactiva

se à parte não foi vedada a saída.

O pacto de reciprocidade invocado,

ainda que tenha ordenado o cumprimento,

não vincula a contraparte,

por constituir mera expectativa.

Demonstrados o dano e o nexo

entre o cumprimento da parte

e a perda que, no seu decurso,

se tornou definitiva,

não se tem por ilícita

a consequência lesiva

conforme à ordem normativa.

A perda só é demonstrável

quando já nada subsiste

que ainda seja reparável.

 

Decisão

 

Nestes termos, julga-se improcedente

o pedido de reparação,

absolvida a contraparte de obrigação.

Notifique-se.

Arquive-se.

 

A parte não se conformou.


Poema-processo à portuguesa
por Jeremias Cabrita da Silva
in "Livro de Reclamações"
(Edições Cravo & Ferradura, 2041)

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quinta-feira, agosto 06, 2026

Braço de Prata. Imagem gerada por inteligência artificial (DALL-E) a partir do jueju lusitano homónimo de Jeremias Cabrita da Silva.

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terça-feira, agosto 04, 2026

Braço de Prata

Dentro do morteiro,
por dentro do obus,
um papel por pólvora,
e a mãe deu à luz.
Jueju lusitano menor
(adaptação portuguesa, em redondilha menor, do jueju tradicional chinês)
por Jeremias Cabrita da Silva
in "Teoria Geral da Queda"
(Edições Gravidade, 2028)
José Saramago guardou a história de um obus que, durante a Guerra Civil de Espanha, não rebentou. Dentro, em vez de carga explosiva, havia um papel escrito em português: «Esta bomba não rebentará.» Supôs que talvez tivesse sido preparado por um operário da Fábrica de Braço de Prata, em Lisboa, que fornecia armamento ao exército de Franco. Saramago viria depois a perguntar por que razão nunca houve uma greve numa fábrica de armas. Antes da greve imaginada, teria já existido este valoroso acto anónimo de sabotagem. A história e a pergunta acabariam por desembocar em “Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas”, último romance de José Saramago, deixado inacabado e publicado postumamente em 2014.

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segunda-feira, julho 13, 2026

Achados e Perdidos da República. Imagem gerada por inteligência artificial (DALL-E) a partir do poema-inventário homónimo de Jeremias Cabrita da Silva.

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Achados e Perdidos da República

Achados e Perdidos da República
relação de bens por reclamar
Poema-inventário

I — Bens móveis encontrados em via pública
Natureza dos bens: móveis, achados na via pública.
Reclamante: não identificado.
Estado: sinais de uso e abandono.

Consta uma chave sem imóvel conhecido,
achada entre tendas e recibos de renda,
com raiva e ferrugem nos dentes.

Regista-se uma senha de atendimento,
encontrada em manhã fria, no bolso de um utente,
com chamada posterior ao falecimento.

Guarda-se uma ficha de escolha múltipla,
recolhida no recreio do colégio, preenchida a quadrícula
da cruz que nos cabe por resposta certa.

Recolhe-se uma luva de trabalho,
vinda de parte incerta, dedos curvados,
sem mão que a feche em punho cerrado.

Assinala-se um cartaz dobrado,
com palavras de ordem vincadas ao meio,
sem braços que o ergam do passeio.

Dá entrada um cravo sem lapela,
flor-rastilho de caule fino,
sem peito que o devolva ao perigo.

Averba-se um mapa rasgado,
com o Norte puído no vinco da dobra
e a estrada cortada na planta da obra.

No termo da relação, uma enxada de ferro gasto,
com o selo da cooperativa no cabo, em relevo,
à ordem de quem lavre sem pedir licença.

II — Bens comuns sem titular identificado
Natureza dos bens: de uso comum.
Reclamante: por constituir.
Estado: acesso condicionado.

Arrola-se uma parcela de chão fértil,
vedada à gente por monopólio ou abandono,
com a lavra cativa por excesso de dono.

Liquida-se um litro de água potável
pelo direito de não ter sede,
fiada como garantia de cobrança.

Reserva-se a sombra de um banco de praça,
sob licença comercial de esplanada,
com permanência sujeita a consumo mínimo.

Figura uma cela própria permanente,
contraída para fugir ao relento,
com a vida indexada a trinta anos.

Comparece outro número de utente
para triagem de corpo presente,
ainda vivo demais para ter vaga.

Indexa-se uma Alexandria sem cinzas,
a crédito, por tokens e assinatura
— pilhagem registada em factura.

Debita-se uma noite de sono
ao banco de horas em escala,
de prevenção, ao toque do dono.

Simula-se um filho por haver,
com um nome sem berço,
sem quarto onde caber.

III — Bens imateriais por reclamar
Natureza dos bens: imateriais, sem valor declarado.
Reclamante: desmobilizado.
Estado: inflamável.

Fica em acta a verdade sem consequência,
com prova bastante, nenhuma sentença,
até que a memória arda em audiência.

Afere-se o limiar do intolerável,
que da ruína comum faz coisa privada,
rasgando de indignação a vergonha.

É devolvida ao mandante a infâmia
de fabricar escassez e cobrar a culpa
a quem amassa o pão que lhe falta.

Dá-se por achada uma reclamação sem balcão,
não pela avaria, mas pela máquina inteira,
assinada por um povo sem nação.

Consigna-se o não em legítima defesa
ante a continência da lei à casta do saque;
ante a obediência, farda civil da rapina.

Apura-se um degrau ao fundo da queda,
o explorado a ensaiar-se capataz da ruína,
o magricela a empurrar o escanzelado.

Lavre-se termo de levantamento,
compareça por reclamante a rua arrancada
a ferros em riste e pedras da calçada.

Termo de guarda provisória

Aos bens constantes da relação
não se lhes dará abate ou alienação;
permanecem em guarda provisória,
à ordem de pessoa colectiva
sem firma, selo, capital, moratória.

Não prescreve a parte cativa.
Nada mais havendo a declarar,
resta tudo por levantar.

Poema-inventário
por Jeremias Cabrita da Silva
in "Livro de Reclamações"
(Edições Cravo & Ferradura, 2041)

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domingo, maio 24, 2026

II ServilivreS II. Imagem gerada por inteligência artificial (DALL-E) a partir do palíndromo reversível de Jeremias Cabrita da Silva.  

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II ServilivreS II

II ServilivreS II
palíndromo reversível de queda e retorno ↔ ↓↑
Lê-se da esquerda para a direita
e do avesso, da direita para a esquerda.
Lê-se de cima para baixo
e em retorno, de baixo para cima.

Lê-se em queda.
Vira-se do avesso.
Relê-se em retorno.
Livre do poder vil. Aura, rutura, rua. Livres, a rua somos. Sós, somos aura servil. Somos sós. Somos… – o breve verbo: Somos. Paz: zap! Livre, servil… servil é livres; livres é servil: servi livres. Até o poeta a rima mira e até o Papa poeta é. Rir, o breve verbo rir. Até o poder do povo é ovo podre do poeta. Paz: zap! O muro é o rumo, o teu gueto, o nó do dono, o copo no poço. O muro… rever o rumo. Adias a saída: remeter é temer o ano do não. Adias a data da saída. Livres. O muro. Remeter é temer o rumo servil. Paz: zap! Lei fiel. Erro comum ocorre. A lei… fiel a? Ó povo, pó! Livre temer; remeter vil. Livres? A corte. O corte é troco, é troca servil. Paz: zap! O lodo do dolo a casa saca. O nada dá dano; a base do teto desaba. A tropa à porta, o medo do demo, o rito: tiro à sacada da casa. Paz: zap! A torre da derrota, o rumo do muro, o rude e duro ódio do doido. Ato idiota. O lobo ama o bolo. Aí rufa a fúria. O trote torto, o treco certo. O terrível é ele vir reto. Livres. O muro. A greve verga o rumo servil. Paz: zap! Reviver, reler, reviver; rever para prever o muro, reviver o rumo, a rua, aura, a meta, tema, luz azul. O mito é ótimo. Servil, o muro. A greve verga. O rumo: livres. Paz: zap! Servil, a rua. Somos sós, somos aura, livres. Salta esse atlas. Reter e rever para prever e reter. Ó, e reter o mar é ter amor etéreo. Roma me tem amor, amada dama. O dia caído… A base desaba o voo do ovo. A dama cai acamada. Ame o poema. Livre-se, servil! Reviver!
↔ ↓↑
II ServilivreS II
palíndromo reversível de queda e retorno ↔ ↓↑
Reviver! Livre-se, servil! Ame o poema. A dama cai acamada. O voo do ovo. A base desaba. O dia caído, amada dama. Roma me tem amor. Ó, e reter o mar é ter amor etéreo. Reter e rever para prever e reter. Salta esse atlas. Servil, a rua. Somos sós, somos aura, livres. Paz: zap! Servil, o muro. A greve verga. O rumo: livres. O mito é ótimo. Luz azul. A meta: tema; a rua: aura. O muro… reviver o rumo, rever para prever. Reviver, reler, reviver. Paz: zap! Livres. O muro. A greve verga o rumo servil. O terrível é ele vir reto. O treco certo, o trote torto, aí rufa a fúria: o lobo ama o bolo. Ato idiota, ódio do doido, o rude e duro, o rumo do muro, a torre da derrota. Paz: zap! À sacada da casa, o rito: tiro. O medo do demo, a tropa à porta. A base do teto desaba. O nada dá dano; a casa saca o lodo do dolo. Paz: zap! Livres? A corte. O corte é troco, é troca servil. Livre temer; remeter vil. Ó povo, pó! A lei… fiel a? Erro comum ocorre: Lei fiel. Paz: zap! Livres. O muro. Remeter é temer o rumo servil. Adias a data da saída, o ano do não. Remeter é temer. Adias a saída. O muro… rever o rumo, o copo no poço, o nó do dono, o teu gueto: o muro é o rumo. Paz: zap! Até o poder do povo é ovo podre do poeta. Rir, o breve verbo rir, e até o Papa poeta é. A rima mira até o poeta. Servi livres. Livres é servil, servil é livres… Livre, servil… Paz: zap! Somos: o breve verbo. Somos sós. Somos livres, a rua somos. Sós, somos aura servil. Aura, rutura, rua livre do poder vil.
Palíndromo reversível
por Jeremias Cabrita da Silva
in "Teoria Geral da Queda"
(Edições Gravidade, 2028)

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quinta-feira, dezembro 11, 2025

Epigramas da Ordem. Imagem gerada por inteligência artificial (Sora) a partir do tríptico homónimo de Jeremias Cabrita da Silva.

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terça-feira, dezembro 09, 2025

Epigramas da Ordem


✧

Epigrama da Submissão Cognitiva

A linguagem já não significa: determina
A consciência move-se na órbita do comando


✧

Epigrama da Obsolescência

O pensamento foi automatizado.
O sujeito não pensa: é pensado.
O humano tornou-se obsoleto.


✧

Epigrama da Matriz Impronunciada

O mundo dobrou-se dentro do alfabeto
e o nome, sem boca para o dizer;
o verso, sem mão para o escrever,
cessaram de realizar a realidade.


Terceiro de três trípticos de "Epigramas",
por Jeremias Cabrita da Silva, in "Ars Poetica et Rebellis"
(Edições Cravo & Ferradura, 2027)

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sábado, novembro 29, 2025

Epigramas da Razão. Imagem gerada por inteligência artificial (Sora) a partir do tríptico homónimo de Jeremias Cabrita da Silva.

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quinta-feira, novembro 27, 2025

Epigramas da Razão


✧

Epigrama da Lei Universal


A lei interior precede o mundo.

Do silêncio fala o gesto claro.

Quem escuta vê o desamparo.

Quem vê ampara o moribundo.



✧

Epigrama da Lei Iníqua


Na mão do opulento a lei repousa,

servindo o grande, calando o fraco,

em clausulado arcano, opaco.

A injusta farsa em trono impune pousa.



✧

Epigrama da Desobediência Legítima


Quando a lei dita o que a justiça acusa,

cessa a virtude em quem se entrega.

Firme, à lei iníqua, a razão recusa:

Só é justo quem à injusta lei se nega.



Segundo de três trípticos de "Epigramas",
por Jeremias Cabrita da Silva, in "Ars Poetica et Rebellis"
(Edições Cravo & Ferradura, 2027)

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quarta-feira, novembro 19, 2025

Epigramas da Pedra. Imagem gerada por inteligência artificial (Sora) a partir do tríptico homónimo de Jeremias Cabrita da Silva.

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Epigramas da Pedra

 

✧

Epigrama da Palavra Original


O golpe do cinzel talha o verbo inteiro

e o nome na pedra pare o ser primeiro



✧

Epigrama da Verdade Essencial


A verdade que acende o justo fala

quando em redor o mundo, inerme, cala



✧

Epigrama do Veio Primordial


O primeiro passo abre o veio primordial;

a pedra inaugural guarda inteira a catedral





Primeiro de três trípticos de "Epigramas",
por Jeremias Cabrita da Silva, in "Ars Poetica et Rebellis"
(Edições Cravo & Ferradura, 2027)

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domingo, agosto 10, 2025

Ciclo de Haikus para Donald Trump

O Berço Dourado

Chave no berço,
a porta estava aberta —
mundo comprado.

*

O Magnata de Estuque
(tríptico)

Torre de papel,
alicerces de chantagem —
a lei calou-se.

Fachada dourada
com mijo de sem-abrigo –
comprada a saldo.

Estala o verniz —
dos andaimes da mentira
pendem tribunais.

*

Jackpot de Mentiras
(tríptico)

Trump dá as cartas –
oito falências depois,
Mar-a-Lago ri.

Fachada de néon,
bluff como trave mestra –
ouro ferrugento.

Payout da fraude,
o saque dorme em offshores –
blackout na torre.

*

Carne de Troca
(tríptico)

Chuva dourada
sobre a cama do czar –
no dossier Steele.

Stormy calou-se –
cento e trinta mil notas
goela abaixo.

Mão nos genitais –
McDougal, Maxwell, Epstein,
pactos impunes.

*

Fogo Amigo

Bala de fumo –
a orelha por um reino
de fogo eterno.

Jeremias Cabrita da Silva in "Ars Poetica et Rebellis"
(Edições Cravo & Ferradura, 2027)

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quarta-feira, abril 25, 2012

25 de Abril - Um Olhar Para a Memória, 30 anos depois



"A revolução, se quiser resistir, deve permanecer revolução. Se se transforma em governo, já está falida... Os lugares que deixaram de ter uma revolução permanente recuperaram a tirania."

in "Aprire il Fuoco", L. Bianciardi (1922-1971)

Oito anos depois chega à Web o documentário fotográfico em filme que realizei em 2004 a propósito do trigésimo aniversário do 25 de Abril de 1974, quando pensava ter perdido definitivamente o seu registo, produzido no âmbito dos trabalhos da cadeira de Fotojornalismo, curso de Comunicação Social da Universidade Autónoma de Lisboa (UAL), leccionada por Luiz Carvalho.
Reencontrei uma cópia do original há dias, durante arrumações, e finalmente pude salvar a empreitada a que me dei, contando com a dádiva genial e incansável do excelente fotógrafo e jornalista Tiago Valente, meu prezado amigo cujo rasto perdi há uma mão cheia de anos, no seu regresso de Roma. É de elementar justiça referir que o Tiago fez a maior parte das fotos que posteriormente seleccionei para a composição narrativa.
Sem pregar olho nessa noite, eu e o Tiago encontrámo-nos para fotografar, 30 anos depois, in loco, desde a alta madrugada, o ponto de chegada de Salgueiro Maia a Lisboa, à hora exacta, até final do dia, calcorreados entretanto os caminhos e os palcos fulcrais, replicados, de um golpe de Estado absorvido, como que por osmose, por uma revolução dos cravos nascida da natureza da participação popular verificada. O trabalho foi misturado nos estúdios da UAL por Ricardo Sant'Ana e Hugo Simões a contra-relógio, com Carlos Paredes como pano de fundo. Adverte-se que, num olhar prismático, o 25 de Abril de 2004 pode eventualmente parecer tão ou mais longínquo do que o outro, de 74.
Mais uma vez, concluo levando de empréstimo uma frase de Zeca Afonso e, por fim, um poema do Grande Mestre Jorge de Sena. "Para se ser cidadão era necessário mais alguma coisa do que meter um voto numa urna."


"NÃO, NÃO, NÃO SUBSCREVO,..."

(JORGE DE SENA)

Não, não, não subscrevo, não assino
que a pouco e pouco tudo volte ao de antes,
como se golpes, contra-golpes, intentonas
(ou inventonas - armadilhas postas
da esquerda prá direita ou desta para aquela)
não fossem mais que preparar caminho
a parlamentos e governos que
irão secretamente pôr ramos de cravos
e não de rosas fatimosas mas de cravos
na tumba do profeta em Santa Comba,
enquanto pra salvar-se a inconomia
os empresários (ai que lindo termo,
com tudo o que de teatro nele soa)
irão voltar testas de ferro do
capitalismo que se usou de Portugal
para mão-de-obra barata dentro ou fora.
Tiveram todos culpa no chegar-se a isto:
infantilmente doentes de esquerdismo
e como sempre lendo nas cartilhas
que escritas fedem doutras realidades,
incompetentes competiram em
forçar revoluções, tomar poderes e tudo
numa ânsia de cadeiras, microfones,
a terra do vizinho, a casa dos ausentes,
e em moer do povo a paciência e os olhos
num exibir-se de redondas mesas
em televisas barbas de falácia imensa.
E todos eram povo e em nome del' falavam,
ou escreviam intragáveis prosas
em que o calão barato e as ideias caras
se misturavam sem clareza alguma
(no fim das contas estilo Estado Novo
apenas traduzido num calão de insulto
ao gosto e à inteligência dos ouvintes-povo).
Prendeu-se gente a todos os pretextos,
conforme o vento, a raiva ou a denúncia,
ou simplesmente (ó manes de outro tempo)
o abocanhar patriótico dos tachos.
Paralisou-se a vida do país no engano
de que os trabalhadores não devem trabalhar
senão em agitar-se em demandar salários
a que tinham direito mas sem que
houvesse produção com que pagá-los.
Até que um dia, à beira de uma guerra
civil (palavra cómica pois que do lume os militares seriam quem tirava
para os civis a castanhinha assada),
tudo sumiu num aborto caricato
em que quase sem sangue ou risco de infecção
parteiras clandestinas apararam
no balde da cozinha um feto inexistente:
traindo-se uns aos outros ninguém tinha
(ó machos da porrada e do cacete)
realmente posto o membro na barriga
da pátria em perna aberta e lá deixado
semente que pegasse (o tempo todo
haviam-se exibido eufóricos de nus,
às Africas e às Europas de Oeste e Leste).
A isto se chegou. Foi criminoso?
Nem sequer isso, ou mais do que isso um guião
do filme que as direitas desejavam,
em que como num jogo de xadrez a esquerda
iria dando passo a passo as peças todas.
É tarde e não adianta que se diga ainda
(como antes já se disse) que o povo resistiu
a ser iluminado, esclarecido, e feito
a enfiar contente a roupa já talhada.
Se muita gente reagiu violenta
(com as direitas assoprando as brasas)
é porque as lutas intestinas (termo
extremamente adequado ao caso)
dos esquerdismos competindo o permitiram.
Também não vale a pena que se lave
a roupa suja em público: já houve
suficiente lavar que todavia
(curioso ponto) nunca mostrou inteira
quanta camisa à Salazar ou cueca de Caetano
usada foi por tanto entusiasta,
devotamente adepto de continuar ao sol
(há conversões honestas, sim, ai quantos santos
não foram antes grandes pecadores).
E que fazer agora? Choro e lágrimas?
Meter avestruzmente a cabeça na areia?
Pactuar na supremíssima conversa
de conciliar a casa lusitana,
com todos aos beijinhos e aos abraços?
Ir ao jantar de gala em que o Caetano,
o Spínola, o Vasco, o Otelo e os outros,
hão-de tocar seus copos de champanhe?
Ir já fazendo a mala para exílios?
Ou preparar uma bagagem mínima
para voltar a ser-se clandestino usando
a técnica do mártir (tão trágica porque
permite a demissão de agir-se à luz do mundo,
e de intervir directamente em tudo)?
Mas como é clandestina tanta gente
que toda a gente sabe quem já seja?
Só há uma saída: a confissão
(honesta ou calculada) de que erraram todos,
e o esforço de mostrar ao povo (que
mais assustaram que educaram sempre)
quão tudo perde se vos perde a vós.
Revolução havia que fazer.
Conquistas há que não pode deixar-se
que se dissolvam no ar tecnocrata do oportunismo à espreita de eleições.
Pode bem ser que a esquerda ainda as ganhe,
ou pode ser que as perca. Em qualquer caso,
que ao povo seja dito de uma vez
como nas suas mãos o seu destino está
e não no das sereias bem cantantes
(desde a mais alta antiguidade é conhecido
que essas senhoras são reaccionárias,
com profissão de atrair ao naufrágio o navegante intrépido).
Que a esquerda nem grite, que está rouca, nem invente
as serenatas para que não tem jeito.
Mas firme avance, e reate os laços rotos
entre ela mesma e o povo (que não é
aqueles milhares de fiéis que se transportam
de camioneta de um lugar pró outro).
Democracia é isso: uma arte do diálogo
mesmo entre surdos. Socialismo à força
em que a democracia se realiza.
Há muito socialismo: a gente sabe,
e quem mais goste de uns que dos outros.
É tarde já para tratar do caso: agora
importa uma só coisa - defender
uma revolução que ainda não houve,
como as conquistas que chegou a haver
(mas ajustando-as francamente à lei
de uma equidade justa, rechaçando
o quanto de loucuras se incitaram
em nome de um poder que ninguém tinha)
E vamos ao que importa: refazer
um Portugal possível em que o povo
realmente mande sem que o só manejem,
e sem que a escravidão volte à socapa
entre a delícia de pagar uma hipoteca
da casa nunca nossa e o prazer
de ter um frigorifico e automóveis dois.
Ah, povo, povo, quanto te enganaram
sonhando os sonhos que desaprenderas!
E quanto te assustaram uns e outros,
com esses sonhos e com o medo deles!
E vós, políticos de ouro de lei ou borra,
guardai no bolso imagens de outras Franças,
ou de Germânias, Rússias, Cubas, outras Chinas,
ou de Estados Unidos que não crêem
que latinada hispânica mereça
mais que caudilhos com contas na Suíça.
Tomai nas vossas mãos o Portugal que tendes
tão dividido entre si mesmo. Adiante.
Com tacto e com firmeza. E com esperança.
E com um perdão que há que pedir ao povo.
E vós, ó militares, para o quartel
(sem que, no entanto, vos deixeis purgar
ao ponto de não serdes o que deveis ser:
garantes de uma ordem democrática
em que a direita não consiga nunca
ditar uma ordem sem democracia).
E tu, canção-mensagem, vai e diz
o que disseste a quem quiser ouvir-te.
E se os puristas da poesia te acusarem
de seres discursiva e não galante
em graças de invenção e de linguagem,
manda-os àquela parte.
Não é tempo para tratar de poéticas agora.


Santa Bárbara, Fevereiro de 1976
(aniversário de uma tentativa heróica de conter uma noite que duraria décadas)
(de Quarenta Anos de Servidão, 1979)

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terça-feira, outubro 18, 2011

O meu 15 de Outubro de 2011 em Lisboa / My 15th of October 2011 in Lisbon

sexta-feira, março 25, 2011

Portugal Agora

Segundo dados de um estudo recente da Eurosondagem, 77% dos portugueses não se revê nos actuais partidos políticos nem acredita na política partidária. 73% de entre estes cépticos considera que a política partidária se move por interesses particulares e não por interesses nacionais, e 80% entende que deveria ser possível a candidatura de independentes nas legislativas.
Nas eleições presidenciais de 2011 a abstenção atingiu o valor recorde de 53,48% e nas legislativas de 2009 chegou aos 40,26%. Em paralelo, Portugal soma cerca de 668 mil desempregados, contando quem não se deslocou aos centros de emprego para inquérito e que, por isso, foi catalogado como inactivo. É este o número que melhor mede as consequências sociais da crise económica e financeira em Portugal.
200 mil dos desempregados têm menos de 34 anos - um terço dos quais licenciados, segundo números oficiais. 1,5 milhão está em situação precária ou intermitente, sem protecção social e em situação de precariedade. 500 euros é o ordenado médio desta geração, independentemente do mérito, da experiência ou das habilitações académicas. Mas a precariedade é transversal a várias gerações. Entre os mais velhos, um processo de desemprego significa ser novo demais para deixar o emprego e velho demais para voltar ao circuito do mercado de trabalho. Contudo, o problema não passa apenas pela falta de emprego, mas pela exploração determinada da força de trabalho; dos trabalhadores.
Cada vez menos os portugueses se revêem no actual modelo político, assente nos partidos e nos políticos de carreira - um modelo caduco com mais de 200 anos, herdado da revolução francesa. A representatividade está em risco e a desesperança no futuro angustia as pessoas tanto ou mais do que as dificuldades quotidianas e tangíveis que hoje atravessam. A contaminação desta falta de fé, juntamente com o desemprego em massa e a precariedade, alimentam mais o medo do que a vontade de lutar.
O sentimento generalizado de que o sistema político vigente está falido ganha consubstanciação entre a população, que não se revê nem nos governantes nem na oposição. O voto perde significado e a classe política apresenta-se muitas vezes desligada da realidade do crescente eleitorado descontente. Nisto, a Segunda República Portuguesa continua a apresentar, em 37 anos, os mesmos intervenientes políticos desde o 25 de Abril de 1974, num País estrangulado numa geração – a melhor preparada de sempre - sem perspectivas de mobilidade social, de ascensão de carreira, de melhoria salarial e sequer de emprego.
A gestão do ensino e da formação são movidos por interesses descontextualizados do mercado de trabalho. Muitas empresas vivem dos estagiários, sem intenção de contratar, e o Estado não dá o exemplo. Uma sociedade que desperdiça a sua geração qualificada em troca de ganhos a curto prazo põe em causa o futuro, mas é neste viciado e difícil contexto que grassa também, entre a dita geração, a indignação e uma nova vaga de intervencionismo político com prioridades opostas - por vezes antagónicas - àquelas que vêm sendo aplicadas. Com uma agenda fracturante quanto às políticas levadas a cabo no passado, constata-se, País fora, uma nova tomada de consciência: já não basta ao povo estar desperto e discutir as soluções que outros formulam para os seus problemas – há que partir da sociedade civil para o combate político, sob a forma de movimentos cívicos organizados local e regionalmente.
É por isso que nós, cidadãos que lutam por um Portugal honesto, justo e mais participativo, percebendo não haver alternativa senão intervir politicamente, da e para a sociedade civil, das e pelas pessoas, e renunciando a interesses outros que não os da população, nos devemos propor jogar o jogo político, ganhá-lo e então mudá-lo. Por dentro.

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